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Full text of "Estudos sobre o romanceiro peninsular, romances velhos em Portugal"

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PRESENTED  TO 

THE    LIBRARY 

BY 

PROFESSOR  MILTON  A.  BUCHANAN 

OF  THE 

DEPARTMENT  OF  ITALIAN  AND  SPANISH 

1906-1946 


CAROLINA  MICHAELIS  DE  VASCONCELLOS 


ESTUDOS 


SOBRE  0  ROMANCEIRO  PENINSULAR 


ROMANCES  VELHOS  EM  PORTUGAL 


^ÍP^ 


**>* 


Publicados  en  la  Revista 

■  CULTURA    ESP.A.£TOI_iA» 

MADRID,  1907-1909 


tTmprenta  Ibérica.  <le  Kstanislao  Maestro.  Posas,  12,  Madrid. 


Aos 

FUTUROS    E    DEFINITIVOS   APURADORES 

DO 

ROMANCEIRO  GERAL  HISPANO-PORTUGUÊS 

RAMÓN   MENÉNDEZ   PIDAL 
MARIA  GOYRI   DE   MENÉNDEZ  PIDAL 

E 

JOSÉ   LEITE   DE   VASCONCELLOS 


ADVERTÊNCIA   PRELIMINAR 


No  meu  Escorço  de  Literatura  Portuguesa  (em  Groèber'i 

Grundriss  IIb  ),  escrito  ha  quasi  vinte  anos,  tratei  naturalmen- 
te dos  romances  tradicionaes  d'este  país.  O  parágrafo  inteiro 
(§  21),  mas  sobretudo  certa  Nota,  relativa  a  uns  sessenta  tre- 
chos de  romances  velhos,  citados  em  castelhano  em  obras  li- 
terárias portuguesas  do  século  xvi,  mio  passou  despercebida 
ao  ilustre  letrado  que,  depois  de  haver  lançado  luz  intensa — 
em  estudos  relativos  aos  Infantes  de  Lara,  Mio  Cid,  Fernan 
Gonzalez,  o  Abade  de  Montemor — sobre  a  poesia  épica  na  Pe- 
nínsula, passou  a  preparar  nova  colecção  de  Romnnces  primi- 
tivos . 

Na  primavera  de  1907  manifestou-me  o  desejo  de  conhecer 
aqueles  trechos,  e  franqueou-me  para  o  respectivo  artigo  as 
páginas  da  Cultura  Espafiola,  revista  em  que  acabara  de  pu- 
blicar o  importante  Catálogo  dei  romancero  judio-espaflol. 

Accedi  de  boa  vontade,  calculando  que  em  poucas  folhas 
caberiam  as  minhas  observações,  bem  desenvolvidas.  Engano 
grosso.  Em  Maio  remetia  ao  meu  excelente  amigo  a  Parte 
principal,  precedida  de  breve  Introdução,  em  que  julguei  de- 
ver resumir  as  ideias  hoje  prevalecentes  sobre  o  assunto:  ao 
todo  cento  e  vinte  páginas.  A  impressão  foi  morosa  e  mesmo 
interrompida— estendendo-se  de  1907  a  1909  pelos  Nums.  VII 
a  XV. — Por  isso  tive  de  acrescentar  Notas  complementares, 
antes  de  tirar  conclusões  finaes. 

O  mérito  de  haver  suscitado  a  palestra  pertence  pois  a 
D.  Ramón  Menéndez  Pidal.  A  culpa  de  haver  enfadado  com 
excessivas  minuciosidades  é  minha,  exclusivamente. 

Pedindo  perdão,  consolo-me,  pensando  com  Séneca,  que 
Doando  discirnas.  E  também:  Quis  leget  haec/  melancolica- 
mente, como  outro  filósofo  romano. 

Carolina  Michaelis  de  Vasconcellos. 

Torto.  Dezembro  de  T.)0í). 


I2STDIOH3 


Pàg*. 

Dedicatória.  ih 
Advertência  v 
I  Introdução.  5 
II  Referenciais  a  Romances  Velhos  em  obras  de  autores  por- 
tugueses. 25 

A  Romances  relativos  á  história  e  á  tradição  histórica 
de  Hespanha: 

I  El  Rei  Rodrigo  (1).  25 

II  Bernardo  do  Cárpio  (2).  31 

III  Fernão  Gonzâlez  (3-5).  35 

IV  Infantes  de  Lara  (6  7).  39 
V  Cid  Ruy  Diaz  de  Vivar  (8-27).  1 1 

B  Outros  romances  históricos: 

VI  Inês  de  Castro  (28-29).  66 

VII  Alfonso  V  de  Aragão  (30).  71 

C  Romances  fronteiriços  e  mouriscos: 

VIII  Caballeros  de  Moclin  (31-32).  76 

IX  Moro  Alcaide  (33).  77 

X  Rei  Chico  de  Granada  (34).  7!» 

XI  Mestre  de  Calatrava  (35-36).  80 

XII  Moriscote  (37).  81 

XIII  Mis  arreos  son  las  armas  (38-39)  81 

D  Romances  de  Cautivos  e  Forçados: 

XIV  Moriana  e  Galvan  (40).  !H 
XV  Zaide(41).  <jl 

XVI  Mi  padre  era  de  Ronda  (42).  92 

XVII  Dragut  (43).  93 


ÍNDICE 


Paga. 


E  Romances  do  ciclo  carolíngio: 

XVILI  Roncesvales.— Guarinos. — D.  Beltrão 

(44-51).  94 

XIX  D.  Alda  (52).  101 

XX  Gaiferos  (53-57).  102 

XXI  Valdevinos  (58).  10!) 

XXII  Marques  de  Mantua  (50  60).  111 

XXIII  Oalainos  (61-63).  115 

XXIV  Montesinos  (64-65).  117 
XXV  Durandarte  e  Belerma  (66-67).  118 

XXVI  Conde  Claros  (68-71).  125 

F  Romances  do  ciclo  bretónico  e  de  livros  de  cava- 
larias: 

XX Vil  Lançarote  (72).  133 

XXVIII  D.  Duardos  e  Flerida  (73-76).  133 

G  Romances  de  assunto  clássico  e  bíblico: 

XXIX  Hero  e  Leandro  (77).  155 

XXX  Troya  (78).  155 

XXXI  Nero  (79-80).  156 

XXXII  David  (80  h  e  •).  160 

H  Romances  novelescos: 

XXXIII  Conde  Alarcos  (81).  161 

XXXIV  Silvana  (82).  163 
XXXV  Infantinha  (83).  165 

XXXVI  Donzela- varão  (84).  167 

XXXVII   Tiempo  es,  el  caballero  (85).  169 

I  Romances  líricos: 

XXXVIII  O  desastrado  (86-87).  170 

XXXIX  A  Rola-viuva  (88-89).  173 

XL  O  Prisioneiro  (90).  177 

XLI  Maldita  seas  ventura  (91).  181 

XLII  Ptacer  no  sabe  de  mi  (92-94).  183 

XUI1  Tiempô  bueno,  tiempo  buenofâô).  183 

XLIV  La  bétta  vial-ma  vidada  (96).  188 

J  Romances  em  versos  pareadosí 

XLV  Maldiyões  de  Salaya  (97).  199 


ÍNDICE 


Págs. 


K  Romances  não  identificados: 

XLV1  Os  Xaboneros  (98-100).  201 
XLVII  Varias  citações,  contidas   em  Cartas 

(101-108).  203 
XLVIII  Outras,  tiradas  de  dramas  portugue- 
ses (109-114).  205 
XLIX  Yo  le  daria,  bel  conde  (115).  206 
L  Diversos,   em  redacção  castelhana 

(116-118).  207 
LI  Diversos,  em  redacção  portuguesa 

(119  12 IV  208 

III  Notas  e  observações  complementares.  211 

Referências  a  romances  em  geral  (122-127).  220 

Romances  artísticos  de  autores  portugueses  (128  129).  228 

D.  João  Manuel  (130).  234 

D.  João  de  Meneses  (131-132).  240 
Autores  das  citações  registadas  nas  Partes  II  e  III: 

Nuno  Pereira  (133).  249 

Jorge  da  Silveira  (134).  252 

João  da  Silveira  (136)  253 

Pêro  Moniz  (137).  254 

Garcia  d' Albuquerque  (137).  254 

D.  João  de  Sousa  e  Ruy  de  Sousa  (138).  254 

Pedro  Homem  (139).  255 

Fernão  da  Silveira  (140).  256 

D.  Pedro  de  Almeida  (141).  257 

D.  João  Rodríguez  de  Sá  e  Meneses  (142).  258 

Garcia  de  Resende  (143).  259 

Gregório  Alfonso  (144).  260 

Bernardim  Ribeiro  (145).  261 

Cristo vam  Falcão  (146).  265 

Gil  Vicente  (147).  270 

Jorge  Ferreira  de  Vasconcellos  (148).  271 

Baltasar  Diaz  (149).  275 

Alguns  Seiscentistas  (150-151).  277 

Trovas  de  escárnio  e  maldizer  (152).  281 

IV  Becapitulação  e  Conclusões.  285 

Estatística  (153-157  .  285 

Cronologia  (158-169).  291 

Vias  de  transmissão  (170-171).  305 


4  ÍNDICE 

Vkgfi. 

O  Problema  musical  (172).  306 

O  Problema  linguistico  (173).  318 

O  castelhano,  linguagem  épica  dos  Peninsulares  (174-17!)).  ML'l 

Índice  dos  versos  de  romances.  :;:>7 

Índice  alfabético  dos  romances  citados.  341 

índice  de  nomes  e  coisas.  351 

Erratas  essenciaes.  365 


=5^2= 


Estudos  sobre  o  Romanceiro  peninsular 


(i) 


Romances  velhos  em  Portugal. 
I 

lXTKODUeãO 

E  colhendo  da  tradição  oral  as  composições  narrativas  em 
octonários  (ou  senáriosi  duplos,  assonantados,  que  ainda  hoje 
se  cantara,  mais  como  acompanhamento  de  fainas  agrícolas 
do  que  no  ócio  dos  dias  santos  e  de  festa,  nas  diversas  terras 
onde  se  fala  a  suave  língua  de  Camões,  que  os  Portugueses 
continuam  a  colaborar  na  reconstrução  definitiva  do  admirá- 
vel Romanceiro  Hispânico, 

Falta  todavia  uma  coisa  para  lazer  frutificar  este  labor: 
•  i  solidariedade  indispensável  com  os  eruditos  que  em  Hes 
panha  estáo  trabalhando  na  magna  empresa,  com  suma  perí- 
cia e  grande  felicidade,  bom  método  scientítiro  e  critério  ele- 
vado e  sagaz.  Os  progressos  surprendentes  (pie  além  das 
fronteiras  se  fizeram,  no  último  decénio,  neste,  ramo  de  estu- 
dos, passaram  quasi  despercebidos  (2)entre  noa    queixa  a  que 


(i)  Com  o  mesmo  título  publiquei,  ha  tempos,  um  ensaio  na  Revista  Lusitana 
(Vol.  II,  1890),  bipartido.  Outro,  também  duplo,  em  alemão  (Rotnanzenstudicn) 
apareceu  na  Zeitschrift fúr  Romanische  Philologie  (Vol.  XVI,  1891). 

(2)  Claro  está  que  T.  Braga  não  desconhece  a  obra  de  Milá  y  Fontanals, 
nem  a  de  Menéndez  y  Pelnyo  e  dos  irmãos  Menéndez  Pidal  (I).  Ramón  e  1».  Juan), 
nem  tao  pouco  os  trabalhos  de  Caston  Paris  c  Alfr.  Jeanroy.  Mas,  acostumado 
a  caminhar  só,  sem  dar  ouvidos  á  critica,  não  lhes  liga  a  importância  devida  nem 
abandona  o  seu  ponto  de  vista,  estrictainente  português.  Acolhe,  factos  inne- 
gáveis;  regeita,  porém,  as  consequências,  sempre  que  elas  suo  contrárias  ás 
próprias  ideias. 


CAROLINA  MICHAÈL18  DE   VA8CONCELL08 


03  Portugueses  podiam,  infelizmente,  replicar,  dizendo  que 
também  os  escritores  castelhanos  não  estão  ao  facto  de  tudo 
quanto  aqui  se  passa  (1). 

As  obras  principaes  em  que  os  iniciadores  do  movimento 
folklórico  em  Portugal  e  seus  sucessores  imediatos  reuniram 
de  1851  a  1883  as  relíquias  preciosas  de  um  passado  longín- 
quo, ora  com  profundo  sentimento  artístico,  sanando  arbitra- 
riamente defeitos  de  memoria,  ora  recolhendo  com  rigorosa 
fidelidade  sem  pestanejar  textos  lastimosamente  deturpados 
durante  a  transmissão  secular,  sem  o  dispêndio  suficiente  de 
esforços  pertinazes  para  encontrar  um  relator  mais  bem  do- 
tado— os  Romanceiros  portanto  de  Aimeida-Garrett,  Teófilo 
Braga,  Estácio  da  Veiga,  Victor  Hardung,  Rodríguez  de 
Azevedo,  Sílvio  Romero,  foram  aproveitados  modernamente 
com  generoso  carinho  pelo  sapientíssimo  reeditor  da  Prima- 
vera y  Flor  de  Romances  (2),  tanto  nos  Apêndices  com  que 
augmentou  consideravelmente  a  colecção  fundamental  de 
Wolf,  como  no  Tratado  magistral  que  lhe  serve  de  comen- 
tário (3). 

O  genial  continuador  da  obra  crítica  de  Milá  y  Fontanals 
não  recorreu  comtudo  aos  materiaes  que,  de  1883  em  diante, 
foram  acumulados  em  cancioneiros  musicaes  (4)  e  em  revis- 


(i)  No  8ustancial  Tomo  I  da  nova  Biblioteca  de  Autores  Espanoles.'  Origenes 
de  la  Novela  (Madrid,  1905)  notei  com  pesar,  a  insuficiência  das  relações  entre  os 
letrados  portugueses  e  05  castelhanos.  Seria  bom,  que  a  Cultura  EspaSola 
sanasse  o  mal,  anunciando  e  extractando  publicações  portuguesas ,  dignas  de 
atenção. 

(2)  F.  \Volf  já  dera,  de  resto,  a  devida  atenção  aos  textos  de  Aimeida-Garrett, 
tanto  na  Primavera  como  nas  Proben  portugiesischer  und  catalanischer  Volksro- 
manttn  (Wien  1856). 

(3)  A  edição  de  Wolf  (Berlin,  1856)  constava  de  dois  volumes  (I  de  357  pá- 
ginas, II  de  432).  Não  posso  verificar  se  a  data  é  1856  (como  creio)  ou  1850. 
A  de  Menéndez  y  Pelayo  consta  de  cinco  volumes:  três  de  textos,  e  os  últimos  dois, 
do  Tratado  de  los  Romances  viejos  (Antologia  de  Poetas  Líricos  Castellanos  voll. 
VIII- XII,  Madrid  1899- 1906).  No  volume  III,  composto  de  um  suplemento  de  Ro- 
mances Populares  recoçidos  de  la  Tradición  Oral,  e  no  Tratado  ha  referências  cons- 
tantes ás  Colecções  dos  autores  portugueses  nomeados  no  texto,  e  a  mais  um 
(F.  A.  Coelho)  que  publicou  vários  romances  na  Romania  (II)  e  na  Zeitschrift  (III). 

(4)  V.  Cancioneiro  de  Músicas  Populares,  publicado  por  Gualdino  de  Campos  e 
César  das  Neves.  (Porto,  1891-1896). 


ROMANCES   VELHOS 


tas  folklóricas,  literárias,  e  filológicas  (1),  ou  já  agrupados  em 
colecções  restrictas,  mas  independentes  (2). 

Esta  lacuna  será,  por  certo,  preenchida  pelo  seu  conti- 
nuador D.  Ramón  Menéndez  Pidal,  o  futuro  reconstructor  e 
historiador  do  Romanceiro  Geral  Hispânico,  isto  é:  de  todos  os 
textos,  verdadeiramente  antigos  e  dos  tradicionaes  sobrevi- 
ventes que  d'eles  derivam,  em  tição  castelhana,  portuguesa, 
catalã,  ou  híbrida,  quer  no  continente  ou  nas  ilhas  oceânicas 
e  mediterrâneas,  quer  além-mar,  nas  terras  descobertas,  con- 
quistadas e  povoadas  por  Hespanhoes  e  Portugueses,  quer 
entre  os  Judeus  de  Levante  e  de  Marrocos,  expulsos  da  Pe- 
nínsula na  época  da  maior  eflorescência  dos  romances. 

Verdade  é  que  temas  velhos  e  profanos,  ainda  náo  repre- 
sentados na  tradição  oral,  náo  sáo  frequentes  nos  aludidos 
materiaes  suplementares  (3). 

< )  apregoado  sabor  arcaico,  e  aquela  pureza  genuína  que 
a  princípio  surprendia  e  encantava  os  apreciadores  estran- 
geiros, iludidos  pelos  romances  que  Almeida  Garrett  havia  re- 


(i)  Retiro-me  aos  volumes  da  Romaniá  e  da  Zatschrift  posteriores  a  1883;  mas 
especialmente  a  publicações  inteiramente  portuguesas  como  a  Revista  Lusitana 
lincyclopédia  Republicana,  Revista  de  (,'uimarães,  Revista  do  Minho,  Trádiçúo 
Portugália,  mas  também  á  Revue  Ilispaniqne.  Bastará  nomear  como  contribuintes 
T.  Braga,  F.  A.  Coelho,  Consiglieri-Pedroso,  Leite  de  Vasconcellos,  Reis  Dâ- 
maso, Tomas  Pires,  Pedro  Fernández  Thomaz,  C.  M.  de  Vasconcellos,  [.  J.  Nunes  , 
Athaide  d'01iveira,  Abade  J.  A.  Tavares. 

(2)  Temos  p.  ex.  o  Romanceiro  Portuguez  de  Leite  de  Vasconcellos  (1886.  No< 
121  da  Rildiotheca  do  Povo)  com  43  composições;  e  o  Romanceiro  e  Cancioneiro  d« 
Algarve (Lição  de  Loulé)  de  Athaide  d'01iveira  (Porto  1905)  com  trinta  romances 
em  versão  nova  (na  Parte  I).  O  importante  Romanceiro  do  Uemtejo  àn  Tomas  Pi- 
res por  01a  não  saiu  em  volume. — Em  breve  teremos  ainda  um  pequeno  mas  va- 
lioso Romanceiro  de  Bragança,  coleccionado  por  José  Daniel  Rodríguez,  que  a 
meu  ver,  se  compõe  de  decalcos  bastante  Heis,  embora  abreviados,  de  textos  as- 
turianos, talvez  de  introdução  recente,  a  não  ser  que  no  Romanceiro  da  Uali:a  de 
Victor  Said  Armesto,  também  anunciado,  se  encontrem  limões  ainda  mais  intima- 
mente relacionadas  com  os  de  cá. 

(3)     Entre  os  de  Bragança  c  os  que  o  Abade  José  Augusto  Tavares  colheu  em 
Maçores,  Ligares,  Vinhacs  e  outro3  lugarejos  transmontanos  (Rev.  Luí.   VIU 
diversos  de  que  ainda  não  se  conheciam  representantes  portugueses,  p.  ex.o  dfl 
rrana  de  la  Vera,  Entre  os  açorianos,  o  de   Floresvento,  descoberto  também   eru 
Tras-os  Montes  por  Leite  de  Vasconcellos,  com  o  titulo  de  Cruehuuto  (o  qual  con- 


CAROLINA  MICHAÈLIS  DE    VASCONCELLOS 


tocado  com  gosto  tão  delicado,  deixaram  também  de  ser  o  ca- 
racterístico real  e  privativo  dos  romances  de  cá:  tantas  b&o 
versões  e  variantes  incompletas  e  rebaixadas,  descone 
e  deturpadas,  quanto  á  forma  e  á  essência;  tantas  e  de  tal 
ordem  são  os  vulgarismos  modernos  que  se  infiltraram  nos 
textos;  tal  é  também  a  contaminação  e  fusão  com  assuntos 
análogos.  Tão  perfeitas  e  abundantes  são,  pelo  outro  lado,  as 
versões  castelhanas,  recolhidas  recentemente  com  arte  e  ha- 
bilidade digna  de  aplauso,  em  regiões  onde  ninguém  as  suspei- 
tava, em  parte  já  publicadas  integralmente  (1),  em  parte  só 
catalogadas  (2),  em  parte  prometidas  para  breve  (3), 

Mas  ainda  assim,  os  textos  suplementares  de  Portugal  são 
contribuições  de  grande  valor,  pois  constituem  mais  de  uma 
vez  o  laço,  procurado  de  balde,  entre  diversas  redacções  do 
mesmo  romance,  e  demonstram  frequentemente  ad  óculos 
como  é  que  a  gente-povo  deteriora  e  vulgariza  verdadeiras 


sidero  como  descendente  legítimo  de  Chlodovinc),  ainda  nào  surgiu  nos  territórios 
castelhanos — que  eu  saiba. — Talvez  baste  esta  lembrança  para  ser  descoberto 
e  acrescentado  á  lista  dos  Romances  que  cUben  buicarse  en  la  Tradición  Oral, 
elaborada  com  fins  prácticos  por  D.a  Maria  Goyri  de  Menéndez  Pidal  (Madrid,  1907, 
na  Revista  de  Archivos).  —  Os  romances  sacros  ainda  não  estão  bem  estu- 
dados. 

(1)  Refiro-me  á  bela  Colecciôn  de  los  Viejos  Romances  que  se  canta n  por  los 
.  Isturianos  en  la  Danza-Prima,  Esfoyazas  y  Eilandones,  recogidos  directamente  de 
boca  delpueblo,  anotados  y  precedidos  de  un  Prólogo,  por  Juan  Menéndez  Pidal  (Ma- 
drid, 1885).  Ela  entrou  já,  quasi  inteira,  nos  Suplementos  da  Primavera. 

(2)  Vid.  i.°  Ramón  Menéndez  Pidal,  Catálogo  dei  Romancero  Judío-Espanol 
(Madrid,  1907),  publicado  nesta  Revista.  Os  textos,  coleccionados  com  esmerado 
bom-gosto  por  José  Benoliel,  são  de  importância  excepcional,  tanto  pelo  seu 
grande  número  (143  romances  diversos)  como  pelos  assuntos,  c  em  grande  parte, 
pelo  seu  estado  de  conservação.  —2. °  Romances  da  América  do  Sul,  colhidos  por 
K.  Menéndez  Pidal,  e  impressos  no  No.  I  da  Cultura  Espanola. — 3.0  Narciso 
Alonso  A.  Cortes,  Romances  populares  de  Castilla  (Valladolid,  1906),  93  composi- 
ções, só  das  províncias  de  Burgos  e  Palencia. 

(3)  Além  do  Romanceiro  da  Galiza,  mencionado  a  p.  769,  nota  2,  temos  de 
contar  com  mais  um  Romancero  de  Castela  da  gentil  esposa  de  D.  Ramón,  a  qual 
ja  deu  provas  do  afinco  e  do  excelente  método  com  que  trabalha  neste  campo,  nas 
Rtgrat  a  que  aludi,  assim  como  em  amostras  publicadas  no  Bulletin  Hispanique 
(Tomo  VI,  1904). —P.  S.  do  redactor:  No  publicará  romancero  especial  de  Cas- 
tilla, sino  que  ambos  seremos  coautores  dei  Romancero  general  espanol. 


ROMANCES    VELHOS 


obras  de  arte,  sempre  que  imo  haja  circunstâncias  peculiares 
(|tie  as  preservem  do  estrago  (1). 

Dentro  em  breve  será,  comtudo,  fácil  para  os  estrangei- 
ros, estudá-los  comparativamente,  visto  que  Teófilo  Braga 
acolhe  todas  as  lições  até  hoje  impressas,  e  mais  algumas  iné- 
ditas, na  nova  edição  do  seu  Romanceiro  Geral  Portugue 
(duas  vezes  maior  que  a  primeira).  Um  volume  (2)  já  saiu. 
Bom  seria  que  todos  os  folkloristas  aproveitassem  este  ensejo 
para  revistar  os  seus  cadernos,  e  imprimissem  as  parcelas  que 
ainda  sáo  novidade  (3),  se  p.  ex.  o  Sr.  José  Daniel  Rodríguez 
náo  tardasse  em  tornar  público  os  romances  brigantinos  que 
teve  a  bondade  de  me  mandar  mostrar,  ha  pouco  (4),  e  se  em 
regiões  ainda  mal  exploradas  se  procedesse  a  investigações 
metódicas,  para  de  vez  se  esgotar  o  assunto. 


Xáo  é  de  romances  tradieionaes,  tornados  portugueses  por 
direito  de  conquista,  e  por  ora  desatendidos  em  Castela,  que 


(i)  Entre  os  romances  judeus  e  os  da  América  do  Sul  ha  também  bastantes 
que  estão  viciados. 

(2)  Lisboa,  Manuel  Gómez,  1906.  —  O  volume  abrange  apenas  29  romances, 
entre  heróicos,  novelescos  e  de  aventuras,  mas  em  232  lições  diversas.  Eles  apa- 
recem ahi  repartidos  em  quatro  ciclos:  odyssalco  ou  atlântico  (as  moças  de  cântaro 
das  fontes  portuguesas  são  equiparadas  á  Nausicaa  de  Homero);  scandinavo~ger- 
mánico,  car/ingio,  arthuriano.  -As  refundições  ou  versões  compósitas  de  Almeida- 
Garrett,  e  as  menos  artísticas,  mas  não  mais  fidedignas  de  Estácio  da  Veiga,  n&o 
estão  marcadas  com  qualquer  distintivo.  Nem  se  indica  o  nome  do  respectivo  co- 
leccionador. Os  títulos,  escolhidos  com  bastante  Uberdade,  não  condizem  cm  to- 
dos os  casos  com  os  usuaes.  Quem  procurará  p.  cx.  sob  o  título  de  Tristes  Movas  o 
romance  relativo  ao  Duque  de  Alba,  incorporado,  de  mais  amais,  num  grupo 
scandinavO-germánicQt 

(3)  Em  1886  Leite  de  Vasconcellos  (Rom.  p.  12)  declarava  possuir  algumas 
centenas  de  romances.  A's  minhas  reiteradas  i.istáncias  de  as  publicar,  respondeu 
ultimamente:  «Tenho  efectivamente  algumas  centenas  de  romances,  mas  não  s<- i 
quando  os  poderei  publicar,  porque  desejo  refundir  as  Tradições  Populares  (tenho 
já  o  dobro)  e  transformar  o  meu  primitivo  plano  em  outro.  Só  então  saiu  o  os  ro- 
mances. Mas  o  que  cu  tenho  são  variantes  dos  já  conhecia  novo,  creio  que 
não  terei  naila». 

(4)  1'.  S.  A  publicação  começou  agora  mesmo  no  Instituto  de  Coimbra  (Vol.  54' 
fase.  6.)  sob  o  título  de  Rontantas. 


10  CAROLINA  MICHAÉLIS  DE   VA8C0NCELL0S 


vou  oeupar-me  agora,  num  como  apêndice  ás  lúcidas  obser- 
vações compendiadas  na  Antologia.  Nem  falarei  das  numero- 
sas frases-feitas,  de  origem  épica  que  são  neles  empregadas  a 
miude,  quási  mecanicamente,  como  lugares-comuns  (1).  Nem 
tão  pouco  tratarei  dos  motivos  mais  complexos,  em  regra  de 
carácter  lírico,  que  caíram  em  graça  e  vaguearam  e  va- 
gueiam soltos,  desprendidos  também  de  romances  velhos,  (a 
que  originariamente  pertenceram,  segundo  opiniões  autori- 
zadas), sendo  aplicados  pela  musa  popular  a  casos  afins  ou 
opostos,  ora  como  parte  integrante,  ora  como  mero  incidente 
decorativo,  e  algumas  vezes  transformados  em  cantigas  (2). 
Tudo  quanto  se  relaciona  directamente  com  taes  textos  por- 
tugueses de  hoje  fica  de  reserva. 

Pequenos  trechos  de  romances  castelhanos,  citados  em  cas- 
telhano (mais  ou  menos  castiço),  ou  traduzidos  por  autores 
quinhentistas  e  seiscentistas  de  Portugal,  que  os  intercalaram 
como  intermezzo  musical  em  peças  teatraes,  ou  os  aproveita- 
ram como  enfeites,  nessas  e  em  outra3  obras  literárias;  alu- 
sões singelas  a  assuntos,  situações  ou  protagonistas  determi- 
nados; arremedos  (contrafacões  =  contrahechuras)  de  alguns 
romances  muito  sabidos;  trovas  e  glosas  de  composições  intei- 
ras, ou  de  fragmentos  de  romances;  paródias  burlescas;  o 
emprego  proverbial  de  nomes-proprios  e  de  hemistíquios- 
alocutivos;  finalmente,  algumas  anecdotas  que  se  ligam  a  esses 
romances  velhos — eis  o  tema  de  que  me  ocupo . 

Encaro  essas  notas  como  outros  tantos  documentos  do 
gosto  com  que  os  Portugueses  haviam  acolhido,  no  século  xv  e 
em  princípios  do  imediato  (não  só  por  causa  da  música,  com- 
quanto  a  essa  caiba  seguramente  parte  muito  considerável 
na  sua  aceitação)  as  canções  narrativas,  chamadas  castelha- 


(i)  Clemencín,  nas  Notas  ao  D.  Quixote,  Milá  na  sua  obra  nunca  assaz  louvada 
sobre  a  Poesia  Herolco-Popular  Castellana  (ed.  1874,  p.  369-393),  e  resumida- 
mente o  autor  da  Antologia  (XIÍ,  359  ss),  já  chamaram  a  atenção  para  essas  repe- 
tições. Restringiram-se  todavia  ao  ciclo  carolingio,  onde  são  muito  frequentes,  e 
aos  textos  castelhanos    impressos. 

(2)  Em  alguns  casos  póde-se  admitir,  porém,  que  são  anteriores  á  eflorescên- 
cia  dos  romances,  e  já  faziam*  parte  do  Cancioneiro  nacional,  antes  de  entrarem 
ein  cantares  épicot, 


ROMANCES   VELHOS 


nas  por  antonomásia,  porque  são  a  criação  e  manifestação 
mais  perfeita  da  heróícaalma  peninsular.  Da  difusão  que  pala- 
cianos ilustrados  lhes  deram  nos  reinados  de  D.  João  II,  D. 
Manuel,  D.  João  III  e  D.  Sebastião,  tirarei  no  fim  conclusões 
sobre  as  fontes  d'onde  provinham,  o  modo  provável  como 
transmigraram,  e  sua  progressiva  nacionalização.  Quanto  ás 
conjecturas,  nem  sempre  novas,  que  junto,  sobre  a  parte  que 
os  Portugueses  teriam  na  elaboração,  não  de  romances  he- 
róicos, mas  dos  épico-líricos  sobre  temas  universaes,  bem  sei 
que  ainda  precisam  ser  muito  ponderadas  e  ventiladas,  antes 
de  serem  reconhecidas  como  plausíveis. 

*  * 

O  tema  não  é  novo  em  absoluto. 

Almeida-Garrett  apontou  três  ou  quatro  referências  a  ro- 
mances castelhanos  (1).  Comquanto  não  explorasse  impressões 
antigas  (2),  reconheceu  a  evidente  derivação  de  alguns  cantares 
tradicionaes,  como  os  de  Roncesvales  e  Gaiferos.  Ficou,  po- 
rém, em  dúvida  sobre  as  origens,  sempre  que  a  versão,  por  ele 
apurada,  lhe  parecia  superior  á  castelhana.  E  tinha  em  conta 
de  indígenas,  inteiramente  portuguesas  e  absolutamente  popu- 
lares todas  aquelas  de  que  então  se  ignoravam  as  correspon- 
dentes castelhanas.  Ilusão  patriótica  que  não  é  estranhável 
num  poeta  romântico  da  primeira  metade  do  século  xix,  que 
foi  o  primeiro  descobridor  d'  essas  riquezas  populares,  quando 
o  enorme  fundo  tradicional,  desencantado  agora  no  reino 
vizinho  e  suas  antigas  colónias  e  dependências,  estava  longe 
de  ser  revelado;  nem  estavam  assentes  as  leis  geraes,  e  fac- 
tos principaes  da  história  das  literaturas  românicas  que  ge- 
rações de  investigadores  apuraram  pouco  a  pouco,  á  força  de 
trabalho  filológico  persistente. 

Teófilo  Braga,  que  entrou  na  liça  depois  de  Milá  y  Fonta- 
nals,  F.  Wolf  e  Gaston  Paris  (3)  haverem  sondado  o  terreno,  e 


(1)  V.  Romanceiro.  II,  105;  III,  73  e  139.  Cfr.  F.  Wolf  Proben,  p.  71. 

(2)  Os  únicos  Romanceros  que  cita,  são  os  de  Duran,  Depping,  Ochoa. 

(3)  Refiro-nie  aqui  exclusivamente  á  Histoire  Poétitjue  de  Charlemagne  (Pa- 
ris 1865). 


12  CAROLINA   MICHAÉLIS  DE    VASCONCELLOS 


estudou  o  folklore  português  c  a  literatura  pátria  dé  modo  in 
com paravel mente  mais  complexo,  reparou,  Dão  de  vez  mas 
gradualmente,  conforme  as  suas  leituras  Be   iam  multipli- 
cando, nas  menos  escondidas  referências  a  romances  ca 

lhanos  'li.  Repetidas  vezes  falou  do  fenómeno,  de  L867  em 
diante.  Nunca  juntou,  comtudo,  sistematicamente,  a  docu- 
mentação completa,  com  datas  e  pormenores,  porque  ao  seu 
génio,  amigo  de  altos  e  desimpedidos  voos,  repugna  atendei' 
a  minúcias  e  proceder  a  estudos  demorados  sobre  pontos  mi- 
núsculos, rasteiros.  E  se  a  princípio,  em  rectificação  cons- 
ciente e  conscienciosa  das  teses  de  G-arrett,  pus  as  vezes 
em  realce  a  origem  castelhana  deste  ou  d'  quell'  outro  ro- 
mance, de  modo  que  sugerisse  ao  leitor  a  conclusão  geral,  ago- 
ra na i3.a  edição,  reescrita,  da  Historia  da  Poesia  Popular  Por- 
tugueza,  creio  quede  propósito  nem  sequer  a  enuncia  clara- 
mente, por  se  haver  tornado  muito  mais  nacionalista  que  p 
predecessor. 

No  volume  cujo  sub-títulò  é  Os  Cyclos  Épicos*  £),  destinado, 
por  tanto,  a  servir  de  Introdução  ao  Romanceiro  Geral,  encon- 
tra se,  na  verdade,  uma  lista  ampliada  de  citas  de  romances 
castelhanos  (3).  Das  premissas  eloquentes,  nela  contidas,  não 


(i)     Eis  as  publicações  mais  importantes  em  que  se  ocupou  do  assunto: 
1867  Historia  da  Poesia  Popular  Poriugueza  (p.  23-36  e   137   ss). 

1 867  Romanceiro  Geral  (Notas  íinaes). 

1868  Floresta  de  Vários  Romances  (p.  XXXI  ss  e  21  1-2  12  ). 
1870  Introducçào  (p.  282-285). 

1870  Vida  de  Gil  Vicente  c  sua  escola  (passim). 

1875  Manual  {$.  212  ss). 

1885  Curso  (p.  203  e  214  ss). 

1889  Círculo  Camoniano  (vol.  I,  p.  37-143-206  ss  . 

1898  Psclioln  de  (,il  Vicente  (2.a  ed.  passim). 

1905  Historia  du  Poesia  Popular  Portweucza.  (Vid.  a  nota  imediata.) 

(2)  Especialmente  nos  capítulos  sobrescritados:  A  Canção  Narrativa  (p.  377- 
393)  e  A  Canção  Bailada  (p.  411  e  415),  subdivisões  de  uma  secção  entitulada 
Século  X\ '/.'  A  Corte  e  a  influencia  castelhana  na  Poesia  Popular.  Outros  apon- 
tamentos encontram-se  em  A  Canção  l.yrica  (p.  319-376)  e  O  Typo  dos  Roman- 
ces I  'elhos  '.  p.  199-250). 

(3)  Nem  todas  as  indicações  foram  transcritas  com  rigorosa  exactidão.  Na 
sua  grande  laboriosidade,  T.  Braga  evita  recorrer  sempre  de  novo  ás  fontes.  Por 
isso  perpetua  erros  antigos,  e  incorre  em  outros  novos. 


ROMANCES   VELHOS 


se  inferem  todavia,  como  já  disse,  consequências  lógicas. 
Xa  síntese  total  sáo  esquecidas,  como  se  a  influência  caste- 
lhana fosse  un  factor  tardio  e  insignificante,  que  em  nada 
elucida  sobre  as  origens.  O  interesse  superior  que  ao  historia- 
dor nacional  inspiram  os  problemas  antropológicos  e  socioló- 
gicos; o  modo  como  pensa  a  respeito  das  origens  étnicas, 
advogando  una  serie  de  arrojadas  suposições:  o  excessivo 
valor  histórico,  assim  como  a  nimia  idade,  que  atribuo  á 
poesia  popular,  supondo  que  os  textos  metrificados  (de -que 
temos  vest  ígios  só  do  século  xv  para  cá),  persistem  ha  muitos 
•óculos  na  tradição  oral,  inhibem-no  de  reconhecer  em  geral  a 
unidade  da  civilização  portuguesa  e  hespanhoia.  e  em  parti 
cular  a  génese  í\,>*  romances  castelhanos. 


Ku  também  já  toquei  ao  assunto,  ocasionalmente. 

Primeiro  em  1890,  ao  ensaio  acima  mencionado'!'.  Ex- 
pondo as  relações  íntimas  que  ha  entre  alguns  romances 
colhidos  na  província  de  Tras-os-Montes,  por  Leite  de  Vas- 
concellos,  e  os  coligidos  nas  Astúrias,  por  Munthe  e  J.  Me- 
néndez  Pidal.  notei  com  pesar,  quanto  os  de  cá  (reproduzi- 
dos com  rigorosa  probidade,  mas  da  boca  de  relatores  muito 
medíocres  ,  sáo  informes,  barbaramente  deturpados  por  meio 
de  omissóes.  e  introdução  de  elementos  vulgares,  e  os  de  lá  de 
grande  vigor  poético  e  elevação  moral,  relativamente  puros  e 
Completos,  mais  ainda  do  que  os  portugueses  das  Ilhas,  ape- 
sar da  acção  conservadora  que  a  longa  incomunicabilidade 
geográfica  ahi  exerceu. 

No  ano  imediato  analisei  o  romance  do  Cíd  que  principia 
Belo  helo  por  do  viene  el  moro  por  la  cal  zoila  (2).  Meu  intuito 
era  mostrar  (pie,  sendo  o  mais  popular  entre  todos  os  histori- 
eis (pois  anda  na  tradição  oral  da  Catalunha,  do  Algarve,  dos 


(i)  Revista  Lusitana  II  156-179  e  193034o:  Estudos  sobrt  o  Romanceiro  Pe- 
ninsular. 

(2)  Zeitschrift  XVIp,  40-X9,  Romantenstudien  ,  /.  Geschichte  einer  alten  (  id- 
r ornai 


CAROLINA  MICHAÉLIS  DE   VASCONCÊLLUS 


Açores,  e  da  Ilha  da  Madeira)  (1;,  e  ao  mesmo  tempo  um  doe 
mais  primitivos,  qualificado  até,  em  princípios  do  século  xvi, 
pelo  glosador  Francisco  de  Lora  de  «mais  velho»  de  todos 
quantos  conhecia,  não  deriva  ainda  assim  dos  cantares  de 
gesta,  nem  tâo  pouco  das  suas  prosificaçôes  em  Crónicas  anti- 
gas (2).  Composto  de  três  composições  avulsas,  combinadas 
por  algum  juglar  ou  cantor  do  povo,  uma  das  quaes  tem  ca- 
rácter fronteiriço,  i.é  bastante  novelesco,  briga  com  as  teorias 
de  Milá. 

Simultaneamente  (3)  esbocei  a  história  de  um  motivo  an- 
tigo muito  fecundo,  de  carácter  lírico:  o  morrer  de  amor  e 
como  consequência,  poética  comquanto  nefasta,  o  enterro  das 
vítimas  em  terreno  não- sagrado.  Fazendo  parte  do  romance 
da  Bella  mal-maridada  (4),decantadíssimo  na  segunda  metade 
do  século  xv,  entrou  posteriormente  numa  dúzia  de  roman- 
ces diversos  de  aventuras  novelescas  e  amatórias,  que  quási 
todos  ainda  vivem  na  memória  do  povo,  e  anda  avulso  no 
Cancioneiro  Popular,  ao  qual  talvez  pertencesse  de  nas- 
cença (õ). 

Esses  dois  casos  (e  outros  análogos  que  tinha  era  mente)  (6) 
julguei-os  típicos  para  os  processos  da  poesia  tradicional.  Por 
isso  atrevi-me  a  deduzir  d'eles  teses  a  respeito  da  prioridade 
não  só  da  arte  lírica  popular,  mas  também  dos  tomas  nove- 
lescos  sobre  os  históricos,  e  a  respeito  da  fusão  frequente  de 
motivos  curtos  e  soltos.  E  porque  Portugal  tem  parte  impor- 


(1)  Entre  os  romances  que  posteriormente  vieram  á  luz  não  há  nenhum  que 
conste  das  três  partes  em  que  julgo  dever  decompô-lo;  o  primeiro,  isto  é  a  queixa 
do  rei  mouro  sobre  a  perda  de  Valência,  é  memorado  também  entre  os  Judeus 
de  Tânger,  conforme  se  verá  mais  abaixo. 

(2)  A  última  palavra  será  dita,  provavelmente  sem  muita  demora,  pelo  mais 
abalizado  conhecedor  tanto  das  Crónicas  como  dos  Cantares,  o  tantas  vezes  citado 
director  da  Secção  de  filologia  e  historia  literária  d'esta  Revista. 

(3)  Zeitschrijt  XVI  p .  397-421:  Romanzenstudien  II:  Quem  morre  de  mal  de 
amores — não  se  enterra  em  sagrado. 

'4)     Pelo  meno9  no  texto  impresso  por  Sepúlveda  em  1551. 

(5)  Na  Nota  relativa  kBella  mal-maridada  apresentarei  alguns  materiaes  novos, 

(6)  Ainda  ha  outro  romance  do  Cid  que  parece  constar  de  duas  partes,  de  ín- 
dole diversa.  Mas  como  não  existe  senão  numa  lição,  não  se  presta  a  servir  de 
material  ilustrativo. 


ROMANCES    VELHOS  IS 


tante  na  evolução  dos  temas  examinados,  juntei  conjecturas 
sobre  os  elementos  com  que  este  país  contribuiria  para  o  Ro- 
manceiro peninsular. 

Não  tardei,  porém,  em  reconhecer  que  exemplificação 
tão  escassa  equivale  á  apresentação  de  meras  excepções  á 
regra.  Insuficiente  para  invalidar  a  teoria  tão  solidamente 
fundamentada  de  Milá  sobre  a  derivação  directa  dos  roman- 
ces primitivos  I  históricos i  dos  cantares  de  gesta  castelhanos, 
Berve,  quando  muito,  para  modificã-la  nos  accessórios  (1). 

Pouco  depois,  ao  traçar  um  quadro  resumido  da  poesia  tra- 
dicional portuguesa,  ainda  segui  a  mesma  orientação  (2). 
Dedicando  interesse  e  simpatia  igual  a  Hespanha,  Portugal  e 
!  'atalunha — essa  unidade  tripartida, — familiarizada  de  um 
lado  com  as  ideias  nacionalistas  de  T.  Braga,  e  pelo  outro 
com  as  doutrinas  castelhanas  de  Milá  e  seus  discípulos,  em- 
penhei-me  em  determinar  os  elementos  com  que  cada  nação 
concorreu  para  a  formação  da  literatura,  e  em  vindicar  para 
os  descuidados  e  perdulários  habitantes  da  praia  occidental 
tudo  quanto  de  direito  lhes  pertence. 

Naturalmente  ti  vede  acentuar  a  precedência  e  supremacia 
lírica  dos  galego-portugueses,  e  a  épica  dos  castelhanos.  Ca- 
racterizando o  romanceiro  de  cá  como  mera  ramificação  do 
tronco  plantado  em  Castela,  dei  a  devida  importância  ao  facto 
de  todos  os  cantares  narrativos,  citados  desde  o  último  quartel 
do  século  xv  por  autores  portugueses,  o  serem  na  linguados  vi- 
zinhos (com  poucas  excepções), e  não  em  lição  idiomática;  e  ao 
outro  de  os  tradicionaes  haverem  conservado  até  o  dia  de  hoje 
vestígios  linguísticos  da  sua  origem  estrangeira.  Apesar  d'isso 
tentei  novamente  segurar  ao  povo  português,  além  daglóriade 
haver  nacionalizado  numerosos  textos  alheios,  uma  parte  na 


(i)  A  minha  análise  que  hoje  julgo  incompleta,  impressionou  ainda  assim  01 
entendidos.  No  Journal  d,'s  Savants  (Mai-Juin  1898),  num  artigo  crítico  La  Legende 
■  nfants  de  Lara,  Gaston  Paris  fez  judiciosas  observações.  E  Menéndez  Pelayo 
confessa  (Antologia  XI  p.  360)  que  o  romance  Helo  helo  nâo  tem  explicação  den- 
tro da  teoria  de  Milá,  obrigando-nos  a  admitir  a  elaboração  de  romances  soltos 
dentro  dos  ciclos  históricos. 

(2  ■  Getchichte  der  portuçiesischen  Literatur  em  Oroe/>er's  Grtmdrisjt  í/b,  Vid. 
p.  145-160. 


CAROLINA  MICHAÊLIS  DE   VASCONCELLOS 


elaboração  de  romances  ópico-lírieos  sobro  tomas  novelos* 
comuns  aos  povos  cultos  da  Europa.  Sc  ha  lindos  romances 
castelhanos  de  D.  João  Manuel,  Gil  Vicente,  .Jorge  de  Monte- 
mor, glosas  de  António  López  de  Trancoso,  Diogo  Garcia  de 
Bragança,  Gabriel  de  Saravia,  etc;  e  se  ha  romances  portu- 
gueses, contemporâneos,  do  mesmo  Gil  Vicente,  de  Bernardim 
Ribeiro,  Jorge  Ferreira  de  Vasconcellos,  Francisco  Rodrí- 
guez  Lobo,  etc,  etc,  porquê  mio  ha  de  haver  entre  os  mil 
anónimos  uma  parte  devida  a  Portugueses?  Diminuta  sim. 
mas  proporcional  talvez  á  sua  importância  numérica? 

De  passagem  mencionei  as  alusões  significativas  a 
senta  romances  castelhanos  de  que  então  sabia,  prometendo 
publicar  a  lista (1). Mas  apenas  cheguei  a  dar  amostras,  ora  em 
diversos  artigos  acerca  de  poetas  quinhentistas  que  emprega- 
ram trechos  em  composições  centónicas  (2),  ova  em  estudos 
sobre  Cancioneros  castdlanos  (3). 

'Fardei,  comtudo,  cm  cumprir  essa  promessa  e  outras  (4), 
por  causa  de  trabalhos  relativos  á  lírica  medieval,  próprios 
o  alheios  (6),  e  também  por  causa  dos  progressos  notabilissi- 
mos  realizados  modernamente  no  campo  épico  peninsular. 

Tenho  en  mente  sobretudo  os  trabalhos  incisivos  e  modela - 
ros  de  MenéndezPidal  <  D.Ramón)  sobro  Crónicas  Genèràleê  7 


(i)     Grundriss  II  b.  p.  156,  Nota. 

(2  )  Zeitschrift  VII  41  5  ss.  e  Revue  llispanique  VIII  1901.  —  Como  logo  se  verá, 
Wilhelm  Storck  apontou  e  explicou,  nos  seus  comentários  a  textos  camonianos 
e  pseudo-camoníanos,  algumas  referências  a  romances  castelhanos,  e  a  textos  líri- 
cos. SãmmtUche  Gedichtêvon  Luís  de  Camocns,  Paderborn  /8So-/SSj,  6  Voll. 

\)  1'.  ex.  num  estudo  relativo  ao  Caneionero  dei  Siglo  XV  publicado  por  Hugo 
.1.  Retmert  (.  —  Vid.  Litciaturblatt  1897  X.°  4),  e  noutro  sobre  o  Canci&ttero  de 
Modena  (Rotnanische  Forschungen,  Hand  XI,  1899). 

(4)  Na  Zeitschrift  aludi  a  estudos  inéditos  sobre  motivos  soltos,  como  p.  ex. 
descrições  do  iih"-s  de  maio,  e  o  de  S.  João,  o  poder  comovedor  do  bel-canto,  mal- 
diçõee, juramentos,  feridas  descomunaes,  o  martírio  atroz  de  encarcerados,  etc.  etc. 

(5)  o  Cancioneiro  de  Ajuda:  investigações  Bibliogrâphicas ,  Bioçràphicas  t 
ííistórico-LitteraritiSé — Ilalle,  1904 — 1  vol.  de  1.001  páginas. 

6)     Alfir.  Jeanroy,  Origines  de  la  poèsie  lyrique  eri  France  au  Moyen-âge,V&- 
1889  — e  no  estudo  crítico  de  (iaston  Paris  (Journal  des  Savants)  sobre  esse 

livro. 

(7)     Crânicai  pafia,  Madr.  18981 


ROMANCES    VELHOS  17 


Cantares  de  gesta  (1).  e  romances  cíclicos  de  heroes  nacio- 
nae9  (2);  nos  de  s<mi  irmão  D.  Juan)  que.  depois  de  haver re- 
suscitado  os  textos  cantados  nas  Astúrias,  investigou  a  fundo 
as  Lendas  do  último  rei  godo  (3);  e  no  Tratado  suculentíssi- 
mo, já  citado,  em  que  o  mestre  de  ambos  pôde  remoçar,  so- 
bre as  bases  assim  alargadas  e  alteadas,  a  teoria  de  Milá, 
contírmando-a  na  essência,  mas  completando-n  de  modo  muito 
feliz  (4  . 

Graças  a  estes  três  representantes  da,  sciência  castelhana 
sabe-sc  agora  que  não  nouvtí  uma  única  redacção  da  obra  de 
Alfonso  o  Sábio  (c.  L280).  Esse  grandioso  monumento  primor- 
dial da  historiografia  vulgar,  de  que  d'ora  a  vante  nos  é  dado 
ler  o  texto  legítimo  (5),  prolificou  com  abundância.  Existe 
cm  numerosas  refundições,  entre  as  quaes  a  impressa  em 
1.V1I  por  Floriáo  do  Campo  é  a  Tercera,  na  ordem  estabeleci- 
da pelo  erudito  editor,  que  examinou  dúzias  de  manuscritos. 

E  todas  elas  contém  prosificaçôes  variadas  de  cantares 
épicos,  que  a  idade-raedia  considerava  com  razão  como  fontes 
tradicional-históricas  das  façanhas  ou  gestas  de  caudilhos  afa- 
mados. Do  confronto  cuidadoso  dos  capítulos  relativos  ao  úl- 
timo rei  godo,  Bernardo  dei  Cárpio,  Fernão  González,  Garci- 
Femández,  os  Infantes  de  Lara  (ou  antes  de  Salas),  o  Cid,  d 
rei  I).  Fernando,  etc.  concluiu  o  investigador,  quaes  as  len- 
das que  desabrocharam  em  poemas,  e  quaes  os  poemas  que 
passaram  por  sucessivas  transformações. 

A  musa  épica  castelhana  (acordada  antes  de  princípios  do 
século  xir.    influída  pelo  exemplo  da   França  <lo  Norte,   ao 


( i)  La  Leyenda  de  los  Infantes  de  Lara,  Madr.  i  896.—  El  Poema  dei  Cid  v  ias 
Crónica:;  Generales  em  Revue  Hispanique  1898. 

(2)  Notas  para  el  Romancero  dei  Conde  Fernán  Gonsález,  Madr.  1899  em 
f/omenaje  á  Menèndea  y  /'clavo,  Madr.  [899.  VoL  f.  429-507. 

(3)  Leyendas  dei  Ultimo  Rey  Godo,  Madr.  1906. 

(4)  Na  Antologia  XI  p,  325  ss.  lia  no  Cap.  relativo  ao  Cid,  a  prositicação  do 
Cantar  que  a'ir,en  dei  Rey  l>.  Fernando. Também  lia  materiaes  importantes  no  Vol.  I 
da  Nueva  Biblioteca  de  Autores  Espafloles:  Oriqenes  de  Ia  Novela  e  na  ediçilo  mo- 
numental das  Obras  de  Lope  de  Vega;  pelo  menos  nos  VOU.  VIl-XIIÍ,  1898-1902, 
que  tratam  de  Crónicas y  leyendas  dramáticas  en  Espaila, 

5)     E   também  a  R.  Menénde/  Vidal  que   devem  »a  a    publicação  da  Primem 
irónica  General,  Madr.  1906.  (Vol,  \'   da    \  11  va  riihl.  de  Aut.  J-'.s/>.) 


CAHOLINA   MICHAÈLIU  UE    V ASCUNCt  LIOS 


qual  se  cingiu  formalmente,  adoptando  o  yefsò  largo  bipar- 
tido e  o  sistema  das  tiradas  (laisses)  assonantadas,  de  ta- 
manho indefinido)  foi  portanto  de  productívidade  minto  maior 
e  muito  mais  prolongada  do  que  se  havia  julgado  pelos  pou 
monumentos  poéticos  que  se  conservaram.  Embora  a  floi 
eéneia  Tosse  curta  (até  meados  do  século  xm  .  n  refundição 
dos  cantares  continuou  até  íins  do  Béculo  xiv.  pelo  menos. 
Mas,  aristocrática  a  princípio,  obra  de  poetasde  ingénho  e  arte, 
nas  culmináncias  do  saber  da  época,  foi-se  democratizando 
no  período  da  decadência,  quando  cantores  populares,  muitas 
vezes  cegos,  os  recitavam  aos  pedaços  em  troca  de  um  copo 
de  vinho. 

Xos  cantares  contidos  em  prosa  assonantada  1 1)  na  impor- 
tante Crónica  Central  de  L344  (2)  e  também  na  chamada  Cró- 
nica de  Yeinte  Reyes  \2.n  metade  do  século  xrvi  (3)  alguns  dos 
quacs  já  foram  restaurados  parcialmente  com  método  e  saber 
seguro  (4).  os  jograes  (além  de  renovarem  um  tanto  a  lingua- 
gem e  a  versificação)  acomodaram  se  ao  gosto  do  vulgo,  in- 
troduzindo adições  hiperbólicas,  lugares-comuns  novelescos. 
episódios  multiplicados,  descrições  ampliadas. 

IVestas  últimas  refundiçóes  (degeneradas)  dos  verdadeiros 


(i)  «Los  asonantes  de  los  cantos  originales  se  conservan  en  las  Crónicas;  y  es 
verdad  que  nadie  que  tenga  la  más  rudimentaria  noción  de  las  condiciones  de  la 
prosa  espanola  (donde  se  rechazan  los  asonantes  con  extremado  rigor)  puede 
imaginar  que  uri  espaíiol  había  de  escribir  una  página  de  asonantes  en  momentos 
de  distracción/>.  Fitzmaurice  Kelly  na  trad.  de  A.  nonila  y  San  Martin,  Historia 
ii,-  li  Literatura  Espaflola,  Madr.  1901  p.  56. 

(  2  |  E  d'ela  que  se  extraiu  o  Cantar  dei  ReiD.  Fernando  prositicado  („  Xntologia  XI 
1.  c.)  c  o  de  Fernan  Conzález  (Homcnaje  I,  437),  e  principalmente  um  dos  Infan- 
tes de  Lara  (outro,  foi  reconstruído  sobre  os  restos  contidos  na  Prrmera  Crónica 
General) i  assim  como  um  Cantar  dei  Cid.  Vid.  a  nota  seg. 

(3)  Das  duas  gestas  diversas,  dedicadas  ao  Campeador,  que  subsistem  fragmen- 
tárias, o  Poema  (da  virilidade  e  velhice  do  heroe)  foi  utilizado  na  Crónica  Primera, 
comquanto  nfto  fosse  precisamente  a  redacção  que  Per  Abbat  nos  transmitiu, 
mas  antes  uma  refundíçfto  posterior,  mais  prolixa  na  segunda  metade.  -  Na  de 
Veinte  Reyes  é  que  neste  caso  se  conservou  a  prosificação  fiel  do  texto  mais  an- 
tigo. Quanto  h  outra  gesta  das  Mocedades  dei  Cid,  geralmente  chamada  Rodrigo, 
está  na  Crónica  de  1344,  mas  num  estado  anterior  ao  que  possuímos  no  informe 
cent&o  (la  Crónica  Rimada. 

1  1       Pelai  notai  anteriores  se  vê  que  SHo  os  Cantares  dos   lufa.  '  tra. 


ROMANCES    VELHOS  19 


poemas  épicos,  tâo  sóbrios,  singelos  e  graves,  retemperadas 
todavia,  a  meu  ver,  peto  contacto  com  a  vigorosa  aíma  do 
povo  e  as  suas  expansões  líricas,  é  que  procedeu,  dentro  de 
um  período  relativamente  curto,  a  maravilhosa  eflorescência 
dos  romances,  tanto  históricos  como  carolíngios.  e  de  outros 
novos:  fronteiriços,  novelescos,  amatórios. 

Os  chamados  primitivos,  elaborados  no  século  XV  (quando 
muito,  um  ou  outro  será  de  fins  do  século  XIV)  sáo  trechos  des- 
ligados de  cantares  jograjescos — como  está  determinado  com 
exacçáo  primorosa  quanto  aos  dos  Infantes  </<'  Lara,  e  do  Bom- 
Conde,  e  brevemente  o  será  quanto  aos  do  Çid  (1)— -cada  um 
dos  quaes  equivale  a  uma  das  tiradas  das  gestas,  cujo  metro, 
regularizado  quanto  ao  número  das  sílabas  (2),  e  cujo  modo  do 
rimar  repetem.  Estes  trechos  fixaram-se  na  memória  do  povo, 
por  serem  os  mais  impressivos  e  românticos  (Bi,  e  ganharam 
assim  vida  independente,  lucrando  em  beleza  poética  e  mo- 
vimento dramático  pelo  processo  de  simplificação  e  encurta- 
mento, a  que  a  colaboração  popular  os  submeteu,  pois  essa 
tende  em  geral  a  memorar  apenas  traços  geraes,  novelescos 
e  humanos,  minúcias  pitorescas,  apagando  os  elementos  his- 
tóricos, inclusive  os  nomes  dos  protagonistas,  efe.  (4;,  quando 
esses  não  sáo  .geralmente  conhecidos  como  o  do  Cid. 

É  pois  certo  serem  os  romances  primitivos  herdeiros  di- 
rectos e  legítimos  dos  antigos  cantares  de  gesta,  como  asseve- 


i)  Quanto  á  matéria  carolíngia  que  entrou  na  península  em  princípios  do 
século  xu,  ou  antes  (a  Chanson  de  Kolans  é  de  1080),  e  foi  castelhanizada  pouco 
depois,  não  possuímos  nas  Crónicas  Generales  refundições,  como  dos  temas  aa- 
cionaes.  <  >s  romances  do  século  xv  mostram  todavia  tipos  tão  distanciados  dos 
originaes,  que  é  forçoso  supor  uma  longa  serie  de  gestas  perdidas. 

1  \  1  verso  largo  (ou  completo),  de  dezaseis  sílabas,  é  tratado  de  imaginai io,  e 
ironizado  constantemente  por  T.  líraga,  que,  segundo  já  notei,  não  se  conforma 
com  a  derivação  dos  metros  românicos,  dos  versos  silábicos  latinos,  procurando- 
lhes  origens  muito  mais  vetustas,  e  acredita  quanto  aos  romances,  na  precedên- 
cia e  supremacia  dos  versos  de  cinco  e  seis  sílabas! 

(3)  «Iragmentos  desengran/ados  do  colar  épico»,  no  dizer  de  Menéndc  \ 
Pelayo. 

(4)  É  um  capítulo  curioso,  com  regra9  e  excepções,  fusões  e  confusões.  O 
acrescento  de  pequenos  prólogos,  epílogos  e  versos  de  transição,  estereotipieos. 
também  dá  margem  a  observações  interessantes. 


CAROLINA  MICHAÉLIS  DE    VASCONCELLOS 


rara  Milá  y  Fontanals;  mas  não  herdeiros  imediatos.  Apon- 
tando as  sucessivas  renovações,  que  alteraram  o  espírito  e  a 
forma  dos  poemas,  é  que  a  crítica  preencheu  a  lacuna  enorme 
que  havia  na  tese  dele,  entre  a  maneira  heroicamente  rude  do 
século  xn  e  o  estilo  culto  e  cortês  do  século  xv. 

Após  essa  demonstra cá o,  comprende-se  que  os  romances, 
gerados  no  seio  do  povo  pela  decadência  do  criações  aristo- 
cráticas, fossem  desprezados  temporariamente  por  magnates 
e  eruditos  que  eram  precursores  da  Renascença,  como  o  Mar- 
ques de  Santillana.  Mas  comprende-se  também,  como.  apesar 
do  divórcio  por  eles  proclamado  entre  a  nova  poesia  culta, 
dantesca,  boccaccesca  e  petrarquista,  e  a  velha,  lírico-épica 
propagada  por jograes  cegos  para  recreio  de  «gente  de  servil 
e  baixa  condição »,  o  próprio  Marques,  nas  suas  serranilhaê, 
e  outros  como  Juan  de  Mena,  Diego  de  Burgos.  Alvarez  Cato. 
não  se  subtrahiram  por  inteiro  á  peregrina  beleza  d'  esses 
«destroços»,  c  da  flora  silvestre  que  a  semente  largamente 
espalhada  produziu.  Comprende-se  que  poetas  como  Rodrí- 
guez  da  Câmara  e  Carvajales  escrevessem  romances  novos 
(comquanto  se  divulgassem  em  regra  anónimos)  aproveitando 
todas  as  matérias  úteis,  escritas  (como  a  bíblia,  lendas  sacras, 
novelas  bretónicas  e  carolíngias,  livros  de  cavalaria,  cróni- 
cas, textos  de  origem  latina  e  grega)  ou  oraes  como  os  con- 
tos e  as  tradições,  mas  principalmente  acontecimentos  do  seu 
tempo — romances  que  a  um  sabor  de  arte  refinada  aliam  o 
perfume  agreste  do  campo  e  das  florestas.  Nem  admira  que  os 
históricos  e  carolíngios,  sancionados  pela  sua  idade  e  nobre 
proveniência,  fossem  erguidos  em  modelos  típicos.  Nem  tão 
pouco  que  o  centro  da  península,  que  fora  berço  dos  poemas 
épicos,  fosse  também  a  região  onde  os  romances  despontaram 
primeiro  e  atingiram  o  mais  alto  grau  de  vitalidade,  irra- 
diando de  ahi  para  todos  os  lados,  divulgando  as  suas  formas, 
o  seu  espírito,  as  suas  toadas. 

E  com  elas  a  sua  linguajem. 

Este  é  o  único  ponto  que  náo  foi  tratado  com  o  devido 
desenvolvimento  pelos  investigadores  castelhanos.  A  ele  tor- 
narei no  lini  d' este  breve  estudo,  aludindo  então  de  novo  a 
trabalhos  sobre  a  primeira  epóca,galego-portuguesa,  da  lírica 


ROMANCES   VELHOS  21 


hispânica,  e  sobre  o  bilinguismo  Literário  da  Península,  afim  de 
tornar  provável  a  tese  que  até  fins  do  século  xv  a  linguajem 
épica  era  para  todos — hespanhoes,  galego-povtugueses  e  catalães 

— a  castelhana  (e  facultativamente  continou  a  sé-lo  nos  séculos 
xvi  e  xvii\  como  a  linguagem  lírica  tora  até  1350  a  galego- 
portuguesa  para  Portugueses.  (Galegos  o  Hespanhoes  (e  mesmo 
para  alguns  trovadores  liraosinos;  (1),  e  continuou  a  sê-lo  fa- 
cultativamente até  1450.  De  onde  resulta  que  romances  es- 
critos em  castelhano  nem  por  isso  são  necessariamente  obra 
de  castelhanos.  E  torna-se  provável  que  o  povo  que  burilou 
jóias  tão  finas  como  En  el  mes  era  de  abril  e  Gritando  va  el 
cahaUero  fe  contribuiu  de  1450  em  diante  para  o  Cancioneiro  e 
Parnaso  lírico  com  uma  infinidade  de  composições  valiosas, 
enriquecendo  também  o  pecúlio  da  nação  vizinha  com  nove- 
las de  cavalaria,  novelas  pastoris,  comedias,  obras  históri- 
cas, etej.  colaboraria  igualmente  na  parte  anónima  do  ro- 
manceiro, e  antes  d'  isso  na  refundiçào  jogralesca  das  gestas 
épicas. 

Ha  mais  novidades  todavia,  as  quaes  para  quem  olha  su- 
perficialmente para  as  coisas,  parecem  invalidar  de  novo  a 
tese  e  a  conjectura  que  defendo,  mas  na  essência  a  confirmam. 

A  demonstração  das  refundições  sucessivas  e  da  decompo- 
sição das  gestas,  democratizadas  pelos  cantores  do  povo,  em 
romances  soltos,  tão  bem  feita  que  parece  definitiva,  fez  sur- 
gir naturalmente  na  mente  de  quem  a  realizou  uma  conjec- 
tura que  de  pressa  se  mudou  em  facto  positivo. 

Se  na  memória  da  gente-povo  das  Astúrias,  da  Catalunha, 
de  Portugal,  e  mesmo  na  Andaluzia  se  conservaram  na  tradi- 
ção oral,  através  dos  séculos,  rapsódias,  que  pela  sua  vez  de- 
vemos acatar  como  herdeiras  de  romances  velhos — mesmo 
quando  os  protótipos  se  perderam,  ou  quando  elas  se  apresen- 
tam num  estado  de  degeneração  lastimosa — náo  se  percebe  por 
que  razão  taes  ecos  se  haviam  de  apagar  por  completo  exac- 
tamente em  Castela,  terra-mâe  da  poesia  «'pica  peninsular  (e 


(i)     Vid.  C.  M.  de  Vapconcellos,  Randghssen  tum  altóoriugiesichen  lÀtderbuck'. 
N.°IXIm  NordotUn  der  IlalHntet;  X Dos  ZwiespaltHtd  dts  Bonifatio  Calvo;  XII 

Die  Romanze  von  Don  Fernando. 


22  CAROLINA  MICHAÉLIS  DE   VASCONCELLOS 


também  em  Leão.  na  Estremadura,  em  Murcía,  etc<).  Cum- 
pria procurar.  Procurou-se.  Eo  que  se  encontrou,  ultrapa 
toda  a  espectativa.  comquanto  a  campanha  de  exploração, 

ainda  não  esteja  terminada  (1).  O  argumento  da  falta  de  ro- 
mances no  centro  de  península,  de  que  eu  me  servira  como 
outros  que  também  não  acreditavam  nas  suas  origens  exclusi- 
vamente castelhanas,  jã  não  vigora  portanto. 

Quasi  todos  os  cantares  narrativos  de  que  ainda  nau  se 
conheciam  lições  em  castelhano,  ou  pelo  menos  nenhum 
colhidas  no  centro  (2);  estão  agora  patentes  em  textos  com- 
pletos e  bem  conservados,  quanto  ao  fundo  e  quanto  ã  forma. 
Entre  eles  ha  mesmo  um  dos  poucos  que 'passavam  por  ori- 
ginariamente portugueses,  por  versarem  sobre  assunto  local, 
o  de  Santa  Iria  (Irene,  Elena),  padroeira  de  Santarém. 

Repiico  que  ainda  assim  deve  continuar  a  passar  por  origi 
nariamente  português,  porque  o  facto  de  existir  em  Cáceres, 
em  Leào,e  na  Gah*za(3),e  de  haver  transmigrado  ao  [JrUguay, 
não  prova  de  modo  algum  origem  castelhana.  Muito  pelo  con- 
trário, a  existência  só  nestas  províncias  limítrofes  de  Portu- 
gal torna  provável  a  origem  occidental.  Neste  e  em  muitos 
outros  casos,  como  p.  ex.  com  relação  aos  romances  sobre  o 
Príncipe  D.  Affonso,  são  precisos  estudos  especiaes  ulteriores, 
realizados  sem  preocupação  alguma. 


i)  J  >.  Juan  Menéndez  Pidal  entregou  a  varinha  de  condão  com  que  fizera 
vir  á  flor  da  terra  os  romances  tradicionaes  das  Astúrias,  ao  irmào  e  á  sua  gentil 
esposa  D.  Maria  Goyri.  Estes  iizeram  brotar  do  solo  de  Castela  minas  d'aguas  sa- 
borosas e  passaram-na  depois  a  outros  «vedores».  Resta  utilizá-la  em  Múrcia  e  nas 
Canárias. 

(2)  Quanto  aos  textos,  não  dialectaes,  mas  puramente  castelhanos,  recolhidos 
nas  Astúrias,  Menéndez  y  Pelayo  tem  razão  em  advertir  na  Antologia  (X,  p.  8) 
corrigindo  delicadamente  um  erro  grave  que  me  atribue,  que  por  serem  ahi  tradi- 
cionaes, ainda  D&O  s;'io  indígenas  d'aquela  nobre  regiào.  Creio  todavia  que  o  pro- 
blema ainda  admite  discussão  no  sentido  que  indico  no  texto. 

(3)  Vid.  D.  Maria  Goyri,  N.°  16: 

Estando  una  mim     bordando  corhatas 

<  <•//  aguja  de  oro     y  dedal  de  p/ato. 

mais  frequência  em  octonários: 

En  caso  d, d  rey  mi  padre    un  traidor pide  posada, 

mi  padre,  como  era  no/de     inuy  l  nego  se  la  mandaba. 


ROMANCES    VELHOS  23 


Em  todo  o  caso,  creio  que  as  ligeiras  indicações  que  dou, 
serão  suficientes  paia  convencei  Portugueses,  Castelhanos  e 
estrangeiros  da  necessidade  de  se  inteirarem  do  que  passa 
em  ambos  os  reinos,  reformando  as  suas  ideias  em  harmonia 
com  os  factos  que  a  sciència  imparcial  vai  apurando,  e  tam- 
bém de  continuarem  com  afan  na  coleccionação  e  investi- 
gação. 


As  nótulas  (pie  seguem,  pobres  por  motivos  imperiosos  que 
nâo  me  é  dado  alterar,  pertencem  â  categoria  dos  prelimina- 
res. Apresento-as  pela  ordem  dos  assuntos  estabelecida  por 
Wolf,  adoptada  por  Bfilá,  e  conservada  tanto  pelo  seu  genial 
discípulo  como  por  Menéndez  Pidal,  posto  que  cada  um  d'eles, 
eu  também,  modifiquemos  um  tanto  a  donosso  predecessor.  VÀ* 
a  que  adoptei. 

A.  Romances  relativos  á  historia  e  á  tradição  histórica  de  Hes= 
panha. 

I.  El  Hei  Rodrigo. 
II.   Bernardo  do  Cárpio. 

III.  Fernão  <  ionzález. 

IV.  Os  Infantes  de  Lara. 
V.  O  (Md. 

B.  Outros  romances  históricos. 

VI.   Inês  de  Castro. 
VII.   I).  Alfonso  de  Aragão  e  Nápoles. 

C.  Romances  fronteiriços  e  mouriscos. 

VIII.  Càballeros  de  Moclin. 

I  X .  Moro  alcaide. 

X.  M  Rei  ('bico  dr  Granada. 

XI.  0  Mestre  de  Calatrava. 

XII.  Víoriscote. 

XIII.  Mis  arreos  son  las  armas. 


CAROLINA  MICHAÉLIS  DL    VASCONCLLLOS 


D.  Romances  de  Cautivos  e  Forçados. 

XIV.  Moriana  e  Gralvão. 

XV.  Zaide. 

XVI.  Mi  padre  era  de  Ronda. 

X\  II.  Dragut. 

E.  Romances  do  ciclo  carolingio. 

XVIII.  (a)  Roncesvales; (b)  Almirante  Gruarinos;  (c)  D.  Bel- 
trão. 
XIX.  D.  Alda. 
XX.  Gaiferos. 

XXI.  Valdevinos. 

XXII.  Marquês  de  Mantua. 

XXIII.  Calamos. 

XXIV.  Montesinos. 
XXV.  Durandarte. 

XXVI.  Conde  Claros. 

F.  Romances  do  ciclo  bretónico  e  de  livros  de  cavalarias. 

XXVII.  Lançarote. 

XXVIII.  D.  Duardos  e  Flérida. 

G.  Romances  de  assunto  clássico,  ou  bíblico. 

XXIX.  Hero  e  Leandro. 
XXX.  Trova. 
XXXI.  Nero. 
XXXII.   David. 

li.  Romances  novelcscos. 

XXXIII.  Conde  Alarcos. 

XXXIV.  Silvana. 
XXXV.  A  [nfantinha. 

X XXVI.  Donzela-varào. 
XXXVII .    Tiempo  es,  d  cetoUlere, 


ROMANCES    VELHOS  25 


I.  Romances  líricos. 

KXXVUI.  0  desastrado. 

XXXIX.   A  rola-viuva. 
X  L.  Mês  de    Maio. 
XLI.  Maldita  seàs  ventura. 
XLII.  Placer  no  sabe  de  mi. 
XLIII.    Tieinpo-bneno,  tiempo-btieno. 
XLIV.   La  bella  mal-maridada. 

J.  Romances  en  versos  pareados. 
XLY    Maldições  de  Salaya. 

K.  Romances  ainda  não  identificados. 

XLV1.-  LI. 

II 
Referências  a  Romances  Velhos  em  obras  de  autores  portuguesas. 


Aj  Romances  relativos  á  história  e  á  tradição  histórica 
de  Hespanha. 


I.  El  Rei  Rodrigo 

Comquanto  haja  náo  só  indícios,  mas  provas  conjecturais 
claríssimas,  da  existência  de  cantares  de  gesta  relativos  ao 
último  rei  godo  (1 1,  as  lendas  que  lhe  dizem  respeito  entra- 
ram na  tradição  por  via  erudita,  ao  que  parece  (2).  Os  ro- 


(i)  Vejam-se  a  este  respeito  as  páj^s.  115-133  da  obra  magistral  de  investi- 
gação e  de  crítica,  entitulada  Leyendas  <iel  último  Rèy  (iodo,  a  que  já  me  referi, 
assim  como  na  .lnto/o:;in,  XI  as  págs.  133-175  que  servem  de  comentário  aos 
textos  Impressos  nos  vol.  VIII,  p.  2-14;  IX,  p.  175-178;  X,  p.  27-32. 

1  2)  As  prosificaçoeg  «los  cântaros  supos'os,  passaram  por  tantas  e  taes  alte- 
rações, perdendo-se  a  'pie  foi  feita  directamente  sobre  o  original,  que  nfto  e  pos- 
sível reconduzi-las  A  forma  métrica. 


CAROLINA  MICHAELIS  DE    VASCONCELLOS 


mances  velhos  sobre  I).  Rodrigo,  ;i  Cava  e  D.  Julião  1 1  Foram 
derivados  por  algum  poeta  letrado,  com  mais  ou  menos  Fanta- 
sia e  habilidade,  da  novelesca  Crónica  Sarracinú  Se  Bedro 
de  Corral  (c.  1434:  (2).  E  comquanto  o  acto  final  da  lenda 
penitência,  morte,  sepultura — tosse  localizado  ea-initio  e  ex- 
clusivamente em  Portugal  (Viseo,  Pederneira),  também  se- 
gundo tradições  antiquíssimas  (3),  parece  que  nem  mesmo  os 
que  se  referem  a  esse  trágico  assunto,  se  popularizaram  n< 
reino.  Por  ora,  pelo  menos,  não  se  colheu  nenhuma  versão  do 
Romance  do  Penitente  (4)  que,  transmitido  oralmente,  subsiste 
nas  Astúrias  (õ)  no  Bierzo,  na  Galiza  (6)  e  além-mar  no  Chi- 
le (7),  embora  o  protótipo,  imortalizado  pelas  citações  de  <  'er- 
vantes  no  I).  Quixote  (8),  se  perdesse  totalmente. 

Um  romance  isolado  português,  da  çolçcçâo  do  Algarve 
de  Estácio  da  Veiga,  que  principia: 

Dom  Rodrigo,  dom  Rodrigo,— rei  sem  alma  e  sem  palavra, 
parece  modernamente  moldado,  com  liberdade  poética,  sobre 
o  texto  castelhano: 


(i)  Primavera  (que  citarei  pela  abreviatura  Pr.)  Números  2-7,  com  mais  três 
adicionaes  na,  Antologia  IX,  175-178.  —  Duran  dera  25,  por  incluir  no  seu  Roman- 
cero  as  ampliações  de  poetas  conhecidos  do  século  xvi'. 

(2)  Teve  numerosas  edições  no  século  xvi  e  entrou  na  literatura  de  cordel. 
Mas,  aparentemente,  nào  na  dos  portugueses. 

í  3  V.  Leyendas  p.  142  s.  e  todo  o  Cap.  III  da  Tercera  Parte,  dedicado  ás  Le- 
yendas  tradicionales  en  Portugal.  —  Claro  está  que  o  autor  nào  perde  palavras 
com  o  Poema  da  Cava,  entre  todos  os  apócrifos  forjados  no  século  xvn,  talvez 
o  aborto  mais  monstruoso. 

(4)  Nem  mesmo  em  Tras-os  Montes. 

(5)  Recolhidos  por  Munthe  e  Pidal,  conforme  deixei  exposto  na  Revista  Lusi- 
tana II  1  72. 

(6)  Recolhidos  ha  pouco  por  Said  Armesto,  e  impressos,  com  os   outros,   nas 

a  p.   176. 

(7)  Assim  o  diz  I ».  Maria  Goyri,  nas  Reeras  N.°  10.  Não  o  encontro  todavia  na 
Cultura  entre  Los  Romances  tradicionales  en  América. 

(8)  Parte  II.  c.  26.  Cfr.  I.  c.  27  e  II  c.  ^  e  40.—  Ò  romance  Despuès  que  el  rey 
a, ai  Rodrigo- à  Espafta  perdido  ha  Ha  (impresso  num  Pliego  Suelto  de  1550,  assim 
como  nos  <  'ancionétos  de  Romances  do  mesmo  ano,  e  já  anteriormente,  naquele  que 
nfto  tem  data»,  é  análogo.  Mas  não  contém  o  verso 

COmen,ya  me  comeu  Por  do  mas  pecado  hahía. 


ROMANCES   VELHOS  27 


En  Ceuta  está  Don  Rodrigo  —en  Ceuta  la  bien  nombrada  (Vi. 

De  um  único  romance  velho  posso  assinalar  um  eco  tardio, 
cortesão,  mas  pxsitivo,  pois  foi  registado  por  um  historiador 
grave  o  sincero.  Eco  curioso,  por  se  relacionai-  com  aqueloutro 
rei  de  Hespanha  que,  por  culpas  próprias,  perdeu  a  coroa  e  a 
vida,  vencido  por  Mouros,  sendo  procurado  em  balde  no  campo 
de  batalha  e  continuou  durante  séculos  vivo  na  memoria  do 
povo,  cercadíssimo  de  lendas,  cheias  de  avisos,  preságios  e 
profecias. 

Na  última  travessia  de  D.  Sebastião  á  Africa,  um  dos 
cantores  predilectos  da  corte  entoou  a  lamentação  de  Dom 
Rodrigo.  E  Frei  Bernardo  da  Cruz,  eapeiâo-mór  da  armada. 
e  portanto  testemunha  ocular,  que  o  narra  na  sua  Crónica  de 
I).  s<>bastiáo  (2).  Depois  de  haver  falado  de  diversos  prenún- 
cios funestos  da  jornada  de  Alcácer-Quebir,  diz:  Outro  cajá 
significação  não  se  engeitou,  foi  que,  hindo  pelo  mar.  Domingos 
Madeira,  músico  de  el-rei(S),  cantando-lhe  e  tangendo  cm  uma 
viola,  començoude  cantaram  romance: 

[I]  Ayer  fuiste  r&y  de  hispana— liou  no  t  ienes  un  castiUo; 

tanto  isto  foi  tomado  de  moo  agoiro  que  logo  Manuel  Cores- 
ma  lhe  disse,  deixasse  aquellã  cantiga  triste,  e  cantasse  outra 
mais  alegre.  * 

O  padre-capelão  recordava  imperfeitamente  o  teor  de 
texto.  No  romance,  de  que  o  trecho  elegíaco  faz  parte,  e  prin- 
cipia: 

Las  huestes  d<-  Don  Rodrigo    desmayaban  y  /miau  (Pr.  5) 

(4),  é  o  próprio  rei  desbaratado  que  chora  a  sua  desgraça: 

Ayer  era  rey  de  EspaUa    hoy  no  lo  sou  de  "na  villa 


(i  )     Como  se    vê,  ambos  tem  a  asaonáncia  á-n. —  <>    coleccionador  dos  roman- 
ces de  Loulé  confessa    a  p.  279)  não  haver  encontrado  ahi  vestígio  algum  d'este 
romance  de  /).  Julião',  nem  tao  pouco  dos  textos  relativos  ao  Cid  {Cavaleiro  5 
<■  I).  Rodrigo).  Mas  nem  por  isso  é  provável  que  Estãcio  da  Veiga  os   COBipOSesse 
que  lições  tradicionaes,  fragmentárias,  o  incitassem  a  fazè-lo. 

(2)  Ed.  Herculano  e  Paiva,  Porto  1837  (p.  308). 

(3)  Domingos  Madeira  nào  se  encontra  mencionado  nas  listas  de  Sousa  Vi- 
terbo, Artes  e  Artistas  em  Portugal,  Porto  1892.— Sei  todavia  que  passou  ao 
serviço  de  Felipe  II.  —  Vid.  C.  M.de  Vasconcellos,  Pedro  de  Andrade  Caminha  p.  56. 

(4)  O  romance  deriva  da  Crónica  Sarracina,  Cap.  207  e  208. 


20  CAROLINA  MICHA£LIS  DE    VA8C0NCELL08 


(continua  em-ia).  E  muito  provável  que  esse  pranto,  que  tem 
vários  paralelos,  em  prosa  e  em  verso,  fosse  cantado  inde- 
pendentemente da  parte  narrativa  (1);  mas  náo  se  percebe 
por  que  motivo  os  músicos  o  transpuseram  da  l.a  pessoa 
para  a  2.a,  de  mais  a  mais  na  presença  de  um  rei. 

A  reminiscência  mais  notável,  por  estar  efectivamente  na 
1.a  pessoa,  é  a  que  ha  num  romance  de  outro  destronado,  o 
Rei  Chico  de  Granada: 

Que  ayer  era  rey  famoso     e  hoy  no  tengo  tona  iam 

Das  paródias,  propositadas  ou  não,  em  certas  offenba<hiaclns 
modernas,  em  que  figuram  reis  em  exílio,  talvez  valeria  mais 
nâo  dizer  nada.  Mas  soam-me  nos  ouvidos  umas  trovas  com 
dois  sentidos,  cantadas  em  Lisboa,  em  presença  dei  rei  D.  Luis 
e  sua  esposa,  e  que  diziam: 

Hontem  tinha  uma  coroa— e  hoje  não  tenho  nem  meia. 


* 
*  * 


Em  três  ou  quatro  composições  de  poetas  palacianos  do 
Cancioneiro  Geral  descobri  reflexos  das  lendas  de  D.  Rodrigo, 
como  já  expliquei  em  outro  lugar  (3).  E  embora  náo  se  reíi 
rani  directamente  a  romances  conhecidos,  volto  a  eles  afim 
de  fazer  algumas  rectificações  e  adições.  Tanto  a  alusáo  ao 
preságio  de  Dom  Rodrigo  (III,  381 )  (4)  como  a  outra  á  penden- 


(i)  No  Cancionero  Musical,  publicado  por  JJarbieri,  ha  outra  canção  fragmen- 
tária do  mesmo  ciclo,  relativa  ao  sepulcro  do  mayor  v  siu  ventura  Rey  d'  Espana 
Dou  Rodrigo  (N.°  320). 

(2)  Também  subjectivo,  e  em-áz.  Começa: 

El  ano  de  cuatrocientos — que  noventa  y  dos  corria, 

—  Desconhecido  até  1861,  foi  então  reimpresso  por  Eduardo  Porebowicz  sobre 
um  PliegQ  Suelto  de  Granada,  de  1568,  e  repetido  na  Antologia  IX  203.  É  o  N.°  85 
do  opúsculo  sobre  Una  colecciôn  de  plieços  sueltos  de  Granada  existente  eu  la  Bi- 
blioteca ( 'niversitaria  de  Cracóvia. 

(3)  Revista  Lusitana,  II,  174. 

(\  Creio  que  Francisco  López  Pereira  pensava  nas  fatídicas  inscripçòes  c 
figuras  árabes,  contidas  na  arca  cerrada  da  Casa  dos  Reis  ou  Cova  de  Hercules  da 
Lenda  (Pr.  2).  A  interpretação  que  dei  outr'ora,  lembrada  das  figuras  proféticas  da 
Kortuaa  e  da  Morte  nos  romances  respectivos  {Pr.  $.*),  é  menos  plausível,  porque 
essas  aparições  não  são  privativas  de  romances  de  D.  Rodrigo. 


ROMANCES   VELHOS 


ca  (=poenitentia)  dei  rei  no  moimento  sepulcral,  com  a  cobra 
roedora  (IIT,  196),  podiam  derivar  da  Crónica  Sarracina.  A 
terceira,  porém,  relativa  aos  amores  funestos  com  a  filha  de 
D.  Julião  (II,  4),  reconduz-nos  a  textos  mais  antigos,  pois 
apresenta  o  nome  d 'ela  na  forma  arcaica  La- Taba  (1).  Mas 
quaes  seriam?  As  escrituras  antigas  de  um  convento  de 
Coimbra,  citadas  pelo  arcipreste  Kodríguez  de  Ahnela  no 
Sumario  historial/  (2).  A  Crónica  do  Mouro  Rasix,  na  tradução 
de  Mil  Pérez,  que  ainda  foi  utilizada  no  século  xvi  por  André 
de  Resende  e  Gaspar  Barreiros?  (3).  Qualquer  das  traduções 
galego-portuguesas  da  Crónica  General,  quer  fosse  a  da  Pri- 
meira, do  tempo  de  D.  Denis  (4),  quer  uma  da  refundição 
de  1344  (5),  do  tempo  de  D.  João  I  e  seus  ínclitos  filhos?  (6). 
Ou  antes  a  última,  em  partes  ampliada,  em  outras  partes 
abreviada,  de  que  sobrevive  tira  belo  exemplar,  proveniente 
da  livraria  do  Condestável  D.  Pedro  (7),  cujo  brasão  e  mote 


(i)  O  erro  Letabla  no  Cancioneiro  Geral  (f.  64  f.)  deve  ser  emendado  para  La~ 
taba,  conforme  disse  Pidal;  e  não  para  La  Caba,  como  eu  julgara. — Na  impres- 
são fragmentária  da  Crónica  de  145"/  (pelo  Dr.  Nunes  de  Carvalho),  a  filha  de 
D.  Juliào  chama -se  ora  Alataba  Allataba,  ora  Lataba  (165),  ora  Allacaba  (p.  160), 
por  confusão  entre  ceí  curto  da  antiga  caligrafia,  cfr.  Leyendas,  p.  122  8. 

(2)  O  autor  das  Leyendas  aventa  a  hipótese  de  essas  escrituras  terem  sido 
Antes  do  convento  de  LorvAo,  ligando  (na  minha  opinião)  importância  demasiada 
ao  facto  que  na  trova  burlesca  sobre  a  queda  do  cavalo  de  João  Gómez  (1498)  se 
lala,  no  estribilho,  do  mosteiro  de  Lorvão,  como  do  sitio  em  que  o  culpado  havia 
de  purgar-se  do  crime  de  haver  ocasionado  a  morte  do  seu  rocinante.  —  O  vocá- 
bulo, imortalizado,  uni  século  depois,  por  Cervantes,  tem  ahi  a  forma  rocynam. 

(3)  Somente,  se  nas  transcripçòes  já  andava  interpolada  a  mesma  prosificação 
do  cantar  de  gesta  que  figura  na  Crónica  de  1344  (V.  Antologia  XI,  259).  Creio 
(pie  realmente  lá  estaria.  Além  dos  dois  lusismos  (esteo  por  pilar;  o  rei  por  el 
rei)  descobertos  por  Menéndez  Pidal  (Crónicas  «enerales,  p.  26-49),  ha  outros, 
muito  mais  curiosos  (p.  ex.  b estias,  tradução  errada  de  beestas—balistas) . 

>4j  V.  Grundrifs,  p.  211.— Os  trabalhos  de  Menéndez  Pidal  impõem  á  nação 
portuguesa  o  dever  de  finalmente  trazer  á  luz  o  que  resta  d'essa  historiografia,  de- 
rivada, de  Portugal  o  Velho. 

(5)  No  Livro  de  Linhagens  do  Conde  de  Barcelos  (Tit.  III,  §  16)  ha  apenas 
resumidíssimas  noticias. 

(6)  V.  Revista  de  Arckivos,  Julho  de  1903  e  Leite  de  Vasconcellos,  t  '///</  caro- 
nica  de  1404,  Lisboa  1903. 

(7)  Vid.  C.  M.  de  Vasconcellos,  Uma  obra  inédita  do  Condestável  em  Homenaji 
,i  Menéndez  y  /'elayo.  Vol.  1,  p.  687.  Pela  edição  fragmentada  do  Dr.  Nunes  de  Car- 


ÒAROLINA  MICHAELIS  DE    VASCONOE LLOti 


refulge  no  frontispício  do  MS.  X."  \  da  parte  portuguesa  da  Bi 
blioteca  Nacional  <le  Paris? 

A  última  referência  do  Canci<>n<ir<-  Geral  (II,  283    é  abso 
lutamente  incolor. 

Quanto  á  cobra  e  ao  castigo  judicial  (do  empipar  ou  eneu- 
bar,  tão  frequente  nos  Contos  Populares,  posso  apontar  duas 
alusões,  uma  histórica,  outra  poética:  esta  última  d<i  Luis  dê 
Camões. 

No  Atito  de  FUodemo  'Acto  III.  Scena  3)  um  monteiro,  la- 
lando cm  estilo  joco-srrio.  diz  de  uma  rapariga  formosa  que-, 
por  meia-hora  de  sua  conversação,  se  poderia  sofrer  pquc  ha 
de  mais  horroroso:  huma  pipa  com  cobra  e  galo  1  -  e  dmiinha, 
como  a  parficidfy  sob  uma  condiçfío:  '■"//'  tanto  que  o  pregão 
dissesse  o  porquê  í2). 

O  trecho  histórico  c  das  Lendas  da  índia  de  Gaçpar  Co- 
rrêa.  O  cap.  LXVI,  relativo  ao  ano  1041».  trata  de  um  caso- 
crime: 

De  huma  nova  justiça  que  se  fez  cm  (loa.  sendp  <>  Governa- 
dor  em  ./>/<>,  de  huma  molhev  da  terra  <juc  o/andou  mala)'  sen 
marido  por  hum  homem  (ta  terra  quê  comelta  adulterava. 

....  por  sentença  da  rolaram  foi/  levada  ao  cais  da  cidade 
onde  em  hum  panuo  pequeno  foi/  metida  em  huma  pipa,  e  me- 
terão dentro  com  ella  hum  cá<>,  e  hum  gato,  e  hum  gálio,  e  hum 

valho  vê-se  que  essa  Crónica  tardia  (quanto  a  Portugal  continua  até  1457)  é,  ainda 
assim,  uni  elo  importante  na  série  das  C/onicas  Generales.  Dos  capítulos  dedica- 
dos ás  lendas  de  I).  Rodrigo  podem-se  extrahir  diversas  emendas  para  o  texto 
castelhano  (Mb.  2-I-2  da  Bibl.  Real  de  Madrid',  além  da  que  indiquei. 

Aproveito  o  ensejo  para  aqui  exarar  uma  rectificação.  No  opúsculo  citado  rehro- 
me  três  vezes  á  Carta-Proémio  do  Marques  de  Santillana,  tentando  fixar-lhe  a  data, 
aparentemente  de  modo  contradicterio  (p.  652,  654  e  685  1.  Mas  onde  se  ir-  entre 
Oi  aunos  ,lc  1 4jj  e  1438,  lia  erro  de  imprensa.  Leia-se  1445.  Este  ano  marca  o  ter- 
mo a  (/ii<i,  porque  nele  o  Condestávcl,  nascido  em  fins  de  1429,  e  que  já  então  ha- 
via composto  (tlçunas  cesas  gentiles,  contava  15  a  ió  anos,  não  sendo  provável 
que  o  Marquês  lhe  dirigisse  um  Sumário  de  Literatura  Geral  em  idade  ainda  mais 
verde;  1458  é  o  termo  ,/,/  quem  (morte  do  Magnate  castelhano).  Mas  este  termo 
podemos  atrasá-lo  até  1449  (data  da  batalha  de  Alfarrobeira),  porque  o  Re 
estava  vivo  quando  se  trocou  a  correspondência  de  que  resultou  o  Proêmio. 

(1)      (julo,  en  vez  àt gato  pode  ser  erro  de  leitura,  mas  também  variante,  como 

■  do  trecho  de  Gaspar  Corrêa. 
( -'  atou  de  interpretar  este  passo. 


ROMANCES    VELHOS  81 


bugio,  e  huma  cobra  e  fundarão  a  pipa  com  somente  htms.  bu- 
racos de  verruma  abertos  per  que  resfolgasse,  e  a  puserão  no 
mar,  vasando  a  mure.  e  a  levou  a  justiça  hum  pedaço,  ao.  que 
ella  dava  grandes  brados  dizendo  que  a  cobra  a  picava  e  o  bu- 
gio a  mordia,  e  dentro  todos  fazião  peleja...  E  quitado  a  puserão 
no  mar  derão  hum  pregão  que  dizia:  Justiça  que  El  ttey  X.  S. 
manda  fazer  que  esta  molher  moyra  morte  natural  antre  bru- 
tos  aniihaes  por  matar  sen  marido    1  . 


II.   Bf.RN  Vlv'  !>«  >  DO  <  ÍARPIO. 

Das  lendas  sobre  o  campino,  fabuloso,  da  independência 
da  pátria  contra  Carlos  Magno  e  os  seus  paladinos,  também 
nâo  posso  apontar  rastos  literários  antigos  (2).  Nem  mesmo  o 
seu  nome  parece  ter  ganho  foros  de  popularidade  como  oa  dos 
doze  pares  era  geral  (3)  e  em  especial  Roldão,  Reinaldos,  Oli- 
veros,  Valdevinos.  Todavia  ha  romances  tradicionaes  (4)  que 
lhe  dizem  respeito,  mas  em  transformação  novelesca,  muito 
degenerada,  relativos  á  libertação  do  pae  preso,  e  que  sáo 
paralelos  de  textos  cantados  nas  Astúrias  (5).  Bernardo, dege- 
nerou em  Dom  Garfos  (6)  quando  náo  é  simplesmente,  «o  so- 
brinho do  ('onde.  -  Tanto  mais  singular  é  o  facto  de  as  lendas 
Be  terem  desenvolvido,  no  século  xvni,  por  mero  capricho  de 
um  eclesiástico,  num  verdadeiro  livro  de  cavalarias  <7  . 


(i)  Vid.  Ed.  1862;  Vol.  IV-2,  p.  576.O  Governador  era  D.  Joio  de  Castro,  o 
heroe  á  antiga. — V.  Lendas,  IV-2-576. 

(2)  Como  entidade  puramente  poética  n&o  t  nomeado  no  Lino  de  Linhagens. 
A  respeito  d'ele  vid.  Antologia  X,  176-216. 

Os  que  a  uma  mesa  comem  pão,  donde  veio  a  fórmula  a  tavola  redonda  dos 
dose  pares  de  França,  muito  usada  em  Portugal. 

4  Almcida-Garrett  U.  295;  T.  Praga,  Nos.  24-26  da  l.a  impress&O.  Na  nova 
ediçfto  deve  entrar  no  Vol.  lt,  visto  faltar  no  ciclo  carolíngio.  — Cfr.  Rev.  Liis. 
11.  201. 

(5)     Nos.  9  e  10.  Cfr.  Antologia  X.  Nos.   10,  li  e  12  (inédito). 

to       \s  vogaes  0-./-0.  em  lugar  de  e-á-o. 

(7  ./  verdadeira  terceira  parte  da  História  de  Carlos  Magno,  em  </ne  se  tscr*- 
vem  as  gloriosas  acções  e  victorias  dt  Bernardo  dei  Carpia,  do  Presbítero  de  Chaves 


32  CAROLINA  MICHAltlS   Of    VA800NCELLi 

Quanto  a  citações  ha  o  Beguinte.  0  verso 

|2]  Mensajero  eres,  amigo,— do  mereces  culpa,  no 

contido  no  romance  mais  velho  do  ciclo: 
Con  cartas  y  mensajeros—d  rey  ai  Carpi 

foi  memorado  em  Portugal.  Alega-o  ura  poeta  do  Cancioneiro 
(feral,  o  culto  humanista  João  Itodríguez  de  Sá  e  .Meu. 
num  brinquinho  satírico.  Dirfgindo-se  a  uni  Rifão  ou  Vilance 
te,  sem  sal,  que  de  Castela  fora  enviado  a  uma  dama  do  paio 
por  um  português  namorado  (creio  que  era  1498)  e  despertara 
ii  hilaridade  dos  cortesãos,  diz,  em  frase  pouco  elegante,  mas 
portuguesa  (2): 

Passaareis  grande  pertguo 

se  noui  fora  esta  rressaro 

para  aver  de  nós  perda;» 

serdes  mesageyro ,  amigo, 

que  nom  tendes  ctilpa,  r.am. 

O  que,  transposto  para  ortografia  e  construção  menos  arre- 
vesada  significa:  para  haverdes  de  nós  perdão,  ferieis  passado 
grande  perigo;  isto  é:  dificilmente  teríeis  alcançado  perdão 
de  nós,  se  não  fosse  a  razão  de  serdes,  etc.  (3).         , 

Posteriormente,  foi  Gil  Vicente  que,  no  ario  de  Í526,  no 
seu  Templo  cVApotto,  o  pós  em  boca  de  um  embaixador,  em 
replica  ao  porteiro  do  santuário  que  não  o  queria  deixar  en- 
trar, e  por  tamanha  descortesia  recebeu  o  título  de  majadero 
(em  troca  de  iuensaje.ro  ou  mandadero), 

Majadero  sois,  amigo,— no  mereceis  culpa,  no  {X), 

comquanto  nHo  tivesse  responsabilidades*,  por  -cumprir  or- 
dens  . 

Alexandre  Gomes,  Flaviense.—  Citada  por  Gayangos;  p.  LXIV  b.,  e  por  Menéndez 
y  Pelayo,  OHgeues,  p.  CXXVII,  assim  como  na  Antologia  XI,  p.  216    A  obra  n&o  foi 

catalogada  por  Inocêncio  da  Silva. 
ií     Ou  non, 

(2)  Vol.  Ill  302  (I.  182  e).  O  empresário  da  farça  é  Simão  da  Silveira;  o  incri- 
minado autor  do  Vilancetc,  certo  I.opo  Furtado. 

(3)  Para  evitar  tranecripções  duplicadas,  ou  longas  exp  icações,  farei  o  treslado 
de  testos  nfto  com  servilismo,  mas  com  critério,  pondo  sinaes  de  pontuação,  intro- 
duzindo entre  [    |  letras  e  palavras  omissas,  e  pondo  entre  (      as  supérflua.-. 

(4       Ohms,    Vol    11  para  supor  que  majadero  seja  errata. 


ROMANCES  VELHOS  33 


Náo  é  todavia  certo  que  as  duas  citações  derivem  do  ro- 
mance indicado,  pois  o  mesmo  verso,  proverbial,  se  encontra 
em  outro:  num  do  Conde  Fernão  González,  cuja  maior  antigui- 
dade e  grande  popularidade,  mesmo  cm  Portugal,  logo  mos- 
trarei. Com  leves  variantes,  cm  metro  antigo  ou  cm  forma 
francamente  amétrica,  aparece  também  em  outros  textos  ar- 
caicos, sempre  que  um  vassalo  recebe  do  seu  rei  e  senhor  car- 
tas ou  mensajerias  que  o  embravecem,  comquanto  nâo  demons- 
tre a  sua  ira,  lembrado  da  inviolabilidade  dos  embaixadores 
(ou  liberdades  de  messigeiro,  como  era  costume  dizer)  (1). 

Na  Primeva  Crónica  General  (cap.  831)  é  o  Cid  quem  apli- 
ca a  si  próprio  a  lei  de  protecção,  quando  D.  Sancho  o  manda 
a  Zamora  com  ingrata  missão  a  D.  Urraca,  â  qual  diz:  Man- 
dadero  et  carta  mm  deue  mal  prender. 

Xa  Crónica  rimada  (v.  509)  é  o  portador  de  um  cartel  de 
desafio  que  proclama: 

Me  nsaje.ro  con  cartas  non  deue  tomar  mal  nin  recebir  dano. 

No  Poema  de  Alexandre  (e.  741))  ouvimos  o  verso  alexan- 
drino: 

( 'a  nunca  deuen  mal  prender  los  messageros  (2). 

No  de  Alfonso  XI  (c.  2.391): 

Que  carta  ni  mensagero — non  devem  mal  rescebir. 

Na  Historia  de  Yespasiano  (cap.  7)  é  Bárrabas  que  acon- 
selha a  Pilato,  não  prendesse  o  enviado  do  emperador:  Sen- 
tior,  não  <>  faeaes,  que  lie  messegeiro  e  nom  tem  culpa,  nem  de- 
rc  receber  mal.  Na  versão  castelhana  temos  a  forma  abrevia- 
da: Ca  mensajero  no  deue  recebir  mal  (3). 

Nas  aplicações  mais  modernas  do  ditado,  a  forma  alocu- 
tiva  dos  romances  é  a  única  usada.  No  Cancionero  general 
p.  c\.  uma  Carta  de  um  competidor  vai  acompanhada  da 
desculpa: 

Mensajera  sois  amiga — no  mereceys  culpa,  no  (4). 

No  D.  Quixote,  Sancho  Panza  o  emprega,  também  na  2.a 


(i)     Vid.  p.  ex.  Gaspar  Corrêa,  Lendas,  Vol.  III,  p.  125. 

(2)  Texto  O.  No  códice  488  de  Paris  ha  a  variante:  Que  nunca  deveu  prender 
mal  los  mandaderos.  (Estr.   776  da  nova  edição  de  Morcl-Fatio  (Dresden,  1906). 

(3)  Bibl.  Nueva  de  Aut.  Esp.  Vol.  VII,  p.  382. 

(4)  Nám.  270  da  ed.  moderna.  Esparsa  de  Lope  de  Sosa. 

B 


CAROLINA  MICHAÉLIS  DE   VASCONCELLOS 


pessoa  do  plural  (m.)  (1).  O  mesmo  dá-se  numa  comediu   do 
Cátderon:  Mandadero  sois,  amigo;  no  mereceis  culpa  anu.  (2  . 
Um  romance  de  Quevedo  (XLV]  da  Musa  VI»  principia: 
Mensagero  soy,  senora;      nó  tenéiè  que  me  culpar... 

E  baste. 


Se  compararmos  todas  estas  orações,  directas  e  palacianas, 
com  a  forma  impessoal,  didáctica  e  de  realismo  mais  rude,  de 
verdadeiro  provérbio  popular:  Quemé  mensageiro,  não  merece 
pancada — Quem  é  mensageiro,  não  merece  pena — Quem  traz 
recado,  não  é  culpado  (3),  forçoso  é  admitir  que  os  auctores 
citados,  tanto  portugueses  como  castelhanos,  tinham  era 
mente  versos  octonários  de  romances.  Talvez  variantes  dos 
que  subsistem. 

Agora,  se  os  provérbios  nasceram  dos  romances  ou  dos 
cantaras  de  gesta  (como  pensam  Milá  (4)  e  Pidal  (5),  porque 
olharam  exclusivamente  para  os  textos  épicos,  e  nao  para  os 
rifões  vulgares),  ou  se  os  jograes  utilizaram  adágios  preexis- 
tentes, cunhados  pelo  bom  sengo  antigo,  que  deu  forma  a 
tantas  coisas  boas  e  bonitas,  salomónicas,  aperfeiçoando-os, 
é  problema  que  nao  é  possível  resolver  (6). 


III.  Fernão  Gonzalez  (7)  * 

O  heroe  que  libertou  o  condado  de  Castela  (da  suserania 
de  Leão),  é  mencionado   laconicamente  no  Livro  de  Linha- 


(i)     Parte  II,  c.  10:  Mcnsajero  sois  amigo,  no  ineteceis  culpa,  tion. 

(2)  Ed.  Rivadeneyra.  Vol.  IV,  p.  467. 

(3)  Colhi-os  na  boca  de  lavradores  de  Aguas  Santa?;  já  foram  registados  no 
Adivjih  io  de  Bento  Pereira. 

(4)  Poesia  llrroico-Popitlar,  p.  192. 

(5)  Homenaje  a  Pelayo,  I,  460,  onde  o  leitor  encontra  quasi  todos  os  exem- 
plos que  aqui  juntei. 

•  Lusitana,  II,  199,  pronunciei-me  muito  decididamente  a  favor 

da  maior  idade  dos  provérbios. 

(7)      Além  do  estudo  de  Menéndez  Pidal    acima  mencionado,  veja-se   Antologia 
XI,  217-264. 


ROMANCES    VELHOS 


gens  (1),  cujo  autor  conhecia  uma  velha  Estoria  (2)  do  va- 
lente que  por  antonomásia  se  chamava  el  Buen  Condi'  (3), 
provavelmente  o  Poema  composto  no  mosteiro  de  Arlança  por 
um  Clérigo  ilustrado.  As  Crónicas  Geraes  nas  suas  diversas 
refundiçõeã  tornaram -no  conhecido  entre  os  letrados.  No 
tempo  do  romantismo  um  colaborador  do  Panorama  leni- 
brou-se  de  refrescar  a  sua  memória  (4).  Um  folheto  da  Livra- 
ria do  Poro,  que  ainda  hoje  se  reimprime  (5),  é  versão  de 
um  mezquinho  Pliego  de  cordel  castelhano,  que  deriva  de 
outro  espalhado  logo  no  primeiro  tempo  da  imprensa  (6).  __ 

Em  Portugal  cantavam  no  século  xvi  pelo  menos  dois  ou 
três  dos  romances  velhos  que  lhe  di/sem  respeito  (7). 

Do  mais  belo 

Caslellanos  y  leoneses  -  tienen  grandes  divisiones  (Pr.  16) 
provém,  além  de  uma  serie  de  antíteses  épicas,  muito  imita- 
das em  romances  vulgares,  o  verso 

[3]  sobre  el  partir  de  las  tierras— y  el  poner  do  los  mojones 
O  primeiro  hemistíquio  foi  empregado  pelo  poeta  cómico  An- 
tónio Prestes  no  A  ido  dos  dois  irmãos.  Os  protagonistas — uni, 
Confiado,  e  outro  Cioso —  de  mal  com  o  pae  por  se  haverem 
casado  a  furto,  fazem  diligências  de  reconciliação,  com  medo 
de  serem  desherdados. 

CiOSO.  Acabaram  nossas  guerras, 

tão  crimes,  tão  contumazes. 
Confiado.    Agora,  vidas  sagazes! 

sobre  el  partir  de  las  tierras 

saibamos  conformar  pazes!   (h) 

(i)     Titulo  III,  $  20:  Port.  J/ou.  ffist.,  p.  249. 

(2)  Ih.  Tít.  X,  §  1  (p.  261}:  Este  D.  Gusto-Gomça  ■  que  morreo  na  lide 
que  u  contde  dom  Fcrnam  Gomçallvet  ouue  com  Almançor,  como  ea  deuisa, 

(3)  Poema  de  Al/ouso  XI,  estr.  145. 

14)  António  de  Oliveira  Marreca  O  Conde  soberano  de  Castella  Fernão  Gonçal- 
ves, 1844  e  1853,  e  posteriormente  num  vol.  impresso  no  Rio  de  Janeiro, 

(5)  Historia  curiosa  da  Vida  do  Conde  de  Castella  Fernão  Gonçalves  e  das  fa- 
çanhas emort:  dos  sete  Infantes  de  Lara.  A  ultima  edição  que  conheço  é  de  1902 
(Porto). 

(6)  A  respeito  d'essa  Historia  ou  Crónica  vid.  La  Leyenda  de  los  Infantes  de 
Lara,  p.  71  e  confer  Gallardo,  Ensayo  N.°  698  e  ss. 

(7)  Pr.  15-18. 

(8)  Autos,  p.  273  da  deficiente  reimpressão  moderna  (Porto,  1871). 


CAROLINA  MICHAÈLIS   DE   VASCONCELLOS 


Muito  mais  vulgarizado  era  o  que  principia 

[4]  Buen  Conde  FernánGonzález,       cl  rey  envia  por  vos  (Pr.  11.) 

impresso  nos  mais  velhos  Gancioneros  de  romances,  e  na  Silva; 
glosado  por  Alcaudete  numa  Tolha  volante  gótica   I  ),  <•  enxer 
tado  na  curiosa  Ensaladilla  de  cantares  viejos,  de  l'i;i 

tancia  10.  ingrediente  57),  que  terei  de  mencionar  ,i  miude 
Falei  mesmo  agora  do  verso  proverbial 

Mensajero  eres,  amigo,— no  mereces  pena,  no  (v.  9) 

dado  em  resposta  ao  enviado  dei  rey  do   Leão.  Outros  dois 
ocorrem  em  quinhentistas  portugueses.  O  hemistíquio  inicial 
é  citado,  como  se  fosse  título  de  romance,  na  comedia  Eufro 
sina  de  Jorge  Ferreira  de  Vasconcellos  (3),  que  o  trata  de 
antigualha  (4). 

É  em  Coimbra,  numa  palestra  entre  dois  cortesãos,  estu- 
dantes do  mosteiro  de  S.  Cruz,  que  um  deles,  alegre  e  folga- 
zão, increpa  o  outro,  por  ele  andar  pela  via  dos  melancólicos, 
sempre  taciturno,  bom  para  grosar  Recuerde  el  alma  dormi- 


(i)     Cerca  de  1530.  Vid.  Salva  N.°  1. 

(2)  F,  Wolf,  Ueber  eine  òammlung  spaniscker  Romanzen  in  Jlie^enden  Bliittern 
auf  der  Universitáts-Bibliothek  zu  Prag. — Wien  1850.  (p.  17-22). 

(3)  Esta  comédia  em  prosa,  no  género  das  Celestinas,  sem  a  genialidade  mas 
também  sem  a  licenciosidade  da  obra  castelhana,  foi  a  estreia  do  autor,  que  morreu 
em  1567,  e  não  em  1585,  como  é  costume  asseverar.  No  Proémio  ao  Príncipe 
D.  João  (1537-1553)  ela  é  designada  expressamente  como  primícias  de  meu  rústico 
engenho....,  primeiro  fruito  que  d'elle  colhi,  inda  bem  tenro.TZ  quando  Jorge  se  resol- 
veu a  dedicá-la  ao  herdeiro  de  D.  João  III,  talvez  pouco  antes  de  morrer,  já  ela  co- 
rria bastante  tempo  em  treslados  manuscritos  deturpados.  Innúmeras  alusões  a 
coisas  greco-latinas,  raras,  indicam  que  o  autor  mal  sairá  das  aulas  universitárias 
quando  a  começou. Creio  que  isso  foi  entre  1527  e  1534. 

(4)  Como  se  verá  de  outras  citações,  os  cortesãos  italianizantes  da  Escola 
Nova  desprezavam  romances  veihos  e  glosas  de  romances. — De  opinião  diversa, 
a  respeito  do  exemplar  de  que  tratamos,  era,  meio-século  depois,  quando  a  alu- 
vi;t<>  de  romances  artiticiosos,  mouriscos  e  amatórios,  hav'a  de  novo  valorizado  os 

primitivos,  o  autor  do  romance  Tanta  Zaida  y  Adalifa — tanta  Draguta  y  Daraja. 
pois  diz,  no  fim  da  sua  reprimenda: 

Puen  Conde  Femán  Gonzâlcz, 
Por  el  vai  de  las  Estacas, 
Ahiiío-vero,       JVuno-vero 
Viejos  son,  pêro  no  cansan.  (Duran  244) 


ROMANCES    VELHOS  37 


da.  Insinnando-lhe  que  já  náo  ora  moda  fazer  taes  estremos  de 
amor,  acrescenta:  isso,  senhor  meu,  passou  já  com  a  soberba 
dos  balandraos,  e  todas  essas  outras  antigualhas  de  POfi  aquel 
POSTIGO  VIKJO  \e]  1)1'  KN  CONDE  FeIíNAN  GQNZALES  (1). 

*     * 

Nos  Disparates  da  índia  (2),  de  Luís  de  Camões,  compostos 
depois  de  1553,  mas  cheios  de  reminiscências  e  recordações 
que  o  glorioso  expatriado  levara  de  Portugal,  o  verso  11.° 
[5]  Villas  y  castillos  tengo,— todos  a  mi  mandar  son  (e) 

serve  para  caracterizar  ricaços  fanfarrões. 

Deixai  a  hum  que  se  abone; 
diz  logo,  de  muito  sengo: 
Villas  y  caslillos  tengo, 
todos  á  mi  viandar  sone  (3). 

Então  eu,  qu'estou  de  molho, 
com  a  lagrima  no  olho, 
polo  virar  do  envés, 
digo-lhe  tu  ex  Mis  es 
e  por  isso  não  te  olho, 
pois  honra  e  proveito  não  cabem  num  sacco  (estr.  2) 

O  verso  parece   ter  tido  aplicação   proverbial,   pois   pro- 
duziu variantes  e   imitações  (4).   Temos  uma  p.  ex.  num  ro- 
mance asturiano  (No  12),  relativo  a  D.  Maria  de  Padilla.  E  o 
Mestre  de  Santiago  que  ahi  se  louva  proclamando: 
Villas  y  cibdades  tengo— e  freires  á  mi  mandado. 

Confer  Catálogo  Judio  Espaflol  N.°  5: 
Virias  (sic)  y  castillos,  Cide—me  han  dicho  que  hábeis  gaitado. 

* 

*  * 


(i)      Acto  I,  scena  I  (p.  i<S  da  ed.  de  1786):  Carióphilo  e  Zclótypo. 

(2)  O  verdadeiro  título  é  Disparates  seus,  na  Incha. 

(3)  A  rima  exige  o-e  paragógico.   E  muito   possível,   porém,    que    sempre    se 
cantasse  assim. 

(4)  Storck  Sâmmtlicke  Gtdicktt  /p,  375  apenas  diz  que  os  versos  13014  são: 
spanische  Romanzen-Vei st.  Confer  Zeitsclirijt  VII  p.  415. 


CAROLINA  MICHAELIS  DE   VASCONCELLOS 


Por  se  referir  ;i  um  passo  camoniana,  e  indirectamente,  ou 
antes  por  linhas  tortas,  a  Fernão  Gonzalez,  juntarei  aqui  mais 

uma  nota. 

No  Auto  de  FUodemo,  Acto  II.  Scena  *2.:|,  temos  conv< 
entre  o  idealista  Filodemo  (amador  pela  passiva],  e  0  mate- 
rialista Duriano  (?  mador  activo),  tratado,  segundo  a  moda  do 
tempo,  de  hereje  de  amor.  Este  confessa  que  não  trocaria 
«duas  pescoçadas»  da  amada,  «despois  de  [ela]  ter  feito  a 
tosquia  a  hum  frasco,  e  fali  arme  por  tu,  e  fingír-ee-me  bê- 
bada porque  o  náo  pareça,  por  quantos  sonetos  estão  escritos 
pelos  troncos  das  árvores  de  Valchiusa,  nem  por  quantas 
madamas  Lauras  vós  idolatrais».  Mas  antes  d'essa  conclu- 
são, moteja  dos  antagonistas,  «nuns  muito  bem  almofadados 
que  com  dois  ceitis  fendem  a  anca  pelo  meio,  e  se  prezam  de 
brandos  na  conversação  e  de  fallarem  pouco  e  sempre  coiu- 
sigo,  dizendo  que  não  darão  meia-hora  de  triste  pelo  tesouro 
de  Veneza;  e  gabam  mais  Garcilaso  que  Boscan — e  ambos  lhe 
saem  das  mãos,  virgens:  e  tudo  isto  por  vos  meterem  em 
consciência  que  se  não  achou  para  mais  o  Grão  Capitão  Gon- 
çalo Fernandes . » 

Storck,  que  tentou  de  balde  traduzir  e  comentar  essa  prosa 
arrebicada,  confunde  nas  Notas  o  libertador  de  Castela  com 
o  conquistador  de  Nápoles,  Gronzalo  Fernández  de  Aguilar  y 
de  Córdoba  (f  1513),  cuja  Crónica  só  saiu  em  1559,  mas  que 
antes  d'es-e  termo  era  geralmente  conhecido  (1),  pelos  seus 


(i)  Na  Crónica  rimada  de  Garcia  de  Resende,  uma  das  décimas  (a  152  a)  é 
dedicada  ao  Duque  Dom  Gonçalo  Fernández  d'Aguilar  e  seu  valente  coadjutor 
Pedro  Navarro.  E  diz: 

Vimos  o  gram  capitam 
([iie  tanto  honrou  Castella. 
Que  bondade!  que  razam! 
em  tudo  que  perfeiçam! 
*  iutro  tal  non  vimos  nella. 
Que  batalhas  que  venceo! 
que  senhores  que  prendeo! 
Meresceo  ter  triumphal  carro! 
Vimos  o  Conde  Navarro, 
quem  foi,  e  como  se  ergueo! 
Francisco  de  Moraes  e  Damião  de  Góes  também  se  ocuparam  do  Conde. 


ROMANCES   VELHOS  39 


feitos  heróicos  e  triunfos,  mas  também  pelas  lendárias  (Jantas 
grandes.  Por  mera  distracção,  bem  se  cê  (1). 

I V .  Os  Infantes  de  Lara 

Mal  se  pôde  duvidar  que  essa  sombria  tragédia  fosse  fa- 
miliar aos  Portugueses  (2).  Quem  quiser  demonstrar  isso,  não 
encontra  todavia  materiaes  abundantes.  Uma  página  no 
Livro  de  Linhagens  (3);  narrações  mais  desenvolvidas  nas 
Crónicas  Qenerales  nacionalizadas,  mas  por  ora  inéditas;  o  já 
citado  magríssimo  folheto  de  cordel  que  costuma  andar  junto 
ao  de  Fernão  Qonzález  (4);  meia-duzia  de  alusões  (5):  eis  tudo. 

Quanto  a  romances,  d'esta  vez  é  (iil  yicenteque  por  duas 
v<zes  atesta  a  popularidade  de  um  d'  eles-  É  o  que  principia 
A  Ccdatrava  la  Vieja—la  combateu  eastellanos  (Pr.  19)  (6) 

ou  pelo  menos  a  última  das  três  partes  de  que  consta;  isto  é  a 
queixa  de  D.  Lambra  (7): 

Yo  me  estaba  en  Barbadilto—en  esa  mi  heredad  (8). 

Mais  do  que  esse  intróito,  sáo  todavia  as  rudes  ameaças 
dos  sobrinhos,  por  ela  repetidas  (antigos  destroços  que  saí- 
ram da  segunda  desta,  prosificada  na  Crónica  de  1344)  (9),  que 


(1)  Sàmmtliche  Gedichte,  VI,  398,  (1.  500). 

(2)  Além  da  obra  de  Menéndez  Pidal,  vid.  Antologia,  XI,  265-289. 

(3)  Título  X  (p.  261). 

(4)  Sete  páginas  (a  duas  colunas). — Num  estilo  sem  grandeza  nem  poesia. 

(5)  Lembro  uma  de  Fernão  Rodriguez  Lobo  Soropita,  o  benemérito  editor 
das  Rimas  de  Camões,  porque  mostra  como  o  sentido  histórico  ficou  reduzido  e 
transformado.  Na  sua  muito  metafórica  Ilha  da  Poesia,  povoada  por  parvos  de  di- 
versa qualidade,  fala  de  uns  que  ao  domingo  namoram  do  canto  tia  travessa,  os 
quaes,  pela  mor  parte,  não  saem  de  obreiros  de  ojiciaes,  que  para  este  passo  se  almo- 
fadam d,-  maneira  que  vos  parecerão  uns  Infantes  de  Iara.  Isto  i  uns  janotas  fidal- 
gos, só  inferiores  ao  rei  (pois  este  é  o  significado  lato  de  Infantes  e  Infançães). 

(6)  Citado  na  Ensaladilla  de  Praga  (Est.  3,  Ingrediente  8). 

(7)  Lambra,  Lhambra  e  Hambra,  formas  hespanholas  de  liammula;  em  por- 
tuguês Chàmoa  e  Chama,  lindo  nome  de  varias  ricas-donas  citadas  nos  Livros  de 
Linhagens, 

(8)  Fste  romance  era  tão  sabido  que  foi  contrafeito  por  Diego  de  S.  Pedro, 
Vid.  Canc.  General  N.°  445:   Yo  me  estaba  en  pensamiento. 

(9)  Vid  Leyenda;  p.  84-87. 


40  CAROLINA  MICHAÈLIS  DE   VASCONCELLÕS 


se  fixaram  na  memória  do  vulgo,  a  ponto  tal  que  em  Castela 
entraram  por  nefas  nas  queixas  de  I).  Kimena  contra  o  juve- 
nil Cid  (Pr.  30a  e  30b  ). 

Na  farça  de  folgar  de  Inês  Pereira,  representada  em  L523, 
é  um  pretendente  mancebo,  recomendado  á  protagonista  por 
dois  judeus  casamenteiros,  que,  sendo  convidado  a  lazer  ou- 
vir a  sua  voz,  entoa,  em  vez  de  lindas  càhtadelás  de  namorar, 
o  romance  arcaico 
[6]  Mal  me  quieren  en  Castilla  (l) — los  que  me  habian  do.  guardara  (2) 

O  outro  ccnsura-o  então,  achando  a  melodia  tristonha,  cm- 
balantc,  imprópria  para  o  ensejo.  E  lembra  a  maneira  como 
certo  Danaso  (?)  talvez  algum  músico  de  fama?  cantava: 

Pelo  mar  vai  a  vela      vela  vai  pelo  nu  ir! 

Latão.        Dizei  algua  cantadella! 
Namorai  esta  donzella! 
E  e9ta  cantiga  direis: 

Canas  do  amor,  cana-! 
canas  do  amor! 
Polo  longo  de  hum  rio 
Cana[v~\ial  está  florido. 

Canas  do  amor! 

Canta  o  Escudeiro  o  romance  de 

Mal  me  quieren  en  Castilla]  e  diz. 
Vidal.    Latão,  ja  o  somno  he  comigo 

como  oiço  cantar  guaiado 

que  não  vai  esfandangado. 
Latão.     E  he  o  demo  qu'eu  digo. 

Viste  (sic)  cantar  Danaso: 

Pelo  mar  vai  a  vela  (3) 

vela  vai  polo  mar? 

* 
*  * 


(i)     Castillejo  serviu-se  d'este  hemistiquío.  Vid.  Bibl.  de  Aut.  Esp,  Vol.  XXXII. 
p.  1 6 1 . 

(2)  A   respeito   d'este  octonárío,  de  que  talvez   houve  a  variante  los  que  me 
suelen  guardar,  veja-se  o  Apêndice  N.°  12  d'  este  Estudo. 

(3)  Ver  cantar  por  ouvir  cantar  é  fórmula  muito  frequente  nos  Autos.—  Obras, 
Vol.  III  p.  143. 


ROMANCES   VELHOS  41 


A  segunda  referência  ocorre  no  Auto  da  Barca  da  Glória, 
anterior  ainda  á  farra  1519)  (1).  O  arrais  do  Inferno  convida 
o  Conde  d'essa  afamada  Danza  macabra  a  embarcar  no  seu 
batel  e  a  secundado  no  cantar  guaiado: 

[7]  Los  hijos  de  doiia  Sancha    (2)— mal  amenazado  me  han  (3). 

A  Morte  chama  o  barqueiro  e  este  diz  ao  nobre  perso- 
nagem (4  . 

Sefior  Conde  y  caballero, 
dias  ha  que  os  espero 
y  estoy  á  vueso  servido. 
Todavia 

entre  vuesa  seiíoria, 
que  bien  larga  esta  la  plancha, 
y  partamos  con  de  dia. 
Cantaremos  á  porfia 
Los  hijos  de  Dona  (sic)  Sancha  (5). 


V.    O    CID    RUY    DÍAZ    DK    VIVAR    (6) 

E  sem  contestação,  entre  os  heroes  peninsulares  ou  nacio- 
naes — pois  á  data  dos  seus  feitos  históricos  o  Condado  de  Por- 
tugal ainda  náo  existia — o  mais  conhecido  e  cantado,  mencio- 
nado como  protótipo  de  valentia  e  lealdade,  também  neste 
reino,  cujo  solo  pisou,  segundo  a  lenda,  quando  foi  armado  ca- 
valeiro num  altar  de  Santya-o.  na  própria  Coimbra,  recon- 


(i)     Ib.  Vol.  I  p.  277. 

(2)  Num  momento  de  distracção  T.  líraga  julgou  reconhecer  nesse  verso 
o  principio  de  un  romance  perdido  (Cancioneiro  da  Vaticano  p. 

(3)  Na  Crónica  burlesca  de  D.  Jrancesi/lo  (c.  4),  este  bobo  de  Carlos  V  ca- 
racteriza gente  de  Alba  de  Liste,  dizendo  que  pareciam  do  tempo  de  Teresa  Xi- 
ménez,  bisavó  de  D.  Ximena  Gomez,  mulher  do  Cid  e  filha  de  los  hijos  de  D.  San 
cha  que  dizen  mal  amenazado  me  han. —  Castillejo  serviu-se  do  2.°  hemistíquio 
(Líricos,  p.  161). 

(4)  Claro  está  que  estas  ai,:  escaparam  ao  autor  da  Leycnda  (v.  p.  86, 
Nota  3). 

(5)  Ed  j^eral  n;\o  altero  os  lusisnios,  porque  ifio  característicos. 

(6)  Num  estudo  de  Menéndez  1'idal,  publicado  na  Revue  Hispanique  (1898),  e 
na  Antologia  XI  p.  290-372,  é  que  o  leitor  curioso  encontra  o  resumo  das  investi- 
gações mais  modernas. 


42  CAROLINA   MICHAfLIS  DE   VASCONCELLOS 

quistada  por  D.  Fernando  I,  com  as  cerimónias  significativas 
que  a  Infanta  D.  Urraca  rememora  numas  queias  apai- 
xonadas, de  que  logo  falarei.  Por  causa  (Testa  popularidade 
e  por  os  romances  correspondentes  serem  numeroso-,  as  cita- 
ções  multiplicam-se  aqui. 

Dos  cantares  sobre  a  sua  mocidade,  derivados  da  última 
Gesta,  o  que  mais  se  divulgou  (1),  é  aquele  tardio  e  extra- 
vagante, em  que  Ximena  Gómez  renova  os  queixumes  de 
D.  Lambra,  atribuindo  ao  Campeador  o  propósito  de  a  inju- 
riar barbaramente. 

Do  texto  que  começa 
Cada  dia  que  amanece      veo  quien  mato  d  mi  padre  (Pr.  30), 

mais  provavelmente  do  que  dos  cantares  extensos  sobre  o 
mesmo  assunto, 

En  Burgos  está  el  buen  rey      asentado  á  su  yantar  (Pr.  30a), 

OU 

Dia  era  de  los  rey  es      dia  era  senalado  (30  b), 

desprendeu-se  em  Portugal  o  provérbio 

[8]  Rey  que  non  face  justícia      non  debía  de  reinar  (2). 

Gaspar  Corrêa,  com  quem  o  leitor  já  travou  conhecimento, 
conta  nas  Lendas  da  índia  (3)  como  os  Goenses,  escandaliza- 
dos pelo  procedimento  de  Lopo  Vaz  de  Sampaio,  Governador 
na  ausência  de  Pêro  de  Mascarenhas,  se  assuaram,  capita- 
neados por  Heitor  da  Silveira,  e  de  noite  lhe  cantavam: 

Rey  que  nom  guarda  justiça    nom  ha  [via]  de  reynar  (4). 


(i)  Ainda  hoje  é  tradicional  entre  os  Judeus  de  Marrocos.  Vid.  N.°  3  do  Cat. 
Jud.  Esp.  Segundo  o  coleccionador,  não  ha  judia  em  Tânger  que  não  o  cante. — 
Ha,  de  resto,  nesse  romance  ainda  outras  reminiscências  de  textos  mais  antigos. 
A  enumeração  de  acções  incompatíveis  com  um  rei  justiceiro,  ou  inadmissíveis  nele, 
provém  do  ciclo  carolíngio. 

(2)  O  verso  faz  parte  da  Ensaladilla  (Est.  9,  Ingr.  54).  Como  no  caso  do  men- 
sageiro, e  em  outros  que  o  leitor  verá,  podia-se  preguntar,  se  o  romance  encerra 
um  provérbio  popular  preexistente.  Não  o  encontro  todavia  no  Adagiàrio,  nem 
nunca  o  ouvi  sair  da  boca  do  vulgo. — As  variantes  que  conheço  são:  no  hace,  dc- 
bría  ou  de/dera. 

(3)  Vol.  III  p.  150. 

(4)  Não  conheço  lição  castelhana  que  lhe  corresponda  literalmente. 


ROMANCES  VELHOS  43 


Em  português,  como  se  vê.  O  acrecento:  e  em  outra  cousa 
nom  deves  confiar,  parece-me  estropiado  (1). 

Nas  Décadas  da  Ásia,  Diogo  de  Couto,  continuador  de 
João  de  Barros,  registou  igualmente  o  terem  os  amotina- 
dos ido  em  magotes  ao  paço  do  Governador  interino,  enun- 
ciando alto  e  bom  som,  debaixo  de  sua  janela,  de  sorte  que 
ele  os  ouvisse,  os  agravos  e  embargos  que  lhe  punham.  Mas, 
como  não  fora  testemunha  ocular  e  auricular  (2),  não  alega 
as  palavras  textuaes  (3). 

* 
*  * 

Outro  romance  do  Cid,  também  d'aquele  feitio  extrava- 
gante que  agrada  ao  vulgo,  é  o  que,  principiando 

Rey  don  Sancho,  rey  don  Sancho      cuando  en  Castilla  reino, 
corrió  á  Castilla  la  vieja      de  Burgos  hasta  León  (Pr.  33), 

narra  a  fabulosa  expedição  de  um  rei  de  Castela  a  Roma  (4) 
e  uns  tremendos  desacatos  que  o  Cid  lá  perpetrou,  insultando 
o  rei  de  França,  um  duque  de  Sabóia,  e  o  próprio  papa.  Nele 
ha  uma  fórmula  narrativa  sobre  o  passo  ou  porto  pirenáico 
que  as  hostes  peninsulares  transpuseram  (Portas  Asperi),  a  qual 
se  tornou  proverbial  e  foi  repetida  em  Portugal,  e  que  perten- 
ceu evidentemente  a  um  texto  épico  velho,  quer  fosse  ro- 
mance primitivo,  hoje  perdido,  sobre  o  mesmo  assunto,  quer 
o  cantar  de  gesta  de  que  esse  derivara,  quer  a  Crónica  de 


(i)     A  restituição  é  fácil,  mas  não  tem  utilidade. 

(2)  O  acontecimento  deu-se  em  1527,  no  mês  de  Abril.  —  Couto  (1542-1616) 
foi  á  índia  em  1556.  A  Década  IV,  em  que  refere  o  caso,  foi  impressa  em  1602, 
logo  depois  de  estar  escrita. 

(3)  Década  VI,  livro  II,  cap.  6.  Depois  de  expor  o  motivo  das  queixas  —  que  Lopo 
Vaz  trabalhava  por  Pêro  Mascarenhas  não  vir  a  Goa...  e  que  o  mandava  esperar 
com  tamanha  armada  como  se  quisesse  buscar  os  Rumes—  continua:  «Isto  e  outras 
cousas  lhe  hiam  de  noite  em  magotes  dizer  de  baixo  da  sua  janella  onde  o  elle 
ouvisse». 

(4)  Nos  cantares  de  gesta  e  nas  crónicas,  o  chefe  da  expedição  transpire- 
naica  é  el-rei  D.  Fernando  o  Magno,  par  de  emperador.  —  A  ideia,  mais  sugerida 
do  que  enunciada  por  Menéndez  y  Pelayo,  (Antologia  XI,  349)  que  o  romance  que 
transfere  a  jornada  a  Roma,  impresso  num  Pliego  suelto  lá  por  voltas  de  1  530 
como  última  novidade,  seja  obra  (refundição)  de  um  soldado  que  tomara  parte  no 
famoso  saque  de  1527,  parece-me  plausível. 


44  CAROLINA  MICHAÈLIS  DE   VASCONCELLOS 


1344,  em  que  possuímos,  como  se  sabe,  dissolvido  em  prosa, 
um  cantar  da  divisão  dos  reinos  pelo  rei  I).  Peruando. 

No  romance  indicado,  desconhecido  até  F.  Wolf  o  haver 
descoberto  num  dos  Pliegos  sue/tos  da  Biblioteca  de  Praga  1  , 
o  verso  5.°  diz  assim: 

[9]  Y  á  penar  dei  rey  de  Francia      los  puerio»  de  Aspa  poso. 
No  Rodrigo  o  verso  769  diz  com  ligeira  variante, 
d  pesar  de  [los]  franceses      los  puertos  de  Aspa  pasó  (2). 

Com  a  modificação  que  indico,  transforma-se  em  verso  cor- 
recto. Na  Crónica  repete-se,  com  referencia  directa  á  gesta 
aproveitada:  e  por  isto  dixeron  los  cantares  que  pasó  los  puer- 
tos de  Aspa  a  pesar  de  los  franceses  (3). 

Verdade  é  que  a  fórmula  ocorre  ainda,  alterada  somente 
pela  omissão  da  conjunção,  em  outro  romance  do  mesmo  ciclo, 
sobre  as  discórdias  entre  os  filhos  de  D.  Fernando,  a  prisão 
de  D.  Alfonso,  e  a  sua  libertação  por  D.  Urraca.  Começando 
com  a  expedição  fabulosa  a  França  e  o  seu  mallogro,  tem 
princípio  idêntico: 

Rey  don  Sancho,  rey  don  Sancho      citando  en  Castilla  reino, 
continua  porém  de  modo  diverso: 

le  salian  las  sus  barbas      y  cuan  poço  las  logro  (Pr.  39),  (4) 

e  afasta-se  por  completo,  logo  depois  de  haver  falado  no  ver- 
so 3.°  dos  decantados  puertos.  Como  o  carácter  novelesco 
que  a  figura  da  Infanta  comunica  a  este  romance  o  tornasse 
muito  divulgado  (de  sorte  que,  além  de  entrar  em  Cancionei- 
ros e  Silvas  do  século  xvi,  subsiste  na  tradição  oral,  tão 
excepcionalmente  rica  dos  Judeus  hespanhoes),  ainda  hoje 
continuam  a  cantá-lo  em  Tanger,  repetindo  com  pequeníssi- 
ma alteração  o  verso 

á  pesar  de  los  franceses      dentro  de  la  Francia  entro  (5). 


(i)     N.°  IX  do  Catálogo  da  Samtnlunt;. 

(2)  Confer  ib.  v.  723  desde  Aspa  fasta  Santiago,  e  755  desde  los  puertos  de 
Aspa  fasta  a  Paris;  Conquista  de  Ultramar  II  Cap.  43  los  puertos  de  Espana  que 
llnman  d' Aspa;  Crónica  General,  Cap.  619  venien  por  el puerto  d'Aspa. 

(3)  Antologia  XI  322  e  324. 

(4)  Del  Tiy  don  Sancho  de  como  tckó  en  prisiòn  á  su  //e/mano  don  Alonso. 

(5)  Catálogo  Judio  Espa&ol  TH.9  4:  Dou  Sancho  y  dona  Urraca. 


ROMANCES    VELHOS 


Das  diversas  lições  que  deixo  registadas  é  a  do  roman- 
ce mais  raro,  com  as  peripécias  ocorridas  em  Roma,  que  um 
poeta  áulico  português  acolheu:  Pedro  de  Andrade  Caminha, 
camareiro  do  Infante  D.  Duarte,  rival  de  Luis  de  Camões 
na  afeição  de  Natércia,  autor  de  diversos  epigramas,  imi- 
tados de  Marcial,  que  muitos  críticos  julgam  ofensivos  do 
cantor  dos  Lusíadas,  e  além  d'isso  músico  apaixonado  (1). 
Numas  estrofes  despretenciosas,  de  ocasião,  improvisadas  em 
castelhano,  como  resposta  a  quatro  oitavas,  em  que  o  Pere- 
grino Curioso  Bartolomé  Villalba  y  Estana,  chegado  a  VUa- 
viçosa  no  tempo  de  D.  Sebastião  (2),  lhe  solicitara  uma 
entrevista,  é  que  o  verso  tradicional  épico  serve  de  remate 
d'uma  décima. 

Reduzindo  a  significação  específica  ao  sentido  geral,  que 
aponta  resistências  vencidas,  diz  assim: 

Y  para  gozar  de  vós 
y  bien  provar  vuestra  lanza, 
en  el  jardin,  á  las  dos, 
casa  el  duque  de  Braganza, 
oy  nos  veamos  los  dos. 

Cumplir  quiero  vuestra  instancia, 
que  el  veráo  me  traspasó, 
porque  fue  tal  su  elegância 
que  a  pesar  dei  rey  de  Francia 
los  puertos  de  Aspa  pasó  (estr.  5)  (3). 

* 
*  * 

No  melhor  e  mais  antigo  romance  sobre  a  divisão  dos 
reinos,  isto  é,  no  que  principia: 

Doliente  estaba,  doliente      ese  buen  rey  don  Fernando  (Pr.  35),  (4), 


(i)     Vid.  C.  M.  de  Vasconcellos,  Pedro  de  Andrade  Caminha,  Paris,   IQOI. 

(2)  A  respeito  d'este  viajante  hespanhol  consulte-se  a  edição  dos  Bibliófilos 
Espanoles  (vol.  XXIII  e  XXVI)  e  Serrano  y  Sanz,  Autobiografias  y  Memorias,  Ma- 
drid 1905,  p.  LXXXVI. 

(3)  L.  c.  p.  108.  —  Os  que  lerem  estas  páginas,  hão  de  encontrar  outros  qua- 
tro versos  inteiros  de  romances,  citados  nas  mesmas  trovas,  pois  cada  uma  das 
cinco  estrofes  finda  com  octonários  tradicionaes. 

(4)  No  Rodrigo  da  Romanceiro  do  Algarve  de  Estácio  da  Veiga —reimpresso 
na  Antologia  X  242  —  este  princípio  de  romance  está  baralhado  com  outro  sobre  a 
doença  mortal  do  Príncipe  D.  João,  filho  dos  Reis  Católicos  (1497). 


46  CAROLINA  MICHAÉLIS  DE   VASC0NCELL08 

dcscreve-se  com  dois  traços  o  último  momento  do  monarca: 
[10]  los  pies  tiene  cara  oriente      y  la  candeia  en  la  mano. 

Circumstáncia  tão  freqtiente  como  essa  da  vela  nas  mãos 
de  um  moribundo,  escusava  evidentemente  da  ratificação  em 
cantares  épicos  para  ser  do  domínio  geral,  e  para  chegar 
a  ter  sentido  derivado,  metafórico.  Mas  afim  de  não  ser  ar- 
guida de  omissa,  mencionarei  alguns  passos  escolhidos,  em  que 
autores  portugueses  se  serviram  da  fórmula  estar  fou  ir)  com  a 
candeia  na  mão  (1) — depois  de  haver  observado  que  o  verso 
que  citei  impressionou  o  público  e  entrou,  indevidamente,  em 
outros  cantares  relativos  ao  falecimento  de  reis  castelhanos. 
Veja-se  p.  ex.  o  muito  sabido  de  D.  Fernando  IV,  o  que  mor- 
reu emprazado.  Apesar  de  o  cronista  declarar  que,  por  cas- 
tigo de  Deus,  expirou  inesperadamente  en  guisa  que  ningunos 
le  vieron  morir  (2),  o  autor  (ou  renovador)  do  romance  sobre 
o  mando  injusto  executado  nos  Carvajales,  introduz  o  porme- 
nor aludido,  tirando  o  verso  inalterado  do  romance  de  D.  Fer- 
nando I  (3).  Sem  razão  figura  também  no  romance  artístico 
de  Frey  Ambrósio  de  Montesino  sobre  a  morte  desastrosa  do 
Príncipe  D.  Alfonso  (1491)  de  Portugal 

Hablando  estába  la  reina      en  cosas  bien  de  notar.  (Duran  1901)  (4). 

Em  Portugal  também  se  conta  como  um  ou  outro  rei,  sen- 
tindo a  sua  hora  chegar,  pedira  a  candeia.  Garcia  de  Resen- 
de p.  ex.  assentou  o  facto  com  relação  a  D.  João  II.  Segundo 
ele,  esse  Homem  que  venerava,  morreu  com  a  candea  na 
mão  (5). 

No  Pranto  de  Maria  Parda,  essa  devota  do  Deus  Baco 


(i)     Candeia  no  sentido  arcaico  de  vela,  círio,  bujia,  que  tem  nos  cancionei- 
ros galego-portugueses. 

(2)  Crónica  de  Fernando  IV,  cap.  XX. 

(3)  Num  Pliego  suelto  de  Praga,  citado  na  Primavera  I,  p.  204,  o  texto  acaba 
assim: 

Antes  de  los  trcinta  dias       maio  está  el  rey  don  Fernando. 
El  cuerpo  cara  oriente      y  la  candela  kn  la  mano, 
asi  falleciô  su  Alteza       de  esta  maneia  citado.  (Pr.  64) 

(4)  Vid.  Resende,  Vida  e  Feytos  de  D.  João  II,  Cap.  132  e  Ruy  de  Pina,  Inédi- 
tos II,  p.  132. 

(5)  Vida  e  Feytos  de  D.  João  I,  c.  212. 


ROMANCES   VELHOS  47 


implora  a  caridade  de  uma  sua  comadre,  taberneira,  pedindo 
vinho  emprestado: 

Oh  senhora  Biscainha, 
fiae-me  canada  e  meia, 
ou  me  dai  hua  candeia 
que  se  vai  esta  alma  minha  (1). 

E  na  Farça  de  quem  tem  farelos,  o  protagonista,  fidalgo  pobre 
e  apaixonado,  ao  rememorar  trovas  (parodiadas)  que  escre- 
veu por  amor  da  sua  dama,  lê  no  seu  Cancioneiro  de  mão 
umas  em  que  dissera: 

Estou  co'a  candeia  na  mão  (2), 
senhora  minha  Isabel; 
mando  lá  esse  papel 
que  vos  diga  esta  paixão  (3) 

Ha  mais  e  melhor  porém.  Aquelas  estraf alarias  cartas 
apócrifas  que  Egas  Moniz,  o  primo,  dirigiu  á  sua  fiel-infiel  Vio- 
lante, segundo  os  impostores  do  século  XVII:  Bem  satisfeita 
ficades,  Corpo  de  oiro — Fincarades  bos  embora,  foram  escritas 
com  a  candêa  numa  mão,  e  na  outra  a  penna.  E  o  que  conta 
António  Coelho  G-asco,  na  sua  Conquista  da  Cidade  de  Coim- 
bra (4). 

A  segunda  Carta  em  prosa  que  possuímos  de  Luis  de  Ca- 
mões, verdadeira  manta  de  girões,  tecida  de  ditos  alheios  e 
proverbiaes,  naquele  estilo  joco-sério  conceituosíssimo,  em 
que  os  intelectuaes  da  corte  de  D.  João  III  (5)  desbaratavam 
a  agudeza  do  seu  espírito,  começa  recomendando  que  o  seu 
escrito  não  corresse  de  mão  em  mão. 

Esta  vai  com  a  candeia  na  mão  morrer  na  de  V.  M.;  e  se  d'ahi  passar 
seja  em  cinza,  porque  não  quero  qu3  do  meu  pouco  comam  muitos.  E  ae 
todavia  quiserem  meter  mais  mão  á  escudela,  mande-lhe  lavar  o  nome, 
e  valha  sem  cunhos  (6). 


(i)  Gil  Vicente,  Obras,  III,  368. 

(2)  Matthiii  am  letzten,  como  diríamos  na  Alemanha,  com  metáfora  bíblica. 

(3)  Vol.  III,  p.  11. 

(4)  Lisboa,  1805  (p.  97). 

(5)  Fernão  Cardoso,  Simão  da  Silveira,  João  López  Leitão  etc.  e  posterior- 
mente Fernão  Kodriguez  Soropita  e  D.  Francisco  de  Portugal. 

(6)  Zeitschrift,  VII,  438. 


48  CAROLINA  MICHAÈLIS  DE   VASCONCELLOS 

Creio  que  basta  de  exemplos.  Como  nenhum  deles  dá  á 
expressão  proverbial  a  forma  métrica  de  octonário,  nem  tíio 
pouco  traje  castelhano,  não  os  considero  citações  derivadas 
de  romances. 


* 
*  * 


As  incomparáveis  rapsódias  sobre  o  cerco  de  Zamora,  de 
beleza  sombria  mas  nobre,  não  passaram  desatendidas.  O 
nome  Çamora  figura  em  diversas  frases  proverbiaes,  e  com- 
quanto  haja  uma  vila  do  mesmo  nome  em  Portugal  (Çamora 
Correia  ou  Çamora  de  Benavente),  na  Estremadura,  citada 
p.  ex.  por  Gil  Vicente,  III,  340,  essa  não  tem  notoriedade 
nenhuma.  Nas  formulas  ique  culpa  vos  tem  Çamora?  e  Çamora 
não  se  tomou  numa  hora,  empregadas  por  Jorge  Ferreira  de 
Vasconcellos  e  pelo  Plauto  Português  (III,  206),  assim  como 
em  alusões  ás  pedras  de  Çamora  (ib.  III,  264),  e  na  praga  /Oh 
renego  de  Çamora!  (ib.  III,  217  e  249)  ha,  a  meu  ver,  referên- 
cias ao  repto  antigo,  muito  embora  os  acontecimentos  da  in- 
vasão afonsina  e  em  particular  o  que  Resende  e  Pina  cha- 
mam a  traição  da  ponte  de  Çamora  influissem  nas  recorda- 
ções (1);  principalmente  na  praga. 

Várias  locuções  transformaram-se  em  versos  alados,  e 
reminiscências  muito  notáveis  sobrevivem  no  romance  já  ci- 
tado do  Algarve  (em  á-à) 

Enfermo  el  rei  de  Castela      em  cama  de  prata  estava 

que  é  um  amalgama  singular  de  fragmentos  (2). 
Das  recriminações  da  Infanta  desherdada 
Mor  ir  vos  queredes,  padre      San  Miguel  vos  haya  el  alma  (Pr.  56) 


(i)     Confer  Canc.  Gera/l,  458. 

(2)  Confunde  o  Príncipe  D.  João,  como  já  notei, e  os  doutores  que  lhe  assistem, 
com  el  rei  de  Castela  D.  Fernando  que  faz  testamento;  passa  ás  queixas  da  princesa 
(D.  Urraca);  narra  a  outorga  de  Zamora  e  logo  depois  o  cerco  e  as  intimações  de 
defesa  que  a  infanta  desgraçada,  com  ciúmes  de  Ximena  Gomes  (filha  do  conde 
Lousada!),  dirige  ao  Cid.  Este,  transformado  em  Dom  Ramiro,  aparece  na  com- 
panhia do  almirante  Dom  Gaifeiros! 


ROMANCES    VELHOS  49 


á  qual  o  pae  condoído  outorga  Zamora  la  bien  cercada  (1) 
saiu  a  descrição  da  cidade  forte 

[H]  de  una  parte  la  cerca  el  Duero      de  otra,  pena  tajada  (2). 

Ainda  no  século  xvn  ela  estava  presente  a  D.  Francisco 
Manuel  de  Mello,  o  das  Guerras  de  Catalufia.  Aplicando-a  a 
uma  sua  quinta,  a  respeito  da  qual  precisava  requerer  junto 
a  D.  João  IV,  traduziu  o  verso,  dizendo 

de  húa  parte  a  cerca  o  Douro      da  outra  penha-talhada 

e  meteu-o  em  hum  as  quintilhas  portuguesas,  bem  engraçadas 
e  recheadas  de  alusões  a  coisas  populares,  e  que  haviam  de 
servir  de  Prólogo  á  prosa  tabelionática  da  petição  (3). 
i )  verso  final  do  mesmo  romance 

[12]  Todos  diccn  Amen  Amen      sino  don  Sancho  que  calla 

foi  citado  pelo  poeta  bucólico  Francisco  Rodriguez  Lobo  (4). 
Caracterizando  concisamente  a  reserva  do  herdeiro  da  co- 
roa em  frente  das  concessões  que,  reconsiderando,  o  monar- 
ca fizera  ás  Infantas,  legando  Çamora  a  D.  Urraca,  Toro 
B  D.  Elvira,  e  maldizendo  os  que  contrariariam  essa  sua  der- 
radeira vontade,  o  verso  talvez  desse  origem  ao  provérbio 
muito  citado  ai  buen  callar  llaman  Sancho.  Mais  provavel- 
mente^ modifica  todavia  apenas  o  sentido  e  a  forma  do  adágio 
preexistente  ai  buen  callar  llaman  Sancho  (sanctius)  ou  xage 
(sapius)  (5). 


(i)  Confer  A/ora  la  bien  cercada,  num  romance  famoso  (Pr.  79),  citado  muito 
cedo,  nas  Trecientas  de  Juan  de  Mena  (Estr.  190)  e  Valência  la  bien  cercada  no 
Catálogo  Judio-Espaiíol .  N.°  6. 

(2)  E  não  Pena-Tajada.  Não  se  trata  de  um  nome-próprio.  Variante:  De  un 
cabo  la  cerca  el  rey  -dei  otro  el  Gd  la  cercaba,  no  romance  que  principia  Apenas 
era  el  rey  mueito  e  sirve  de  introdução  a  Afuera!  af itera  Rodi 

(3)  Vid.  Viola  de  Talia,  p.  209  da  Parte  II  das  Obra»  Métricas!  Memorial  a  El 
Rey  .Vosso  Senhor,  D.  y  (lo  o  Quarto,  com  húa  petição  sobre  o  negocio  que  refere.      .. 

(4)  Obras,  ed.  1723,  p.  I  23.  —As  primeiras  publicações  d'este  corifeu  entre  os 
epígonos  camonianos,  são  de  1596. 

(5)  Confer  Romania  XI,  114.  —  Em  português 

Ao  bom  calar  chamam  <f Santo». 


50  CAROLINA  MICHAÈLIS  DE    VASCONCELLOS 


Cronologicamente,  temos  logo  depois  as  enérgicas  invec- 
tivas de  D.  Urraca  contra  o  Cid,  que  veio  transmitir-lhe  a 
dura  mensagem  já  mencionada  dei  rei  D.  Sancho,  o  qual  re- 
solvera não  respeitar  a  vontade  do  pae: 

[13]  Afuera,  afuera,  Rodrigo  (1)       el  sobèrbio  castellano  (IV.  .'57)  (2;. 

Este  intróito  exclamatório  foi  repetido  tanta  vez  que  também 
chegou  a  perder  o  seu  sabor  histórico,  sendo  empregado,  cada 
vez  que  em  algum  escrito  ou  dito  estilizado  um  peninsular 
queria  despedir  ou  impontar  alguém,  mandando-o  embora, 
onde  em  linguagem  chã,  de  cotio,  teria  bastado  uma  simples 
interjeição  como  fora!  rua!  vaia! 

Andrado  Caminha  rematou  com  este  verso  a  décima  ini- 
cial das  trovas  ao  Peregrino,  antepondo-lhe  a  declaração:  á 
la  vaya  doy  de  mano  (3). 

Camões  contentou-se  com  o  primeiro  hemistíquio  na  Car- 
ta 2.a  em  prosa,  (da  índia,  ou  talvez  de  Ceuta.)  Querendo 
afugentar  ideias  tristes  que  o  arrastavam,  disse: 

AFUERA,  AFUERA  RODRIGO !  que  se  eu  muito  por  este  caminho 
for,  darei  em  enfadonho,  ainda  que  me  parece  que,  para  o 
deixar  de  ser,  já  me  não  livrarão  privilégios  de  cidadão  do 
Porto.  (4). 

De  ahí  passaria  talvez  ás  obras  do  seu  imitador  Fernão 
Rodríguez  Soropita  a  fórmula  derivada: 

Afuera,  afuera,  pensamientos  mios! 
com  que  principia  uma  sua  sátira  contra  o  Amor,  proseguindo: 

Começo  logo  entrar  por  castelhano, 
A  ver  se  o  canivete  tem  bons  fios  (5). 

Pelo  contrário,  julgo  que  nada  têm  com  o  romance  do  Cid 


(i)     Na  lição  do  Algarve  temos:  Dom  Ramiro  avante,  avante!  e  lesto,  lesto,  Dom 
Ramiro! 

(i)     ( )  verso  imediato 

Acordarsele  debría        de  aqttel  buen  tiempo  f  asado. 
suscitou  muitos  paralelos,  mas  nenhuma  imitação  directa. 

(3)  Opúsculo  citado,  p.  107.— A  respeito  de  vaya  vid.  aqui  n.°  99. 

(4)  Zeitschrift  VII,  p.  451  e  Storck  II,  p.  403. 

(5)  Poesias  e  Prosas  Inéditas,  p.  47.-  Ha  muitas  mais  cartas  e  poesias  de  So- 
ropita, que  conto  publicar  qualquer  dia. 


ROMANCES   VELHOS  51 


diversas  cauções  líricas,  cm  que  autores  antigos  por  volta 
de  1500  tentaram  livrar-se,  com  um  singelo  ou  duplo  Afuera, 
ora  de  desejos  pertinazes,  ora  de  conselhos  vãos.  Uma  é  de 
Nicolas  Nufiez  e  anda  no  Caucione r o  de  Rennert  (N.°  120):  Afue- 
ra, afuera  deseo! Outra, em  três  décimas  castelhanas  encontra- 
se  no  Cancioneiro  de  Évora  (N.°  62):  Afuera  consejos  vanos  e 
parece  ser  de  um  anónimo  português.  Esta  agra  dou  muito.  Os 
primeiros  cinco  versos  foram  glosados  por  Luís  de  Camões  (1). 
Outra  glosa  da  canção  inteira  ó  de  Andrade  Caminha  (2). 
E  este  mesmo  autor  inseriu  os  versos  iniciaes  Afuera  consejos 
vanos,  Que  despertais  mi  dolor  numa  Elegia  portuguesa,  enti- 
tulada  Penas  Amorosas,  na  qual  cada  estrofe  remata  centoni- 
camente  cora  dois  versos  alheios,  sempre  líricos  (3)  e  sempre 
castelhanos.  Cervantes  é  quem  documenta  que  a  canção  tam- 
bém era  conhecidíssima  em  Hespanha.  Na  Comédia  do  Rufia n 
Dichoso  um  pasteleiro  canta  a  primeira  quintilha  e  um  seu 
companheiro  diz  a  este  respeito: 

Hola!  cantando  está  el  pastelerazo; 
y  j)or  lo  menos  los  consejos  vanos  (4). 

Claro  está  que  ha  na  literatura  tão  opulenta  dos  nossos 
vizinhos  e  irmáos,  numerosos  documentos  que  atestam  a  popu- 
laridade de  todos  ou  quasi  todos  os  versos  de  romances,  de 
que  já  tratei  (5),  embora  era  geral  eu  deixasse  de  dar  exem- 
plos. Com  relação  ao  soberbo  Castelhano  notarei  uma  citação 
num  bailado  de  Câncer  (o  Orfeo,  de  1575)  (6)  e  duas  nos  Autos 
cuja  publicação  esmerada  se  deve  a  Léo  Rouanet  (7).  Nem 

(i)  A  atribuição  feita  por  Faria  e  Sousa  não  é  segura.  Pelo  menos,  ainda  não 
encontrei  confirmação. 

(2)  N.°  455  da  edição  Priebsch:  Poesias  Inéditas  (Ilalle,  1898). 

(3)  Poesias  (Lisboa,  1791),  p.  177. 

(4)  Vid  J.  Ilazaíías  y  la  Rua,  Los  Rufianes  de  Cervantes,  Sevilla,  1906  (p.  109 
e  217). 

(5)  O  Vocabulaiio  de  refranes  y  frases  proverbiales  de  Gonzalo  Correas,  pu- 
blicado ha  pouco  pela  Academia  Kspanola,  no  qual  se  encontram  muitos  versos 
de  romances  populares  usados  no  século  xvii,  por  ora  só  o  conheço  pelo  compte- 
rendt:  d'esta  Revista.  (Vol.  II,  p.  460.) 

(6)  Vid.  Zeitschrift  XXIII,  p.  69. 

(7)  Bibliotheca  Hispânica  VI,  519  (La  Resurreción  de  Christo.  142-3);  VII,  457 
(La  Fuente  de  la  Gracia,  v.  279-1). — Quasi  escusado  é  assentar  que  não  falta  na 
Ensaladilla  (v.  Est.  13.  Ingr.  71). 


52  CAROLINA  MICHAÉLIS  DE    VASCONCELLOS 

quero  deixar  de  lado  o  curioso  romance  satírico  sobre  as  aven- 
turas quixotescas  de  um  namorado  português  d),  em  que  e 
canta  na  sua  linguajem  (estropiadíssima,  como  sempn-  cm 
impressões  hespanholas)  os  versos  iniciaes  das  queixas  ãe  D. 
Urraca  (e  posteriormente  um  cantarcillo  sobre  a  forncira  de 
Aljubarrota).  Emendadas,  diriam: 

Afora,  afora  Rodrigo!       o  soberbo  casteíftano! 
acordarse-te-deuéa  (2)      d'  aquei  tempo  já  passado 
cuando  te  armei  cavaleiro      eno  (3)  altar  de  Santiago: 
minha  vaãi  te  deu  as  armas,      meu  pai  te  deu  o  cavalo; 
CasteZftano  mau      o  soberbo  Castelhano  (4). 

A  traição  de  Vellido  Dolfos,  previamente  anunciada  ao 
sitiador  de  Çamora  pelo  velho  Árias  Gonzalo  (aio  comum  do 
Cid  e  de  D.  Urraca,  segundo  os  Cantares  e  as  Crónicas),  co- 
nheciam-na  em  Portugal  pelo  belo  romance  primitivo,  que  já 
se  cantava  no  tempo  de  Enrique  IV  (i.  é  antes  de  1474)  (5). 

Rey  don  Sancho,  rey  don  Sancho      no  digas  que  no  te  aviso  (Pr.  45) 

ou  antes  pela  variante 

[14]  Rey  don  Sancho,  rey  don  Sancho      no  digas  que  no  te  lo  digo, 

se  esta  lição  não  provier,  por  confusão,  do  verso  5.°  de  uma 
redacção  posterior  (Pr.  44)  (6). 

No  Comedia  Ulysipo  de  Jorge  Ferreira  de  Vasconcellos  (7), 
um  conversador  assaz  prolixo  e  sentencioso  é  interrompido 
por  outro  que,  cheio  de  ironia,  dissimulada  em  chistes  ga- 
lhofeiros, exclama: 

«Senhor,  senhor,  fazei  pausa!  porque  vos  leva  a  corrente  de  vossas 
premáticas  ao  pego  deContemptus  Mundi,  donde  (se  sahir  como  outros 
que  vejo  empegados  nelle)  não  haverá  fateixas  de  Tiempo  bueno,  tiempo 


(i)     Vendedor  de  panos  de  linho,  e  do  afamado_/?0  de  Portugal. 

(2)  Ou  devria. 

(3)  Forma  antiquada,  mas  necessária,  por  causa  do  metro. 

(4)  Confer,  Duran  No  1772. — No  Romance  do  Algarve  lê-se 

minha  mãe  vos  deu  vestidos,       meu  pae  dá-vos  sua  espada 
e  eu  vos  dou  esporas  de  ouro,       pendão  de  seda  encarnada. 

(5)  Anda  enxertado  no  Sumário  de  los  Rey  es  (p.  25  da  Ed.  de  Llaguno). 

(6)  Outra  variante  dizia  Guarte,  guarte  Rey  don  Sancho;  p.  ex.   no  Libro  de 
Música  de  vihuela  de  Pisador.  (Ensayo  N.°  3.485.) 

(7)  Ulyripo  f.  103. 


ROMANCES   VELHOS  53 


bueiw  nem  arrepique  de  Iiay  don  Sancho  rey  don  Sancho,  no  digas  que 
no  te  lo  digo  que  vos  tire  a  lume.» 

Francisco  Manuel  de  Mello  repete  o  verso  em  uma  das 
suas  Cartas  Familiares.  Na  Ensaladilla  é  o  troço  primeiro. 


* 
*  * 


Muito  mais  familiarizados  estavam  todavia  em  Portugal 
com  outra  scena:  o  repto  de  Diego  Ordoíiez  de  Lara  e  seu 
filho  (Fernando  ou  Ordonho),  cavaleiros  do  arraial  dei  rei 
D.  Sancho,  aos  Camoranos,  narrado  no  romance 

[15]  Biberas  de  Duero  arriba  cabalgan  dos  zamoranos  (Pr.41,42,43)(l). 
No  Auto  de  Rodrigo  e  Mendo,  de  um  pouco  conhecido  poeta 
da  escola  vicentina  que  se  chamava  Jorge  Pinto,  um  dos  per- 
sonagens se  oferece  a  cantá-lo  (f.  46.°)  (2). 

Na  Aulegraphia,  terceira  e  última  comédia  de  Jorge  Fer- 
reira de  Vasconcellos,  um  rapaz  emprega  o  octonário  inicial 
para  completar  pitorescamente  a  frase  singela  eu  vou  noutra 
volta  (f .  80) . 

Na  sua  Carta  I  da  índia,  Luis  de  Camões,  que  certamente 
sabia  o  romance  de  cor,  caracteriza  os  valentões  de  Goa, 
comparando  as  suas  bravatas  e  fanfarronices  aos  clássicos 
juramentos  dos  reptadores  de  Zamora.  Neste  empenho  modi- 
fica o  teor,  dizendo: 

«Já  estes  que  tomavam  (3)  esta  opinião  de  valentes  ás  costas,  crede 
que  nunca 

[15]  liiberas  de  Duero  arriba      cavalgaron  zamoranos 
que  roncas  de  tal  soberbia      entre  si  fuesen  hablando; 

e  quando  vem  ao  effeito  da  obra,  salvam-se  com  dizer  que  se  não  podem 
fazer  tamanhas  doas  cousas  como  he  prometer  e  dar.» 

O  texto  que  o  Poeta  guardava  na  sua  admirável  memória, 


(i)  Sempre  pensei  que  havia  confusão  neste  romance  e  que  os  cavalgadores  e 
reptadores  da  Çainora  leonesa  eram  castelhanos.  A  lição  verdadeira  creio  que  seria 
hijosdalgo.  Vid.  Bonilla  y  San  Martin.  Anales,  p.  37. 

(2)  Li-o  na  ed.  única  de  1587  (Autos  e  Comedias)  na  Biblioteca  Nacional  de 
Lisboa,  mas  os  meus  extractos  não  me  permitem  ser  mais  explícita. 

(3)  Proponho:  que  tomam. 


54  CAROLINA  MICHAÈLIS  DE    VASCONCELLOS 


foi,  parece,  o  de  ura  Pliego  suelto,  igual  ao  que  se  conserva 
em  Praga,  visto  que  só  neste  ocorrem  (no  verso  15.")  as  pala 
vras  de  tal  soberbia,  emquanto  na  versão  da  Silva  se  lê  pa- 
labras  de  gran  soberbia. 


* 


Bem  entrava  ahi  mesmo  a  principal  d'essas  roncas: 

[16]  que  se  matarem  con  três      y  lo  mismo  haran  con  cuatro  (Pr.  42)  (5). 

Não  é,  porém,  na  própria  Carta  que  surge,  mas  sim  era  outro 
desabafo  da  mesma  época  e  sobre  o  mesmo  assunto.  Nos  Dis- 
parates seus,  na  índia,  o  patriota  indignado  contra  a  cobardia 
e  vilania  dos  degenerados,  traça  o  seguinte  perfil: 

Outros,  em  cada  teatro 
por  oficio  lhe[s]  ouvires 
que  se  mataran  con  três 
y  lo  mismo  harán  con  cuatro. 
Prezam- se-de  dar  repostas 
com  palavras  bem-compostas; 
mas  se  lhes  meteis  a  mão, 
na  paz  mostram  coração, 
na  guerra  mostram  as  costas, 
porque...  aqui  torce  a  porca  o  rabo  (2). 

* 
*  * 


Aos  reptos  saem  uns  sete  cavaleiros.  Diego  Ordonez  mata 
cuatro;  seu  filho,  dois;  o  último  escapa-se. 

[17]  Por  aquel  que  se  les  iba      las  barbas  se  está  mesando  (Pr.  4)  (3). 


(i)  Var.  que  con  três  se  matarian y  aun  harian  así  con  cuatro.  Lição  de  Pr.  41 : 
que  se  matarian  con  três  y  se  matarian  con  cuatro.  Var.  de  um  PI.  s.:y  lo  mismo  ha- 
rian c.  c.  Confer  Ana/es  p.  37. 

(2)  Como  o  leitor  terá  visto,  pelos  dois  exemplos  até  aqui  alegados,  cada  es- 
trofe dos  Disparates  acaba  com  um  provérbio  em  prosa. 

(3)  Var.  se  van.  Lição  de  Pr.  52: 

por  uno  que  se  les  fuera       las  barbas  se  van  pelando. 
Var.  mesando. 


ROMANCES    VELHOê  55 


Este  movimento  de  desespero,  tantas  vezes  citado  no  direito 
consuetudinário,  gravou-se.na  memória  de  Jorge  Ferreira, 
que  já  conhecemos  como  um  dos  mais  versados  em  romances 
primitivos,  muito  embora  os. trate  ás  vezes  de  velhices  esta- 
fadas. Na  novela  de  cavalaria  a  que  deu  o  título  de  Sagramor 
ou  Segunda  Távola  Redonda,  acha-se  enxertada  a  descripção 
minuciosa  de  um  torneio  histórico,  afamado  nos  anaes  da 
corte  portuguesa:  o  de  Enxobregas  (Xabregas)  em  que  o  juve- 
nil príncipe  D.  Joáo  (1)  tomou  armas  a  15  de  Agosto  de  1552, 
combatendo  a  pique  e  espada,  contra  alguns  seus  camaradas 
como  D.  António  de  Noronha,  o  predilecto  discípulo  de  Ca- 
mões (2).  Após  um  passo  de  armas,  tão  porfioso  que  os  impar- 
ciaes  tiveram  de  departí-lo,  um  brioso  mantedor  mostrou-se 
raivoso,  por  não  poder  satisfazer-se  do  seu  contrário,  acto  de 
que  Jorge  Ferreira  tomou  nota,  explicando:  Poder  a  dizer-se 
por  eUe: 

Por  el  otro  que  se  le  iva      las  barbas  se  está  messando  (3). 

A  transposição  para  o  singular  deve  ser  intencional. 


* 
*  * 


Não  é  dos  velhos,  mas  ainda  assim  merece  atenção,  outro 
romance  do  cerco  de  Zamora,  ou  mais  exactamente  do  repto 
de  Diego  Ordóíiez,  por  haver  despertado  um  eco  em  Portugal, 
em  fim  do  século  xvx  ou  princípios  do  imediato.  É  o  N.°  3  da 
I /isto  ria  Zamorana  que  faz  parte  do  Romancero  Historiado 
de  Lucas  Rodríguez  (1579  ou  81)  (4)  e  diz 

Con  el  r ostro  entristecido      y  el  semblante  demudado, 

Este,  ou  antes  só  a  segunda  metade,  a  começar  do  verso 

[18]  Mirando  va  el  crucifijo       [y]  d' esta  manera  hablando, 


(i)     A  este  filho  de  D.  João  III,  foi  dedicado  não  so  a  Eufrosina,  mas  também 

o  Saeramor. 

°  ■> 

(2)  Cap.  47,  Do  torneo  que  fez  ho  esclarecido  Príncipe  em  idade  de  quinze  annos. 

(3)  P-  341  da  ed.  de  1867,  (lue>  infelizmente,  é  muito  defeituosa.  A    i.a   é  de 
1567.  (Évora). 

(4)  Ha  ed.  de  Lisboa,  1584. 


56  CAROLINA  MICHAÊLIS  DE   VASCONCELLOS 

foi  imitado  por  Miguel  Leitão  de  Andrada,  escritor  tão  com- 
pletamente falto  de  critério  que  acolheu  na  sim  aliás  curiosa 
MisceUánea  (1),  de  mistura  com  versos  admiráveis  de  Camfl 
algumas  das  relíquias  apócrifas  literárias  de  Portugal,  o  velho. 
Acusado  de  homicídio  contra  a  própria  esposa  <2  •,  e  preso 
no  Limoeiro  de  Lisboa,  Miguel  Leitão  lembrou-se  de  implorar 
a  misericórdia  de  Deus  e  a  intercessão  da  Virgem  em  versos 
de  Lucas  Rodriguez,  transpostos  ao  divino  (3): 

Por  isso  me  ia  com  tudo  diante  de  hum  crucifixo  apresentando  a 
Deus  a  dor  e  angustia  deste  coração,  com  algumas  palavras  áquelle 
modo  do  Romance  de  Diego  Ordonhes  de  Lara,  o  Bravo,  na  morte  dei 
Rey  D.  Sancho  sobre  Çamora,  que  diz: 

Hincado  está  de  rodillas  (4)      con  un  crucifixo  hablando, 
las  palabras  que  dizia      son  de  hombre  mui  lastimado: 
«Bien  sabeis  vos,  seiior  mio      la  verdad  de  aqueste  caso, 
que  persiguen  sin  razon      a  aqueste  aflicto  Don  Sancho  (!), 
mas  si  me  dais  vuestra  ayuda,      buen  seiior,  pienso  mostrarle 
la  verdad  de  mi  intención      que  es  de  coraçou  honrado». 
Estas  palabras  diciendo      a  vos,  Virgen,  rni  amparo, 
pido  socorro  y  ayuda      que  salgais  por  mi  ai  campo. 
Vuestro  soy  desde  muy  nino      y  me  aveis  siempre  livrado, 
ahora  que  es  más  tormenta      más  socorro  es  necesario». 


* 
*  * 


(i)  Basta  ler  o  título  inteiro  do  livro  impresso  em  Lisboa,  1629  e  1867,  para 
reconhecer  o  feitio  d'essa  «salada»  como  o  autor  a  chama,  ou  «salsada»  como  hoje 
diríamos:  Miscellanea  do  sitio  de  Arossa  Senhora  da  Luz  do  Pedrógão  grande,  appa- 
recimento  de  sua  sancta  imagem,  fundação  do  seu  convento,  e  da  see  de  Lisboa,  ex- 
pugnação  d^ella,  perda  de  el  rei  Sebastiam.  E  que  seja  Nobreza,  Senhor,  Senhorias, 
Vassallo  dei  Rei,  Rico  homem,  Infanção,  Corte,  Cortezia,  Mezura,  Reverencia,  e  Ti- 
rar o  chapeo,  e prodígios.  Com  muitas  curiosidades  e poesias  diversas. 

rim  todo  o  caso,  o  sr.  Serrano  y  Sanz  bem  lhe  podia  ter  dedicado  algumas  pa- 
ginas nas  interessantes  Autobiografias  y  Afemorias.  A  prosa  é  portuguesa;  entre 
os  versos  ha  muitos  em  castelhano. 

(2)  Vid.  Braamcamp  Freire,  Brasões  de  Cintra,  I  p.  371-383  e  II  520;  Aichivo 
Histórico  II  p.  1 5;   e  Júlio  de  Castilho  Lisboa  Antiga,  vol.  I,  cap.  X. 

(3)  Dialogo  X,  p.  203  da  ed.  de  1867. 

(4)  Nem  mesmo  este  hemistíquio  é  de  Miguel  Leitão;  pelo  menos,  é  idêntico  a 
um  de  Bernardo  dei  Carpio  (Duran  657). 


ROMANCES   VELHOS  ST 


Das  peripécias  do  combate  entre  os  dois  Ordofiez  e  os  fi- 
lhos de  Árias  Gonzalo,  história  portentosa  que  com  veneração 
e  assombro  lemos  na  Crónica  Geral,  e  que  mesmo  despojada 
do  solene  metro  épico,  guarda  intacta  a  sua  sombria  beleza, 
não  igualada  talvez  em  nenhum  outro  poema  dos  tempos  rae- 
dievaes  (1),  não  ha  vestígios  nos  romances. 

Não  falta  todavia  o  relato  conciso  do  saimento  fúnebre  de 
um  dos  filhos  do  velho  Zamorano;  nem  tão  pouco  o  ténue  eco 
português  que  costuma  perdurar.  O  romance 

[19]  Por  aquel  postigo  viejo      que  nunca  fuera  cerrado  (Pr.  50) 

foi  tratado  de  antigualha  na  Eufrosina,  conforme  mostrei  (2). 
Também  entrou  numa  Carta  em  trovas,  escrita  na  Africa, 
antes  de  1549,  relativa  ao  desconcerto  dos  costumes  guerrei- 
ros, mas  muito  mais  âs  saudades  do  namorado  e  pouco  bélico 
autor  (3).  Camoniana  ou  pseudo-camoniana,  tem  importância 
para  nós,  porque  cada  estrofe  remata  com  versos  proverbiaes, 
tirados  de  cantigas  e,  mais  vezes,  de  romances.  A  que  aqui 
nos  respeita,  diz: 

Da  guerra  novas  mais  certas 
brevemente  são  contadas: 
no  verão  portas  fechadas, 


(i)  Faço  meus  estes  dizeres  de  Menéndez  y  Pelayo  (Antologia,  XI,  353),  porque 
admiro,  como  ele,  as  belezas  do  enérgico  cantar. 

(2)  Vid.  N.°  4  d'estes  apontamentos. 

(3)  Esta  Carta  em  trovas,  da  Africa — (e  mais  outra  do  mesmo  autor,  e  de  fei- 
tio igual)  foi  introduzida  nas  Obras  de  Camões  pelo  Visconde  de  Juromenha,  que  as 
encontrou  ambas  num  ms.  do  século  xvill,  não  sei  se  realmente  com  o  nome  do 
grande  Português  (Vol.  IV,  147  e  154).  Da  sua  edição  passaram  para  a  de  T.  Bra- 
ga (Redondilhas  p.  207  e  215)  e  para  a  tradução  de  Storck.  Este  verificou  algu- 
mas citações,  e  corrigiu  vários  erros.  Eu  fiz  outras  emendas  num  artigo  crítico,  já 
citado  repetidamente  (Zeitschrift,  VII,  p.  415  ss).  Lá  explico  que  no  único  ms.  em 
que  vi  as  cartas,  na  Biblioteca  de  Évora,  elas  são  atribuídas  a  Ml  Pira  de  sem  — 
nome  que  li  Manuel  Pereira  de  Santarém,  em  harmonia  com  outros  passos.  --  Um 
dos  bibliotecários  interpretou  d'Ocem,  e  T.  Braga  aceitou  e  propagou  a  leitura, 
melhorando  a  ortografia  para  d'Ossem.  Posteriormente  vieram-me  dúvidas  novas 
sobre  a  justeza  da  abjudicação,  ao  conferir  todas  as  trovas  e  cartas  frívolas,  com* 
postas  pelo  cantor  dos  Lusíadas  no  seu  período  de  Sturm-und-Drang,  e  também 
as  elegias  e  odas  artísticas  do  período  palaciano. — A  Carta  Ia  hum  amifO  princi- 
pia: Por  usar  costume  antigo;  a  //  em  recosta  á  de  hum  amigo:  MandastefsJ-me 
pedir  novas. 

CULTURA  5 


59  CAROLINA  tílCHAÉLIS  DE   VASC0NCELL0S 


no  inverno  pouco  abertas! 
Qualquer  Mouro  desmandado 
nos  comete  sem  nium  pejo: 
por  aquelle  postigo  vejo  (.sic) 
que  sempre  esteve  fechado  (Estr.  I.) 

Proponho  que  se  leia  á  castelhana  por  aquel  postigo  viejo  1 ) 
que  nunca  fuera  cerrado,  porque  os  restantes  centórs  estão 
(com  poucas  excepções)  em  castelhano,  mais  ou  menos  desfi- 
gurado, embora  eu  não  desconheça  que  ha  muita  vez  divergên- 
cias intencionaes  nessas  transcrições,  e  outras  vezes  lapsos  de 
memória.  Na  maioria  dos  casos  as  alterações  sâo  evidente- 
mente obra  dos  copistas  e  editores  ignorantes,  que  não  reco- 
nheceram as  alusões  e  as  trataram  por  isso  como  roupa  de 
franceses  (2). 

*  * 

Outro  verso  do  romance  encontra-se  na  Carta  II  da  Africa 
do  mesmo,  e  diz: 

Andando  só,  como  digo, 
apartado  da  manada, 
fazendo  contas  comigo 
que  em  fim  não  fundem  nada, 
querendo  buscar  atalho 
para  vir  ao  que  desejo  (3) 
vi  venir  penclon  bermejo  (4) 
[20]  con  tres[c]ientos  de  caballo  (E-tr.  12).  (5). 


(i)  As  rimas  pejo  viejo,  e  desejo  vermejo  na  Carta  II  completam  a  lista,  já  bas- 
tante extensa,  de  casos  parecidos.  (Vid.  Gil  Vicente,  III  258  viejo  desejo  cran- 
guejo,  indicadoras  da  pronúncia  antiga  do  castelhano.) 

(2)  Na  Coleccion  de  Autos,  Farsas y  Colóquios  dei  Siglo  XVI,  publicada  por  Léo 
Rouanet,  notei  três  referências  ao  Postigo  viejo:  I  177  (Auto  dei  Magtia  249);  II 
517:  (Resurreción  de  Christo  v.  80;  III  14  id.  377).  Todas  saem  da   boca  do  Bobo. 

(3)  Talvez  antes:  para  ver  o  q.  d.f 

(4)  No  ms.  bremejo. 

(5)  Ha  um  remedo  amatório  d'este  romance  que  o  editor  moderno  (Duran 
1402)  não  reconheceu  como  tal.  E  diz: 

Por  un  valle  de  tristura, — de  placer  mtty  alejado 
vi  venir  pendones  negros  —  entre  muchos  de  ã  caballo. 

São  estes  taes  remedos  a  que  os  quinhentistas  davam  o  titulo  de  romance 
trovado. 


ROMANCES   VELHOS  è& 


Note-se  que  o  autor  das  duas  Cartas  confessa  na  pri- 
meira, em  harmonia  com  as  observações  de  Jorge  Ferreira, 
que  a  moda  dos  romances  trovados,  das  trovas  com  girões  de 
romances,  e  das  glosas,  ja  não  estava  em  vigor: 


—  ê[m]  que  esta  arte  de  trovar 
se  vá  desacostumando. — (1) 


* 
*  * 


Os  cantares  sobre  a  jura  de  S.  Gadea  (Águeda)  e  sobre  o 
desterro  com  que  D.  Alfonso,  sucessor  de  D.  Sancho,  casti- 
gou a  ousadia  do  Campeador,  parece  que  também  se  espalha- 
ram no  occidente.  Creio  pelo  menos  que  o  verso 

[21]  Mucho  me  plaze,  el  buen  rey,      de  cumplir  vuestro  mandado, 

empregado  por  Andrade  Caminha  na  Cartinha  ao  Peregri- 
no, pertence  a  uma  redacção  perdida  do  romance 

En  sancta  Gadea  de  Burgos      do  juran  los  hijos  dalgo  (Pr.  52), 
sendo  mera  variante  de 

Placeme,  dijo  el  buen  Cid,      placeme,  dijo,  de  grado 
por  ser  la  primera  cosa      que  mandas  en  tu  reinado. 

Ou  então  o  teor  confundiu-se  na  lembrança  do  poeta  português 
com  o  de  outros  taes  rípios,  muito  usados  nos  cantares  de  ges- 
ta (2);  como  p.  ex. 

placeme,  dijo,  seíwr      cumpla-se  vuest?  o  mandado  (3) 


ou: 


ou: 


placeme,  dijo,  senor      por  cumplir  vuestro  mandado  (4) 
placenos,  el  almirante,      por  cumplir  el  su  mandado  (5) 


* 
*  * 


(i)  A  quadra  final  do  romance  velho  (No  muriô  por  las  tabernas,  et.),  parecida 
àquela  com  que  remata  o  das  almenas  de  Toro  (Pr.  54:  que  no  ias  gane  liolgando 
ni  bebienáo  en  la  taberna)  foi  padrão  muito  imitado.  Mas  isso  não  pertence  ao 
meu  assunto. 

(2)  Vid.  Crónica  Rimada  v-101,  1 14,  150,  594,  838,  1.091. 

(3)  Romance  de  Amadis,  Duran  1871. 

(4)  Pr.  60. 

(5)  ^r.  64. 


ÒQ  CAROLINA  MICHAÈLIS  DE   VASCONCELLOS 


Estamos  chegados  ao  Romance  dei  rey  more  <jtt<'  perdia  á 
Valência,  ura  dos  mais  velhos,  c  certamente  o  mais  dramático 
e  mais  cantado  de  todos,  a  ponto  tal  que  troços  notáveis  d'ele 
se  conservam  na  tradição  oral  da  Catalunha,  dos  Açores,  da 
Ilha  da  Madeira,  e  também  entre  os  Judeus  de  Tanger,  (1) 
como  já  disse  na  Introdução. 

O  intróito  vivo  e  impressivo 

[22]  Helo  helo  por  do  viene      el  moro  por  la  calzada  ( Pr.  55) 

muito  citado  (2)  e  muito  imitado  (3),  postoque,  pela  sua  vez, 
seja  tirado  de  outro  cantar  mais  antigo  (4),  ocorre  em  Portu- 
gal no  Auto  de  Rodrigo  e  Mendo  de  Jorge  Pinto  (5).  No  Auto 
da  Ciosa  de  António  Prestes,  o  primeiro  octonário  completado 
por  outro,  livremente  inventado  ad  hoc,  tem  o  valor  de  um 
simples  ei-lo  aqui  (6).  Em  outro  Auto  do  mesmo,  chamado  dos 
Cantarinhos  (sem  que  se  perceba  por  quê),  ha  uma  paródia, 
em  que  el  moro  é  substituido  por  el  saio,  com  alusão  a  um 
roupão  que  o  seu  dono  desejava  levar  ao  penhorista  (7). 

*  * 


(i)  Aos  textos  de  que  me  ocupei  em  Zeitschrift,  XVI,  temos  de  juntar  agora 
o  N.°  6  do  Catalogo  Judio- Esp ano/  e  outro  de  Tras-os-Montes  impresso  na  Re- 
vista Lusitana,  IX,  305.  —  Confer  Antologia,  XI,  360. 

(2)  P.  ex.  na  Ensaladilla  (Est.  4,  Ingr.  15),  e  em  duas  comedias  de  Moreto: 
De  fuera  vendrã  (III,  14)  e  Como  se  vengan  los  Nobles  (III  6). 

(3)  Aos  exemplos  que  outrora  citei,  junte-se  a  parodia  de  Quevedo: 

helas,  helas  por  do  vienen 
la  Corruja  y  la  Carrasca, 
{Musa  V,  Baile  II,  da  vida  airada),  citada  no  Orfeo  de  Câncer  (Zschr.  XXIII,  70). 

(4)  Pr.  1  50.  Romance  dei  inf atite  vengador. 

(5)  Vid.  T.  Braga,  Poesia  Popular  Portugueza,  p.  380. 

(6)  Autos  p.  339: 

O  barbero  é  já  chegado 
ELO,  ELO  POR  DO  VXENE 
DE  CAPUZ  ENCADERNADO. 


(7)     Ib.  p.  440: 
e  logo  depois: 


Elo,  elo  por  do  viene 

EL  SAIO  POR  LA  CALZADA, 

ATo  era  el  saio  tan  viejo, 
ijue  inda  nelle  saia  havia. 


ROMANCES   VELHOS  61 


Outro  verso  com  a  descrição  do  Mouro, 

[23]  una  adarga  ante  los  pechos      [y  en  su  mano  una  azagaya] , 

perfaz  o  remate  de  uma  estrofe  da  Carta  II  da  África  em  que 
o  autor  começa  a  fazer  o  seu  próprio  retrato: 

E  pois  que  já  comecei, 

dar-vos-hei  conta  comprida 

de  como  passo  a  vida 

nesta  vida  que  tomei: 

vou  me  ao  longo  da  praia 

sem  outros  ricos  petrechos, 

una  adarga  a[ri]te  [los]  pechos 

y  en  la  mano  una  azagaia  (Estr.  4). 

* 
*  * 

As  exclamações  sentidas  do  mouro 
[24J  Guay  Valência,  guay  Valência  (1),  de  mal  fuego  seas  queimada 
(mas  sem  as  ameaças,  malcabidas,  contra  o  Cid,  que  provém 
de  romances  fronteiriços)  (2),  foram  cantadas  em  1532,  era  pre- 
sença dos  reis,  como  parte  do  Auto  da  Lusitânia  de  Gil  Vi- 
cente, em  redacção  fragmentada  e  desconexa;  vestidas  á 
portuguesa,  mas  com  remendos  castelhanos.  Dois  judeus  al- 
faiates, pae  e  filho,  sentados  na  sua  banca,  cantam  cosendo: 

Ai  Valença,  guai  Valença      de  fogo  sejas  queimada! 
primeiro  foste  de  moiros      que  de  christianos  (3)  tomada! 
(alfaleme  na  cabeça  (I)      en  la  mano  una  azagaia)  (5) 
Guai  Valença,  gual  Valença      como  estás  bem  assentada! 
antes  que  sejam  três  dias      de  moiros  serás  cercada  (ti). 


e  ainda: 

Quando  la  hermosa  infanta 

mi  ama  ya  lo  DESFIA, 
com  um  pé  á  portuguesa,  para  realçar  o  efeito  cómico  d'essas  citações,  arbitra- 
riamente mascaradas, 
(i)     Var  Ay  e  Oh. 

(2)  Pr.  71  e  71a. 

(3)  A  forma  bissilábica  christãvs  encurtaria  o  verso. 

(4)  Este  hemistiquio  impar  não  se  encontra  em  nenhuma  versão  conhecida.— 
Pertence  a  outro  romance  fronteiriço,  o  de  Antequera  (Pr.  74,  v.  8.) 

(5)  Este  hemistiquio  par  faz  parte  do  verso   4.0,  agora  mesmo   citado  (23).— 
Ambos  estão  aqui  fora  do  seu  lugar. 

(6)  Obras  III,  p.  270. 


62  CAROLINA  MICHAÊLIS   DE   VASC0NCELL08 

Eassi  o  foi,  afirma  o  pae.  Segue  um  dialogo  engenhoso.  A  mãe 
Hecer  Beacar  confessa  preferir  cantigas,  e  faz  ouvir  uma 
cTaquelas poesias  arcaicas,  mulheris,  paralelísticas, que  encan- 
tam sempre  de  novo:  Donde  vindes,  filha  Blanca  e  colorida. 
O  pae,  pelo  contrário,  Dom  Juda,  tipo  perfeito  dos  medrosos 
inconscientes  que  se  deleitam  com  fantasias  heróicas,  brava- 
teia  de  valente  e  de  altercador,  dizendo  entre  outras  coisas: 

Se  a  cantiga  não  fallar 
em  guerra,  de  cutiladas 
e  de  espadas  desnudadas, 
lançadas  e  encontradas 
e  coisas  de  peleijar, 
nâo-nas  quero  ver  (1)  cantar! 
nem-nas  posso  ouvir  cantadas! 

E  possível  que  o  Plauto  português  quisesse  frisar  nessa 
scena  de  família  não  só  o  caracter  dos  Judeus  perseguidos 
e  o  género  musical  guaiado  (2)  que  preferiam,  mas  também 
o  modo  como  tratavam  textos  tradicionaes,  abreviando-os  e 
confundindo-os,  e  na  linguagem  (porventura  até  no  sotaque  da 
pronúncia)  dos  que  vieram  de  Hespanha.  Mas,  como  o  leitor 
já  viu,  e  ainda  verá  em  diversos  exemplos,  mistura  igual 
de  castelhano  e  português  se  nota  em  quasi  todos  os  tre- 
chos— e  é  naturalíssima  em  pessoas  que,  falando  um  dos  idio- 
mas peninsulares  como  lingua  materna,  têm  todavia  de  ser- 
vir-se  do  outro. 

Como  as  lamentações  sobre  Valência  também  se  aplicaram 
a  Alfama,  na  versão  oral  da  Ilha  da  Madeira  (3),  embora  sejam 
ilógicas  num  Romance  do  Cid,  a  exclamação  minha  Alfama 
como  título  burlesco,  antitético,  de  ternura,  dado  a  uma  ra- 


(i)     Talvez:  não-nas  quero  eu  cantar? 

(2)  Guai,  guaias  guaiado  é  muito    frequente  em   boca  dos  Judeus   de  Gil  Vi- 
cente. Vid.  Ill,  143,  266,  271. 

(3)  Eis  o  passo: 

Ai  Aljama,  mi/th  ''Alfama       que  m  'stavas  mal  guardada! 
Ainda  hontem  de  moiros,       hoje  dos  christões  ganhada! 
Ai  Alfama,  minh\[tfama        afogo  sejas  queimada, 
s  'amanhã  o  sol  raiar       sem  de  moiros  ser  croada! 
Confer  Antologia,  X,  243. 


ROMANCES   VELHOS  63 


pariga  no  Auto  dos  Cantarinhos  (1),  podia  ter  o  seu  lugar 
aqui.  Talvez  porém,  mais  abaixo,  no  parágrafo  33  e  34  sobre 
o  Mouro-alcaide  que  perdeu  a  Alfama  (Altiama). 

Certamente  o  tem  o  emprego  de  guay  Valença,  em  vez  de 
um  mero  jay!  ou  ;ay  Jesus!  nesse  mesmo  Auto  (p.  446)  e  no 
do  Desembargador  (p.  232).  No  primeiro,  a  scena  passa-se  en- 
tre uma  moça  de  recados  e  um  criado,  com  ofício  de  gracioso: 
Marquesa.    Vae  dar  lá  de  mim  recado. 
Duarte.         &A  quem? 
Marquesa.  ;A  tua  senhora! 

Dize  que  estou  aqui,  lesma! 
agouro  !praga  de  povo! 
Duarte.         Ora  eu  tenho  isso  por  novo: 

f;vens  dar  recado  a  ti  mesma? 
Marquesa.     <<;Que  falas,  rosto  de  estiovo? 
A'  tua  senhora!  ouves  agora? 
Duarte.  jGuay  Valença,  guay  Valença! 

<>E  eu  tenho  agora  esfora 
quem  seja  minha  senhora 
mais  que  essa  gentil  pessoa? 

No  segundo,  um  moço,  da  mesma  laia,  dá  as  boas  vindas  á 
sua  ama  nova,  recem-casada,  cantando-lhe  ironicamente  uma 
endecha,  como  saudação.  Com  medo  de  ela  ser  tá  o  sovina  e 
tão  avessa  a  cumprir  os  seus  deveres  como  o  amo,  diz,  á  es- 
pera do  vestido  e  da  ceia  que  lhe  haviam  sido  prometidos: 

y  se  vucstra  mercê  piensa 

ser  tal  qual  é  seu  marido, 

queda -os  á  Dios,  vestido! 

que  la  cena...  guay  Valença!  (2). 

* 
*  * 

Maia  outro  verso  parece  haver-se  desligado  de  uma  re- 
dacção perdida  d'este  romance  (3), relativo  a  Babieca,  esse  ca- 

(i)     Autos,  p.  444. — No  §  34,  transcrevo  o  passo. 

(2)  Sempre  em  português. 

(3)  Perdida,  mas  semelhante  á  da  Ilha  da  Madeira.  O  verso 

Se  o  cavalo  bem  corria        a  égua  melhor  voava, 
entrava  na  perfeição  no  texto  impresso  na  Antologia  X,  275,  depois  do  que  diz 
IC  o  moiro  lá  se  vae       de  carreira  desfechada. 


64  CAROLINA  MICHAÈLI8  DE    VASC0NCELL08 

valo  que  bem  anda  (1),  e  sua  mãe,  a  égua  ligeiríssima  do  rei 
mouro  (2).  Creio  que  o  teor  era  em  castelhano 

[25]  Si  el  caballo  bien  corria      la  yegua  mejor  volaba 

e  corresponde  á  lição  comum: 

Do  la  yegua  pone  el  pie      Babieca  pone  la  pata. 

Encontrei  o  verso  na  Ulysipo  (f.  155);  e  julgo  haver  desco- 
berto uma  parodia  numa  esparsa  insignificante  do  Cancio- 
neiro Geral,  sobre  um  barrete  e  uma  carapuça,  cujos  últimos 
versos  dizem,  invertendo  os  octonários  e  baralhando  as  duas 
línguas,  como  é  usual  em  citações: 

.s-'o  barrete  bem  valava      la  hegoa  mijor  corria; 

Ao  que  parece,  o  poeta  quis  dar  a  entender  que  sempre  a  ca- 
rapuça valia  mais  (3)  ou  era  de  beleza  superior. 


* 
*  * 


No  Auto  dos  Amphitriões  do  Poeta,  Sósia  cantarola  o  prin- 
cípio de  um  cantar  castelhano 

[26]  Amphitrion  esforzado      bravo  va  por  la  batalla, 

siete  cabezas  llevaba      de  las  mejores  que  ha  hallado. 

O  segundo  octonário  pertence  a  um  romance  sobre  a  fugida 
do  rei  Bucar 

Ese  buen  Cid  Campeador      bravo  vapor  la  batalla  (4). 
que  é  variante  de 

Encontrado  se  ha  el  buen  Cid      en  médio  de  la  batalla  (Pr.  56). 


(i)     Poema  dei  Cid.  2415,  2418,  2420. 

(2)  Com  relação  a  Diego  OrdoSez  e  seu  filho,  o  romance  diz:  padre  y  hijo  los 
caballos.  (Pr.  7.)  Casos  parecidos  se  repetem  em  outros  cantares. 

(3)  Canc.  Ger.  II,  428  (f.  124  b.)  Trova  que  mandou  D.  Pedro  d1  Almeida  a  Joam 
Rroiz  de  Saa,  vyndo  d'Azamor...  porque  trazia  huma  carapuça  de  veludo. — Num 
romance  tradicional  entre  os  Judeus  de  Levante  (Antologia,  X,  305),  em  que  ha 
fusão  do  motivo  de  Brancaflor  e  Filomena  com  o  da  Má  sogra,  notei  um  verso 
parecido  (mas  com  assonáncia  diferente)  quanto  mas  corre  el  caballo — mas  muc/10 
corria  ella  (a  mula,  mencionada  no  verso  2.0  do  romance). — Na  resposta  de  João 
Rodriguez,  poios  consoantes,  os  versos  correspondentes  contem  o  provérbio  a  porfia 
mata  caça. 

(4)  N.°  1 5 1  do  meu  Romanceio  dei  Cid. 


ROMANCES    VELHOS  65 


As  sete  cabezas  lembram  os  Infantes  de  Lara,  mas  a  con- 
tinuação parece  burlesca. 


* 
*  * 


O  último  romance  cTeste  ciclo 

Por  Guadalquivir  arriba      cábalgan  caminadores  (Pr.  58), 

conhecido  apenas  por  um  Plieyo  suelto,  posterior  a  1535,  náo 
me  parece  primordial,  na  forma  em  que  o  possuímos,  mas 
antes  composto  de  dois  troços  independentes  (de  assonáncia 
diversa),  dos  quaes  apenas  o  segundo  trata  do  Cid  (1).  Do  pri- 
meiro (que  julgo  fronteiriço)  o  verso 

[27]  ricas  aljubas  vestidas      y  encima  sus  albornoces 

passou  para  a  Carta  II  da  Africa,  onde  se  liga  directamente 
ao  episódio  dos  trezentos  a  cavalo: 

Vinham  d'e?poras  douradas 

o  vestidos  de  alegria, 

com  adargns  embrazadas, 

la  flor  de  la  Berbéria. 

Com  gritos  e  altas  vozes 

vinham  a  rédeas  tendidas, 

ricas  aljubas  vestidas, 

encima  sus  albornozes  (Estr.  13.)  (2). 

No  Comédia  dos  Vilhal pandos  do  Francisco  de  Sá  de  Miranda 
(Acto  III,  scena  VIII),  um  dos  dois  soldados  nomeados  no 
título,  indignado  contra  os  eclesiásticos  de  Roma,  diz: 

hia  cuidando  nestes  clérigos  per fumados,  que  ricas  aljubas  réstia m, 

lembrado  provavelmente  do  cantar  de  que  trato.  Inclino-me 
a  crê-lo,  porque  ha  nessa  comédia  bastantes  alusões  a  cantos 
tradicionaes  e  a  matérias  folklórieas. 


(i)  Não  é  estranhavel  encontrar  o  conquistador  de  Valência  na  ribeira  do 
Guadalquivir?  Quem  é  esse  seu  companheiro?  e  porque  é  que  vai  ás  cortes  de  modo 
tão  singular?  A  quaes:  Burgos?  Leon?  ou  Toledo? 

(2)  O  quadro  deve  ser  fiel.  Os  historiadores  descrevem  innúmeras  batalhas  e  si- 
mulacros de  batalha,  em  que  os  combatentes  entram  com  as  adargas  embraçadas, 
com  grande  grita  como  mouros.  Vid.  p.  ex.  Resende,  Vida  e  Feytos,  cap.  131. 


CAROLINA  MICHAELIS  DE   VASCONCELLOS 


B.  Outros  romances  históricos. 

VI.  Inês  de  Castro 

Dois  casos,  que  se  referem  ao  episódio  mais  conhecido  da 
história  de  Portugal,  ambos  eles  um  tanto  complicados,  reque- 
rem a  nossa  atenção. 

a)  Na  Farsa  dos  Almocreves,  que  já  tive  de  mencionar, 
composta  e  representada  no  ano  de  1526  a  1527  quando  a  cor- 
te, fugida  da  peste,  se  encontrava  em  Coimbra,  uma  das  figu- 
ras principaes  é  o  capelão  de  um  d'aqueles  fidalgos  pobres  què 
o  fundador  do  teatro  português  pintou  com  tanta  graça  6  do- 
naire: de  pouca  renda  e  muito  estado,  tão  orgulhosos  como  se 
fossem  parentes  dei  rei.  Incapaz  de  o  pagar  bem  e  de  o  sus- 
tentar condignamente,  o  fidalgo  que  de  típico  nem  nome  tem, 
fartade  promessas  fantásticas  o  padre  que,  nobre  também,  pelo 
seu  lado,  «jâ  fora  do  infante»  e  pudera  ser  que  dei  rei.  (1) 
Esfarrapado  e  sem  nada  de  seu  passeia  no  areal  do  Mondego, 
dizendo  mal  da  sua  miséria. 

Pois  que  não  posso  rezar 
por  me  ver  tão  esquipado, 
por  aqui  por  este  arnado 
quero  hum  pouco  passear 
por  espaçar  meu  cuidado. 
E  grosarei  o  romance 
de  Yo  me  estaba  en  Coimbra, 
pois  Coimbra  assim  nos  cimbra 
que  não  ha  quem  preto  alcance  (2). 

E  acto  contínuo  improvisa  a  seguinte  «Grosa»  (de  Disparates?): 

[28]  Yo  me  estaba  (3)  em  Coimbra      cidade  bem  assentada; 
pelos  campos  de  Mondego      não  vi  palha  nem  cevada: 
Quando  aquillo  vi  mesquinho       entendi  que  era  celada 


(i)  Claro  está  que  na  literatura  hespanhola  o  fidalgo  português,  muito  parente 
dei  rei,  aparece  frequentes  vezes.  Vid.  p.  ex.  Rouanet,  Autos,  Vol.  I,  p.  262  s  ;  Canc. 
Mus.  N.°  425;  Cortes  de  la  Muerte  (Rivadeneyra  XXXV,  p.  56). 

(2)  Não  atino  com  o  significado  d'estas  duas  linhas,  Obras  III,  p.  202. 

(3)  Em  castelhano,  afim  de  chamar  a  atenção  para  o  modelo. 


ROMANCES    VELHOS  67 


contra  os  cavallos  da  corte      e  minha  mula  pellada. 

Logo  tive  a  mao  sinal      tanta  milhan  apa[n]hada 

e  a  peso  de  dinheiro      a  mída  desemparada. 

Vi  vir  ao  longo  do  rio      hua  batalha  ordenada, 

não  de  gente,  mas  de  mus,        com  muita  raiva  pisada. 

A  carne  está  em  Bretanha      e  as  couves  em  Biscaia. 

Sam  capellão  d'um  fidalgo      qiie  não  tem  renda  nem  nada, 

quer  ter  muitos  apparatos      e  a  casa  anda  esfaimada; 

toma  ratinhos  (l)  por  pagens      anda  já  a  cousa  danada. 

Quero  lhe  pedir  licença,      pague-me  minha  soldada. 

Grosar  tem  aqui  (e  em  outras  partes)  o  sentido  derivado  de 
remedar,  contrafazer,  fazer  trovas  decalcadas  sobre  um  ro- 
mance velho.  Temos  portanto  de  procurar  o  modelo,  na  su- 
posição que,  além  da  toada  e  do  primeiro  verso,  a  assonáncia 
ha  de  ser  a  do  padrão  (2),  mas  também  na  esperança  que  do 
confronto  se  desentranhe  a  graça  e  o  chiste  que,  sem  ele,  não 
sei  descobrir  no  texto  transcrito.  Nao  o  encontro  todavia.  Ha, 
de  facto,  um  romance  de  princípio  igual,  mas  tendo  a  asso- 
náncia do,  continua  de  modo  diverso: 
Yo  me  estaba  allá  cn  Coimbra      que  yo  me  la  hube  ganado  (Pr.  65.)  (3). 

De  mais  a  mais  neste  Romance  de  D.  Fadrique,  maestre  de 
Santiago,  y  de  como  lo  mando  matar  el  rey  D.  Pedro  8U  her- 
mano,  o  nome  de  Coimbra  c  contrabando,  pois  está  por  Ju- 
milla  (4)  (na  Márcia^,  onde  se  passou  a  tragédia  histórica  (5). 
Entre  os  restantes  que  começam  de  modo  parecido: 


(i)  Ratinho,  indivíduo  pobre,  vindo  á  corte  para  de  aldeão  se  transformar  em 
pagem  de  fidalgos  pobres;  um  dos  tipos  mais  explorados  pelos  poetas  cómicos 
do  século  XVI. 

(2)  Estas  três  qualidades  sào  obrigatórias  nos  remedos.  Quanto  ao  resto,  ha 
liberdade  quasi  absoluta:  em  alguns  casos  a  imitação  continua,  de  modo  que  a 
cada  construção  gramatical,  responde  outra,  idêntica  de  sentido  novo. 

(3)  Confer.  Antologia,  XII,  124. 

(4)  Mais  um  caso  em  que  nomes  histórico-geográficos,  pouco  familiares  ao 
povo,  foram  substituídos  em  romances  tradicionaes  por  outros,  muito  conhecidos, 
de  vocalização  semelhante  fu-í-a). 

(5)  Vid.  Mérimée,  Histuire  de  D.  Pèdrt I*\  p.  540,  e  Antologia  XIÍ,  124.— Não 
precisamos  de  uma  guerra  castelhano-portuguesa  para  explicar  a  introdução  do 
nome  de  Coimbra.  Além  dos  romances  de  D.  Fernando  I  e  do  Cid,  e  um  de  D. 
Inês  de  Castro,  em  que  o  nome  da  cidade  do  Mondego  não  destoa,  ha  outro  em 
que  entrou  por  ne/as  (v.  Antologia,  XII,  544). 


68  CAfíOLlHA  MICHAÍLIS  DE    VASCONCELLOS 


Yo  me  estàba  en  Barbadillo      en  esa  mi  heredad  (Pr.  19)  (' 
Yo  me  estaba  en  Valência      en  Valenciala  mayor  (Pr.  60) 
Yo  me  estando  en  Giromena  (2)       d  mi  placer  y  holgar  (Pr.  104) 
Yo  me  estando  en  Tordesillas      por  mi  placer  y  holgar  (Pr.  103), 

não  ha  nenhum  que  sirva. 

Trata-se  portanto  de  um  texto  perdido,  cujo  início  influiu 
tanto  no  romance  do  Mestre  de  Santiago  como  na  paródia  de 
Gil  Vicente.  E  não  repugna  a  conjectura  que  o  tema  fosse  a 
tragédia  dei  rei  D.  Pedro  de  Portugal,  cruel  justiceiro  como  o 
castelhano:  a  morte  de  D.  Inês  de  Castro,  que  positivamente 
se  passou  na  cidade  do  Mondego.  Talvez  na  própria  sala  em 
que  se  representava  a  Farsa  dos  Almocreves  (3).  Note-se  que 
ambos  os  sucessos  suscitaram  lendas  locaes  que  se  semelham 
pelo  menos  num  ponto.  Nos  lagedos  da  Fonte  das  Lágrimas  se 
mostram  gotas  do  sangue  de  Inês;  e  gotas  do  sangue  de  D.  Fa- 
drique  mostram-se  no  Alcázar  de  Sevilha. 

Mas,  caso  estranho,  no  riquíssimo  Romanceiro  peninsular 
não  ha  um  único  cantar  velho  que  trate  manifestamente  do  caso 
lastimoso  da  que  depois  de  morta  foi  rainha.  É  todavia  opinião 
corrente,  e  agora  energicamente  defendida  e  lucidamente  ex- 
posta pelo  autor  do  Tratado,  que  eles  existiram,  e  que,  além 
do  veráo  To  me  estaba  en  Coimbra,  possuímos  mais  um,  desli- 
gado do  mesmo  romance  tradicional,  ou  de  outro  parecido  (4). 

Antes  de  falar  d'ele,  cumpre-me  dar  parte  ao  leitor  de  que 


(i)     Contrahecho  em  Yo  me  estaba  en  pensamiento,  como  já  indiquei. 

(2)  Giromena  é  Juromenha,  e  está  também  em  lugar  de  Coimbra,  não  se 
adivinha  por  quê. 

(3)  Já  enunciei  esta  hipótese  em  outra  parte,  firmando-me  no  facto  seguinte. 
Na  Comédia  sobre  a  divisa  da  Cidade  de  Coimbra,  composta  e  representada  ahi  mes- 
mo como  a  dos  Almocreves,  durante  a  estada  da  corte,  ha  uma  meia-octava  que  diz 
(Obr\s,  II,  p.  133): 

As  mulheres  de  Crasto  são  de  pouca  fala 
fermosas  e  firmes,  como  saberes 
pola  triste  morte  de  Dona  Inês, 
a  cual  de  constante  morreo  nesta  sala. 
A  sala  pertencia,  na  minha  opinião,  ao  chamado  Paço  da  Rainha  (no  aCulgo»), 

(4)  O  que  o  P.  D.  Marcos  de  S.  Lourenço  (■{*  1645)  diz  nos  seus  Lusíadas  Co- 
mentados (inéditos)  a  respeito  das  cantigas  e  dos  romances  de  dona  Inês  que  as 
moças  de  cântaro  e  lavandeiras  de  Coimbra  cantavam,  é  vago  e  tardio  de  mais  para 
servir  de  prova.  (Vid.  Obras  de  Camões,  ed.  Juromenha,  I,  325.) 


HOMANCES   VELHOS  69 


o  magnífico  romance  da  morte  do  Mestre  subsiste  não  só  nas 
Astúrias  (1),  mas  também  entre  os  Judeus  de  Tanger  (2).  E 
entre  estes  últimos  numa  versão  que  muito  se  parece  com  a 
velha  (Pr.  65)  (3).  Começando 

Yo  estando  en  Guadalupe  (!)      en  silla  de  oro  sentado  (4) 

anda  confundida,  segundo  o  informador,  com  outra  assonan- 
tada  em-áií,  como  o  texto  de  Gil  Vicente.  Como  por  ora  ape- 
nas se  publicaram  os  primeiros  quatro  versos,  nada  mais  posso 
adiantar. 

b)  Mas  então,  ha  ou  não  ha  cantares  velhos  de  D.  Inês? 
dirá  surprendido  o  leitor  português,  lembrado  de  algumas 
Exclamações  e  Lamentações  arcaicas,  impressas  e  reimpres- 
sas, e  de  diversos  romances  que  andam  nas  publicações  de 
T.  Braga.  Sem  falar  das  Lamentações,  em  estilo  antigo,  que 
são  meras  mistificações  (5),  baste  dizer  o  seguinte,  quanto 
aos  textos  publicados  pelo  incansável  historiador  da  litera- 
tura pátria  (6).  O  romance  português,  provindo  do  espólio  de 
um  cidadão  do  Porto  (7),  é  evidentemente  moderno,  inspiração 
sentimental  de  algum  admirador  e  emulo  de  Almeida-Garrett, 
a  modo  de  Estácio  da  Veiga.  Dos  textos  castelhanos,  incluídos 
na  Floresta  de  vários  romances,  dois  são  de  autor  conhecido, 


(i)      Viejos  Romances,  N.°  12.  Antologia,  X,  p.  53. 

(2)  Catálogo  Judio  Espaãol,  N.°  7. 

(3)  Este  achado  deve  modificar  um  tanto  certas  dúvidas  enunciadas  na  Antolo- 
gia, XII,  a.  p.  127. 

(4)  O  segundo  hemistíquio  encontra-se  no  romance  humorístico  do  mal  de 
amor  do  Senhor  D.  Gato,  e  provém  provavelmente  de  outro  (desconhecido)  primi- 
tivo e  histórico  que  lhe  serviu  de  modelo,  e  também  inspirou  o  autor  do  cantar 
alegórico,  impresso  poi  Duran  N.°  1.400,  e  anteriormente  na  Flor  de  enamorados. 

(5)  Já  tratei  d'essas  Lamentações  apócrifas,  e  das  cantigas  atribuídas  a  El  Rei 
D.  Pedro  I  no  Grundriss,  §  75,  sem  todavia  me  despedir  do  assunto.  Numa  da9 
minhas  Xotas  marjinaes  aos  Cancioneiros  Galego- Portugueses  (Rand-GlossenJ  ten- 
ciono voltar  ao  assunto. 

(6)  Infelizmente,  ele  não  regeita  com  bastante  hombridade  os  textos  apócrifos. 
Das  Lamentações  tratou  nas  Questões  p.  140-143,  como  se  vô  no  §  75  do  meu  Bos- 
quejo de  literatura  portuguesa.  Ahi  digo  que  o  primeiro  editor,  A.  Lourenço  Ca- 
minha, foi  provavelmente  o  inventor.  Inéditos  de  Perestrello  è  Galvão.  Lisboa,  1 79 r  • 

(7)  Vid.  Archipèlago  Açoriano,  N.°  59,  p.  345   e  456. 


70  CAROLINA  MlCHAÉLIS  DE    VASC0NCELL08 

de  fins  do  século  xvi  (1);  um,  anónimo,  é  do  mesmo  período  e 
de  gosto  igual  (2);  o  derradeiro  (N.°  7)  pertence  á  literatura 
de  cordel.  Dos  velhos  e  belos  cantares  castelhanos  que  arbi- 
trária e  enigmaticamente  substituiram  o  nome  de  D.  Inês  pelo 
de  D.  Isabel  de  Liar,  logo  falarei.  0  que  figura  á  frente  da 
Floresta,  em  que  a  heroina  entra  com  as  palavras 

Eu  era  moça  menina      per  nome  dona  Ynes, 

narrando  e  lamentando  a  sua  desgraça,  impresso  em  renglones 
seguidos,  como  se  realmente  fosse  uma  tirada  única  de  octoná- 
rios  duplos  assonantados,  e  sobrescritado,  também  arbitraria- 
mente, Trovas  á  maneira  de  romance  (3),é  antigo(fins  do  sécu- 
lo xv  ou  princípios  do  xvi)  mas  não  é  romance(A).  E'  obra  ar- 
tística de  Garcia  de  Resende,  dirigida  ás  damas  da  corte,  em 
cincoenta  e  oito  quintilhas  ou  vinte  e  nove  décimas  (5). 


(i)  Gabriel  Lobo  Laso  de  la  Vega,  cujo  Romancero  se  publicou  em  1587 
(N.os  4  e  5  de  Braga.) 

(2)  Ib.  N.°  6. 

(3)  Confer  Cantar  â  maneira  de  solao,  título  que  Bernardim  Ribeiro  deu  a  um 
dos  seus  romances  em  versos  pareados,  dissonantes. 

(4)  T.  Braga  dá-lhe  sempre  esse  nome  de  romance  (romance  culto;  único  roman- 
ce contido  na  vasta  coleçao  de  Resende),  p.  ex.  no  Arch.  Açor,  p.  456.  O  engano  de 
Braga  passou  ao  Tratado.  Vid.  Antologia  XII,  284.  O  título  original  que  a  obra  do 
benemérito  coleccionador  do  Cancioneiro  Geral  tem,  é  Trovas,  a  seco  com  a  ex- 
tensa explicação  seguinte:  Trouas  que  Garcia  de  Rresende  fez  a  a  morte  de  dona 
Inês  de  Castro,  que  el  rrey  dom  Alfonso  o  quarto  de  Portugal  matou  em  Coimbra, 
por  o  príncipe  dom  Pedro,  seu  filho,  a  ter  como  mulher  e  polo  bem  que  lhe  queria 
nem  queria  casar;  enderençadas  has  damas. 

(5)  Quintilhas  em  teoria,  pois  as  rimas  seguem  o  esquema  ababa  ccddc  ou 
abaab  edeed,  mas  Décimas  na  prática,  visto  que  vão  distribuídas  em  estrofes  de 
dez  versos. 

T.  Braga  apresenta  apenas  vinte  e  duas.  Suprimiu,  as  primeiras  duas  em  que 
fala  D.  Inês,  além  da  dedicatória  A's  Senhoras  e  das  últimas  seis  A's  mesmas,  que 
são  uma  espécie  de  moralidade  com  alusões  importantes  á  coração,  á  vingança 
e  ao  monumento  sepulcral  no  cruzeii o  d^Alcobaça.  Porquê?  porque  são  líricas  e, 
como  segredarei  aos  curiosos,  porque  correm  soltas  como  Exclamações  ou  Lamen- 
tações arcaicas,  e  porque  a  pregunta: 

Qual  será  o  coraçam 
tam  cru  e  sem  piadade 
que  lhe  nam  cause  paixam 


ROMANCES   VELHOS  71 


Garcia  de  Resende  considerava  a  sua  obra  como  trovas  e 
não  como  romance.  Desprezando  o  género  popular,  nâo  escre- 
veu nenhuma  composição  assim  chamada,  nem  meteu  nenhu- 
ma alheia  entre  as  obras  líricas  e  de  folgar,  cultivadas  e  apre- 
ciadas pelos  seus  colegas  palacianos.  Nem  mesmo  se  serviu  do 
vocábulo  (1). 

Ainda  assim,  é  certo  que  conhecia  o  género  e  o  nome,  e 
que  outros  cortesãos  estavam  no  mesmo  caso .  Já  aleguei 
um  verso  de  romance  utilizado  por  um  d'elcs  (em  1498),  e  ain- 
da terei  de  alegar  mais  alguns,  contando  que  um  d'eles  fala 
de  um  cantar  romance.  Quanto  a  Resende,  no  Prólogo  ao  Prín- 
cipe Nosso  Senhor  (2)  menciona  vagamente  rimances  (como  se 
dizia  em  algumas  partes  de  Portugal,  desde  o  tempo  de  D. 
Duarte  (f  1438)  e  como  ainda  hoje  se  diz  em  Tras-os-Montes) 
e  torna  a  empregar  o  termo,  ao  comunicar  uma  glosa  sua  de 
um  cantar  lírico  castelhano,  de  que  conto  ocupar-me  (3). 

Pôde  ser  portanto  verdadeira  a  opinião  de  Menéndez  y  Pe- 
layo,  que  julga  reconhecer  nas  Trovas  de  D.  Inês  um  verso 
tradicional,  resto,  como  já  indiquei,  de  um  romance  perdido 
castelhano,  comquanto  vá  longe  demais  ao  dizer  que  Gar- 
cia de  Resende  se  inspirou  nele  (4).  Como  fonte  de  inspi- 
ração bem  bastavam  as  crónicas  e  as  lendas,  intimamente  li- 
gadas aos  expressivos  sarcófagos  em  Alcobaça  e  á  fonte  das 
lágrimas  (ou  dos  amores)  em  Coimbra.  Isso,  se  náo  houve 
até  1516  trovas  nenhumas  portuguesas,  2,  ela  dedicadas,  o  que 
custa  a  crer. 


huma  tam  grani  crueldade 
e  morte  tam  sem  rrezam! 

com  o  mais  que  segue  não  seria   bom   início    de    romance,    como   o  é  a  fórmula 
Eu  era  moça  menina. 

(i)  Na  Parte  Terceira  d  'este  Estudo  direi  quem  foram  os  primeiros  Portugueses 
que  escreveram  romances  literários,  conhecidos. 

(2)  Vol.  I,  p.  XXX.  E  assy  miiytos  emperadores,  reys,  pessoas  de  memoria,  po- 
ios rrymançes  e  trouas  sabemos  suas  estorias. 

(3)  Vid.  N.°  95  e  Parte  III  N.°  123-126. 

(4)  Qualquer  Português  que  deseje  ocupar-se  dos  problemas  relativos  á  lenda 
histórica  de  D.  Inês  deve  estudar  a  lúcida  exposição  contida  nas  pág.  284-288  da 
Antologia,  Vol.  XII. 


72  CAROLINA  MICHAÈLIS-DE   VASC0NCELL0S 

Sem  entrar  qm  discussões  a  este  respeito,  vejamos  os  fac- 
tos com  que  o  ilustre  investigador  argumenta. 

Primeiro  os  versos  indigitados  de  Garcia  de  Resende.  Sao 
os  finaes  da  estrofe  que  diz: 

Estava  muy  acatada, 

como  princesa  servida 

era  meus  paços  muy  honrrada, 

de  tudo  muy  abastada, 

de  meu  seuhor  muy  querida. 

Estaudo  muy  de  vaguar, 

bem  fora  de  ta!  cuidar 

em  Coymbra  d'aseseguo, 

poios  campos  de  Mondeguo 

Caualeyros  vi  somar  (Estr.  7).  (1). 

[29]  Poios  campos  de  Mondeguo      Caualeyros  vi  'somar 

Ha,  pelo  menos,  três  redacções  castelhanas  d'este  octo- 
nário  duplo.  A  primeira  faz  parte  do  curioso  romance  (II), 
belo  comquanto  extravagante,  sobre  a  desconhecida  portu- 
guesa D.  Isabel  de  Liar  a  que  já  aludi,  como,  porque  el  rey 
tenía  hijos  de  ella,  la  reina  la  mando  matar,  dama  que  evi- 
dentemente tomou  o  lugar  de  Inês  de  Castro  na  mentalidade 
completamente  desprovida  de  conhecimentos  históricos  de 
algum  vate  popular  (2).  Longe  de  Portugal,  bem  se  vê.  E  o 
que  principia: 

Yo  me  estando  en  Giromena      á  mi  placer  e  holgar  (Pr.  104),  (3) 
subiera-me  á  vn  mirador      por  mas  descanso  tomar. 

Como  além  de  muitos  pormenores,  todos  os  nomes-próprios 


(i)  Não  e  verdade  que,  assim  isolada,  a  décima  parece  ser  glosa  verdadeira? 
— A  ilusão  desaparece  todavia,  quando  se  lê  a  composição  inteira. 

(2)  Milá,  Duran,  Braga,  Pelayo,  concordam  na  identidade  origináriadas  du  as 
heroinas,  comquanto  também  não  atinem  com  o  motivo  que  pode  ter  provocado 
tão  singular  alteração. 

(3)  O  que  principia  Yo  me  estando  en  Tordesillas  A  mi  placer  e  holgar  (Pr.  103) 
foi  considerado  por  Wolf  como  Acto  I  da  tragedia  de  D.  Isabel  de  Liar,  porque, 
de  assunto  parecido,  também  trata  de  uma  D.  Isabel,  e  nomeia  de  mais  a  mais 
Coimbra  e  um  convento  de  a  par  de  Coimbra  (como  o  de  Santa  Clara).  Milá  e  Pelayo 
preferem  comtudo  relacionar  esse  com  D.  Leonor  Télez,  protagonista  de  outro 
drama  histórico  e  de  um  importante  romance  tradicional  (o  de  João  Lourenço,  el 
de  los  Cuernos  de  oro). 


ROMANCES    VELHOS  f3 


estão  nele  fantasiosamente  alterados  (1),  o  verso  imediato  em 
vez  de  nomear  os  campos  de  Mondego,  diz: 

Por  los  campos  de  Monvela      caballeros  vi  asomar. 

A  segunda  e  a  terceira  pertencem  em  verdadeiros  romances 
de  D.  Inês,  não  acolhidos  a  romanceiros,  nem  conservados 
pela  tradição  oral,  mas  intercalados,  aos  bocados,  em  comé- 
dias castelhanas  do  século  xvn.  Na  Tragédia  Famosa  de  D. 
Inês  de  Castro,  Reina  de  Portugal,  do  licenciado  Mexia  de  la 
Cerda  a  protagonista, postada  também  num  mirante,  exclama: 

Por  los  campos  de  Mondego      caballeros  veo  asomar, 
en  el  talle  muestran  ser      mas  de  guerra  que  de  paz  (2). 

Na  afamadíssima  obra  de  Luis  Velez  de  Gruevara  Reinar 
despues  de  morir,  ha  identidade  completa  com  o  verso  de  Re- 
sende: 

Por  los  campos  de  Mondego      caballeros  vi  asomar 

y  segun  he  reparado      se  van  acercando  acd; 

armada  gente  los  sigue      valgame  Dios!  que  será/  (3). 


(i)  Mondego,  transformado  em  Monvela,  Mombela,  passou  a  ser  apelido  de  um 
dos  assassinos  no  romance  aproveitado  por  Mexia  de  Lacerda.  Depois,  foi  mudada 
em  Chavela,  Chaveda  no  romance  II.  Em  ambas  as  fontes  acrecentam  a  fórmula 
que  llaman  dei  Marichal  (ou  Marchai)  -  à  quien  dicen  dei  Marchai  talvez  porque 
num  texto  português  primitivo  se  tocasse  nos  marichues  ou  marachões  construídos 
para  regulamento  das  águas  do  Mondego? 

(2)  Ha  uma  redacção  tradicional,  que  ainda  se  cantava  em  Catalunha  no  tempo 
de  Milá  (N.°  253),  mais  castelhana  do  que  catalã,  em  que  a  heroina  é  denomi- 
nada simplezmente  D.  Isabel  (como  a  Rainha  Santa,  a  mais  conhecida  entre  as 
mártires  da  historia  portuguesa)  e  o  actor  principal  é  D.  Rodrigo  (irmão  carnal  da 
Rainha  ciumenta).  E  diz: 

Dona  Isabel  se  pasea — en  su  palácio  real; 
mirando  sus  campos  verdes  -romeritos  ve  pasar. 
No  van  a  pié  los  romeros,  —  en  buenos  caballos  van, 
los  rosários  que  ellos  traen  —  son  cabezas  de  metal, 
las  calabazas  dei  vino  —  llenas  de  pólvora  vau. 
Ainda  tornarei  a  falar  d'ele. 

(3)  Acto  III,  scena  II. — O  resto  não  tem  carácter  de  romance.  Ha  particu- 
laridades nmito  curiosas  nesta  formosa  comédia.  Note-se  o  cantar  velho  portu- 
guês Saudade  minha,  estropiado,  pois  diz  saúde  mina,  c>m  unia  volta,  tirada  de 
Camões  (deturpada  também).  E  note-se  o  sobrenome  castelhano  Cuello  de  gtff*a 
transformado  num  apelido  (Coello  de  OarzaJ,  assim  como  uma  reminiscência  do  ro- 
mance poético  da  A'ola   I  iuva .  (Vid.  N.°  38  d'este  Catálogo.) 


74  CAROLINA  MICHAÊLIS  DE   VASCONCELLOS 


Todos  era-íí-.  Nâo  sendo  provável  que  dois  poetas  dramáticos  e 
um  juglar  recorressem  ás  Trovas  de  Resende,  e  escolhessem 
nelas  um  mesmo  verso  de  feitio  popular,  entre  os  vários  que 
contém  (1),  é  quasi  certo  que  todos  os  quatro  utilizaram  um 
modelo  comum,  perdido. 

Largando  o  assunto,  nâo  o  dou  por  liquidado,  esperando, 
pelo  contrário,  poder  reatar  o  fio  qualquer  dia. 

VII.  Alfonso  V  de  Aragão  e  Nápoles 

O  romance  antigo  e  popular  em  que  o  rei  de  Aragão  D. 
Alfonso  V  surge,  repensando  os  vinte  e  dois  anos  que  gastou 
na  conquista  de  Nápoles: 

Miraba  de  Campo  Viejo      el  rey  de  Aragón  un  dia  (Pr.  101a) 
estava  profundamente  impresso  na  memória  do  soldado  afri- 
cano ao  qual  devemos  as  duas  Cartas  em  trovas,  quer  fosse  Luis 
de  Camões,  quer  Manuel  Pereira  de  Santarém,  ou  d'Ossem. 

Tanto  na  Carta  I  como  na  II  empregou,  cheio  de  saudades 
da  pátria  e  da  amada,  o  verso  2.°: 

[30]  Miraba  la  mar  de  Espana      como  menguava  y  crescia, 
substituindo  todavia  o  imperfeito  pelo  particípio  presente, 
para  o  ligar  á  oração  antecedente. 

Eis  aqui  ambas  as  estrofes.  A  primeira  refere- se  á  dissolu- 
ção dos  costumes  militares  antes  do  abandono  de  Arzila  (1549) 

Isto  não  é  praguejar; 
mas  toda  a  culpa  é  da  fome, 
porque  gente  que  não  come 
mal  poderá  pelejar. 
Assi(m)  estão  muitos  no  dia 
co(m)  os  olhos  na  tramontana 
mirando  la  mar  tfEspana 
como  menguabay  crecia  (I,  Estr.  20). 

A  outra  é  toda  subjectiva: 

Vejo  o  mar  embravecer, 

vejo  que  depois  melhora; 

mil  cousa3  vejo  cada  ora 

(i)  Tenho  em  conta  de  popular  o  verso  Eu  era  moça  menina.  Confer.  Bernardim 
Ribeiro;  e  Eu  me  era  Dona  Giralda,  princípio  de  um  cantar  do  repertório  da  ama 
de  Rubena,  como  o  leitor  já  sabe. 


ROMANCES   VELHOS  75 


huma  só  imo  posso  ver. 

Assim  vou  passando  o  dia 

nesta  saudade  tamanha, 

mirando  la  mar  d' Espana, 

como  menguaba  y  crecia  (TI,  Estr  9).  (1). 

C.  Romances  fronteiriços 

Os  cantares  épicos,  avulsos,  que  em  regra  brotaram  direc- 
tamente de  feitos  guerreiros,  praticados  na  guerra  contra  o 
Mouro  (2),  em  peculiar  na  fronteira  granadina  e  principal- 
mente em  Jaén  e  Múrcia,  em  século  e  meio  de  guerrilhas  me- 
dievaes  que  precederam  a  última  acção  de  1490,  com  que  abre 
a  idade  moderna,  são  preciosíssimos  pela  sua  beleza  varonil  e 
vivaz,  nobremente  cavalheirescos,  quer  falem  de  refregas,  em- 
boscadas, correrias,  assaltos  e  cercos,  quer  de  traições  e  apos- 
tasias.  É  mesmo  de  crer  que  os  primitivos,  relativos  a  Ubeda, 
Jaén,  Baeza,  influíssem  em  alguns  históricos  sobre  o  conquis- 
tador de  Valência,  como  os  já  citados  Helo  lielo  e  Por  Guadçtl- 
quibir  arriba. 

E  comquanto  o  Algarve  tivesse  sido  reconquistado  muito 
cedo  (1233-63),  género  tão  especificamente  peninsular  não 
podia  deixar  de  repercutir-se  num  reino  cujas  hostes  toma- 
ram parte  activa  nas  principaes  empresas  subsequentes,  pelo 
menos  até  a  batalha  do  Salado,  e  que  de  1415  em  diante  me- 
diram as  suas  forças  com  os  Mouros  no  Algarve  d'além-mar. 

Xáo  pôde  surprender  por  isso,  se  é  exactamente  nas  Cartas 
d' África  que  encontramos  reflexos  de  romances  fronteiriços. 
Numa  estrofe  jâ  tresladada,  da  Càrtã  //"ha,  no  meio,  um  he- 
mistíquio  que  tenho  em  conta  de  citação,  por  ser  remendo 
castelhano  em  pano  português. 

[31]  La  flor  de  la  Berbéria. 


(i)  De  uni  remedo  castelhano  d'este  romance,  composto  por  I.uis  I  hirtado  de 
Toledo,  antes  de  1547,  trato  num  meu  estudo  novo  sobre  o  Palmeirim  de  Ingla- 
terra. 

(2)      O  mais  velho,  datado  de  1430  pelos  actos  a  que  alude,  é 
Albuquerque,  Albuquerque        merecias  ser  honrado 
(Canc.  Musical^.0  321). 


76  CAROLINA  MICHAÉLIS  DE   VA8C0NCELL0S 

Com  a  variante  Moveria  (1),  ele  ocorre  no  roraam ■<• 

De  Antequera  sale  el  moro      três  horas  antes  dei  dia  (Pr.  74) 

(v.  18),  mas  também  num  do  Rey  Chico  de  Granada  que  já 
tive  de  mencionar  (2),  ao  falar  dei  rei  D.  Rodrigo.  Como  do 
cantar  sobre  Antequera  saisse  o  octonário  alhaleme  en  su  cabe- 
za,  intercalado  na  lamentação  acerca  da  perda  de  Valência,  c 
como  talvez  d'ele  derive  ainda  outra  citação  (na  mesma  Carta 
africana),  modificada  igualmente,  segundo  as  circumstáncia.s 
do  poeta  e  as  exigências  da  rima  (3),  não  sei  decidir  o  caso. 


VIII 


Cópia  rigorosamente  exacta  de  um  romance  sobre  Mouros 
de  Moclin  que  fizeram  uma  correria  pelas  terras  de  Alcalá, 
a  Real,  o  qual  começa: 

Caballeros  de  Moclin      peones  de  Colomera  (Pr.  77), 

forma  o  remate  de  uma  estrofe  da  Carta  II: 

[32]  Caballeros  de  Alcalá      no  os  alabareis  d^aquesta  (v.  16). 

Tudo  anda[va]  de  levanto, 

era  o  campo  todo  cheo; 

em  tudo  punham  espanto, 

de  nada  tinham  receo. 

Com  grandes  vocês  e  festa(s) 

vinham  bradando  de  lá: 

Cavalleros  de  Alcalá 

no  os  alabareis  d^aquesta  (Est.  15). 


(i)  Claro  está  que  Berbéria  ocorre  também  em  romances  castelhanos,  com 
respeito  á  Africa,  p.  ex.  nos  do  Conde  D.  Julian  e  no  de  D.  Alonso  X  (Pr.  63). — 
Com  relação  á  península  o  termo  preferido  é  todavia  Morería. 

(2)  Cracóvia  N.°  85:  El  aão  de  quatrocientos  que  noventa  y  dos  corria.  Vid. 
Antologia,  IX,  203. 

(3)  Veja-se  no  Apêndice  N.°  102  o  verso  Y  que  nuevas  tne  traedes? 


ROMANCES   VELHOS  77 


Parece  que  este  se  cantava  nas  cortes  peninsulares  com  me- 
lodia de  arte.  No  Cancionero  Musical  do  tempo  dos  Reis  Cató- 
licos, publicado  por  Francisco  Asenjo  Barbieri,  ha  pelo  menos, 
um  fragmento  com  assonancia  é-a  (nos  versos  2  e  4)  que  toca 
no  mesmo  assunto  (1),  salvo  erro. 


IX 


A  acusação  e  a  desculpa  do  Mouro  alcaide,  relativas  á  to- 
mada do  castelo  de  Alhama  pelo  marquês  de  Cadiz,  D.  Ro- 
drigo de  Leon,  narrada  no  romance: 

[33]  Moro  alcaide,  moro  alcaide      el  de  la  barba  vellida  (Pr.  84), 
el  rey  os  manda  prender      porque  Alhama  era  perdida  (2) 

entrou  no  alegórico  Auto  da  Ave-María  de  António  Prestes  (3). 
Para  afirmar  que  sem  os  conselhos  e  sem  o  auxílio  de  Sa- 
tanás não  conseguiria  os  seus  intentos,  a  Sensualidade  em- 
prega o  circumlóquio: 

Moro  alcayde,  moro  alcayde 
el  de  la  barba  vellida, 
se  eu  por  vós  não  for  metida 
nel  castillo  de  Belsayde, 
dou  Alfama  por  perdida. 

Como  se   vê,  sempre  o  mesmo  baralhar  dos  dois   idiomas. 


(i)    N.°3i8: 

Caballeros  de  Alcalà        entrastes  à  facer  presa, 

y  /aliastes  un  morillo       entre  Estepona  y  Marbella. 

Tem  aspecto  de  ser  irónico,  como  o  romance  dos  Caballeros  de  Mcclin. 

(2)  Conservou-se  entre  os  Judeus  de  Tanger.  Vid.  Catálogo  Judio  Espanai. 
N.°  9:  redacção  em  ãa  como  Pr.  84.* 

(3)  P<  55  da  reimpressão  de  1 87 1 . — Confer  T.  Braga,  Gil  Vicente  e  a  sua  lis- 
chola  p.  255-265.  A  nota  que  se  refere  á  tradução  das  Medidas  de  Serlio  por 
Vilhalpando  precisa  de  retoque.  A  primeira  edição  não  é  de  1563,  mas  sim  de 
1552,  conforme  ficou  estabelecido  por  Pérez  Pastor,  La  imprenta  en  Toledo,  Nú- 
mero 262. 


78  CAROLINA   MICHAÈLIS  DE   VASCONCELLOS 

Quanto  á  menção  do  castello  de  Afcalá-Ben-Zaide,  podo  ser 
que  se  refira  a  uma  lição  que  desconheço;  e  pôde  ser  também 
capricho  do  poeta  cómico,  que  necessitava  de  rima  em  aide{l). 


A  figura  do  rei  mouro  de  Granada,  despeitadíssimo  por 
essa  perda,  conforme  no'lo  apresenta  o  romance 

Paseabase  el  rey  moro      por  la  ciudad  de  Granada; 

cartas  le  fueran  vertidas      como  Alhama  era  ganada  (Pr.  85), 

ou  antes  a  celebérrima  variante  elegíaca,  originariamente 
árabe,  segundo  Grinês  Pérez  de  Hita,  e  em  todo  o  caso  muito 
divulgada  (2): 

[34]  Paseaba  el  rey  moro      por  la  ciudad  de  Granada 
desde  la  puerta  de  Elvira      hasta  la  de  Vivarambla  (Pr.  85a), 

com  o  estribilho  Ay  de  mi  Alfama!  surge  em  meados  do  século 
xvi  nos  autos  vulgares  d'este  país.  Talvez  fosse  a  música  de 
Pisador  (3)  que  contribuiu  para  a  sua  popularidade,  atestada 
também  pela  tantas  vezes  citada  Ensaladilla  (4). 

António  Prestes  cita  uma  vez  o  primeiro  hemistíquio  e 
outra  vez  o  estribilho  (como  já  ficou  exposto).  Ambos  os  frag- 
mentos estão  em  redacção  portuguesa,  incorporados  comple- 
tamente nas  falas  de  gente-povo.  É  numa  troca  de  impreca- 
ções picarescas,  lançadas  pelo  criado  Duarte  e  a  moça  Mar- 
quesa, que  já  apresentei  ao  leitor,  no  Auto  sobre  a  sujeição  da 
mulher,  chamado  Os  Cantarinhos,   que  vejo  equiparadas  as 


(i)  Acerca  de  Alcalá  de  Ben  Zaide,  no  Guadajoz,  onde  as  hostes  de  Alfonso,  X 
tiveram  de  combater  os  Ginetes  ein  1264,  vid.  Randglosse  VI  em  Zeitschrift, 
XXV,  p.  318. 

(2)  Vid.  Antologia,  XII,  210. 

(3)  Libro  de  música  de  vihuela  (1552).  —  Vid.  Ensayo,  N.°  3485. 

(4)  Estr.  6;  Ingr.  32. 


ROMANCES    VELHOS 


79 


palavras  ou  as  músicas  de  minha  Alfama  e  Passeava-se  el  rey 
mouro  a  outras  coisas  boas,  que  o  leitor  curioso  verá,  queren- 
do, nas  linhas  seguintes  (1).  Elas  constituem  o  princípio  da 
scena,  de  que  já  extractei  um  irónico  Guay  Valença! 
Marquesa  diz  batendo  á  porta: 


Duarte. 

Marquesa. 
Duarte. 


Marquesa. 
Duarte. 


Marquesa. 
Duarte. 


Marquesa. 


Duarte. 


Ó  de  casa! 

Ó  da  rua! 
Quem  está  ahi? 

E  Marquesa. 
Não!  senão  «minha  duquesa», 
rosto  em  mim  «d'espada  nua», 
e  «limão»  de  gentileza. 
Ha  lá  mais  d'essa  linguagem? 
Boa  sombra      e  casa  chea, 
meu  tronco,      minha  cadea, 
meu  livro  de  carceragem, 
minha  toda,      minha  estrea! 
Ha  mais? 

Minha  relação, 
meu  feito,      minha  audiência, 
meu  libelo,      minha  aução, 
minha  réprica,      meu  não, 
meu  sim,   minha  consequência! 
Ora  três  vale:  meu  sebolo,  (sic) 
meu  marmanjo  chocalheiro! 
meu  basbaque     meu  João  tolo, 
meu  sem-nem-um-miolo 
meu  madraço  de  sequeiro! 
Quatro  vale:  minha  Alfama! 
meu  passeava-se  el  rei  mouro! 
meu  Orlando,      minha  trama, 
que  me  lanças  com  tão(?)  dama 
por  capa  em  cornos  de  touro  (2). 


A  contraprova  de  que  o  romance  pertencia  realmente  á 
«manada»  dos  que  o  povo  cantava  cá,  aparentemente  em  lição 
portuguesa,  temo'-la  no  Auto  anónimo  do  Duque  de  Florença, 


(i)     Vid.  T.  Braga  Gil  Vicente  e  a  sua  esc/iola,  p.  280.  —  Uma  das  melhorei  modi- 
ficações introduzidas  nesta  nova  edição,  são  o»  indiculog  dos  Autos. 
(2)     P.  444. — Talvez:  poi  tal  dama? 


BO  CAROLINA  MICHAÍLI8  DE   VASC0NCELL08 


composto  no  reinado  de  D.  Sebastião  (i).  Dois  vilãos,  era  ca- 
minho para  uma  boda,  cantam  várias  cantigas  e  discutem 

sobre  o  seu  valor.  Um  d'eles  propõe 

Poia  se  eu  agora  digsesse: 
Passeava -se  el  rey  mouro? 

E  a  indicação  scénica  explica: 

Aqui  cantam:   Passeava-se  el  rey  mouro. 

Note-se  ainda  que  em  Mimnua-do-Douro,  subsiste  um  tex- 
to, cantado  como  acompanhamento  de  um  dos  Laços  da  Dan- 
ça dos  paulitos  (2),  que  diz: 

Passeaba-se  7  rei  moro 
pu'-les  mes  de  Granada; 
cíi  l  resplandor  de  V  sol 
le  relhumbraba  la  spada. 


XI 


Bem  diversa  é  a  aplicação  de  dois  passos  do  Romance  re- 
lativo à  quelle  Maestre  de  Calatrava,  D.  Rodrigo  Velez  de 
Giron,  que  teve  parte  nas  guerras  de  sucessão  entre  Hespa- 
nha  e  Portugal,  e  se  distinguiu  posteriormente  nas  guerras  de 
Granada: 

[35]      Por  la  Vega  de  Granada  (3)      un  cáballero  pasea  (Pr.  87). 
A  designação  geográfica  chegou  a  significar  um  campo  largo 


(i)  Prohibido  em  1624;  impresso  em  folha  volante  de  1620  sob  o  título  de 
Fidalgo  de  Florença  por  João  de  Escovar;  e  em  outra  de  1632,  se  as  indicações, 
dadas  em  Fschola  de  Gil  Vicente  p.  171,  forem  exactas. 

(2)  Chama-se  Le  Moro.  Vid.  Albino  J.  de  Moraes  Ferreira,  O  Dialecto  Miran- 
dês. Lisboa,  1898  (p.  28). 

(3)  Temos  a  mesma  entrada  no  romance  de  Ruy  Cid,  tradicional  na  Ilha  da 
Madeira.  Vae  acompanhada  do  hemistíquio  impar  do  N.°  84: 

Pola  veiga  de  Granada        el  rei  moiro  passeava, 

e  seguida  de  uma  scena  de  caça  que  ainda  não  encontrei  em  outro  cantar.  Em 
composições  de  arte  ha  versos  que  casualmente  coincidem;  p.  ex.  no  Canc.  Ger.  I, 
266:  Da  Veiga  lá  de  Granada  (sic). 


ROMANCES    VELHOS  81 


e  desimpedido  para  evoluções  cavalheirescos  tanto  tísicas 
como  espirituaes.  No  último  sentido  vejo-a  empregada  na  co- 
média Eufrosina.  Carióphilo  ensina  a  Zelótypo  como  é  que  se 
estilizam  cartas  de  amores.  Quer  que  depois  de  uma  entrada 
comedida  se  façam  «comprimentos  mais  prolixos  e  mais  soltos 
que  os  de  um  castelhano»....  e  tomada  a  rédea  por  estes 
termos,  que  são  elementos  d'  esta  sciência  (mais  incerta  que  as- 
trologia), podeis  escaramuçar  pola  vega  (sic)  de  Granada,  com 
todas  vossas  obrigações,  a  modo  de  petição...  (1). 


Dissertando  longamente  a  respeito  de  reverências  e  mesu- 
ras, no  Diálogo  XVIII  da  Miscellánea,  e  depois  de  nos  haver 
endoutrinado  sobre  aquelas  que  se  fazem  ao  maior,  abaixan- 
do um  pouco  o  cabeça  como  os  frades;  e  ao  igual,  requebran- 
do um  pouco  o  corpo  para  a  esquerda,  Miguel  Leitão  con- 
tinua (2): 

Por  onde  se  diz  no  Cancioneiro  (3),  que  aparecendo  o  Mestre  de  Ca- 
latrava  armado  a  cavalo  na  veiga  de  Granada,  buscando  quem  lhe  saísse, 
saiu  a  uma  varanda  a  Rainha  e  damas  a  vê-lo, 

[36]  Y  el  maestre  la  conoce      y  abaxara  la  cabeza, 

la  reina  le  hace  mesura      y  las  damas  reverencia. 

Um  romance  que  serve  de  código  do  bom  tom!  Referência 
tão  puramente  literária  que  não  tem  grande  valor  para  os 
fins  d'este  artigo. 

XII.  Alas  armas,  Moriscote, 
XIII.  Mis  arreos  son  las  armas. 

Se  prefiro  pôr  logo  aqui  as  referências  a  esses  dois  roman- 
ces (ou  troços  de  um  mesmo  romance  afamado^,  perdidos  na 
tradição  oral  e  nunca  recolhidos  nos  romanceiros  antigos,  é 


(i)     Acto  III,  Scena  2  (p.  183). 

(2)  P.  402. 

(3)  Qual  Cancionero?  E  somente  na  Rosa  Espanola  de  Tiinoneda  (1577)  que  o 
romance  se  conservou  com  ligeira  variante,  pois  diz  bajado  le  ha  la  cabeza. 


82  CAROLINA  MICHAÉLIS  DE    VASCONCELLOS 


porque  creio  que  o  nome  ou  titulo  ú.q  Moriscote  on  Mouriscote  (1) 
nos  obriga  a  tê-los  em  conta,  não  de  novelescos  de  assunto  in- 
ternacional, mas  sim  de  novelescos  peninsulares  í.  <'■.  de  mou- 
riscos. E  como  nele  são  actores,  na  qualidade  de  inimigos  com- 
batidos, Franceses  disfarçados  em  romeiros,  que  surgem  em 
portos  dos  Pirineos,  parece-me  bem  colocá-lo  perto  de  Ronces- 
vales,  dos  portos  d'Aspa,  do  rei  Marsílio  e  do  imperador  «da 
barba  florida»  que  fez  a  sua  Entrée  d'Espagne,  esteve  em  To- 
ledo nos  famosos  paçosde  Galiana,e  peregrinou  a  Santiago(2), 
Durante  séculos  conheciam-se  apenas  três  versos,  aparen- 
temente iniciaes: 

[37]  A'  las  armas  Moriscote      si  las  has  en  volunlad! 

los  Franceses  son  entrados!      los  que  en  romería  van! 
entran  en  Fuenterrabia      salen  por  San  Sebastián. 

E  estes,  unicamente  porque  haviam  sido  incorporados, 
como  letra  de  músicas,  no  Libro  de  vihuela  de  Miguel  de 
Fuenllana  (3).  No  de  Pisador,  ha  apenas  os  dois  primeiros 
hemistíquios  (4).  Agora  está  patente  uma  «contrahechura  tro- 
vada» ou  «glosada  ao  divino»,  tirada  de  um  Pliego  suelto, 
raro  ou  único,  a  qual  parece  estreitamente  cingida  ao  original 
e  deixa  entrever  o  que  seria  o  romance  original.  Para  mim, 
prova  outro  facto  importante:  que  o  segundo  fragmento,  muito 
mais  sabido  e  cantado,  fazia  parte  do  romance  de  Moriscote, 
facto  que,  de  resto,  já  me  parecera  provável,  por  causa  de 
uma  paródia  burlesca,  extrahida  por  Duran  de  um  códice  do 
século  xvii  (5).  Mas  ninguém  lhe  ligou  importância. 


(i)  È  um  derivado  de  morisco,  usado  nos  romances,  ora  como  subs.,  (Vid.  p.  ex. 
Duran,  1040  e  1068),  ora  como  adj.,  (Gil  Vicente,  I  162.) 

(2)  Wolf,  Milá  e  os  sucessores  separam  os  dois  troços,  e  colocam-nos  entre 
os  Romances  novelescos  y  caballerescos  sueltos.  Menéndez  y  Pelayo  julga  histórico  o 
assunto  de  Moriscote. 

(3)  Vid.  Salva,  Catálogo  N.°  2515.  Pela  junção  do  texto  com  o  do  romance  de 
Antequera,  que  ahí  se  faz,  parece  que  os  dois  tinham  a  mesma,  toada.  Confer  Milá, 
Poesia  Heroico-Popular,  p.  313;  Amador  de  los  Rios,  II  615  (621,  627,  628);  Ga- 
Uardo,  Ensayo,  N.°  3485;  Antologia,  IX,  211. 

(4)  Antologia,  IX,  212. 

(5)  N.°  i670.Duran  chama-o  contrahecho de  Mis  arreos  e  remete-nos  aoN.°300, 
isto  é  ao  romance  La  Constância,  de  que  trato  no  texto. 


ROMANCES    VELHOS  83 


A  variante  ao  divino,  reimpressa  na  Antologia  IX,  p.  211), 
diz: 

A  las  armas,  rey  dei  cielo,      pues  las  has  en  voluntad! 
los  traidores  son  enti  ados      los  que  enganaron  á  Adam, 
entraran  por  su  pecado      y  por  la  tu  muerte  saldran. 

A  paródia,  propositadamente  disparatada,  reza: 

A  las  armas,  el  buen  Conde,      si  lo  has  en  voluntad  (1)! 
los  amores  son  entrados      en  espanol  y  áleman; 
entran  por  el  Don  Garcia      y  salen  por  Pernestan  (sic). 

Em  Portugal  conheço  uns  quatro  trechos  com  valor  de  do- 
cumentos, dois  com  a  notável  variante  si  en  ellas  quereis  en- 
trar, que  ainda  não  vi  confirmada  em  textos  castelhanos  (2). 
Um  é  da  Carta  II  de  Africa,  onde  remata  a  estrofe  imediata 
á  dos  Cavalleros  de  Alcalá: 

Comigo  mesmo  fallando 
como  s'a  outrem  fallasse, 
dizia  «quem  me  lembrasse 
do  em  que  andava  cuidando»  (3)! 
E  pois  que  tamanho  dote 
não  se  alcança  por  cuidar, 
A  las  armas  Mo(u)riscote  (4) 
si' 71  ellas  quereis  entrar!  (Estr.  16). 

Contar  feitos  esquecidos 
he  muito  contra  minh'arte: 
houve  mortos  e  feridos, 
houve  mal  de  parte  a  parte. 
Houve  homem  que  dizia 
na  força  do  mor  receo: 
donde  estás  que  no  te  veof 
quês  de  ti  esperança  mia?  (5). 

Outro  é  da  Carta  I  da  índia  onde,  depois  de  amargas  con- 


(i)     Esta  lição  repete-se  na  Ensaladilla  de  Praga  (mas  referida  ao  Moitriscotc), 
Est.  9,  Ingr.  53. 

(2)  No  Cortesano,  onde  Milan  cita  Mis  arreos  a  p.  16  e  A'  las  armas  moriseote 
a  p.  1  62,  ha  a  variante  que  bien  menester  seran. 

(3)  Não  concordo  com  a  emenda  proposta  por  Storck. 

(4)  A'  portuguesa,  provavelmente  por  lapso  do  copista,  que  como  já  vimos, 
estragou  muito  as  duas  Cartas. 

(5)  Junto  esta,  para  facilitar  a  comprensão. 


84  CAROLINA  MICHAÊLIS  DE   VASCONCELLOS 


sideraçõo9  sobre  essa  mãe  de  vilões  ruins  e  madrasta  de  ho- 
mens honrados,  o  Poeta  continua: 

porque  os  que  se  cá  lançam  a  buscar  dinheiro,  sempre  se  sustentam  sobre 
agua  como  bexigas.  Mas  os  que  sua  opinião  deita  â  las  arma»  Moiu^riseote, 
como  maré  mortos  á  praia,  sabei  que  antes  que  amadureçam,  se  seccam 

E  passa  a  caracterizar  os  valentões  ou  matantes  com  os 
ditos  que  jà  citei  (sob  N.°  15)  e  outros  que  ainda  terei  de 
alegar  (N.°  55). 

Na  Aulegraphia  (f.  47),  diz-se  d'alguem,  creio  que  para  o 
chamar  valente: 

he  uma  atalaya  da  fortuna  com  um  epitáfio  (1)  que  diz:  A  las  armas, 
Moriscote,  si  en  ellas  quereis  entrar. 

Num  dos  Autos  de  António  Prestes  ha  mais  um  daqueles 
remedos  grotescos  e  vulgares  que  são  a  especialidade  d'este 
quinhentista.  Um  moço  finge  ter  medo  do  génio  de  sua  ama 

nova: 

se  ô  mansa,  se  é  brava, 
que  não  haja  aqui  de  cote 
ás  pancadas,  mo(u)riscote, 
que  ellas  são  pêro  que  trava  (2). 

A  fórmula  proverbial,  meio  traduzida,  equivale  aqui,  por- 
tanto a  um  mero  ás  pancadas!  como  na  Carta  da  Índia  a  um 
mero  ás  armas! 

De  citações  castelhanas  lembro  a  do  músico  e  poeta  Luis 
Milan,  que  frequentou  a  corte  de  D.  João  III  e  dedicou  a  este 
monarca  o  seu  Libro  de  vihuela  (3).  No  Cortesano  (Jornada  III) 
numa  Farsa  entre  Turcos  e  Comendadores,  um  d'eles  cita  (4) 
numa  esparsa  o  1.°  hemistíquio,  emquanto  outro  aproveita 
a  primeira  metade  da  devisa:  Mis  arreos  (5),  da  qual  passo 
a  tratar,  dividindo-a  em  dois,  porque  ora  é  o  primeiro  octò- 
nário  duplo,  ora  o  segundo  que  se  cita,  ora  são  ambos. 


(i)     Kpitàphio  no  sentido  vago  de  inscrição,  dístico,  rótulo. 

(2)  Auto  do  Desembargador  (p.    190). 

(3)  Salva,  Catálogo  N.°  2528.  No  seu  Cortesano  ha  numerosas   anecdotas  rela- 
tivas a  Portugueses. 

(4;     P.  162. 
(5)     P-  163. 


ROMANCES   VELHOS  85 


[38]  Mis  arreos  sou  las  armas,      mi  descanso  el  pelear, 
[39]  Mi  cama  las  duras  penas,      mi  dormir  siempre  velar. 

Começarei  por  apontar  os  ecos  portugueses,  não  menos  nu- 
merosos do  que  os  do  Mouriscote,  e  colhidos  nos  mesmos  auto- 
res: Luis  de  Camões,  Jorge  Ferreira  de  Vasconcellos,  An- 
tónio Prestes  (novamente  em  paródia). 

No  Auto  de  Filodemo  (Acto  III,  Scena  III),  é  o  criado  Vi- 
lardo  (com  ares  de  gracioso)  que,  para  caracterizar  pitores- 
camente a  penúria  do  seu  amo,  diz,  entre  outras  coisas,  num 
monólogo  em  que  imagina  estar  a  fazer  um  sermão  á  amada 
e  pretendida  do  fidalgo  pobretão: 

Havia-lhe  perguntar: 
«Senhora,  de  que  comeis? 
Se  comeis  cTouvir  cantar, 
de  falar  bem,  de  trovar 
em  boa  hora  casareis! 
Porém,  se  vós  comeis  pão, 
tende,  senhora,  resguardo; 
que  eis  aqui  está  Vil  ardo 
que  é  como  um  camaleão. 


E  se  vós  sois  das  gamenhas  (1) 
e  houverdes  de  atentar 
por  mais  que  por  manducar, 
mi  cama  son  duras  peitas, 
mi  dormir  siempre  es  velar. 


Do  mesmo  poeta  ha  uma  terceira  Carta  em  prosa,  dada  à 
luz  ha  pouco  por  Xavier  da  Cunha  (2)  (de  cuja  autenticidade 
nao  se  pôde  duvidar),  repleta  de  citações  e  alusões,  e  de  mo- 
dos de  dizer  bem  camonianos.  Escrita  em  Lisboa,  a  meu  ver 
pouco  antes  de  o  exaltado  e  irritado  vate  haver  incorrido  na 


(i)     Isto  é  das  que  gostam  de  luxo. 

(2)  No  Boletim  das  Bibliothecas  <•  Arcliivos  jVacionaes,  Coimbra,  1904(11.39 
e  46). — Foi  tirada  de  uma  Miscelânea  manuscrita  (N.°  8571),  outr'ora  da  Casa  Vi- 
mieiro, adquirida  pela  Biblioteca  Nacional  em  1903.  Nela  tem  por  título  Carta  de 
Luis  Camões  a  hu  seu  amigo. 


86  CAROLINA  MICHAÊLIS  DE   VASC0NCELL08 

pena  de  prisão  que  o  levou  á  índia  (1),  trata  dos  pagodes, 
celebrados  em  certas  tascas  da  capital  poios  ralenti  i 

matadores,  matistas,  matar ins  e  inalantes  e  outro*  nomes  derivados  do 
mesaio  verbo  (2),  porque  sempre  os  achareis  com  cascos  e  rodolas...  cum 
gladiis  et  fustibus...  Estes  na  práctica  dir  vos  ão  que 

sus  arreos  son  las  armas      su  descanso  el  pelear, 

mas  sei  vos  dizer  que,  se  na  paz  mostra  a  corarão,  na  guerra  mostram  as 
costas,  porque...  aqui  troce  a  porca  o  rabo  (8). 

Reflexão  e  anexim  que  o  leitor  já  conhece  doa  Disparates 
na  índia. 

Na  Aulegraphia  (f.  165),  uma  das  finuras  propõe  simplez- 
mente:  Cantay  por  desvio 

Mis  arreos  son  las  armas      mi  descanso  el  peleare; 

e  outra  replica,  depreciando,  como  de  costume,  os  cantares 
narrativos:  Não  vos  darei  hua  palha  por  hum  romance  velho. 
Finalmente  vem  a  paródia.  Numa  Introdução,  ou  Repre- 
sentação, em  prosa  muito  picaresca,  que  precede  como  prólogo 
o  Auto  dos  dois  irmãos,  recentemente  publicada  (4),  um  dos 
interlocutores  aproveita  a  quadra  inteira,  modificando-a  com 
o  intuito  de  dar  ideia  do  atraso  das  terras  em  que  vivia, 
(baralhando  as  duas  línguas,  também  como  de  costume): 

Mis  leiras  son  bstala.tbns      y  pulgas  mi  estudiar; 
mi  cama,  no  de  las  buenas,      mi  dormir  conta  y  pagar! 

Como  apêndice  vou  apontar  d'esta  vez  uma  remodelação 
moderna  portuguesa: 

Minhas  galas  são  as  armas,      meu  descanso  pelejar, 
e  no  S.  João  d  noite      meu  dormir  só  é  velar. 


(i)  A  prisão  foi  ensejo  e  não  causa  da  expatrisção,  premeditada  e  realizada 
afim  de  poder  escrever  a  epopeia  nacional,  conforme  expliquei  na  Introducção  da 
edição  Triibner  (Bibliotheca  Românica,  fascículo  N.°  10). 

(2)  Talvez  matachins,  que  o  próprio  Camões  emprega  no  Prólogo  dei  rei  Se- 
leuco. 

(3)  O  benemérito  editor  e  comentador  d'esta  Carta  reconheceu  que  havia  aqui 
uma  citação,  mas  não  soube  explicá-la. 

(4)  Representaçam  feyta  ao  Auto  que  se  seçue.'  interlocutores  hum  licenceado  e  o 
Autor  do  Auto.  Omitido  na  reimpressão  de  1871,  foi  aproveitada  por  T.  Braga  no 
volume  Eschoia  de  Gil  Vicente,  Porto  1 898  (p.  24").  Infelizmente,  não  a  dá  todavia 
por  inteiro. 


ROMANCES   VELHOS  87 


Assim  restringida  e  rebaixada,  porque  sae  como  cantiga 
popular  da  boca  de  um  pastor,  é  obra  de  A.  Robello  da  Silva, 
ura  dos  melhores  discípulos  de  Herculano,  que  como  seu  mes- 
tre (e  como  agora  Menéndez  y  Pelayo)  gostava  de  pôr  em 
evidência  lendas  e  tradições  arquivadas  nos  Livros  de  linha- 
gem, assim  como  cantares  trovadorescos.  Com  algum  anacro- 
nismo lá  incluiu  este  na  bem  feita  novela  dos  amores  da  Ribei- 
rinha, amante  decantada  de  Sancho  1,  o  Velho  (f  1211)  (1). 

Dito  isto,  devo  acrescentar  que  no  reino  vizinho  o  texto 
anda  em  Cancioneros  modernos  populares  (2),  inalterado,  e 
subsiste  remedado,  em  diversas  Coplas,  mais  ou  menos  vul- 
gares (3). 

Nem  deixarei  de  lembrar  que  em  todos  os  paises  cultos  es- 
tes versos  castelhanos  tem  conquistado  fama,  como  se  fossem 
a  devisa  airosa  de  algum  heroe  gigantesco:  Hagen  ou  Siegfried 
meridional  que  do  alto  de  uma  atalaia,  erguida  em  qualquer 
píncaro  dos  Pireneos,  velasse  pela  liberdade  da  pátria,  com 
receio  de  alguma  invasão  de  forasteiros.  Quantas  vezes  tive 
de  recitá-los,  sendo  menina  e  moça  (em  casa  de  meu  pae,  e 
na  de  meu  mestre,  de  saudosa  memoria,  Karl  Goldbeck)  apli- 


(i)     Ódio  velho  não  cansa:  Romance  histórico,  Vol.  I,  Cap.  XI  (p.   162  da  ed. 
de  1848). 

(2)  P.  ex.  no  de  Segarra  (Leipzig,  1862,  p.  37). 

(3)  Ha  p.  ex.  umas  Coplas  dialogadas  do  século  xvii  entre  uma  donzela,  um 
pastor  e  um  selvagem  (ou  eremita)  em  que  este  diz,  sem  graça  nem  bom-gosto: 

Nuestro  comer  es  morir, 
nuestro  beber  es  llorar, 
nuestro  dormir  es  penar, 
nuestro  penar  es  vivir, 
nuestro  calzar  y  vestir 
el  mas  pobre  que  podemos. 

(Gallardo,  Rnsayo  I,  c.  107).  Na  Vida  de  la  galera  ha  o  trecho: 

Mi  regoeijo  es  llorar, 
mi  reir,  gemir  contino, 
mi placer  es  lamentar 
y  mi  descanso  pensar, 

E  continua:  tanto  mal,  como  me  vino?  porque  a  obra  consta  de  quintilhas. 


«8  CAROLINA  MICHAÉLIS  DE    VASCONCELLOS 


cando-a  sempre  ao  cavaleiro  de  la  Mancha  (1),  de  boa  l 
persuadida  que  realmente  se  tratava  de  uma  quadra  solta 
que  fora  mote  e  de  visa  do  heroe  de  Cervantes  (2)! 

Não  é  todavia  da  Novela  que  o  dístico  tomou  o  voo  (como 
aconteceu  em  vários  casos).  É  de  folhetos  góticos,  como  o  ates- 
tam os  testemunhos  de  quinhentistas.  Já  disse  que  ele  parece 
ter  feito  parte  do  romance  de  Mourisc.ofc  Assim  o  indica  de  um 
lado  a  citada  transformação  ao  divino,  e  do  outro  lado  a  dis- 
paratada paródia  de  que  falei. 

Com  aplicação  inadequada  ao  Salvador  diz-se  na  primeira: 

Las  armas  son  mis  arreos,      mi  descanso  el  pelear, 
mi  cama  el  duro  pesebre,      mi  dormir  siempre  velar.  (3) 

No  segundo,  o  Mouriscote,  transformado  em  buen  Conde, 
acorda  com  os  brados  do  vigiador,  e  acto-contínuo  faz  profi- 
ssão de  fé,  exclamando  á  patusca: 

Mis  arreos  son  muchos  cuentos  (A),      mi  descanso  es  el  burlar; 
mi  cama  blanda  y  mullida,      mi  dormir  siempre  engordar.  (5) 

O  caso  complica-se,  porém.  O  dístico  encontra-se  em  outro 
romance,  verdadeiramente  belo  e  antigo  (com  a  mesma  asso- 
nancia-á):  o  novelesco  de  Moriana  e  Galvan,  N.°  I  do  pequeno 
ciclo  que  principia 

Moriana  en  un  castillo      juega  con  el  moro  Galvan  (Pr.  121), 

tão  diversamente  interpretado  (6).  E  ocorre  também  no  frag- 
mento de  Julianesa: 

Arriba,  canes,  arriba,      que  rabia  mala  os  mate  (Pr.  124), 


(i)  Como  lema  de  Don  Quixote  inscrevi-a  com  letra  Infantil  no  frontispício  do 
primeiro  exemplar  que  me  deram  em  1866  como  presente  de  Natal. 

(2)  Agora,  querendo  verificar  a  origem  do  erro  que  cometi,  notei  quão  difícil 
é  descobrir  o  respectivo  trecho,  e  também,  que  em  nenhum  Romancero  ha  declara- 
ções exactas  a  este  respeito.  — E  na  Parte  II,  cap.  64  que  Cervantes  diz:/  una  ma- 
naria, saliendo  D.  Quixote  ã  pasearse  por  la  playa,  armado  de  todas  sus  armas, 
porque  como  mucAas  veces  decía,  ellas  eran  sus  arreos  y  su  descanso  el  pelear,  etc. 

( 3 )  Antologia  IX,  212. 

(4)  Contos,  no  sentido  de  petas. 

(5)  Durán,  N.°  1670. 

(6)  Wolf  intercalou-o  entre  os  novelescos  soltos;  Duran,  entre  os  mouriscos; 
Pelayo,  guiándo-se  pelo  nome  Galvan,  agrupa-o,  pelo  contrário,  entre  os  carolíngios 


ROMANCES   VELHOS  89 


o  qual  fornia  um  todo  com  o  bizarro  fragmento  epigrafado  La 
Constância  (1),  na  opinião  do  autor  do  Tratado  (2),  que  refere 
ambos  os  troços  a  dois  personagens  do  ciclo  carolíngio:  Gaife- 
ros  e  Melisendra. 

Segundo  o  meu  sentir,  o  clangor  bélico  dos  versos  (3)  não 
condiz  com  os  melancólicos  queixumes  do  desventurado  aman- 
te peregrino  (4),  nem  tão  pouco  fica  bem  no  romance  de  Mo- 
riana.  Se  nele  o  cortamos,  a  ligação  das  partes  sae  mais 
perfeita,  e  o  conjunto  mais  harmónico,  a  pesar  de  G  ai  vau, 
raptador  de  uma  filha  do  Emperador,  mais  tarde  libertada 
pelo  primeiro  esposo,  ser  caracterizado  como  mouro,  obriga- 
do pelos  ciúmes  a  bem  vigiar  do  alto  da  sua  torre. 

O  fragmento  de  Julianesa  começa  MU  arreos.  Julgo  por 


de  Gaiferos  e  Melisendra,  como  digo  no  texto.  (Vid.  Antologia  XII,  387),  e  junta- 
-Ihe  o  de  Julianesa.  Mas  se  a  substituição  de  Melisendra  por  Julianesa  se  com- 
prende,  é  difícil  imaginar  a  razão  porque  qualquer  dos  dois  nomes  seria  trocado 
por  Moriana  fMuliana).  Vid.  Catálogo  Judio -Espanol,  N.°  61. 

(1)  Por  causa  dos  sete  anos  que  o  esposo-amante  gasta  em  procurar  a  raptada. 

(2)  Antologia  XII,  388.  A  assonância  de  Arriba,  c  á-e;  a  de  Mis  arreos  —  á.  O-e 
paragógico,  atestado  por  Jorge  Ferreira  de  Vasconcellos  (em  peleare)  e  por  Pisa- 
flor  quanto  ao  Mouriscote  (los  que  en  romeria  vanej  e  ainda  em  outro  romance  de 
que  falarei  no  Apêndice,  podia  remover  esta  pequena  dificuldade.  Assim  removesse 
as  outras!  -  Confessarei,  a  medo,  a  herética  opinião  que  o  romance  Arriba  canes 
não  é  senão  a  junção  arbitrária  de  diversos  retalhos,  realizada  por  algum  hábil 
cantor  do  povo,  que  os  agrupou  como  letra  de  uma  mesma  soada,  cujo  texto 
ignorava. 

(3)  Eu,  pelo  menos,  não  lhe  dava  som  lastimoso.  —  Seria  útil  comparar  as  com- 
posições musicaes  do  Mouiiscote  de  Fuenllana  e  Pisador  com  o  de  Mis  arreos^  de 
Milan. 

(4)  Os  que  chamam  enérgico  ao  fragmento  (como  Milá,  1.  c.  390),  olham  exclu- 
sivamente para  Mis  arreos,  esquecendo  o  re*to;  ou  então  (como  Pelayoí  para  os 
pés  descalços  e  unhas  ensanguentadas  do  peregrino.  O  verso  pites  como  las  car- 
nes crudas  y  bebu  la  roja  sangre  não  é  tilo  postiço  como  faz  presumir  o  final  ga- 
lante pêro  por  vos  mi  se  flor  a,  todo  se  ha  de  comportar,  pois  se  encontra  num  texto 
tradicional  em  Tanger:  N.°  61  comieudo  la  verba  crttda,  —  bebieudo  agua  de  1111 
eharcale.  Creio  que  ambas  as  lições   são  mera  variante  de  pites  tràigo  los  pies  des- 

'..•— las  unas  corriendo  sangre.  (Cfr.   Pr.    121,   verso    7,   donde    lia   esse    ultimo 
hemistíquio)  e  que  o  final  galante  é  acrescento  tardio. 

(5)  Podia  ser  que  exactamente  esta  circunstância,  levasse  os  jograes  ou  os 
editores  a  intercalarem  o  célebre  dístico. 


CAROLINA  MICHAÉLIS  DE   VASCONCELLOS 


isso  que  foi  esse  que  serviu  de  tema  ao  glosador  Luis  Pe- 
ralta, cuja  paráfrase  se  publicou  em  vários  PUegoê  suelto* 
antigos  (1),  (c.  1526,)  mas  nunca  foi  reimpressa,,  que  eu  saiba. 
No  Libro  de  música  de  vihuela  de  Luis  Milan  L536)  vai,  pelo 
contrário,  precedido  do  verso 

Con  pavor  recordo  el  moro      y  empezó  de  gritos  dar, 

que  corresponde  ao  que  na  paiódia  diz 

Recordado  habia  el  conde,      bien  oireis  lo  que  dirá, 

e  nos  reconduz  ao  Mouriscote,  acordado  pelo  velador,  confor- 
me temos  entrevisto. 

Verdade  é  que  o  texto  de  Milan  continua  con  uma  metá- 
fora (como  as  imitações  seiscentistas  que  citei): 

Mis  vestidos  son  pesares      que  no  se  pueden  rasgar,  (2) 

que  está  mais  em  harmonia  com  o  espírito  do  fragmento  de 
Constância  (impresso  nos  Cancioneros  de  romances  e  na  Silva 
de  1550). 

Na  impossibilidade  de  determinar,  de  qual  dos  textos  os 
quinhentistas  portugueses  se  serviram,  suponhamos  que  a 
música  de  Milan,  dedicada  a  D.  João  III,  foi  o  vehículo  que 
divulgou  em  Portugal  a  devisa  avulsa  (3). 

D.  Romances  de  mouriscos,  de  cautivos  e  de  forçados. 

Não  tiveram  grande  voga  em  Portugal.  De  cada  género 
resta  uma  única  e  vaga  reminiscência. 


(i)  Salva,  Catálogo  69  (ou  Heredia  1744,)  Sammluns;  XXI.  — O  mesmo  Luis 
Peralta  glosou  Jugando  estaba  el  rey  Moro  e  Moricos,  los  mis  moricos  (Fajardo  é 
Florlseo).  Ignoro,  se  se  trata  do  autor  de  algumas  canciones  do  Cancionero  Gene- 
ral de  ijii. 

(2)  Salva  N.°  2528. 

(3)  T.  Braga  refere  Mis  arreos  a  um  romance  de  Bernardo  dei  Cárpio  {Flo- 
resta, p.  XXXIV).  Na  nova  edição  da  Poesia  Popular  Portuguesa  (p.  388),  remete 
o  leitor  correctamente  aos  textos  contidos  no  Romancero  de  Duran  sob  N.°  7  e 
300,  isto  é  ao  Romance  de  Mariana  e  Galvan  e  ao  de  Julianesa  ou  La  Constância; 
mas  por  lapso  essas  indicações  estão  por  baixo  dos  versos  su  comer  las  carnes 
crudas  su  beber  la  viva  sangre  (que  são  semelhantes,  mas  não  idênticos  aos  Julia- 
nesa), supra  citados  na  Nota  2  da  p.  anterior. 


ROMANCES   VELHOS  01 


XIV 

Entre  os  romances  e  cantares  castelhanos  c  portugueses, 
com  que  a  ama  da  Comédia  de  Rubena  contava  embalar  a 
criancinha,  confiada  aos  seus  cuidados,  ha  um  que  princi- 
piava: 

[40]  Muliana,  Muliana...  (1) 

Como  falta  o  segundo  hemistíquio,  é  impossível  dizer  se  real- 
mente se  trata  de  um  cantar  do  pequeno  ciclo  já  mencio- 
nado de  Moriana  e  Galvan,  como  é  costume  afirmar,  desde 
que  o  Marquês  de  Pidal  chamou  a  atenção  para  essas  refe- 
rências no  Discurso  de  la  Poesia  CastelLina  que  precede  o 
Cancionero  de  Baena,  ou  pelo  menos,  desde  que  Wolf  o  repe- 
tiu nas  Proben  (p.  11). 
Naquele  que  principia: 

Al  pie  de  una  verde  haya      estaba  el  moro  Galvan  (Pr.  123), 

a  parte  dialogada  (v.  7)  começa  de  facto 

Moriana,  Moriana      principio  y  fin  de  mi  mal. 

E  bem  possível  seria  que  esta,  cm  vista  do  seu  carác- 
ter lírico,  e  música  correspondente,  fosse  cantada  em  sepa- 
rado. Mas  carecendo  de  outras  provas,  quer  da  popularidade 
do  romance  em  Portugal,  quer  da  alteração  do  nome,  deve- 
mos deixar  a  questão  em  aberto  (2). 


XV 


Zaide  e  Zaida  eram  tipos  muito  familiares  aos  seiscen- 
tistas D.  Francisco  Manuel  de  Mello  (3),  D.  Francisco  de 
Portugal,  autor  da  Arte  de  Galanteria,  e  Francisco  Rodríguez 


(i)     Gil  Vicente,  Obras  II,  p.  27. 

(2)  Ha  uma  planta  moliana  ou  boliana  (da  família  das  volerianas\  a  que 

gain  superstições  e  que  suscitou  rimas  populares,  Vid.  T.  Braga,  O  /'ovo  Portuguet, 
Vol.  II,  72  ss.   -  Cantar  a  molitina  quer  dizer  dar  u/na  reprens&o,  ou  entaboadela. 

(3)  Veja-se  nas  Obras  Métricas  II,  99   unia   frase   relativa  ás  prisões  do  mouro 
Zaide. 


d2  CAROLINA  MICHAÈLI8  DE   VASCONCELLOS 

Lobo.  O  romance  que  teve  fama  em  Portugal,  nâo  é  comfcudoo 
mesmo  que  continua  a  ser  popular  na  And;  luzia  e  em  Tân- 
ger (1),  mas  antes  aquele  que  principia: 

[41]  Mira  Zaiãe  que  te  aviso      que  no  pases  por  mi  calle  (2). 

O  primeiro  hemistíquio,  tornado  proverbial,  sen  ia  para  quaes- 
quer  avisos.  E  assim  que  o  empregou  o  jovial  mas  infeliz  Ju- 
deu António  Serrão  de  Crasto  (1610-1664).  No  i  oema  jocoso 
dos  Ratos  da  Inquisição ,  com  que  se  entreteve  durante  os 
ócios  do  cárcere,  dirigia-se  aos  pequenos  roedores  que  o  im- 
portunavam atrozmente,  reforçando  o  verso  aladj  com  um 
rifão  muito  conhecido: 

não  bulais  vós  nos  baús 
(na  canastra  ia  dizer), 
porque  o  dano  que  tiver 
me  haveis  de  pagar  de  ciso! 
Mira  Zaida  (3)  que  te  aviso! 
quem  te  avisa  bem  te  quer  (4). 


XVI 


[42]     Mi  padre  era  de  Ronda      y  mi  madre  de  Antequera  (Pr.  131), 

esse  mais  antigo  e  popular  entre  os  romances  de  cristãos  cau- 
tivos  na  mouraria,  com  a  singela  descrição  dos  trabalhos  de 
um  d'esses  desgraçados  e  o  seu  libertamento  pela  mulher 
do  amo,  é  o  que  vingou  em  Portugal. 

Luis  de  Camões  aproveitou  o  verso,  transposto  para  a 
terceira  pessoa,  nos  Disparates  seus,  na  índia,  para  caracte- 
rizar os  fumos  de  Indiáticos  de  baixa  origem. 


(i)     Catálogo  Judio- Espanol,  N.°  19  c.  Duran  54  e  53: 

Por  la  calle  de  su  dama        se  pasea  el  moro  Salde. 

(2)  Duran  56,  (VI  do  ciclo);  Pérez  de  Ilita,  Guerras  Civiles  de  Grane  da,  Cap.  VI. 

(3)  Variante  por  Zaide. — O  dirigido  a  Zaida  (VII;  começa: 

Mira,  Zaida  que  te  digo        que  andas  cerca  de  olvidarme. 

(4)  Cap.  IV,  Estr.  2;  p.  189  da  ed.  de   Camillo  Castello-Branco,  1  orto,    1883. 


ROMANCES    VELHOS  93 


Achareis  rafeiro  velho 
que  se  quer  vender  por  galgo. 
Diz  que  o  dinheiro  é  fidalgo, 
que  o  sangre  todo  é  vermelho. 
Se  elle  mais  alto  o  dissera, 
este  pelote  pusera  (1) 
que  o  seu  eco  lhe  responda 
que  su  padre  era  de  Ronda, 
y  su  madre  de  Antequera. . . 
E  quer  cobrir  o  ceo  com  huma  joeira.  (Estr.  6.) 

Mais  uma  vez  a  introdução  narrativa  que  se  encontra  nas 
impressões  (2),  foi  omitida  pelo  povo. 


XVII 

O  romance 

[43]     Amarrado  ai  duro  banco      de  una  galera  turca  (3), 

isto  é  o  primeiro  entre  oito  cantares,  tardios  e  artísticos, 
que  um  anónimo  dedicou  ás  vítimas  de  Dragut,  o  famoso  cor- 
sa rio  turco  (impressos  no  Romancero  General)  foi  aproveitado 
por  D.  Francisco  Manuel  de  Mello,  num  d'aqueles  aborreci- 
dos e  ridículos  brinquedos  académicos  joco-sérios  em  que  tan- 
ta vez  malbaratou  centelhas  do  seu  espírito  rico  e  valente. 
Nas  quadras  13  a  14  de  um  romance  em  ú,  ás  Ruínas  de  um 
castelo,  feito  durante  a  sua  longa  detenção  na  Torre  de  Be- 
lém (4),  graceja  do  modo  seguinte: 

Porque  a  um  preso  num  castelo      mandar-lhe  agora  «ora  sus 
faze-lhe  a  um  castelo  uns  versos      e  deita-lhe  mil  debruns» 
é  como  em  cas  do  enforcado      falar-lhe  em  baraço  nú, 
que,  inda  que  seja  entre  amigos,       é  falar  muito  fortum. 
Se  ha  dez  anos  que  amarrado      qual  forçado  de  Dragut 


(i)      Isto  é:  eu  apostava  este  pelote. 

(2)  Pr  eg  untando  está  Florida       a  su  esposo  placentera. 

(3)  Duran,  268. 

(4)  Ridículo   Vexame  a  alguns  sogeitos  da  Academia,  dando-se  ao  Autor  por 
assunto  as  Ruinas  de  hum  Castello. 


94  CAROLINA  MICHAÈLIS  DE    VASCONCELLOS 

ando  a  torres  como  a  cepos      [n]os  bogios  de  Tolú, 
<jque  quereis  vós  que  lhe  diga      a  este  castello  marfus 
se  não  que  em  cair  fez  mal,      se  cair  sem  dizer  bum?  (1) 

E.  Romances  do  ciclo  carolinglo 

Da  grande  popularidade  do  emperador  dos  Francos  neste 
reino  são  testemunho  os  romances  que  o  povo  fez  seus,  por  di- 
reito de  conquista,  nacionalizando-os  por  inteiro,  assim  como 
alguns  nomes-próprios  cora  valor  proverbial  como  Roldão  (2) 
(valentão  arruaceiro  e  arrancador),  Valdevinos  (vagabundo, 
tunante,  vadio),  e  os  doze  pares.  Também  não  faltam  citações 
e  referências. 

Começo  com  a  batalha  de  Roncesvales  (3). 


XVIII 

a)  Roncesvales. — b)  Guarinos. — c)  D.  Beltrão. 
a)  O  cantar  que  principia 

Domingo  era  de  ramos      la  pasión  quieren  decir  (Pr.  183), 

eco  longínquo  da  Chanson  de  Roland,  desfigurado  estranha- 
mente ao  passar  das  gestas  dos  jograes  para  a  boca  do  povo, 
foi  seguramente  um  dos  mais  sabidos.  Cantava-se  todavia  sem 
esse  entróito  postiço;  despido  mesmo,  segundo  as  aparências, 
dos  dois  versos  imediatos  (4)  com  o  grito  exhortativo 

[44]  Vuelta,  vuelta,  los  franceses!      con  corazón  á  la  lid! 


(i)  Obras  Métricas,  Vol.  II,  p.  215:  Romance  XXVIII.  Trinta  e  duas  rimas 
em-ú,  eis  o  que  o  desculpa!  — Como  os  textos  estão  sobrecarregados  de  erros  de 
imprensa,  emendo  os  nào-duvidosos. 

(2)  A  respeito  tanto  da  época  em  que  o  nome  Roldão  aparece  em  Portugal, 
como  das  diversas  formas  em  que  se  usou,  vid.  Cancioneiro  da  Ajuda,  Investigações 
(Ilalle    1904)  p.  403  e  684. 

(3)  Na  Aulegraphia  f.  v.  92  um  personagem  diz:  eu  sempre  vou  topar  em  Ronces- 
vales; ignoro,  por  quê.  Conferindo  a  locução  com  a  castelhana  ser  un  Roncesvalles, 
imagino  todavia  que  o  nome-próprio  tem  o  sentido  de  luçar  de  batalha,  contenda 
e  barulho. 

(4)  Troços  d'e!e  andam  na  tradição  oral  dos  Judeus  de  Levante.  Vid.  Catálogo 
Judio- Espaúol  N.°  2.  O  teor  do  grito  é:  Atrás,  atrás,  los  franceses. 


ROMANCES   VELHOS  95 


Atribuído  na  redacção  mais  extensa  ao  arcebispo  Turpim,  e 
nas  mais  curtas  a  ese  Roldán  paladín,  veino'-lo  empregado 
por  Gil  Vicente  no  Auto  da  Barca  da  Gloria.  0  Arrais  do  In- 
ferno intima  o  Cardeal,  por  meio  do  primeiro  hemistíquio,  a 
virar  costas  e  não  se  chegar  ao  batel  dos  anjos  (1). 

Na  Aulegraphia  (f.  161°)  tem  uso  igualmente  pedestre. 

A  continuação 

[45]  Mas  vale  morir  con  honra      que  deshonrados  vivir,  (2) 

é  um  lugar-comum  heróico  de  que  ha  numerosas  variantes,  e 
que  fora  provérbio  antes  de  entrar  neste  romance  e  em  outros. 
Em  Portugal  é  um  dos  centões  da  Carta  I  de  Africa.  Ahi 
aparece  transposto  para  o  singular,  por  assim  ser  preciso  na 
economia  do  verso,  com  um  pé  á  portuguesa  e  outro  à  castelha- 
na, não  sei  se  por  descuido  do  autor,  se  por  lapso  dos  copistas: 

A  gente  é  peor  em  dobro, 
as  vergonhas  são  perdidas; 
falam  das  alhoias  vidas 
e  põe  as  suas  em  cobro! 
Poucos  hão  medo  á  vergonha, 
e  a  mui  poucos  se  ha  de  ouvir: 
mais  vale  morrer  com  honra 
que  deshonrado  bivir.  (Estr.  7) 


(i)  Obras,  Vol.  I.  298. — A  lição  está  deturpada,  pois  diz  vuelta,  vuelta  â  los 
Franceses.  -  No  Oriente  português  o  grito  correspondente  de  Volta,  volta!  era 
naturalmente  muito  usado.  Vid.  Barros,  Década  II.  Libro  IV,  Cap.  1. 

(2)     Na  lição  divulgada  pelos  Cancioneros  de  romances  ha 

Más  vale  morir  por  bnenos        que  deshonrados  vivi 7  . 

A  que  vai  no  texto  pertence  a  um  pliego  suelto   gótico  da   Biblioteca  Nacional 
de  Madrid,  publicado  na  Antologia  1X275.  Confet  X  272  (e  Milá,  Romanctrillo, 

p.  22y)  M.  v.  m.  c,  h.,  que  no  vivir  deshom ada  e  303:  Más  vale  morir  con  honra 
que  ttott  vevir  disfamada. — Num  de  Çamora  (Pr.  42)  ha  que  no  vivir  deshonrado. 
No  Cortesa7io  de  Miiau  (p.  186)  leio  Más  vai  á  rey  buena  muerte  que  mal  bevir 
deso7irado  e  no  Cancionero  de  Baena,  N.°  558,  numa  cantiga  galega  de  Garci  Fe- 
rrans  de  Jerena:  Más  7ne  valria  morrer   que  vivir  7/ial  deso7irado. 


CAROLINA  MICHAÈLIS  DE   VASC0NCELL08 


Dos  brados  de  desespero  do  rei  Marsíro  (Marsilio)  se  des- 
prendeu o  verso 

[46]  Las  vocês  que  iba  dando      ai  cielo  quieren  subir.  (1) 

Entrou  na   Carta  II  de  Africa,  onde  o  autor  o  aplica    ás 
próprias  mágoas  suas  de  amador  ausente,  como  já  sabemos: 

Fujo  da  conversação, 
anoja-me  a  companhia, 
e  trago  os  olhos  no  chão 
e  mui  alta  a  fantesia. 
Desque  [me]  vou  alongando, 
que  me  não  podem  ouvir, 
las  vozes  que  iva  dando  (2) 
ai  cielo  quieren  subir.  (Estr.  6) 


As  maldições  que  el  rei  desbaratado  profere: 

[47]  Reniego  de  ti  Mahoma      y  de  cuanto  hice  en  ti, 

tiveram  diversas  aplicações,  e  provocaram  imitações  e  rerae- 
dos  (3).  Somente  o  primeiro  hemistíquio  é  citado  no  Auto  por- 


(i)     Com  a  assonância  mudada  para  á   (llegar)  entrou  no  romance  de  Gaiferos 
(Pr.  173)  e  em  vários  outros  (Pr.  109,  149,  179). 

(2)  Aqui  a  modificação  que  me  voy  dando  seria  melhor. 

(3)  N°  romance  fronteiriço  do  Mestre  de  Calatrava  temos 
Reniego  de  ti  Mahoma       y  de  tu  secta  malvada, 

(Duran  1102J;  variante  de  Pr.  889: 

Oh  mal  hubicse  Mahoma        allà  do  dicen  que  estaba. 

Confer  Juan  dei  Encina,  com  relação  ao  Rey  de  Granada 

Reniega  ya  de  Mahoma        e  de  su  seta  malvada. 

em  um  romance  do  Canc.  Mus.  (31  5). 
Un  remedo  lírico  principia: 

Renieço  de  ti,  amor,       y  de  cuanto  te  servi. 

Iinran  1415,  e  em  redacção  mais  extensa  no  Ensayo  /,  p.  502'.  Além  d'isso,  ha 
frases  como  renegar  como  um  mouro  e  blasfemar  de  Mahoma  (Pr.  28)  que  derivam 
dos  mesmos  factos  históricos. 


ROMANCES    VELHOS  97 


tuguês  da  Cena  Policiana  (1),  de  Anrique  López,  impresso  cm 
1587  na  collecção  de  Alfonso  Lopez.  A  peça  termina  com  uma 
chacota  cuja  letra  dizia 

Arrenego  de  ti  Mafoma  (2); 

portuguesa,  ao  que  parece.  Se  não  derivar  directamente  do 
romance  carolíngio,  talvez  derive  de  uma  longa  série  de  im- 
precações que  principiando  com  a  quadra 

Arrenego  de  ti,  Mafoma, 
e  de  quantos  orem  em  ti. 
Arrenego  de  quem  toma 
o  alheo  pêra  si! 

mudam  logo  para  versos  pareados  dissonantes,  os  quaes  era 
costume  empregar  em  Maldições,  Porquês,  Avisos  para  guardar, 
Nuncas  e  outras  sátiras  parecidas.  Essa  obra  de  Gregório  Af- 
fonso,  criado  do  bispo  de  Évora  (3),  influiu  numas  pragas  que  o 
Arrais  do  Inferno  roga  na  Barca  7  de  Gil  Vicente  (4),  as  quaes 
ulteriormente  foram  ampliadas  e  saíram  avulsas  em  folhas  vo- 
lantes. Mas  nessas  não  ha  referência  a  Mafoma. 


b)  Muita  voga  teve  também  o  cantar  de  Guarinos,  a I mi- 
rante dr  la  mar,  a  ponto  tal  que  ainda  hoje  anda  na  tradição 
oral  entre  os  Judeus  de  Tânger  (5).  Do  seu  enérgico  início 

[48]  Mala  la  vistes  ((3).  Franceses,      la  caza  de  Eoncesvalles, 
sairam  dois  reflexos. 


(i)      Cena,  no  sentido  de  scena,  como  na  Celestina,  nas  continuações  e  imitações 
da  genial  tragicomédia,  e  também  nos  Autos  de  Gil  Vicente. 

(2)  Vid.  Eschola  de  Gil  Vicente  p.  237.  Segundo  T.  Braga  o  Auto  è  de  1539. 

(3)  Cancioneiro  Geral,  II,  534,  (f.  1 37e). 

(4)  Obras,  I,  249. 

(5)  Vid.  T.  Braga,  Questões  p.  225-237,  e  Gil  Vicente  (ed.  1898)  p.  438 
Cat.  Jud.  Esp.  N.°  22. 

(6)  Além  da  lição  mala  la  -ristes  (empregada  no  Corte  sano  de  Milan,  p.  115 
128,  179)  ha  mala  la  visteis  (Caminha);  e  com  troca  do  verbo,  mala  la  hubistes  ou 
mala  la  huôisteis,  mas  também  mal  ovisteis,  los  franceses.  Essa  alteração,  nascida 


CAROLINA  MICHAÉLIS  DE   VASCONCELLOS 


Andrade  Caminha  rematou  com  ele  a  estrofe  3."  da  sua 
resposta  ao  Peregrino  Curioso  (1). 

Jorge  Ferreira  de  Vasconcellos  já  havia  recomendado, 
decénios  antes,  a  um  escudeiro  de  fraca  veia  poética  que  se 
metesse  a  parafrasear  o  romance  de  Guarinos,  longe  de  Por- 
tugal: 

Bi-vos  a  Castella...  poreis  tenda  em  Medina  dei  Campo,  e  ganhareis 
vosso  pão  peado  (2)  em  grozar  Romances  velhos,  que  são  apascíveis.  K  pôr- 
lhe-eis  por  título:  Glosa  famosa  de  un  famoso  y  nuevo  autor  sobre  Mal 
ovistes  (sic\  los  franceses,  la  caza  de  Roncesvalles  (3). 


Outro  verso  do  mesmo  cantar  entrou,  modificado,  numa 
composição  castelhana  de  autor  português:  um  romance  de 
girões  de  D.  Francisco  de  Portugal,  ao  qual  terei  de  recorrer 
mais  algumas  vezes  (4).  Dirigindo-se  ao  seu  pensamento,  que 
involuntariamente  tomava  sempre  o  caminho  da  pátria,  diz 
num  conceito  antitético  enfadonho: 

Dieron  ai  agua  memórias      que  vós  a  las  llamas  dais; 
[49]  no  siendo  Infante  Guarinos      peligrastes  en  la  mar  (coprfe  4). 

Ignoro  se  esta  lição  existe,  isto  é,  se  o  poeta  se  lembrava  im- 
perfeitamente da  que  diz: 

cativaron  a  Guarinos      almirante  de  los  mares. 
ou  se  a  alterou  á  sua  vontade  (5). 


por  ventura  de  má  interpretação  de  grafias  defeituosas,  é  todavia  antiga.  Não  foi 
Cervantes  quem  a  introduziu,  pois  já  se  encontra  na  Ensaladilla  (Est.  7,  Ingr.  38). 
Também  prevaleceu  em  remedos  tardios  como  o  de  1638, aplicada  ao  sitio  de  Fuen- 
terabía  (Zeitschrift  II,  586,  e  Studij  di  Filologia  Romanza  XV,  p.  41)  e  o  de  1646, 
aplicada  ao  sitio  de  Lérida  (Salva  N.°  83). 

(1)  Pedro  de  Andrade  Caminha,  p.  108. 

(2)  Peado-escassamente  (peado    de  pena)?  ou  seguramente  (de   pea-pedicaj? 

(3)  Eufrosina  p.  175. 

(4)  Divinos  y  humanos  versos,  Lisboa,  1652.  Romance  X\'l:  Pues  que  a  Portu- 
gal partis, pensamiettto,  preçuntad  (imitação  de:  Caballero,  si  a  Francia  ides). 

(5)  Confer  Cautivaron  a  Rondales — almirante  de  la  mar,  na  variante  tradicio- 
nal de  Tânger  ('Catálogo  Judio-Espafíol  N.°  22). 


ROMANCES  VELHOS  99 


c)  Outra  quadra  (ou  outro  dístico)  da  mesma  artificiosa 
composição  tem  o  teor  seguinte: 

No  hay  que  buscaros  dichoso:      sabed  que  os  haveis  de  hallar 
[50]  en  polvaredas  de  ausência      perdido  por  Don  Beltrán  (copla  3). 

O  facto  a  que  se  alude,  a  perda  do  p  iladim  D.  Beltrão  (1) 
sem  que  os  companheiros  reparassem  nela,  é  narrado  em  ro- 
mances artísticos,  impressos  tardiamente,  no  Romancero  Ge- 
neral. Um,  em  quintilhas,  rimadas  em  parte  e  em  parte  asso- 
nantadas,  cheio  de  conceitos  e  anacronismos,  começa: 

Un  gallardo  paladin      aunque  invencible,  vencido 

e  acaba: 

Y  asl  con  la  polvareda      perdimos  a  Don  Beltrane  (2) 

Outro,  menos  arrebicado,  começa: 

Citando  de  Francia  partimos,      hicimos  pleito  homcnaje 
que  d  que  en  la  guerra  muriese      en  Francia  se  enterrase. 
V  como  los  espanoles      prosiguicron  el  alcance, 
con  la  mucha  polvareda      perdimos  á  don  Beltrane.  (3) 

Ambos  estão  em  relações  intimas  com  um  vigoroso  roman- 
ce velho,  muito  glosado,  contrafeito,  posto  em  música,  can- 
tado (4),  traduzido,  e  ainda  hoje  popular  em  Tras-os-Montes, 

-essenta  anos  depois  de  Almeida-Oarrett  haver  colhido  e 


(i)     Entenda-se:  do  seu  cadáver! 

(2)  Duran  N.°  396. 

(3)  Ib.  N.°  397. 

(4)  Ha  composições  musicaes  de  Valderrábano  (  1547),  de  Salinas  (1577),  de 
Millan;  essa  no  Cancionero  Musical  publicado  por  Barbieri  (N.°  344).  —  Com  rela- 
ção á  variante  Reinalte,  por  Beltrane,  que  ha  no  texto  da  última,  lembro  que  num 
romance  tradicional  português,  o  heroe  se  chama  Valdevinos,  e  que  esse  é  tratado 
de  compadre  de  T).  Beltran  num  texto  castelhano.  Houve  por  tanto  confusão 
entre  os  trcs  paladinos. 

(5)  Uma,  de  Vinhaes,  publicada  na  Revista  Lusitana  VIII  76,  já  entrou  no  Ro- 
manceiro Geral  de  T.  Braga;  outra,  inédita  é  de  Bragança.  As  suspeitas  de  Menén- 
dez  y  Pelayo  (Antologia  AY/373),  motivadas  pelos  retoques  evidentes  de  Almei- 
da-* Garrett,  vão  longe  demais. 


100  CAROLINA  MICHAÊLIS  DE   VASCONCELLOS 


retocado  primorosamente  uma  versão  que  então  andava  nessa 
província  (1).  É  a  que  principia 

En  los  campos  de  Alventosa      mataron  a  D.  Bdtran; 
nunca  lo  echaron  menos      hasta  los  puertos  pasar  (Pr.  185a) 

ou,  sem  a  introdução: 

Por  la  matanza  va  el  viejo      por  la  matanza  adelante; 
[51]  los  brazos  lleva  cansados      de  los  muertos  rodear\e\  (Pr.  185)  (2). 

O  vocábulo  polvareda,  não  se  encontra  em  nenhum  dos 
dois,  nem  tão  pouco  nas  derivações  portuguesas.  É  todavia 
provável  que  se  encontrasse  num  intróito  perdido,  na  lição 

Con  la  grande  polvareda      perderan  a  Don  Beltrane  (3) 

Assim  principia,  pelo  menos,  um  romance,  contido  na  co- 
média Casamiento  en  la  muerte  de  Lope  de  Vega,  cujo  heroe 
é  Bernardo  dei  Cárpio  (4),  comédia  que  não  seria  desconhecida 
ao  discreto  autor  da  Arte  de  Galanteria  (5). 


(i)  Quanto  ao  cavalo  morto,  que  se  ergue  e  fala,  pôde  ser  que  o  investigador 
castelhano  tenha  razão.  Note-se  todavia  que  esse  pormenor  maravilhoso  (frequente 
em  contos  populares,  como  o  de  Fallada),  ocorre  igualmente  não  só  num  romance 
velho  do  Cid,  mas  num  tradicional  asturiano  do  Conde  Olinos  (N.°  25)  e  noutro  de 
Moriana  y  Galvan,  cantado  entre  os  Judeus  de  Levante  (N.°  62).  E  note-se  tam- 
bém, que  nos  textos  trasmontanos  logo  no  princípio  se  fala  do  cavalo: 

Quietos,  quietos  cavaleiros        que  el  rei  vos  manda  contar! 
falta  aqui  Valdovinos        e  o  seu  cavallo  real. 

No  outro,  o  cavallo  cha.ma.-se-/rmedar  (mero  lapso  de  imprensa  por   tremedar 
tremedal). 

(2)  Confer  Salva  Catálogo  N.°  99. — Ha  um  remedo  cómico  Por  la  dolência  va 
el  viejo,  Duran  1669  e  Ensayo  N.°  585,  a  f .  102  do  Cuaderno  descrito.  Este  foi  glo- 
sado por  Castillejo  (Líricos  I,  p.  174).  O  primeiro  dístico  também  entrou  num 
Chiste  de  Argiiello  (Salva  N.°  4). 

(3)  Polveria,  polvaría  ocorre  num  romance  dos  Judeos  de  Levante  (Antolo- 
gia X  j/S  e  J/ç); polvorinho,  no  mesmo  sentido,  em  versões  trasmontanas  do  Pal- 
meiro  ou  da  Aparición. 

(4)  Na  comédia  citada  ha  a  variante:  de  tanto  los  rodeare. 

(5)  Do  emprego  proverbial  d'esse  verso  ha  mais  provas.  Certo  Francisco  Go- 
doy,  ao  tratar  de  estilos  literários,  lembra  aos  que  gostam  de  modos  de  dizer  subli- 
mados, crespos  e  floridos,  que  «na  demasiada  elegância  ficam  ás  vezes  ofuscados  os 
afectos  e  a  razão,   como   D.  Beltran   entre  la  polvareda.»   Ensayo  N.°  2345.    Do 


ROMANCES   VELHOS  101 


No  Pranto  de  Marta  Parda,  a  velha  devota  de  Baeo,  fati- 
gada de  chorar  e  gritar,  exclama: 

Os  braços  trago  cansados 
de  carpir  estas  queixadas, 
as  orelhas  engelhadas 
de  me  ouvir  tantos  brados  (1). 

Não  creio  que  Gil  Vicente  se  lembrasse  do  hemistíquio 
sublinhado,  nem  os  demais  que  empregaram  locuções  idênti- 
cas ou  parecidas;  mas  como  pôde  haver  opinião  oposta,  aqui 
fica  registada  a  lembrança. 

* 
*  * 

Na  Egloga  (II)  Basto  de  Francisco  de  Sá  de  Miranda,  o 
pastor  Gil  diz  com  relação  aos  palradores  fanfarrões  e  me- 
xeriqueiros da  aldeia  que  contam  patranhas: 

Crea[-o~]  o  baboso  d'aldea 
que  traz  sempre  a  boca  chea 
das  filhas  de  Dom  Beltrane  (2). 

Como  T.  Braga  (3),  julguei  outr'ora  que  haveria  ahi  alusão  a 
um  romance  antigo.  Mas  não  o  encontrando,  pregunto,  se 
Dom  Beltrane  terá  o  sentido  de  beltrão,  preparado  pelo  adá- 
gio Quem  ama  Beltrão,  ama  o  seu  cão:  isto  é,  de  fulano  e  cl 
crano? 


XIX 


0  formoso  e  delicado  cantar  de  D.  Alda  (também  inspi- 
rado indirectamente  na  Chanson  de  Roland),  hoje  popular  em 
Tânger  e  Salonica  (4),  pertencia  em  1521  ao  repertório  da 

mesmo  modo  ha  alusão  no  Diablo  Cojuelo,  Tranco  VII:  una  polvareda  espantosa... 
que  fué  mucho  que  no  se perdiera  el  Sol  con  la  grande  polvareda  como  don  Beltran 
de  los  Planetas. 

(i)     Gil  Vicente,  III,  368. 

(2)  Poesias  Ed.  C.  M.  de  Vasconcellos,  N.°  103,  428-430. 

(3)  Floresta,  p.  212. 

(4)  Catálogo  Judio-Espanol,  N.°  21, 


102  CAROLINA  MICHAÈLIS-DE   VASCONCÊLLÒS 


ama  de  leite,  introduzida  no  palco  d,i  corte  pelo  fundador  do 
teatro  português.  No  texto,  acolhido  em  L&60  qo  Cancionero  de 
romances,  temos 

[52]  En  Pariu  está  dona  Alda      la  esposa  de  don  Roldan.  (Pr.  181)  (1). 

Na  comédia  de  Iiubena  note-se,  além  do  traje  português,  a 
variante  estava  (2).  Para  evitar  repetições  transcrevo  o  tre- 
cho relativo  ás  cantigas  e  aos  cantares  que  essa  figura  popu- 
lar sabia  de  cor,  parte  no  idioma  pátrio,  parte  em  castelhano. 

Feiticeira.     E  que  cantigas  cantais? 
Ama.  A  criancinha  despida  — 

Eu  me  sam  dona  Giralda— 

e  também  Val-me  Lianor— 

e  De  pequena  matais  Amor — 

e  EM  PARIS  ESTAVA  DON'ALDA.— 

*Z>í-me  tú,  senora,  di — (3) 

*Vámonos,  dijo  mi  tio. — 

e  *Llevad-me  por  el  rio  — 

e  também  Calbiorabi  — 

e  *Llevantéme  un  dia 

lunes  de  mariana. — 

e  Muliana,  Muliana— 

e  Não  venhais,  alegria. 

E  outras  muitas  (Testas  taes.  (4) 


XX 


Ao  ciclo  jogralesco  de  Melisendra,  Galvan  e  Gaiferos, 
parcelas  do  qual  são  tradicionaes  nas  Astúrias  (õ),  em  Tras- 
os  Montes  (b),  em  Catalunha  (7)  e  entre  os  Judeus  de  Levan- 


(i)  O  sonho  da  garça  ou  do  açor  lembra  o  do  falcão  de  Krimhilde  nos  Xibe- 
lungen,  além  dos  outros,  mencionados  na  Antologia. 

(2)  Na  lição  conservada  pelos  Judeus  temos  também  um  imperfeito:  En  Paris 
era  dona  Alda — la  esposica  de  Roldane. 

13)     Marco  com  asterisco  os  francamente  castelhanos. 

(4)  Vol.  II  p.  27.  O  cantar  que  a  Ama  entoa  em  seguida  é  Llevantème  un  dia. 
Mas,  como  de  costume,  só  o  primeiro  verso  serve-nos  de  guia.  Guia  que  ainda 
não  levou  ao  fim  desejado. 

(5)  V.  Pidal,  N.°  21  e  Antologia  X  66. 

(6)  Vid.  p.  57.  Nota  2. 

(7)  Milá,  Romancerillo  Catalan,  p.  228  (redacção  muito  interessante). 


kOMANCES   VELHOS  103 


te  (1),  pertence  um  dos  poucos  cantares  do  repertório  da  Ama 
que  são  romances  velhos.  E  o  que  diz: 

[53]  Vdmonos,  dijo  mi  tio  (2)       a  Paris  esa  ciudad  (3) 

[54]  e/t  figura  de  romeros,  (\)      no  nos  conozea  Galvan.  (Pr.  172)  (5) 

Empregado  proverbialmente,  onde  um  símplez  Vamo^nos 
chegava  (6),  encontrei-o  no  Auto  do  Procurador  de  António 
Prestes,  no  fim  de  uma  scena  entre  dois  escudeiros  amigos,  um 
dos  quaes  resolve  documentar  praticamente  a  sua  gratidão 
pelos  bons  conselhos  que  o  outro  lhe  dera  a  respeito  dos  seus 
projectos  de  casamento: 

Brás.  Quero  ver  que  me  peitais, 

que  presente  me  mandais. 

Ambrósio.   Vamonos,  dixo  mi  tio, 
que  cedo  tereis  pitança 
como  duque  de  Bragança  (p.  124). 

O  romance  é  d'aqueles  que  os  capitães  e  soldados  da  ín- 
dia levavam  comsigo  na  memória,  com  mais  ou  menos  fide- 
lidade. Atesta-o  uma  aneedota,  pausadamente  contada  por 
Diogo  do  Couto.   (7)    Cuando  D.   António  de  Noronha  foi, 
no  ano  de  1560,  a  Surate,  o  verso  inicial  e  o  imediato  serviram 


(i)     Catálogo  Judio-Espanoí,  N.°  27. 

(2)  Esse  tio  é  o  paladim  Roldão  (pelo  menos  em  algumas  versões). 

(3)  E  fórmula  estereotípica  com  diversas  variantes  que  tornaremos  a  encontrar 
mais  abaixo. 

(4)  Dos  bordones  que  taes  romeiros  costumavam  levar,  ainda  terei  a  dizer  duas 
palavras. 

(5)  Quevedo  aproveitou  este  verso  no  Romance  46  da  Musa  VI:  En  figura  de 
ronuro  —  no  le  conozea  Galvan. 

(6)  Ao  mesmo  fim  familiar  tende  uma  citação  no  Cortesano  de  Luis  Milan,  no 
fim  da  Jornada  I  (p.  131),  onde  da  boca  de  Francisco  Fenollet  sae  a  quadra  im- 
provisada: 

Amen  amen!  dixo  [mi]  tio, 
vá/nonos  luego  ã  cenar, 
que  diez  horas  ya  son  dadas, 
y  es  bien  imos  acostar, 

(7)  Década  VII,  Livro  9,  cap.  12. 


104  CAROLINA  MICHAÈLIS  DE   VASCONCELLOS 

para  ele  comunicar,  divertida  e  discretamente,  as  suaa  ordena 
a  um  companheiro. 

e  foi  correndo  a  armada  a  dar-lho,  avisos  do  que  haviam  de  fazer. 

E  perpassando  a  galeota  de  D.  Jorge  de  Meneses,  chamando  por  elle  lhe 
disse  aquellas  palavras  do  Romance  velho: 

Vamonos,  dixe  mi  tio      a  Paris  essa  ciudad, 

dando-a  entender  que  estava  assentado  passar  avante  pam  a  fortaleza. 
E  D.  Jorge  de  Meneses  respondeu  com  o  mesmo  romance: 

No  en  trajos  de  romero      porque  no  os  conozra  (Jah-an. 

E  mettendo-se  com  elle  na  galeota  o  foi  acompanhando  até  a  sua.» 

A  variante  pôde  ser  adaptação  aos  fins  do  momento,   ou 
mero  lapso  de  memória  da  parte  do  historiador. 


O  terceiro  acto-da  composição  jogralesca: 

Asentado  está  Gaiferos      en  el  palácio  real, 
asentado  ai  tablero      para  las  tablas  jugar  (1). 

deixou  rasto  em  Portugal,  muito  mais  profundo  do  que  o  an- 
terior (2).  O  trecho  pitoresco  em  que  o  esposo,  á  procura  da 
mulher  raptada,  descreve,  com  os  mesmos  traços  épicos  do  ro- 
mance de  Julianesa  (ou  de  Moriscote)  (3),  as  canseiras  da  sua 


(i)  Na  Ensaladiha  (Est.  6,  Ingr.  27)  a  lição  é  reduzida  (Asentado  está  Gai- 
feros—para  las  tablas  jugar),  como  nos  textos  tradicionaes.  Na  memória  de  um 
Trasmontano  inculto  o  verso  transformou-se  em 

Sentado  estava  Galfeiro       em  taboleiro  real  (!). 

Vid.  Revista  Lusitana,  VIII,  p.  74. 

(2)  Não  posso  crer  na  legitimidade  da  extensa  lição  publicada  por  Almeida- 
Garrett  (II,  261),  e  repartida  em  duas  metades  por  T.  Braga,  que  as  simplificou  um 
pouco.  Mas  de  modo  algum  se  deve  negar  que  haja  lições  tradicionaes  em  Tras-os- 
Montes. —  Uma  muito  reduzida  e  degenerada,  já  mencionada  na  Nota  supra,  mas 
ainda  assim  preciosa,  acha-se  no  Romanceiro  trasmontano,  do  Abbade  y  Augusto 
Tavares  ("Revista  Lusitana,  VIII,  74).  O  heroe  chama-se  Galfero,  a  heroina  Meli- 
srnde.  Em  lugar  de  Sansueíia,  desconhecido  aos  modernos,  ha  Salselas,  isto  é  o 
nome  de  um  lugarejo  trasmontano  (comarca  e  concelho  de  Macedo  de  Cavaleiros). 

(3)  Ay  (jue  hoy  hace  los  siete  anos       que  ando  por  este  valle 
pues  truigo  los  pies  descalzos,       las  tinas  corriendo  sangre, 
pues  como  las  carnes  crudas       y  bebo  la  roja  san°re. 


ROMANCES    VELHOS  105 


vida  de  cavaleiro  andante,  impressionou  o  povo.  Dos  versos: 

três  anos  anduve  triste      por  los  montes  y  los  valles 
[55]  comiendo  la  carne  cruda      bebiendo  la  roja  sangre  (1), 
trayendo  los  pies  descalzos,      las  unas  corriendo  sangre, 

o  do  meio  surgiu  oportunamente  na  memória  de  Luis  de  Ca- 
mões, quando  estava  a  retratar  a  vida  dos  guapos  e  matan- 
tes  de  Goa.  Depois  dos  trechos  já  transcritos  (sob  N.°  15  e  37) 
continua  na  Carta  I  da  índia: 

Informado  d'isto  veio  a  esta  terra  João  Toscano  (2)  que, 
como  (3)  se  achava  em  algum  magusto  de  rufiões,  verdadeira- 
mente que  ali  era 

su  comer  las  carnes  crudas      su  beber  la  viva  sangre  (4) 

Em  muitos  outros  romances  ha  repetição  ou  imitação  das 
cruas  frases  (5)  que,  evidentemente,  provém  de  cantares  de 
gesta  medievaes  (6). 


(i)  Quem  utilizar  as  indicações  de  T.  Braga  (quer  sejam  as  da  Floresta, 
p.  XXXIV),  quer  as  da  Poesia  Popular  Portuçueza,  p.  388,  lembre-se  do  que  eu 
disse  a  respeito  de  Mis  arreos. 

(2)  Diogo  do  Couto  conhecia  esse  rufião.  Vid.  Década  VII,  Livro  X,  cap.  9. 

(3)  O  sentido  é:  cada  vez  que  se  achisse. 

(4)  As  divergências  podem  ser,  também  d'esta  vez,  variantes  ou  desvios  arbi- 
trários. 

(5)  Quanto  ao  mísero  estado  dos  cavaleiros  viandantes 

trayendo  los  pies  descalzos,  las  unas  corriendo  sangre, 
apontarei,  além  do  esposo  cristão  de  Mariana  (Pr.  121)  e  o  de  Julianesa  (Pr.  124), 
o  conde  Grimaltos  (Pr.  176),  o  Palm  eiró  de  Aferida  (Pr.  195)  e  o  Escudeiro  a/fado, 
de  um  romance  (em-aí,  talvez  relacionado  com  o  de  Julianesa)  que  só  se  con- 
serva no  Cancionero  Musical  N.°  325.  —  No  Gaiferos  da  tradição  portuguesa  a 
fórmula  foi  mitigada, 

sangue  vertiam  os  pes        cansados  de  tanto  andar. 

Com  relação  a  tormentos  de  fome  e  sede,  impostos  a  prisioneiros  ou  peregri- 
nos, ha  mais  variantes,  ora  reforçadas,  ora  abrandadas.  No  texto  de  Garrett  lê  se: 

o  comer  de  carne  crua  no  sanjue  a  sede  matar; 
no  de  Tânger:  comiendo  la  yerba  cruda—  bebiendo  agua  de  un  ckarcalt  (61). — Nos 
romances  de  Silvaninha  ha  carne  crua  e  agua  salgada  (Açor.  5  e  6)  ou  carne  salada 
e  sumo  de  laranja  (Astur  74,  75,  76). — carne  salada  e  hiel  de  retama  (Pires  12) — 
pan  por  onza  e  agua  de  charco  (Astur.)  —  pão  por  onça,  aeua  por  medida  (Leite  30); 
assim  mesmo  em  aguns  cantares  de  Gerineldo;  —  herbas  ama/gantas  e  aygua  dela 
mar  salada  (Milá  p.  249,  Conde  Claros). 

(6)  Na  Crónica  rimada  é  Pêro  Mudo,  sobrinho  do  Cid,  que  declara:  Por  las 

8 


106  CAROLINA  MICHAÈL18  DE   VASCONCELLÔS 

O  quarto  acto,  ligado  na  redacção  da  Primavera  ao  ante- 
rior (exactamente  como  na  tradução  livre  de  Garrett)  (1), 
principia  com  os  brados  de  Melisendra  que,  postada  numa 
janela  ou  veranda  do  paço  de  Galvão,  apostrofa  o  cavaleiro 
de  armas  brancas  (2)  que  passa: 

[56]  Caballero,  si  a  Francia  ides    por  Gai feros  preguntad  (Pr.  173  p.  238), 

scena  essa  que,  representada  pelo  titereiro  maese  Pedro,  ga- 
nhou fama  em  todas  as  partes  do  mundo  e  talvez  se  tornasse 
conhecida  neste  reino  pelo  mesmo  processo  de  dramatização 
infantil. 

D'esta  vez  ha  glosa  e  paródia,  contrafacção  ao  divino, 
mera  citação  (no  século  xvn),  e  introdução  do  verso  inicial 
num  romance  de  girões. 

A  glosa  é  de  Diogo  Bernardes ,  rival  de  Luis  de  Camòos, 
pelo  menos  no  género  idílico.  Encontra-se  nas  Flores  do 
Lima  (3),  e  reproduz  o  diálogo  entre  Melisendra  (8  versos)  e 
Gaiferos  (2  versos),  encurtado  do  modo  seguinte  (4): 

«Caballero,  si  a  Francia  ides      por  Gaiferos  preguntad 
y  dezidle  que  su  esposa      se  le  embia  encomendar. 
Dezidle  que  no  m'  olvide      por  los  amores  d'allá, 
que  sus  justas  y  torneos,      bien  los  supiínos  acá. 
Dezidle  que  ya  es  tiempo      de  me  venir  á  sacar 


crietas  de  los  pies  corrente  sangre  clara  (v.  856).  Na  novela  do  Abade  D.  João  de 
Montemor  (prosificação  de  um  cantar  jogralesco  da  época  de  transição,  na  opinião 
de  Menéndez  Pidal)  se  fala  de  hervas  e  aguas  como  sustento  de  Bernardo  Martí- 
nez  (vid.  p.  XXVI  da  Introdução  de  La  Leyenda  dei  Abad  D.  yuan  de  Montema- 
yor,  Dresden  1903). 

(1)  Entre  os  Judeus  de  Salonica  anda  na  tradição  oral  uma  versão  que  ante- 
põe ao  diálogo  uma  introdução  narrativa  de  quatro  versos. 

(2)  Como  numa  das  numerosas  lições  do  romance  se  especializem  as  senhas 
do  marido,  não  admira  ver  que  o  de  Gaiferos  fornecesse  versos  para  o  das  Sen/ias. 
Vid.  Pr.  155. 

(3)  P.  195  da  ed.  de  1770. 

(4)  A  redacção  que  serviu  de  letra  para  uma  composição  musical  de  sala 
(Canc  Mus.  N.°  323),  consta  de  apenas  sete  versos.  Começa  com  um  que  trans- 
forma o  inicio  em  quadra  aconsonantada: 

.S7  d' amor  pena  sentis      por  mesura  y  por  bondad, 
Caballeros,  si  â  Francia  is      por  Gaiferos  preguntad. 


HOMANCES   VELHOS  107 


d'  esta  prision  tan  esquiva      do  muero  con  soledad. 
Dezidle  que  venga  presto      si  biva  me  quiere  hallar 
que,  si  presto  no  viniere      mora  me  harán  tornar.» 
«Essas  nuevas,  mi  seiiora      vos  misma  las  podeis  dar, 
que  allá  en  Francia  la  bella       Gaiferos  me  suelen  llamar». 

A  glosa,  em  castelhano  puro,  em  dez  vezes  dez  versos,  é  das 
melhores  do  género. 

A  paródia  é  do  já  muito  nosso  conhecido  António  Prestes, 
chocarreiro  e  dizedor.  No  Auto  dos  Cantarinhos,  na  scena  em 
que  o  protagonista  anuncia  ao  criado  que,  falto  de  dinheiro, 
está  resolvido  a  empenhar  uma  saia  (ou  um  saio)  de  sua  mu- 
lher, recomendando-lhe  que  como  terceiro  facilitasse  a  reali- 
zar fio  do  plano,  esse  procede  ao  seu  modo,  proferindo  constan- 
temente alusões  encobertas,  as  quaes  reveste  de  ouropéis  lite- 
rários, para  no  fim  de  contas  em  presença  da  mulher  inven- 
tar coisas  do  arco  da  velha  sobre  as  qualidades  fataes  do  saio. 
Primeiro  choraminga  ilm  cantar  velho,  contrafeito: 

Ah  Pélayo  (1)  que  desmayo 
d'um  saio,  que  ha  de  ir  d' aqui! 

Depois  vem  a  paródia  de  Helo  helo,  que  já  figura  nesta  lista. 
Em  seguida,  outra  de  D.  Duardos  e  Flérida.  Afinal  recita  o 
romance  seguinte,  nâo  sem  tapar  com  vários  remendos  por- 
tugueses os  rasgões  que,  na  sua  lembrança,  havia  no  pano 
castelhano. 

Sa\o,  se  aljabebes  ides      por  dineros  perguntade, 
dizile  que  el  sefior  mi  amo      os  vende  para  jogar. 
Dizile  que  era  mas  tie-npo      de  outro,  que  no  de  03  llevare 
y  que  queda  acá  la  saia      muriendo  con  soledad. 
Dizile  que,  ya  que  os  vende,      que  traga  algo  de  cenar, 
que  yo  y  la  su  esposa       le  tenemos  voluntad  (2). 

A  dona  da  saia,  espécie  de  Griselda  em  paciência  e  sujei- 
ção, livra  o  marido  do  cárcere,  trocando  com  ele  os  vestidos. 
No  tribunal  conta  aos  juizes  a  história  das  mulheres  de  Weins- 
berg;  e  quando  resolvem  soltá-la  e  mandam  chamar  o  homem, 


(1)  Na  edição  de  1 87 1  (p.  439)  imprimiram  Apelae  o: 

(2)  P.  443. — Braga  juntou  esse  te\to  ao  romance  português  de  (Jaiferos  (p.  220 
do  Romanceiros  Geral,  2.a  ed.) 


708  CAROLINA  MICHAÉLIS  DE   VASCONCELL08 

para  também  ser  perdoado,  ela  entoa  versos  |  bilingues)  de  Me- 
lisendra: 

[57J     Dizei-lhe  queja  é  tempo      de  me  venir  d  sacar 

d"esta  prisión  tan  esquiva      do  muero  con  soledad  (1). 

Como  se  vê,  a  quadra  é  idêntica  á  terceira  das  que  foram 
parafraseadas  por  Diogo  Bernardes,  o  que  leva  a  supor  que 
ambos  os  quinhentistas  conheceram  um  e  mesmo  texto,  diver- 
so dos  representados  nos  Cancioneros  de  Romances  (2). 

Mudado  ao  divino  saiu  da  boca  de  uma  freira  de  uobn 
cendência,  Sor  Micaela  Margarida  de  Sant'  Ana  (1581-166 
fundadora  do  Convento  de  Carnide,  que  era  filha  bastarda  do 
arquiduque  e  futuro  Emperíidor  Matthias,  e  fora  educada  em 
Portugal.  Esta,  dizem,  que  repetia  hymnos  e  formava  ex-tem- 
pore  romances  e  coplas,  inspirada  pela  veia  fecunda  da  pie- 
dade. E  dizem  mais  que,  poucos  momentos  antes  de  expirar, 
cantou  com  voz  suave  a  copla:  r 

Angeles,  si  ai  cielo  ide[s] 
por  mi  esposo  perguntade. 
e  dizedle  que  su  esposa  (3) 
se  le  enbia  encomendar. 

Mas  tal  inspiração  não  passa  de  mera  recordação,  pois 
concorda  em  absoluto  com  o  Romance  ai  Esposo  Ausente,  de 
Valdivielso  (4),  o  qual  naturalmente  continua,  remedando  o 


(i)     No  Auto  (p.  502)  não  se  diz  que  os  ha  de  cantar. 

(2)  Na  imitação  já  citada  das  Senhas  do  marido  o  teor  diverge  também: 

que  ya  me  parece  tiempo        de  venirme  á  libertar 
d'esta  prision  en  que  vivo       muriendo  con  soledad. 

(3)  V.  Retratos  e  Elo°ios  dos   Varões  e  Donas  que  illustram  a  Nação  Portu- 
guesa, Lisboa,  181 7  (p.  362). 

(4)  Cancionero  Espiritual.  Entre  os  meus  apontamentos  encontro  ainda: 

Sospiros  que  ai  cielo  ides      pot  Dios  hombre  preguntad 

(Padilla);  e  Angeles  si  ai  cielo  ides  por  mi  esposo  preguntad  (Ubeda),  sem  expli- 
cações ulteriores.  -  Com  relação  á  circunstância  de  a  mesma  poesia  ser  atribuída 
a  Ubeda  e  a  Valdivielso,  notarei,  de  passagem,  que  o  caso  se  dá  também  com  a 
Serranilla  de  la  zarzuela  tão  superiormente  restaurada  por  Menéndez  Pidal:  Yo 
nuyva  mi  madre — a  Villa  Reale,  (Studi  Medievali,  1907,  p.  197). 


ROMANCES   VELHOS  109 


de  Gaiferos,  e  não  tem  as  falhas  linguísticas  que  assinalo  no 
texto. 

A  mera  citação  ocorre  num  romance  (capricho  filosófico 
moral),  em  que  D.  Francisco  Manuel  de  Mello  afirma  que 
quem  procurasse  a  virtude,  não  a  encontraria  na  corte  hes- 
panhola.  Alhures  a  buscade!  recomenda  em  verso,  tal  qual  re- 
comendara um  velho  trovador,  que  na  era  de  D.  Denis  pere- 
grinava de  convento  em  convento,  á  busca  da  verdade. 

Perguntad  allá  en  la  corte      por  la  virtud,  y  os  diran  (1): 
si  is  a  Francia,  el  cavallero,      por  Gaiferos  perguntad! 

Resta-me  repetir  a  quadra  inicial  do  Romance  de  girões 
de  D.  Francisco  de  Portugal,  de  que  já  tirei  duas  parcelas. 
Ediz: 

Pues  que  a  Portugal  partis      pensamiento,  perguntad 

por  aqtcel  mudable  dueno      que  amais  más,  y  olvida  más  ^2). 


XXI 


Valdovinos ,  Baldovinos ,Baldoínos  (3),  do  francês  Baldouins 
(4)  Baudouin,  é,  como  jâ  indiquei,  outro  personagem  carolín- 
gio,  de  popularidade  tal  que  o  seu  nome  passou  a  ser  apelati- 
vo. Repito  que  valdevinos  denomina  em  Portugal  o  vagabun- 
do ou  tunante,  geralmente  devasso  e  estróina;  talvez  por  causa 
da  semelhança  que  vald...  tem  com  os  adjectivos  valdio  valdei- 
ro  (de  valão,  que  se  perdeu)  e  vadio  (por  vaadio  de  vagativus) 
in fluido  por  outro  idêntico  de  origem  arábica  (baladio  de  balad 
hiilal   (6).  Nomen  omen. 

A  grande  popularidade  d'este  par  e  paladino,  no  qual  se 


(i)     Cithara  de  Euterpe,  Romance  XXII  (vol.  II,  p.  97  das  Obras  métricas). 

(2)  Divinos  y  humanos  versos,  p.  74. 

(3)  Luis  Milan  emprega  esta  forma  arcaica  no  seu  Cortes  ano,  p.  169. 

(4)  A  respeito  de  nomes-próprios  em  -s,  vindos  de  França,  como  Carlos,  Rei- 
naldos,  Oliveros,  frequentes  em  gestas,  novelas,  romances,  veja-se  Anto/o- 
giaXll,  391. 

(5)  Esta  etimologia,  proposta  por  Gonçalvez  Viana,  foi  aplaudida  por  Cornu, 


CAROLINA  MICHAÉLI8  DE   VASCONCELLOS 


fundiram  dois  nobres  diversos  das  Gestas  francesas,  uni  dos 
quaes  era  sobrinho  do  emperador  e  irmão  de  Roldão,  provém, 
no  meu  entender,  níío  dos  poucos  romances  soltos  que  se  can- 
tavam a  princípio  do  século  xvi,  mas  antes  de  um  extenso 
poema  jogralesco,  um  pouco  posterior,  muito  propagado  entre 
o  vulgo  e  ainda  oje  reimpresso,  em  que  o  cego  da  Ilha  da 
Madeira  narra  a  dramática  história  de  Valdovinos,  amigo  ou 
marido  de  uma  infanta  paga,  Sibila,  bebila,  de  nome,  viuva 
de  um  rei  de  Alemanha  (Saxónia  Sansuefia),  transformada  na 
península  em  infanta  moura  (1).  Falarei  d'esse  opúsculo  no 
parágrafo  imediato. 

Vejamos  primeiro  ó  único  d'esses  romances  que  deixou  té- 
nues rastos  literários  neste  pais.  É  o  que  começa 

Tan  claro  hacia  la  luna      como  el  sol  á  médio  dia  (2) 
citando  sale  Valdovinos      de  los  canos  de  Sevilla  (3). 


(i)     Sevilha  em  alguns  romances  castelhanos  por  confusão   como   nome  geo- 
gráfico. Km  outros,  e  no  livrinho  de  cordel,  ela  conserva  o  nome  de  Sebila. 

(2)     Este  princípio  de  romance  provém  de  um  cantar  diverso,  novelesco:  o  do 
Conde  d' Alemanha: 

Atan  alta  va  la  luna       como  el  sol  á  mediodía 
cuando  el  buen  conde  alemàn       ya  con  la  reina  dormia.  (Pr.  1 70). 

A  lição  comum  em  Portugal 

Jà  o  sol  nasce  na  serra      já  lá  vem  o  claro  dia, 
inda  o  Conde  de  Alemanha       com  a  rainha  dormia, 

parece  preferível. — A  outra  encabeça  romances  diferentes  de  Tras-os-Montes,coni 
mais  ou  menos  propiedade.  P.  ex.  uma  Oração  do  Dia  do  Juizo  (Leite  N.°  23), 
e  a  Historia  vulgar  da  freira  que,  antes  de  entrar  no  convento,  se  despede  do  seu 
jardim,  imitando  a  Flérida  de  D.  Duardos: 

Alta  vae  a  lua,  alta       mais  que  o  sol  ao  meio  dia 
Revista  Lusitana,  VIII,  p.  78.  O  verdadeiro  princípio  do  romance  de  Valdovinos 
conforme  se  encontra  num  manuscrito  de  meados  do  século  xvi  é:  Por  los  canos 
de  Carmona  por  do  va  el  agua  a  Sevilha,  como  terei  de  repetir  sob  N.°  109. — Vid. 
Bonilla  y  San  Martin,  Anales  p.  31  e  confer  Ensayo  N.°  3619. 

Tan  clara  hacia  la  luna  como  el  sol  a  mediodia. 
(3)  Não  é  esse  nome,  mas  sim  o  de  Canos  de  Carmona,  que  é  costume  dar  ao 
aquedueto  que  d'essa  atalaya  de  Andaluzia  conduz  agua  a  Sevilha.  —  O  texto  da 
Primavera,  incomp'eto  e  remodelado,  não  é  o  primitivo.  Esse  encontra  se  no  já 
citado  Manuscrito  (F.  18  da  Bibl.  Nac.  de  Madrid),  explorado  pelo  douto  e  agudo 
autor  dos  Anales, 


ROMANCES    VELHOS 


A  moura  (ou  morica  garrida),  com  a  qual  o  Franco  vivera 
sete  anos,  e  que  fora  ao  seu  encontro,  ouve-o  suspirar,  e  in- 
terpela-o  resolutamente: 

[58]    Sospirastes  Valdovinos,      amigo  que  yo  más  queria  (1). 
O  vos  hábeis  miedo  á  moros      ó  adamades  otra  amiga  (2). 

E  esse  suspiro,  tornado  proverbial,  é  lembrado  na  Ulysipo  na 
frase:  Suspirem  embora,  como  Valdevinos  (f.  215).  Como  o  ro- 
mance fosse  posto  em  música  por  Luis  Milan  (3)  e  entrasse  no 
livro  que  dedicou  ao  rei  de  Portugal,  é  de  supor  que  se  can- 
tasse com  frequência  na  corte  e  voasse  nas  asas  do  bel-canto 
dos  paços  ás  ruas,  e  da  capital  ás  aldeias  (4). 


XXII 

O  livro  de  cordel,  por  meio  do  qual  se  conservou  viva  a 
memória  de  Valdevinos,  o  amador  arrependido  da  moura 
paga  Sibila,  é  um  Auto,  chamado  ás  vezes  de  Valdevinos  (5), 


(i)  Considero  como  original  a  linda  variante  la  cosa  (ou  las  cousas)  que  más 
queria.  É  um  lugar-comum  poético  que  já  era  familiar  aos  trovadores  galaico-por- 
tugueses  na  forma  a  rem  do  mundo  que  eu  mais  queria,  a  rem  do  mundo  que  eu 
mais  amava,  e  foi  repetido  em  diversos  romances,  p.  ex.  em  En  Castilla  está  tcn 
castillo  (Pr.  179).  Nos  mais  modernos,  transformou-se  em  la  prenda  que  más  que- 
ria. Vid.  Duran,  304,  Triste  estada  el  caballero;  e  nos  textos  asturianos  La  Gayarda, 
eD.  Alda,  (AntoloçiaX,  112  e  123). 

(2)  O  verso  que  ocorre  na  variante 

O  teneis  miedo  ã  los  moros       ó  en  Francia  teneis  amiga 

também  foi  muito  imitado.  Como  todavia  ha  paralelos  em  outros  romances,  não 
menos  antigos,  como  no  de  Rosaflorida  (O  tenedes  mal  de  amores — o  estais  loca 
sandia),  não  é  possível  determinar,  qual  d'eles  serviu  de  padrão. 

(3)  Vid.  Salva,  Catálogo  N.°  2528.— Como  é  costume  nos  antigos  Livros  de 
Musica,  apenas  se  transcrevem  fragmentos  do  texto. 

(4)  Da  sua  popularidade  em  Hespanha  ha  numerosos  testemunhos.  Lembro-me 
de  quatro  citações  no  Cortesano  do  próprio  Milan  (p.  143,  169,  176,  247);  de  uma 
na  Ficara  Justino  II  2;  e  mais  outra  num  conto  picaresco  do  Alivio  de  Cambiantes 
de  Timoneda  (LXI). 

(5)  No  Folheto  de  ambas  Lisboas  de  1 130  ha  referências  ao  Auto  de  Valdevinos. 


112  CAROLINA  MICHAÊLIS  DE   VASCONCELLOS 

mas  em  geral  do  Marquês  de  Mántua,  ou  mais  pomposa- 
mente Tragédia  do  Marquez  de  Mántua  e  do  Imperador  Cat 
loto  (sic)  Magno,  a  qual  tracta  como  o  Marquez  de  Mántua..  an- 
dando perdido  na  caçada,  achou  a  Valdevinos,  ferido  de  //">/  te; 
e  da  justiça  que  por  sua  morte  foi  feita  a  D.  Cãrloto,  filho  do 
Imperador  (1).  O  autor,  cujo  nome  é  suprimido  em  algumas 
edições,  chama va-se  Baltasar  Diaz;  era  natural  da  Ilha  da 
Madeira  e  cego,  mas  de  incontestável  talento.  Durante  muito 
tempo  julgou-se  que  a  sua  actividade  poética  abrangera  os 
anos  1578  a  1612  (2).  Mas  essas  datas  são  falsas,  .lá  antes  de 
1537  esse  jogral  do  povo  havia  composto,  submetido  á  aprova- 
ção oficial,  e  publicado  várias  obras  em  prosa  e  verso,  que 
tanto  agradaram  que  sem  licença  eram  reproduzidas.  E  por 
ser  homem  pobre  e  não  ter  outra  indústria  pêra  viver ,  por 
causa  do  carecimento  de  sua  vista  corporal,  senão  vender  as 
ditas  obras,  fez  um  requerimento  que  el  rei  deferiu,  outor- 
gando-lhe  um  alvará  de  privilégio,  a  20  de  fevereiro  (3). 
Como  dos  seus  Autos  e  das  suas  Trovas  não  sobreviveram  edi- 
ções quinhentistas  (4),  ignoramos  por  completo  a  cronologia  d' 
essas  publicações  (5).  Sabemos  comtudo  por  um  trecho  da 
Aulegraphia  (cujo  autor  já  náo  vivia  em  1563)  que  o  Auto  do 
Marquês  de  Mántua,  era  representado  (e  não  por  títeres), 
pois  ahi  se  fala  de  uma  pessoa  que 

lee  pelo  Conde  Partinuplês,  sabe  de  cor  as  trovas  de  Maria 


(i)     P.  ex.  na  edição  de  Évora  1686,  e  nado  Porto,  1885. 

(2)  Baseando-se  no  que  T.  Braga  dissera  em  1897  na  floresta  de  vários  Ro- 
mances, é  que  Menéndez  y  Pelayo  introduziu  essas  datas  erróneas  na  Antologia 
XII,  396. 

(3)  Foi  impresso  em  1882  na.  Historia  da  Typographia  Portuguesa  nos  sécu- 
los xvi  e  xvii  de  Deslandes  (Vol.  II,  p.  3).  Confer  N.°  XXXIII. 

(4)  A  concluir  do  número  elevado  das  edições  posteriores,  isso  é  devido  á 
grande  extracção  que  tiveram  e  ao  tamanho  diminuto  e  papel  inferior  das  folhas 
volantes.  Ainda  tornarei  a  falar  de  Baltasar  Diaz. 

(5)  A  bibliografia  mais  completa  encontra-se  na  obra  tantas  vezes  citada  de 
T.  Braga,  Eschola  de  Gil  Vicente,  p.  132  ss.  Mas  não  é  definitiva.  Em  1548  Baltasar 
escreveu  Trovas  á  Morte  de  D.  João  de  Castro.  Na  livraria  do  Conde  de  Sabu- 
gosa ha  uma  edição  do  Auto  da  Paixão  de  1 592.  A  mais  antiga  impressão  da  Tra- 
gedia que  gubsiste  é  de  1665.  (Eu  possuo  uma  de  Évora  1686.) 


ROMANCES   VELHOS  113 


Parda,  e  entra  por  fegura  no  auto  do  Marquês  de  Mántua(f.  12). 

Não  ha  pois  dúvida  possível. 

Baltasar  Diaz  não  recorreu  a  originaes  franceses.  Inspi- 
rou-se  nos  três  extensos  romances  castelhanos  que  narram 
aquela  poética  história,  sabida  de  los  niiios,  no  ignorada  de  los 
mozos,  celebrada  y  aun  creída  de  los  viejos,  y  con  todo  esto  no 
mas  verdadera  que  los  milagros  de  Malioma  (1).  Foi  portanto 
um  humilde  predecessor  de  Lope  de  Vega,  e  como  ele  incrus- 
tou na  sua  obra,  com  pouca  ou  nenhuma  alteração,  nume- 
rosos versos  d 'essas  cantilenas  jogralescas  ( 2)  que  hacen 
llorar  los  nihos  y  á  las  mujeres. 

Da  extensa  trilogia  que  feiamente  começa: 

De  Mantua  salió  el  marques      danes  Urgel  el  leal  (Pr.  165) 

ha  todavia  um  só  verso  épico  que  entrou  em  circulação  e  sus- 
citou variantes  e  imitações.  É  o  que  se  refere  ás  feridas: 

[59]    Veinte  y  dos  heridas  tengo      que  cada  una  es  mortal. 

No  romance  centónico  de  D.  Francisco  de  Portugal  figura  na 
copla  6.a  Mas  o  segundo  octónario  lá  diz  la  mas  pequena 
mortal  (3). 

Como  a  morte  patética  de  Baldovinos  se  confundisse  na 
memória  do  povo  com  a  do  paladino  D.  Beltrão,  as  vinte  e 


(i)     Don  Quixote  II,  c.  38. 

(2)  Parece  que  são  obra  de  Jerónimo  TremiSo  (Trevi&o  ou  Temifio)  de  Cala- 
tayud,  e  foram  compostas  no  primeiro  terço  do  século  xvi.  Fernando  Colón  com- 
prou um  exemplar  a  19  de  Novembro  de  1524  (Vid.  Registium,^.0  4043).  Os 
princípios  e  finaes  correspondem  aos  que  constam  da  Primavera  N.os  165,  166, 
167.  Só  no  último  dos  três  romances  faltava  a  fórmula  inicial: 

En  el  nombre  de  Jesus       que  todo  el  mundo  ha  formado 
y  de  la  Virgen  su  madre       que  de  nino  lo  ha  criado. 

A  indicação  de  nuevo  aúadido  dos  Pliegos  sueltos  de  Burgos.  1562  e  1563,  relativa 
ao  romance  III,  talvez  se  possa  explicar  como  repetição  literal  de  impressões  an- 
teriores a  1524. 

(3)     Variantes  das  imitações:  todas  de  mortal  herida       todas  el  cuerpo  le  pasan 

todas  três  de  homem  mortal       a  qual  será  mais  mortal. 


114  CAROLINA  MICHAÉLIS  DE   VASC0NCELL08 

duas  feridas  do  primeiro  baralharara-se  naturalmente  com  as 
duas  ou  três  do  outro,  tão  descomunaes  que 

por  uma  lhe  entra  o  sol,      por  outra  entra  o  luar, 
pela  mais  pequena  (Telas      entrava  a  águia  real  (1) 
com  suas  asas  abertas      e  sem  as  ensanguentar  (2). 

E  essas  senhas  passaram  a  poetizar  diversos  outros  desgra- 
çados, mortos  á  traição  (3),  transformadas  de  lançadas,  em 
tocadas,  punhaladas,  facadas.  Entre  duas  e  veinte  e  ires.  Mui- 
ta vez  o  poeta  vulgar  prefere  o  fatídico  número  sete.  Ha  mes- 
mo uma  infeliz,  D.  Inês  de  Castro,  que  se  enfileira  neste  grupo. 


Nas  lastimosas  queixas  do  Franco,  extendido  na  floresta, 
ha  comtudo  um  verso  lírico  que  não  mais  se  extinguiu.  Suspi- 
rando com  saudades  da  amada,  Valdovinos  pregunta: 

Donde  estás  que  no  te  veo      que  no  te  pena  mi  mal? 

ou,  no  teor  da  variante  propagada  por  Cervantes: 

[60]  Donde  estás  que  no  te  veo      que  no  te  duele  mi  mal? 

Esta  última  entrou  no  romance  de  D.  Francisco  (quadra  5.a ). 

Suprimo  a  demonstração  de  como  ambas  as  lições,  e  mais 
outra  que  diz 

Donde  estás  que  no  te  veo?      qu'  es  de  ti,  esperanza  mia? 

se  repetem  em  diversas  composições  líricas,  algumas  das 
quaes  perduram  na  tradição  oral.  Mas  não  suprimo  a  pregun- 
ta, se  não  existiriam  no  Cancioneiro  Popular,  antes  de  sur- 
girem no  romance  jogralesco  de  Tremifio  (4)? 


(i)     Variante:  um  gavião  a  voar. 

(2)  Vid.  Revista  Lusitana  II  81  e  213;  VIII  77;  Catáloço  yudio-Espaiíol, 
N.°  124;  Archipèlago  Açoriano,  N.°  91  e  298;  Leite  de  Vasconcellos,  N.°  2. 

(3)  Vid.  Antologia  X  318  e  XII  323  (Duque  de  Gandía;  ib.  239,  D.  Alonso  de 
Aguilar). 

(4)  Vid.  C.  M.  de  Vasconcellos  em  Zeitschrift  VII,  419;  e  Pedro  de  Andrade 
Caminha,  p.  32  (Números  254  e'457).  Aos  exemplos  que  lá  dei,  tenho  de  juntar 
uma  citação  de  Quevedo,  Musa  VI,  Romance  46. 


ROMANCES   VELHOS 


XXIII 

A  infanta  Sybilla,  Sibila  ou  Sevilla  (donzela  de  sangre  real 
ou  quási  real),  ainda  figura  em  outro  romance:  o  de  Calai- 
nos, o  mouro  gigantesco  que  parece  tirado  de  um  livro  de  ca- 
valarias. Namorado  d'ela,  promete-lhe  as  cabeças  de  fcres  pa- 
res de  França,  vai  a  Paris  desafiá-los;  leva  o  melhor  de  Val- 
dovinos,  a  quem  trata  de  pagem  e  francesico,  mas  é  vencido  e 
morto  por  Roldão.  O  romance  jogralesco: 

[61]  Ya  cabalga  Calainos      á  la  sombra  de  una  oliva  (Pr.  193), 

um  tanto  prolixo  e  cheio  de  anacronismos,  mas  interessante, 
não  era  inteiramente  desconhecido  em  Portuga]  (1). 
Na  Ulysipo  (f.  253)  alude-se  ao  verso  (31.°) 

[62]  Calainos  soy,  senora,      Calainos  el  de  Arábia 

na  locução: 

Ora  vos  digo  que  vós  e  Calainos  de  Arábia      fizéreis  vida  estremada. 

Vida  de  façanhas  cavalheirescas,  penso  eu,  e  talvez  também 
de  servidor  destemido. 

O  gracioso  Sancho  de  uma  das  comédias  de  Luis  de  Ca- 
mões, serve-se  do  principio  do  cantar,  para  evitar  a  frase  pe- 
destre: já  vou;  bem  se  vê,  depois  de  seu  amo  lhe  haver  orde- 
nado: ora  ensilla!  (em  lugar  de  vai-te  embora!).  E  Sancho  sai, 
bolindo  com  a  almofaça,  como  se  estivesse  estregando  uma 
cavalgadura  (2).  Se  cantarolava  a  melodia  fixada  por  Valde- 
rrabano,  é  pormenor  que  não  se  indica  (3). 


(i)  Não  se  comprende,  por  que  razões  foi  prohibido  no  Index  Expurgatôrio  de 
1624  (p.  174  O  Romance  do  Moro  Calaynos  y  de  la  Infanta  Sybilla). 

(2)  A  indicação  scénica  continua  expondo  que  o  príncipe  acordou  com  esse 
ruido.  Havemos  de  supor  portanto  que  o  palco  era  bipartido:  de  um  lado  o  quarto 
do  príncipe  no  paço  dei  rei  Seleuco;    do  outro,    o  do  médico, 

(3)  Rei  Seleuco,  Scena  IX, 


110  CAROLINA  MICHAÈLIS  DE   VASCONCELLOS 

Ao  mesmo  romance  que,  após  trinta  versos  em  -ia,  passa 
para  a  assonáncia  -áa,  pertence  a  frase 

[63]  Por  amor  de  vós,  senora,      passe  yo  la  mar  salada, 

embora  na  redacção  dos  Cancioneros,  em  vez  de  seflora  esteja 
o  nome  Sevilla.  Com  essa,  remata  uma  estrofe  da  Carta  li 
de  Africarem  que  o  autor  se  refere  á  causado  sua  expatriaçAo: 

Crede-me  quanto  mais  falo, 
pois  vos  falo  como  amigo; 
e  crede  que  o  que  calo 
é  muito  mais  que  o  que  digo. 
Ando  com  [a]  alma  cansada 
suspirando  cada  hora: 
por  el  tu  amor,  senora  (1) 
passe  yo  la  mar  salada  (Estr.  11). 

Além  d'  isso  serviu  de  letra  a  uma  d'essas  devisas  significati- 
vas que  os  mancebos  quinhentistas  desenhavam  nas  suas  car- 
tas de  amor,  e  que  as  raparigas  do  povo  ainda  hoje  bordam 
nos  lenços  com  que  mimoseiam  os  conversados.  Na  Eufrosina, 
na  scena  em  que  Carióphilo  ensina  a  Zelotypo  como  é  que  se 
forgicam  as  taes  cartinhas,  lemos  o  seguinte: 

Começay  por  palavras  meigas,  graves,  e  de  crédito,  poucas  e  certas... 
não  seria  muito  mao  pôr-lhe  copra  no  cabo,  com  alguns  gatimanhos  que 
declarem  vossa  tenção,  convém  a  saber  coração  asetado,  ou  nas  unhas  de 
um  leão...  com  húa  letra  que  diga 

por  amor  de  vós,  senora,      passe  yo  la  mar  salada  (2). 
Verdade  é  que  havia  versos  análogos  em  outros  romances, 


(i)  Na  impressão  de  Juromenha  o  vocábulo  aparece  deturpado  (sen  ti  ora  por 
senhora). 

(2)  Como  as  duas  citas  concordam,  é  provável  que  essa  variante  existisse. — 
O  parceiro  replica,  preguntando:  Sangrastes  vós  jâ  bostella?  ou  feristes  dedo,  poi 
escrever  com  sangue?  (que  he  caso  de  grande  piedade;  e  setia  o  intróito: 

Coração  de  carne  crua 
vê-lo  teu  amor  aqui! 

A  frase  é  princípio  de  uma  trova  (paródia),  empregada  por  Luis  de   Camões  nos 
Amphitriões  (I.  6.)  numa  conversa  que  igualmente  se  passa  entre  dois  mancebos. 


ROMANCES   VELHOS  117 


p.  ex.  num  de  Tristan  (i)  e  noutro  de  Reinaldos  de  Montal- 
ban  (2),  mas  esses  discordam  mais  (3). 


XXIV 

Montesinos,  o  desditoso  mas  galhardo  Francês,  o  da  fami- 
gerada Cueva,  cantado  em  vários  romances  jogralescos  que 
inspiraram  a  Cervantes  um  dos  melhores  episódios  da  sua 
obra-prima  (4),  surgiu  na  fantasia  do  autor  seiscentista  do 
Romance  centónico,  postado  naquela  maravilhosa  montanha, 
do  alto  da  qual  o  Conde  Grimaltos,  seu  tio  e  companheiro, 
lhe  mostrava,  com  saudade  vingativa,  a  capital  da  Franca,  e 
ao  mesmo  tempo  os  nossos  lindos  subúrbios  S.  João  da  Foz  e 
Vilanova  de  Gaia,  exclamando: 

[64]     Cata  Fr  anciã,  Montesinos,      cata  Paris  la  ciudad; 

cata  las  aguas  dei  Duero      do  van  a  dar  en  la  mar.  (Pr.  176.) 

Na  segunda  quadra,  D.  Francisco  de  Portugal,  conti- 
nuando a  falar  ao  seu  pensamento,  diz,  não  sei  com  que 
fim  oculto : 

No  lamenteis  que  sois  mio      porque  sin  duda  os  dirá: 
Cata  Francia,  pensamiento,      cata  Paris  la  ciudad, 

acena  que  já  fora  antecipada  em  L519,  no  México,  por  Fer- 
não Cortês  e  um  seu  companheiro,  conforme  nos  foi  contado 
outro  dia  nesta  Revista  (5). 


(i)  Que  por  ver  os,  mi  senora,       pasè  yo  la  mar  salada. 

A  este,  perdido,  se   referia  Lula  Milan  no  Cmtesano   (p.  314),  pois  dissera  pouco 
antes  (p.  313):  o  no  sois  mi  Don  Tristan    que  pasó  la  mar  salada' 

(2)  Por  tus  amores,  senora        vine  de  allende  la  mar.   (Pr.  1 88). 

(3)  Ainda  ha  outros  paralelos  p.  ex.  no  romance  de  Lanzarote  (Pr.  147);  110  do 
Palmeiro  1 75;  no  do  Conde  A'ilo  (Astur.  N.°  25). 

(4)  Don  Quixote  II,  c.  22  e  34. 

(5)  CuliuraI,  p.  73. 


118  CAROLINA  MICHAÉLIS  DE   VASCONCELLÔS 

No  terceiro  acto,  que  se  ocupa  do  desafio  de  Montesinos  a 
01iveros,por  amores  de  Aliarda, 

En  las  salas  de  Paris      en  un  Palácio  sagrado  (Pr.  177)  (1), 
ha  o  verso 

[65]     Los  ojos puestos  en  el  cielo      juramento  iba  echando, 

que  foi  empregado  na  Carta  II  de  Africa  como  remate  de  es- 

trofa  (2). 

Cuido  no  que  é  já  passado 
e  no  que  está  por  passar; 
porém  nunca  o  meu  cuidado 
se  muda  d'um  só  lugar. 
Quando  em  mim  torno,  cuidando 
que  de  mi  mesmo  me  velo, 
los  ojos  puestos  nel  cielo, 
juramento  iba  echando  (Estr.  8). 


XXV 


Intimamente  ligados  aos  romances  de  D.  Beltrão,  Valdevi- 
nos, Montesinos  e  os  demais  heroes  de  Roncesvales,  estão  os  de 
um  personagem  de  pura  fantasia:  Durandarte,  personificação 
curiosa  da  espada  de  Roldão,  de  nome  Durendarte  Durindarte 
de  Durendat  (3),  Durandat  (Durandal). 

Nos  romances  (4),  ele  aparece  ferido  mortalmente.   Mon- 


(i)     Ensaladilla,  Est.  6,  Ingr.  26. 

(2)  Estropeado,  bem  se  vê    (Jurando  iva  hechando). 

(3)  Na  Gran  Conquista  de  Ultramar  Cl,  cap.  95  e  151),  conta-se  que  a  espada 
Durendarte  foi  forjada  em  Toledo  por  Galan,  o  bom  forjador  CWieland,  der 
Schmied).  Da  posse  do  rei  de  Zaragoza  (Abrahus,  Ib.  II,  cap.  43;  Bramante  na  Cró- 
nica General,  cap.  597  e  598)  passou  ás  mãos  de  Carlos  Magno  (Maims  ou  Mainete); 
quando  este  defendia  Toledo,  por  instigação  de  Galiana-Sevilha,  filha  do  rei  (Ga- 
lafre)  d'essa  cidade.  Nas  Gestas  francesas  é  sempre  espada  de  Roldão.  Confer  Gil 
Vicente,  II,  416:  o  precioso  terçado — que  foi  no  campo  tomado  -  depois  de  morto 
Roldão. 

(4)  Ignora-se  quem  realizou  essa  personificação,  para  a  qual  deram  pé  fórmu- 
las como  Durandarte,  espada  nunca  vencida  {Primavera,  181).  Na  Normandia,  o 
povo  chama  Durandal  Durandat  a  um  homem  duro  e  sem  entranhas. 


ROMANCES    VELHOS  119 


tesinos  assiste  ao  seu  fim,  no  alto  dos  Pirineos,  ao  pé  de  uma 
verde  faia,  exactamente  como  o  Marquês  de  Mantua  assistiu 
ao  último  suspiro  de  Valdevinos.  E  recebe  do  seu  companhei- 
ro de  armas  o  encargo  patético  de  levar  o  seu  coração  á  sem- 
vontura  Belerma.  Por  este  acto  foi  proclamado  flor  y  espejo  de 
los  caballeros  enamorados  y  valientes  de  su  tiempo  (1),  gloria 
que,  como  se  sabe,  vale  muito  em  Portugal.  Não  admira  por- 
tanto, que  também  o  seu  nome  se  tornasse  proverbial,  desig- 
nando o  amante  fiel  e  mártir  do  amor  mais  verdadeiro . 

António  Prestes  gostava  muito  do  tipo.  No  Auto  do  Procu- 
rador, certo  Narciso  é  apellidado  treslado  de  Durandarte, 
traduzido  ao  natural  (2).  No  da  Ave-Maria  um  personagem 
alegórico  diz  a  outro:  Sereis  vós  meu  Durandarte  (3);  não 
comprendo  com  que  fim.  No  dos  Dois  irmãos,  ha  outra  alusão 
mais  escura:  pois  entrado  Durandarte  é  por  seu  bem  (4).  No 
dos  Cantarinhos,  uma  moça  é  tratada  de  donzela  Durandar- 
te (5). 

D.  Francisco  de  Portugal  comparou-se  a  si  próprio  em 
certa  situação  dolorosa,  a  dois  heroes: 


por  lo  monte,  Montesinos, 
Durandarte  por  Ic  más  (6). 


* 
*  * 


O  cantar  em  que  Belerma  se  queixa  de  abandono  e  é  acu- 
sada de  preferir  a  Gaiferos 

[66]  Durandarte,  Durandarte,      buen  caballero  probado  (Pr.  180)  (7) 

foi  levado  ao  Oriente  por  capitães  e  soldados  lusitanos. 


(i)     Don  Quixote,  II,  cap.  22. 

(2)  Autos,  p.  135. 

(3)  Ib.,  p.  48. 

(4)  Ib.,  p.  271. 

(5)  Ib.,  p.  453. 

(6)  Prisões  e  Solturas,  p.  25. 

(7)  Faz  parte  da  Rnsaladilla  (Est.  3,  Ingr.  11);  foi  glosado  por  Soria  e  outros 
(Canc.  Kennert,  162;  Canc.  General,  N.°  465);  posto  em  musica  (Cano.  Musica/, 
N-°  343)  e  citado  numerosas  vezes,  p.  ex.  no  Cortesano  (p.  113,  115,  123,  336,  337). 


120  CAROLINA  MICHAÈLIS  DE    VASCONCELLOS 

Numa  questão  violenta  que  houve  em  1558  sobre  a  capi- 
tania de  Malaca,  entre  António  Pereira  Brandão  e  Duarte 
Deça,  o  primeiro,  julgando-se  vexado  e  vilipendiado  pelo  úl- 
timo, homem  sem  entranhas  que  praticava  acções  indignas 
de  ânimo  cristão,  conservando  p.  ex.  preso  o  rei  de  Ternate, 
sem  motivo  razoável, 

de  magoado  lhe  contrafez  aquelle  Romance  velho  de  Durandarte  em 
Dom  Duarte  [dom  Duarte]         mal  cavalhero  (sic)  provado  (1). 


* 
*  * 


No  solilóquio  do  malferido,  que  antes  de  expirar  perora 

Oh  Belerma,  oh  Belerma      por  mi  mal  fiaste  engendrada  (Pr.  181), 

ou  antes  no  troço  em  que  Durandarte  se  dirige  a  seu  primo: 

Montesinos,  Montesinos      mal  me  aqueja  esta  lanzada, 

ha  um  verso  impressionante  na  sua  singeleza. 

[67]   Ojos  que  nos  vieron  ir      nunca  nos  verán  en  Francia. 

Este  entrou  na  Eufrosina  (2),  modificado  segundo  as  exigên- 
cias do  ensejo.  Na  longa  discussão  sobre  a  arte  de  namorar, 
de  que  já  citei  mais  de  um  passo,  o  Senhor  Carióphilo,  ten- 
do exposto  os  seus  estratagemas,  ajunta  com  respeito  á  dama 
cobiçada 

não  vos  ha-de  sentir,  salvo  quando  lhe  levantardes  a  bandeira  no 
muro;  porque,  se  voh  entendem  d'antemâo,  escandalizam-se  e  levantam- 
se,  como  pássaras  de  tela  (3),  donde  ojos  que  las  vieron  ir,  etc.  (4). 

Antes  d'ele,  outros  dois  poetas  já  haviam  utilizado  o  dita- 
do lírico,  nacionalizando-o. 

De  Crisfal,   o  namorado  infeliz  de  D.a  Maria  Brandão, 


(i )     Década  VII,  Libro  VII,  Cap.  3  (p.  368). 

(2)  Aclo  III,  Scena  II,  p.  184. 

(3)  Tela  é  uma  armadilha  de  três  laços,  de  prender  perdigotos. 

(4)  Em  citações  de  provérbios,  os  autores  seguiam  o  costume  (desagradável 
para  todos  nós)  de  indicar  apenas  as  primeiras  palavras,  exactamente  como  em 
cantigas  e  romances  que  serviam  de  intermezzos  musicaes. 


ROMANCES   VELHOS  121 


aquela  que  de  saudosa  deixava  cair  o  fuso  (1),  como  ele  nos 
conta  no  suavíssimo  idílio  serranil 

Antre  Sintra  a  mui  prezada      e  a  serra  de  Ribatejo  (2) 

ha,  íjo  meio  das  obras  miúdas  que  se  publicaram  em  seu  no- 
me (3),  uma  cantiga  sobre  esse  tema.  E  diz 

Quem  me  vos  levou,  senhora, 
tão  longas  terras  morar? 
Olhos  que  vos  virom  hír 
nunca  vos  verão  tornar.  (4) 

De  Duarte  Brito,   um  dos  melhores  trovadores  do   Can- 


(i)  Na  estrofe  41  da  mui  nomeada  e  agradável  Egloga  chamada  Crisfal,  Chris- 
tóvam  Falcão,  introduz 

uma  serrana  queixosa, 
(cercada  de  umas  cordeiras, 
sendo  cordeira  fermosa) 
como  ali  teem  por  uso 
em  uma  roca  fiando; 
mas  como  que  ia  cuidosa, 
cahia-se-lhe  o  fuso 
da  mão  de  quando  em  quando 

Citei  o  trecho,  para  juntar  a  observação  que  D.  Francisco  Manuel  de  Mello  o  re- 
lacionou, por  defeito  de  memória,  com  outro  escritor  português.  No  N.°  234  das 
Cartas  Familiares  diz:  cuido  que  vos  chamais  D.  Simão  que  fazia  cahir  o  fuso  á 
outra  que  cuidava  nelle,  segundo  afirma  o  Auto  de  António  Prestes,  meu  amigo.  E 
juntarei  além  d'isso  que,  aplicado  ao  sexo  forte,  a  mesma  ideia  tem  a  forma:  dei- 
xar cahir  (respectivamente  fazer  cahir)  a  pena  da  mãe. 

(2)  O  verso  sugere-me  a  ideia  de  lembrar  ao  eminente  autor  da  Serranilla  de 
la  Zarzuela  os  artigos  em  que  tratei  de  Yo  me  iba  la  mi  madre,  A  Santa  Alaria 
dei  Pino  e  de  Menga  la  dei  Bustar.  Vid.  Revista  Lusitana  III,  347-362  e  Kritischer 
Jahresberiht  IV-2-218. 

(3)  Não  podendo  tratar  aqui  das  dúvidas  que  a  respeito  da  atribuição  d'essas 
obras  miudas  se  tem  levantado,  remeto  o  leitor  á  edição  de  Epifânio  Diaz  (Re- 
vista Lusitana    IV  142  179),  e  a  Kritischer  Jahresbericht  IV-214-219. 

(4)  As  voltas  que  seguem  (tanto  na  ed.  de  T.  Braga,  Obras  de  Christóvam  Fal- 
.  1871,  p.  18,  como  na  de  Ep.  Diaz  1.  c.  p.  147)  talvez  não  estejam  no  seu  lugar; 

e  pertençam  ao  Mote  3b  dos  Olhos  quebrados.  Chamo  a  atenção  para  um  Vilan- 
cete  de  Gil  Vicente  III  299,  que  é  semelhante,  pois  diz: 

Vanse  mis  amores,  madre, 
luengas  tierras  van  morar'. 
Quién  me  los  harà  tornar: 


722  CAROLINA  MICHAÈLI8  DE   VASCONCELLOS 

cioneiro  Geral,  tambcm  existem  umas  trovas  de  despedida, 

em  cujo  Fim  se  repete  o  mesmo  conceito. 

E  assi  será  meu  mal 
d'e8te  bem  galardoado, 
e  aqui  será  acabado 
meu  tormento  desigual. 
E  aqui  donde  partir, 
partindo  com  gram  pesar, 
Olhos  que  me  viram  ir 
nunca  me  verão  tornar.  (1) 

No  século  xvii  ainda  não  cairá  em  olvido.  O  autor  dos  Ra- 
tos da  Inquisição  aplicou-o  a  um  d'esses  immundos  animalejos, 
porque  soubera  escapulir-se  destramente,  depois  de  engulido 
inteiro  por  um  gato, 

Antes  de  o  gato  o  sentir, 
ojos  que  lo  vieron  ir 
no  lo  veran  más  en  Francia.  (2)  (Cap.  IV,  estr.  9) 

Mesmo  hoje  continua  vivo,  pois  entrou  {por  nefas  e  deturpado) 
num  romance  abreviado  de  Gaiferos  que  cantam  em  Tras-os 
Montes  (3). 

Falemos  das  G-losas. 

Uma  castelhana,  de  Oh  Belerma,  é  atribuída  a  Bernardim 
Ribeiro  (4),  desde  que  em  1852  as  suas  obras  (Menina  e  Moça- 


(i)     Vol.  I,  p.  366  (f.  47d). 

(2)  O  verso  no  le  veran  mas  en  Francia  repete-se  em  outro  romance  de  Du- 
randarte:  Muerto  yace  Durandarte.  (Anales  p.  30.) 

(3)  Começando,  como  já  contei, 

Sentado  estaba  Galfeiro       em  taboleiro  real, 

o  romance  (introduzido  talvez  modernamente)  termina: 

Pegãralhe pela  mão       pusera-a  no  cavalgar. 

Olha  (sic)  que  a  vedes  ir       não -na  vereis  cá  voltar. 

(Reinsta  Lusitana  VIII,  p.  74). — Em  Hespanha  a  fórmula  também  se  havia  tornado 
provervial.  Pelo  menos  é  das  que  Câncer  meteu  no  seu  Oi'feo.  Vid.  Zeitschrift 
XXIII,  69. 

(4)  P.  ex.  pelo  historiador  da  literatura  nacional,  desde  que  publicou  a  Floresta 
(p,  XXXVI)  até  á  nova  edição  do  seu  estudo  sobre  Bernardim  Ribeiro  e  o  Buco- 
lismo (1897,  p.  90).  Mas  também  por  Garcia  Pérez,  no  Catalogo  Razonado,  p.  493. 


ROMANCES    VELHOS  123 


Eglogas — Poesias  avulsas)  foram  reeditadas  por  Mendes  Leal 
e  F.  J.  Pinheiro  (1).  Estes,  juntaram  aos  textos  conhecidos, 
portugueses,  três  composições  castelhanas,  pelo  motivo  de 
elas  andarem  num  mesmo  Pliego  Suelto  gótico,  juntamente 
com  a  linda  Egloga  III  de  Silvestre  e  Amador  (2). 

Esta  razão  exterior  é  insuficiente.  Já  demonstrei  (3)  que 
uma  d'elas,  a  glosa  de  Justa  fue  mi  perdicion,  é  de  Boscan  (4); 
outra  é  um  soneto  de  Garcilaso  (para  o  qual  ha  música  de  Pi- 
sador)  (5),  o  que  torna  quasi  certa  a  suposição  de  a  terceira 
ser  também  obra  alheia. — As  doze  insulsas  décimas  de  que 
consta  (6),  não  dáo  direito  portanto  ao  portuguesíssimo  Ber- 
nardim Ribeiro  a  um  lugar  no  Catalogo  Razonado  de  Autores 
Portugueses  que  escribieron  en  castellano  (7).  O  suave  autor  de 
Ao  longo  de  uma  ribeira,  Pola  ribeira  de  um  rio  e  Pensando- 
vos  estou,  filha,  nunca  se  serviu  de  outro  idioma  que  não  fosse 
o  pátrio;  nem  mesmo  quando  alegava  versos  castelhanos,  pois 
tinha  o  cuidado  de  os  traduzir,  como  se  verá  sob  N.°  71. 


(i)     Bibliotheca  Portugueza,  Lisboa,  1852,  p.  315  e  356. 

(2)  Num,  ou  por  ventura  em  diversos.  O  que  conheço  (Lisboa,  Bibl.  Nacional, 
Reservados,  126),  não  tem  data.  O  que  os  reeditores  das  Obras  utilizaram,  tinha, 
dizem,  a  data  1536.  O  titulo  é  idêntico  em  ambos:  Trovas  de  dous  pastores  s.  Sil- 
vestre e  Amador:  Peitas  por  Bernaldim  Ribeiro.  Novamente  emprimidas,  com  outros 
dois  romances  com  suas  grosas  que  dizem  <fO  Be/erma»  e  «Justa  fue  mi  perdicion» 
e  «Passando  el  mar  Leandro». 

(3)  Vid.  Círculo  Camoniano  I,  p.  29. 

(4)  Claro  está  que  o  tema  (uma  quintilha)  não  merece  o  título  de  romance, 
nem  tão  pouco  a  Glosa  (cinco  décimas). 

(5)  Vid.  Kritischer  Jahresbericht  I,  p.  589. 

(6)  A  glosa  principia  Citando  está  con  la  razón.  E  diversa  portanto  das  de 
Bartolomé  de  Santiago  (Con  mi  mal  no  soy  pagado;  vid.  Duran  Catálogo  N.°  89), 
Marquina  {En  los  tiempos  que  en  la  Frauda,'  vid.  Ensayo,  N.°  3874);  Alberto  Gó- 
niez  {Oyendo  como  salieron,  Salva  N.°  60  e  84),  e  também  da  anónima  em  dispara- 
tes (El  Conde  Partinuplês,  vid.  Ensayo  N.°  757).  De  contrahechuras,  como  a  de 
Bernardino  de  Ayala.  O  Borgona,  o  Borgona,  não  me  ocupo  agora.. 

(7)  Garcia  Pérez  incorporou-o  no  seu  Catálogo,  p.  493. 


724  CAROLINA  MICHAÈLI8  DE  VASC0NCELL08 

Outra  glosa,  também  castelhana,  mas  essa  do  romance  Du- 
randarte  Durandarte,  talvez  seja  realmente  obra  de  um  poeta 
português.  Faz  parte  do  Cancionero  publicado  por  Hugo 
Rennert,  onde  é  atribuído  a  um  autor  designado  pela  alcunha 
de  El  grande  Africano.  Principia  El  pensamiento  penado  e 
consta  de  seis  décimas,  relativas  ás  queixas  de  Belerraa,  e 
mais  duas  com  a  resposta  lacónica  de  Durandarte  (1). 

Já  em  outra  parte  expliquei  a  quem  competia,  na  minha; 
opinião,  esse  honroso  titulo:  o  afamado  D.  João  de  Meneses, 
cujos  feitos  militares,  praticados  de  1490  a  1514  em  Aljezur, 
Arzila,  Alcacer-Quebir,  Azamor,  foram  enaltecidos  pelos 
cronistas  de  D.  João  II  e  D.  Manuel  (2),  e  cujos  ditos  foram 
acolhidos  em  Memórias  e  Miscelâneas  manuscritas  (3).  As 
suas  poesias  andam  no  Cancioneiro  Geral  de  Garcia  de  Re- 
sende, mas  também  em  outros  castelhanos,  impressos  (4)  e  iné- 
ditos (5),  serviram  de  motes  e  de  centões  a  diversos  quinhen- 
tistas, e  foram  gabados  entusiasticamente  por  Sá  de  Miran- 
da, Ferreira  de  Vasconcellos,  João  de  Barros  e  Bernardim 
Ribeiro  (6). 

O  tema,  habilmente  abreviado,  como  era  praxe  em  pará- 
frases, oferece  algumas  variantes. 

«Durandarte,  Durandarte,      buen  caballero  esforçado, 
yo  te  ruego  que  hablemos      en  aquel  tiempo  pasado 
quando  yo  era  tu  amiga      y  tú,  senor,  mi  enamorado, 
quando  en  galas  y  ynbençiones      publicabas  tu  cuidado, 
quando  veaçiste  los  moros      en  campo  por  mi  agrado. 
Di,  traidor,  desconoçido      cipor  qué  causa  me  as  negado?» 
«Palabras  son  lisonjeras      sefiora,  de  vuestro  grado , 
porque  amastes  á  Gayferos      mientra  yo  fue  desterrado». 


(i)  N.°  162  Glosa  de  romance  («Durandarte»);  N.°  103  Respuesta  dei:  La  causa 
que  vos  tubistes . 

(2)  Falei  d'  ele  nas  Poesias  de  Sá  de  Miranda  (p.  812  s.  p.  883)  e  no  Litera- 
turblatt  1897,  N.°  4  p.  4  e  9,  mas  só  de  passagem.  Nas  conclusões  finaes  direi 
mais  alguma  cousa. 

(3)  Confer  N.°s  98,  99,  100. 

(4)  No  Cancionero  General. 

(5)  P.  ex.  Paris,  MS.  600. 

(6)  Na  Écloga  IV,  onde  aparece  com  o  sobrenome  (AfricanoJ, 


ROMANCES    VELHOS  125 


XXVI 

Os  romances  do  Conde  Claros  de  Montalban  e  dos  seus 
amores  com  a  infanta  Claraniíia,  filha  do  Emperador,  talvez 
sejam,  entre  os  que  dizem  respeito  a  personagens  cárolíngios, 
os  mais  sabidos  e  cantados  em  Portugal.  Não  sei,  se  em  vir- 
tude do  assunto,  naturalmente  simpático  a  essa  nação  de  apai- 
xonados (1),  ou  porque  as  toadas  eram  superiores  ás  dos  outros 
romances.  No  reinado  de  D.  Manuel  e  D.  João  III,  as  diver- 
sas composições  musicaes,  de  Encina  (2),  Salinas  (3),  Pisador 
(4),  eram  o  encanto  das  salas,  onde  as  tangiam  na  viola,  na 
harpa  ou  no  cravo.  Relevemos  em  Jorge  Ferreira  de  Vascon- 
cellos  as  fórmulas  tanger  tudo  sobre  Conde  Claros  (5);  harpar 
um  Conde  Claros,  que  elles  logo  dizem  que  não  ha  tal  música 
(6);  numa  Carta  do  Chiado,  tão  metafórica  que  nenhum  co- 
mentador será  hoje  capaz  de  a  elucidar  por  completo,  a  locu- 
ção um  só  Conde  Claros,  para  significar  uma  única  melodia, 
uma  única  amarra  (7).  No  Auto  de  D.  André,  atribuído  a  Gil 
Vicente  de  Almeida,  neto  do  fundador  do  teatro  português, 
temos  un  Ratinho,  vestido  como  pagem  de  arte,  que  toca  o 
Conde  Claros  na  guitarra  (8). 


(i)  Dechado  de  grada  viva  y  espontânea,  de  lijereza  y  alborozo  juvenil,  de  ga- 
lanteria algo  pecaminosa,  pêro  redimida  por  cierto  género  de  nativo  candor  que 
puede  desarmar  á  los  mas  severos  jueces,  eis  os  termos  com  que  o  autor  do  Tra- 
tado qualifica  os  romances  do  Conde  Claros.  Eu  estou  longe  de  levantar  objecções 
Mas  não  valerá  a  pena  notar  o  facto  de  Cervantes,  que  cita  com  entusiasmo  o 
Marquês  de  Mantua,  Valdevinos,  Montesinos  e  Durandarte,  Gaiferos  e  mesmo  o 
Conde  Dirlos,  não  haver  gastado  uma  palavra  com  o  Conde  Claros? Evidentemente 
porque  não  praticou  feitos  cavalheirescos. 

(2)  Canc.  Musical,  N.°  329. 

(3)  Amador  de  los  Rios,  VII  458,  Etisayo  4565. 

(4)  Só  d'esse  compositor  ha  37  variações. 

(5)  Eufrosina  III,  2  (p.  189). 

(6)  Ib.  I,  1  (p.  19).  Cfr.  Aulegraphia  f  '*■$. 

(7)  Vid.  Edição  Pimentel,  Lisboa  1889,  p.  236:  alguém  cuidará  que  com  um  só 
Conde  Claros  hão  de  espantar  os  francezes  da  costa. 

(8)  Vid.  Eschola  de  Gil  Vicente,  p.  229. 


120  CAROLINA  M1CHAÊLIS  DE   VASC0NCELL08 

Passando  ás  ruas  é  que  o  Conde  Claros  passara  ás  guita- 
rras, como  o  documentam  também  com  relação  á  Hespanha 
certos  versos  muito  conhecidos: 

Sepan  que  los  Condes  Claros      que  de  amor  no  repóêaban, 
de  los  amantes  dei  uso      se  han pasado  á  las  guitarras  (l). 

Finalmente,  segundo  outro  testemunho  de  Quevedo,   desceu 
ainda  mais : 

El  Conde  Claros  que  fué      título  de  las  guitar  -as 
se  quedo  en  las  barberias      con  rhaconas  de  la  gala 

As  versões  do  texto  também  ciam  numerosas.  Ainda  hoje 
ha  neste  pais  tantas  como  talvez  de  nenhum  outro  romance 
(exceptuando  a  enfadonha  SUvaninha)  (3),  reduções  em  ge- 
ral muito  simplificadas,  mas  com  nomes  melhor  ou  pior  con- 
servados (4). 

Do  primeiro  romance  que  «junta  ao  alinho  de  uma  com- 
posição artística  o  impetuoso  arranque  da  canção  popular»: 

Medianoche  era  por  filo  (5)      los  gallos  querian  cantar  (Pr.  190.) 

desligou-se  um  só  verso;  e  este,  mais  curioso  do  que  belo,  tem 
para  o  meu  gosto  urn  ligeiro  resaibo  humorístico: 

[68]  Salto  diera  de  la  cama      que  parece  un  gavilán  (6) 


(i)     Quevedo,  Musa  VII,  Romance  (5)  burlesco. 

(2)  Musa  VI,  Romance  82. 

(3)  No  Romanceiro  Geral  de  T.  Braga  ha  25  versões,  se  abatermos  o  frag- 
mento o  que  di%  o  roixinol,  que  não  está  no  seu  lugar. 

(4)  Quanto  a  glosas  também  houve  bastantes,  geralmente  só  de  uma  das  sce- 
nas  diversas  de  que  os  romances  constam.  Os  preferidos  eram: 

Conde  Claros  con  amores  no  podia  reposar... 
Pesame  de  vos  el  Conde  porque  así  os  quieren  matar... 
Máss envidia  he  de  vos  Conde  que  mancilla  ni  pesar... 

Vid.  Soria,  López  de  Sosa,  Francisco  de  León,  António  Pansac. 

(5)  Este  primeiro  hemistíquio  repetiu-se  innúmeras  vezes  em  prosa  e  em  ver- 
so, tanto  em  textos  onde  a  intercalação  de  versos  alados  é  verosímil,  como  em 
outros  onde  é  improvável.  Baste  remeter  o  leitor  ao  D.  Quixote  II,  cap.  9. 

(6)  O  gavião,  ave  nobre  do  sbort  medieval,  é  mencionado  a  miude  tanto  no  ro- 
manceiro como  no  cancioneiro.  Pelas  figuras  retóricas  que  sobre  ele  se  formaram, 
póde-se  dizer  que  é  entre  as  aves  de  rapina  o  que  o  galgo  é  entre  as  diversas  ra- 
ças caninas:  esbelto,  elegante,  e  rápido  nos  seus  movimentos.  Vid.  correr  como  un 
çavilan — subtendo  que  parece  un  çavilan. 


ROMANCES  VELHOS  127 


Camões  sabia-o  de  cór,  e  serviu-se  cTele  no  Auto  dei  rey  Seleu- 
co,  escrito  antes  de  1553  para  uma  festa  de  família.  Na  scena 
cómica  (ix),  cujo  final  já  conhecemos,  o  médico,  resolvido  a 
visitar  o  príncipe,  acorda  o  criado.  Este,  picado  de  gracio- 
so, sae  (pausadamente?  ou  presto,  presto?  de  um  só  pulo?)  do 
quarto,  embrulhado  no  lençol,  ou  na  manta. 

Physico.      Dí,  como  vienes  asl 

con  Ia  manta?  y  para  què? 
Sancho.       Yo,  sefior,  se  lo  diré; 
por  venir  presto,  vesti 
lo  que  más  presto  hallé. 
Porque  viendo  que  61  me  llama, 
dormiendo  yo  siu  afan, 
salte  presto  de  la  cama  (1) 
que  parezco  un  gavilan, 
hermoso  como  una  dama. 

D.  Francisco  de  Portugal  também  insertou  no  Romance 
centónico  o  segundo  octonário,  alterado  na  forma,  e  talvez 
também  quanto  â  ideia. 

Satisfecho  de  desdichas      catorce  anos  h%  que  amais', 
muerte  que  tanto  acredita      vida  se  puede  llamar. 
De  mu ger  prendada  y  noble      gquien  no  havia  de  confiar? 
Bolóos,  mintió  y  dexóos      qual  si  fuera  gavilan  (Estr.  8.) 

Ambos  foram  por  ele  aplicados,  nâo  seibem  se  a  um  amante 
que  dando  vueltas  á  los  sentidos  y  a  las  sabanas,  devia  de  pa- 
rècelle  el  blando  lecho  campo  de  batallas,  ou  a  um  capelão  que 
o  desvelado  acordara  repentinamente  (2). 


(i)  Não  deixa  de  ser  curiosa,  ou  mesmo  típica  a  evolução  da  frase.  O  salto 
ligeiro  do  leito  abaixo  transforma-se  em  pulos  dados  na  cama:  e  dava  pulos  na 
cama  nem  gavião  a  pular  (Madeira,  94).  Depois  o  gavião,  já  pouco  familiar  ao 
povo,  transforma-se  em  galtão,  com  troca  completa  de  sentido,  más  pouca  no  som: 
salta  pinotes  na  cama  que  nem  galâeo  real  (ib.  89)  sempre  a  dar  voltas  e  voltas — 
que  nem  galeão  real  (ib.).  Por  associação  de  ideias,  o  galeão  veio  a  s^r  substi- 
tuído por  nadadores  diversos:  dando  saltinhos  na  cama  como  baleia  no  mar  (Hra- 
sil  19),  dá  tantas  voltas  na  cama — como  o  peixe  na  acua  fria  (Galiza),  vueltas  daba 
en  la  su  cama  —  como  un  pez  vivo  en  la  maré.  (Catálogo  Judio- Espanol,  N.°  28.) 

(2)     Prisões  e  Solturas  p.  49. 


128  CAROLINA  MICHAÈLIS  DE   VA8C0NCELL08 

O  verso  imediato,  tratado  frequentemente  como  verdadei- 
ro princípio  (1): 

[69]  Conde  Claros  con  amores      no  podia  reposar 

lá  está  no  romance,  ainda  agora  alegado,  arbitrariamente 
mudado  em: 

Conde  Claros  de  firmezas      como  podeis  reposar?  (Estr.  12), 

Também  enfeita  um  passo  do  Auto  de  Desembargador.  Em  casa 
d'esse  Justiça  entram  duas  figuras  alegóricas,  Formosura  e 
Dinheiro,  cada  uma  com  o  propósito  de  interceder  a  favor  de 
um  dos  pleiteantes  cujo  feito  ia  decidir-se.  O  porteiro  refle- 
xiona então: 

por  terceiros  vem  os  senhores; 

também  nossa  casa  está 

terceira;      a  feito  vae  já 

Conde  Claros  con  amores  (2) 

Se  o  juiz  é  tratado  de  Conde  Claros,  devemos  entender  que 
ia  com  preconceitos  e  parcialidade  ao  feito.  Mas  outras  inter- 
pretações sâo  possíveis. 

* 
*  * 

[70]  Más  envidia  he  de  vós,  Conde,      que  mancilla  ni  pesar  (v.  134.) 
figura  na  Ca rta  I  d' Africa,  como  circunlóquio  pitoresco  da 
ideia:  tenho-vos  enveja. 

Gabais  esta  vida  cá 

e  desgabais-me  Lisboa! 

Eu  dera  esta  vida  boa 

a  troco  d'  ess'  outra  má! 

Quem  de  estas  lá  se  queixar, 

meu  desejo  lhe  responde 

más  [envidia]  he  de  vos,  Conde  (3) 

que  manzilla  ni  pesar  (4).  (Estr.  23.) 

(i)     P.  ex.  na  Ensaladilla,  Estr.  7  Ins>r.  40. 

(2)  P.  206. 

(3)  Tão  deturpado  está  no  texto  de  Juromenha  e  Braga  {Mas  he  de  nos  Conde) 
que  Wilhelm  Storck  não  o  reconheceu,  apesar  do  segundo  octonário.  Vid.  Zeit- 
schrift  VII,  416. 

(4)  No  Cortesano  ha  um  remedo  que  principia:  Mas  pesar  he  de  vos,  Conde, — 
pues  no  sois  de  envidiar  (p.  i8j>. 


ROMANCES   VELHOS  129 


Creio  que  ha  neste  verso  ura  provérbio  antigo,  mas  desconhe- 
ço lições  em  que  entram  os  vocábulos  envidia  e  mancilla  (1), 


*  * 


Outro  adágio,  d'esta  vez  de  origem  bíblica,  muito  citado 
pelo  bom  sengo  antigo,  que  o  interpretou  ao  seu  modo  (2), 
estava  por  certo  na  mente  do  autor  do  romance,  quando  fez 
sair  da  boca  do  arcebispo  (Turpim)  os  versos: 

Pesatne  de  vos,  el  Conde      porque  así  os  quieren  matar, 
porque  el  yerro  que  hezistes      non  fué  mucho  de  culpar, 
[71]    que  los  yerros  por  amores      dignos  son  de  perdonar. 

Cada  vez  que  este  ditado  surje,  no  ritmo  dos  romances,  em 
autores  que  costumam  citar  textos  velhos,  de  mais  a  mais  fa- 
zendo-o  em  castelhano,  entremetido  num  texto  português,  é 
de  supor  que  se  lembravam  do  Romance  do  Conde  Claros  (3). 

A  conjectura  é  certa,  com  relação  a  D.  Francisco  de  Por- 
tugal, com  quanto  também  d'esta  feita  o  conceituoso  cortesão 
transforme  intencionalmente  o  sentido  o  altere  o  teor,  afir- 
mando que 

yerros  son  solo  en  amores      indignou  de  perdonar.  (Opl.  10.) 


(i)  Quanto  ao  sentido,  compare- se  p.  ex  Mais  vai  ser  invejado  t/ue  compade- 
cido ou  lastimado.  —  Mais  V ile  mal  de  inveja  que  bem  de  piedade. — E  note-se  que  o 
autor  do  romance  (mesmo  na  opiniào  de  Pelayo,  talvez  um  trovador  da  corte  de 
D.  Juan  II,  e  nenhum  indouto  juglar)  era  bastante  sentencioso,  e  gostava  de  en- 
doutrinar  os  ouvintes. 

(2)  Confer  Revista  Lusitana,  II  198. 

(3)  O  provérbio  passou,  na  sua  forma  métrica,  ao  romance  de  FloHseo  (Uuran 
287)  à  Segunda  Celestina  (p.  333),  á  Comedia  Selvàgia  (p.  294),  á  de  Lisandro 
(p.  185),  e  também  a  diversas  comedias  de  capa  y  espada.  Ocorre  no  Orfeo  de 
Câncer  (Zeitsc/iri/t  XXIII)  69  e  seguramente  n  o  ha  de  faltar  no  Vocabulário  de 
refranes y  frases  prorerbiales  de  Gonza'o  Correas. 

Segundo  T.  Braga,  Eschola  de  Gil  Vicente,  p.  236,  o  verso-duplo  encontra-se  tam- 
bém, em  português,  no  Auto  do  Phisico,  de  Jerónymo  Ribeiro  Soaria: 

que  os  erros  por  amores 
são  dignos  de  perdoar. 


130  CAROLINA  MICHAÈLIS  DE    VASCONCELLOS 


Certa  é  também  com  respeito  a  Jorge  Ferreira  de  Vas- 
concellos;  pois  é  um  personagem  português  que  cantarola  na 
Ulysipo  (f .  99  v.) 

y  los  erros  por  amor      dignos  son  de  perdonare. 

O  mesmo  vale  de  António  Prestes  que  lhe  dá  forma  nacio- 
nal, e  d'uma  vez  o  reparte  entre  dois  personagens.  No  Auto 
do  Procurador,  um  amador  confessa  erros  seus,  mas  trata  logo 
de  os  desculpar: 

dirão  que  erros  por  amores 
são  dmos  de  perdoar  (p.  168.) 

No  mesmo  Auto  um  pagem,  mal-criado,  entra  sem  cere- 
mónia  onde  não  fora  chamado;  leva  uma  ensinadela,  e  replica: 
Não  se  perdoam  erros  mores? 

A  que  o  procurador  responde,  e  bem: 

—Senhor,  fi-lo  por  amores,  (p.  128.) 

No  Auto  de  Rodrigo  é  Mendo  de  Jorge  Pinto,  também  não 
falta  a  eterna  desculpa.  Mas  no  sentido,  virado  ao  envés,  de 
D.  Francisco  de  Portugal: 

Já  se  sabe:  erros  de  amor 
sam  duros  de  perdoar, 

a  não  ser  que  se  trate  de  um  símplez  erro  de    imprensa  (1). 

Agora  os  casos  em  que  a  referência  ao  romance  é  vaga. 

No  Prólogo  dei  rei  Seleuco,  o  Moço  emprega  termos  incon- 
venientes. Reprendido  pelo  Mordomo  diz,  rindo-se  se  como  o 
pagem  no  Auto  de  Prestes: 

— Senhor,  não  faz  ao  caso,  que  os  erros  por  amores,  tem  privilegio. 

Mas  não  diz  privilégio  de  cidadão  do  Porto,  como  naCarta  II 
em  prosa  (2).  Cheio  de  ironia,  diz  privilégio  de  moedeiro,  pen- 
sando, salvo  erro,  nos  moedeiros  falsos  que  eram  condenados 
a  baraço  e  pregão  (3). 


(i)  Vid.  T.  Braga,  Eschola  de  Gil  Vicente  p.  236. — Não  posso  recorrer  á 
edição  única  de  1587,  a  qual,  de  resto,  também  é  pouco  correcta. 

(2)  Sob.  No  13  Afuera,  afuera  Rodrigo,  tive  de  transcrever  o  passo. 

(3)  Na  Carta  I  em  prosa  ha  o  trecho  seguinte:  Despois  que  d'essa  terra  parti, 
como  quem  o  faria  para  o  outro  mundo,  mandei  enforcar  a  quantas  esperanças  dera 
de  comer  até  então,  com  pregão  publico  por  falsificadores  de  moeda. 


ROMANCES    VELHOS  737 


Numas  Trovas  redigidas  em  1498,  João  Rodríguez  de  Sá  e 
Meneses,  o  Velho,  pedindo  perdão  de  erros  seus  a  certa  for- 
mosa, concluía: 

Agora,  depois  (Tachar 
em  meus  erros  o  que  neles 
nom  podes  dissimular, 
nisto  m'avês  de  salvar: 
em  serem  próprios  aqueles 
que  sam  pêra  perdonar  (sie)  (1). 

Bernardim  Ribeiro,  que  não  costumava  lavrar  com  gado 
alheio,  contentando-se  com  o  trop-plein  da  sua  alma  de  poeta, 
ainda  assim  diz  numa  das  suas  Eglogas: 

Se  não  te  pude  falar, 
sê  certo  que  minhas  dores 
me  não  deram  este  vagar. 
Deves-me  de  perdoar, 
pois  que  foi  erro  de  amores  (2). 

E  na  Segunda  parte  da  Menina  e  Moça — cuja  autenticidade 
não  é  incontestável,  mas  cujo  texto  em  todo  o  caso  é  anterior  a 
1557,  o  mesmo  pensamento  tem  a  forma  singela  de  provérbio 
em  prosa:  Erros  de  amor  são  dinos  de  perdoar.  (3). 

Quanto  á  Hespanha,  onde  ha  igualmente  citações  e  refe- 
rências numerosas,  restrinjo-me  a  uma  nótula. 

Barahona   de   Soto,   tão   magistralmente  comentado  por 


(1)  Cancioneiro  Geral,  vol  II,  p.  423-4  (f.  123  d):  Trovas  que  mandou  Joam 
Krois  de  Saa  a  senora  dona  Joana  Manuel,  em  rreposta  doestes  motos  que  lhe  man- 
daram a  tila  huns  senores  de  Castella  que  nos  motos  zxlo  nomeados.  São  o  Condes- 
tabre, o  Duque  de  Segorbe,  o  Conde  de  Haro,  D.  António  de  Velasco,  o  Conde 
d'Onate,  e  D.  Luis  l.adron.  E  entre  os  Motes  ha  o  tantas  vezes  citado: 

Pues  non  se  //alia  en  Castilla 
el  remédio  de  mi  mal, 
venga  ya  de  Portugal! 

(2)  Eçloga  V:  Agrestes  (Jorge  de  Montemor)  fala  a  Florisendo  (Feliciano  da 
Silva;  ou  Reinoso). 

(3)  Capítulo  XXII. 


132  CAROLINA  MICHAÉLI8  DE   VASC0NCELL08 

F.  Rodríguez  Marín,  alude  no  seu  Acteon  (Estr.  11)  (1;,  nas 
preces  a  Diana,  a  um  refram  que  náo  enuncia  por  inteiro,  e 
que  seu  admirador  não  quis  adcvinhar.  A  meu  vér,  é  o  dos 
Yerros  por  amores.  O  leitor  que  julgue: 

Aunque  dicen,  y  es  verdad, 
que  de  vos  son  remitidos 
con  raeno3  difleultad 
los  pecados  cometidos 
contra  vuestra  castidad, 
yo,  que  menos  mal  pense, 
más  parece  que  peque; 
aunque  si  no  me  estorbaras, 
yo  sé  que  me  perdonaras 
silhay  en  los  refranes  fe . 


F.  Romances  do  ciclo  bretónlco  e  de  livros  de  Cavalarias. 

XXVII 
f 

Como  a  matéria  de  Bretanha  não  se  vulgarizasse  muito  em 
Hespanha,  estando  escassamente  representada  no  Roman- 
ceiro, quàsi  não  deixou  vestígios  em  Portugal  na  poesia  po- 
pular, apesar  de  a  predilecção,  com  que  os  heroes  da  Távola 
Redonda  foram  acolhidos,  quando  a  era  dos  trovadores  ia 
findar,  se  haver  manifestado  posteriormente  de  várias  ma- 
neiras. 

Temas  soltos,  quer  de  lais,  quer  de  narrações  novelescas 
entraram  todavia  em  tradições  históricas  como  a  de  Inês  de 
Castro,  e  em  alguns  romances  do  Conde  Nilo. 

Quanto  a  citações  conheço  uma  só  do  muito  poético  roman- 
ce de  Lançarote,  tão  habilmente  divulgado  por  Cervantes  (2). 


(i)     Luis  Francisco  Rodríguez  Marín,  Luis  Barahona   de  Soto  (Madrid,    1903), 
p.  667. 

Na  Sátira — Contra  algunas  necedades,  o  poeta  diz  Cuan  propio  es... 

ai  caballero  y  aun  ai  estudiante 

componer  y  taner  un  Conde  Claros  (p.  72S)* 

(2)     Don  Quixote  I.  cap.  13. 


ROMANCES   VELHOS  133 


É  no  Auto  de  Rodrigo  e  Mendo  (f.  55)  que  se  menciona  o  verso 

[72]  Nunca  fuera  cahallero      de  damas  tan  bien  servido.  (Pr.  148)  (1). 

Também  estava  presente  na  memória  do  autor  da  Segunda 
Tavola  Redonda,  quando  compôs  o  primeiro  dos  sete  roman- 
ces que  intercalou  na  sua  prosa  sustancial,  relativo  á  morte 
de  Artur  e  á  traição  de  Morderet.  Enumerando,  em  alocuções 
seguidas,  heroes  bretónicos  falecidos,  diz: 

Tu  Lançarote  do  Lago— que  as  glorias  d'amor  ouveste, 

de  damas  servido,  amado— da  dona  a  quem  mais  quiseste  (2). 


XXVIII 

Ha  um  único  romance  conhecido  em  Portugal  que  seja  deri- 
vação de  um  livro  de  cavalarias:  o  de  D.  Duardos  e  Fléri- 
da, — delicioso  poema  de  inspiração  quasi  popular  (3),  com- 
quanto  conheçamos  o  autor,  a  data  aproximada  da  criação, 
e  a  fonte  directa—  circumstâncias  que,  ligadas  á  de  ser  obra 
de  um  Português,  lhe  dão  importância  capital. 

Para  contentar  o  espírito  delicado  do  juvenil  D.  João  III,  é 
que  o  Plauto  lusitano  tentou  uma  grande  novidade  entre  1522 
e  1525,  isto  é:  depois  da  aclamação  do  monarca  (4),  mas  an- 
tes de  sua  protectora  principal,  D.  Leonor,  a  nobre  viuva  de 
D.  João  II,  haver  falecido  (5). 

Deixando  por  algum  tempo  as  figuras  baixas  da  vida  real 
que  apresentara  nas  suas  farsas,  comédias  e  moralidades 
começou  a  escrever  com  retórica  mais  altiloqíiente  e  mais 
doce   estilo,    Tragicomedias  em   que   preponderassem    em- 


(i)  Cap.  III.,  p.  12  da  ed.  de  1867. —  No  Cortesano  p.  1 1  5  ha  a  variante:  mas 
bien  querido. 

(2)  Vid.  Eschola  de  Gil  Vicente  p.  233.  A  lição  do  romance,  comunicada  por 
Bonilla  nos  Anates,  p.  29,  tem  variantes  notáveis. 

(3)  Com  vivo  prazer  chamo  a  atenção  para  os  louvores  sentidos  que  um  crí- 
tico tão  abalisado  como  Menéndez  y  Pelayo  lhe  tributou  nos  Tomos  VII  (p.  201). 
e  XII  (171)  da  Antologia,  assim  como  nas  Origenes  de  la  Novela  p.  266. 

(4)  A  19  de  Dez.  de  1521. 

(5)  A  17  de  Nov.  de  1525. 


CAROLINA  MICHAÉLI8   DE    VASC0NCELL08 


peradores,  reis,  infantes  (1).  E  escolheu  para  estreia  (2)  um 
tema  cavalheiresco:  os  amores  de  D.  Duardos,  o  mais  intere- 
ssante dos  três  heroes,  cujos  feitos,  narrados  na  então  mais 
moderna  novela  de  aventuras,  o  Libro  segundo  de  Palmerin, 
encantavam  o  publico  hespanhol  desde  1512  (3). 

Em  substituição  das  chacotas,  dos  bailados  e  das  folias  po- 
pulares, com  que  até  então  havia  rematado  as  suas  represen- 
tações, inventou  d'esta  vez  um  romance  que,  cantado  em  coro, 
por  despedida,  enunciava  a  ideia  dominante  da  fatalidade  do 
amor: 


ou 


que  contra  la  muerte  y  amor 
nadie  no  tiene  valia. 


ai  Amor  y  d  la  Fortuna 

no  hay  defension  ninguna  (4), 


(i)  É  o  que  consta  do  Prólogo,  ou  seja  Carta  Dedicatória,  a  D.  João  III,  que 
acompanhara  a  edição  príncipe  do  Auto.  E  começa:  Como  quiera,  excelente  príncipe 
y  rey  mui  poderoso  que  las  comédias,  farças  y  moralidades  que  he  compuesto  en  ser- 
vido de  la  reina  vuestra  tia,  cuanto  en  caso  de  amores,  fueran  figuras  baxas,  en  las 
quales  no  havia  conveniente  rethorica  que  pudiesse  satisfazer  ai  delicado  espirito  de 
V,  A.,  conoci  que  me  complia  meter  mais  velas  à  mi  pobre  fusta. — Claro  está  que 
depois  de  Nov.  de  1525  era  indispensável  acrecentar  a  tia,  a  fórmula  consagrada 
que  Deus  tem  -  -  que  santa  gloria  haja  —  cuja  alma  Deus  haja,  ou  outra  seme- 
lhante. 

(2)  Do  Prólogo  em  si,  do  seu  teor,  e  da  primazia  dada  na  Compilação  ao  Don 
Duardos,  parece  resultar  que  ela  foi  cronologicamente  a  primeira  das  dez  Tragico- 
medias  que  constituem  o  Libio  III  das  Obras.  Com  estes  factos  não  condizem 
todavia  as  datas  das  Cortes  de  yúpiter,  que  são  de  1519,  e  da  Exhortação  agueira, 
que  é  de  15 13.  Como  conciliar  essas  contradições?  Com  o  expediente  que  aqueles 
dois  Autos  receberiam postfestutn  o  título  de  Tragicomedias,  quando  o  Poeta  orde- 
nava e  rubricava  as  suas  geniaes  criações,  ás  vezes  bem  difíceis  de  classificar,  e 
nem  sempre  bem  classificadas  e  ordenadas. 

(3)  As  edições  primeiras  do  Primaléon,  de  Francisco  Vázquez  de  Ciudadro- 
drigo,  ou  de  sua  mãe,  são  de  151 2,  1516,  1524.  Pode  ser  que  um  ou  outro  exem- 
plar da  edição-príncipe  passasse  a  Portugal,  entrando  na  livraria  de  D.  Manuel  e 
na  de  literatos  de  alta  categoria.  As  provas  da  sua  popularidade  começam  todavia 
com  o  Auto  de  D.  Duardos.  No  Cancioneiro  de  Resende  (concluído  em  15 16)  ha 
alusões  ao  Amadis  e  Esplandian,  mas  nenhuma  aos  Palmerines. 

(4)  Vol.  II,  p.  248— Confer  Duran,  1882:  Al  Amor  y  à  la  Fortuna  no  hay  de- 
fensa ninguna. 


ROMANCES    VELHOS  135 


ideia  que  posteriormente  o  havia  de  tornar  suspeito  ao  faná- 
tico Cardeal-Infante  e  seus  delatores. 

Desligado,  o  romance  propagou-se  todavia  rapidamente 
em  folhas  volantes  (1)  e  nas  asas  do  bel-canto,  tendo  em  1550 
a  honra  de  ser  acolhido  no  Cancionero  de  romances.  Em  am- 
bos os  paises  agradou  mesmo  a  ponto  tal  que,  ao  cabo  de  três 
séculos  e  meio,  ainda  se  conserva  na  tradição  oral,  abreviado, 
mas  não  alterado  na  essência. 

Além  da  versão  portuguesa,  publicada  por  Almeida-Ga- 
rrett,  que  afirma  havê-la  encontrado  nos  manuscritos  do  Ca- 
valheiro de  Oliveira  (2),  conhecia-se  uma  da  Ilha  de  S.  Jor- 
ge (3).  Agora  juntou-se  lhe,  felizmente,  outra  castelhana,  can- 
tada pelos  Judeus  de  Tânger  (4) . 

Da  popularidade  que  no  longo  intervalo  gozou,  dão  prova 
uma  glosa,  e  numerosas  referências,  não  só  de  quinhen- 
tistas, mas  também  de  seiscentistas  e  de  Académicos  Singula- 
res do  século  xviii  . 

Foi  um  Português,  estudante  de  Salamanca,  chamado  An- 
tónio López,  que  publicou  num  Pliego  suelto  s.  1.  n.  a.,  o  Ko- 


(i)  Vid.  Duran ,  Catálogo.  No  137  e  144;  Gallardo ,  Ensayo.  N.°  2709 
e  1121. 

(2)  Quer  seja  de  Garrett,  quer  do  Cavalheiro  de  Cristo  Francisco  Xavier  de 
Oliveira  (1702- 1738),  o  texto  português  é  tradução  primorosa  do  castelhano,  tal 
qual  foi  incorporado  em  1562  nas  Obras  de  Gil  Vicente,  sem  alteração  de  peso. 
Basta  esta  circunstância  para  provar  que  não  passou  pela  boca  do  vulgo.  Pelo  me- 
nos, o  caso  seria  único.  Também  de  1850  para  cá  nenhum  folklorista  a  encontrou 
no  continente,  em  redacção  portuguesa  abreviada,  comquanto  se  deva  aceitar 
como  seguro  que  antes  de  passar  aos  Açores  e  a  Tânger  andou  na  península 
na  tradição  oral,  simplificando-se  pouco  a  pouco,  e  nacionalizando- se  neste 
pais. 

(3)  Ar  eh.  Açoriano,  N.'°  56  (e  57),  onde  figuram  como  Romances  Históricos; 
e  p.  442-45  do  Romanceiro  Geral,  onde  se  acham  no  ciclo  carolíngio,  juntamente 
com  outras  redacções  vulgares  da  Filha  do  Emperador  de  Roma;  Hortelão  das 
Flores,'  Duque  de  Lombardia,  Cei/ão,  Amores  de  D.  Lisarda  (p.  424-441)  que  são 
versificações  iie  contos,  de  assunto  parecido,  enfeitados  com  o  motivo  da  despe- 
dida— mas  não  se  podem  chamar  variantes  da  obra  inspirada  de  Gil  Vicente. — 
D.  Maria  Goyri  rubrica-os  com  o  titulo:  Princesa  enamorada  de  un  Secador 
(No  42). 

(4)  Catálogo  Judio-Espafíol,  No  105. 


136  CAROLINA  MICHAÊLIS   DE   VASC0NCELL08 

mance  sacado  de  la  «Farsa  de  Don  Duardos»,  nuevamente  glo- 
sado, y  un  testamento  de  amores.   A  glosa  principia 

En  el  tiempo  que  el  amor(í). 

Os  octonários  iniciaes 

[73]     En  el  mes  era  de  abril,      de  maio  antes  un  dia  (2). 

aparecem  no  Auto  de  Rodrigo  e  Mendo  (f.  49.  v.)  com  uma  le- 
ve variante,  bem-vinda,  porque  confirma  a  propagação  oral 
e  a  interpretação  que  sempre  dei  a  essa  fórmula  (3). 
E  diz: 

pois,  cantar  lhe-ão  a  las  mil: 
En  el  mes  era  de  abril, 
de  maio  antes  da  festa. 

A  continuação  (indirecta  nos  textos  literários,  imediata  só 
nas  abreviações  populares): 

[74]  Quando  la  hermosa  infanta      Flerida  ya  se  partia 
figura  no  episódio  do  saio  empenhado,  de  António  Prestes, 


(i)  Vid.  Duran,  Catálogo  N.°  144  e  Garcia  Pêrez,  Catálogo  Razonado,  p.  328 
e  638. 

(2)  Gil  Vicente,  Obras  II  249;  Duran,  N.°  288;  Antologia  1.  c— F.  Wolf  não 
o  incluiu  na  Primavera  por  ser  de  autor  conhecido. 

(3)  E  singular  que  a  inversão  poética  da  preposição  antes  não  fosse  familiar 
a  um  traductor  tão  abalizado  como  Storck,  tanto  mais  que  o  seu  predecessor 
Bellermann  já  havia  dito,  sem  arte  e  engenho,  mas  literalmente  bem: 

In  dem  Monat  des  April       vor  des  Maien  erstem  Taçe. 

Como  se  conhece  das  palavras 

War  im  schõnem  Mond  April       Nein  i/n  Mai  an  einem  Tage, 

Storck  (Aus  Portugal  und  Brasilien,  Paderborn  1892.  No  5)  julgou  que  antes 
era  advérbio  e  significava  pelo  contrario,  para  melhor  dizer.  Não  se  lembrava  das 
lindas  e  antiquíssimas  festas  tradicionaes  da  véspera  do  primeiro  dia  de  Maio  (San- 
tiago, o  Verde),  que  persistem  em  tantos  cantos  e  recantos  do  mundo  europeu 
(especialmente  na  Galiza).  Curioso  é  que  os  Judeus  de  Tanger  também  não  per- 
cebessem o  sentido  da  frase,  pois  a  deturpam,  dizendo: 

Entrar  quiere  el  mes  de  mayo       y  el  de  abril  antes  de  un  dia  (!) 
Confer:         Salir  quiere  el  mes  de  marzo  entrar  quiere  el  de  abril 

(ib.  N.°  152)  e  Entra  mayo  y  sale  abril  (Cancionei  o  Espiritual  de  Valdivielsot 
p.    227). 


ROMANCES    VELHOS  137 


onde  o  hemistíquio  impar  é  completado  parodisticamente 
pela  oração  mi  ama  ya  lo  despia  (sic;  como  sempre  em  boca 
de  poetas  cómicos,  cora  um  pé  á  castelhana  e  outro  á  portu- 
guesa) (1). 

A'  despedida  de  Flérida  pertence  o  verso: 

[75]  Voyme  d  las  tierras  estranis      adó  ventura  me  guia  (2) 

cantarolado  por  Brómia  nos  Amphitriões  (Acto  I,  Scena  III) 
em  resposta  á  Feliseo,  que  preguntára:  Porém,  is-vos  to- 
davia? (3). 

O  ditado  final  do  romance  que  tem  ares  de  adágio  po- 
pular (4): 

[76]  Que  contra  la  muerte  y  amor      nadie  no  tiene  valia, 

reaparece,  mudado,  no  Auto  de  D.  André,  de  Gil  Vicente  de 
Almeida.  O  neto  do  fundador  do  teatro  nacional  diz: 

porém  sempre  ouvi  dizer 
que  contra  fortuna  e  amor      nam  ha  força  nem  poder. 

Não  só  a  horta  de  Flérida  se  tornou  proverbial,  mas  tam- 
bém o  haver-se  o  namorado  príncipe  disfarçado  em  jor- 
naleiro. Vejo-o  citado  no  Auto  de  Desembargador  (5),  na 
Arte  de  Galanteria,  de  D.  Francisco  de  Portugal  (p.  67)  (6)  e 


(1)  Auto  dos  Cantarinhos,  p.  440. 

(2)  Esta  lição  encontra-se  no  Cancionero  de  Romances  de  1550.  Mas  como  a 
comédia  de  Camões  seja  (provavelmente)  anterior  a  esta  data,  é  de  supor  que  o 
poeta  utilizasse  impressões  avulsas,  do  Auto  inteiro  ou  só  do  romance,  ou  sim- 
plezmente  a  tradição  palaciana. 

(3)  O  motivo  da  despedida  entrou  em  romances  vulgares.  Além  dos  já  citados 
vejam  Revista  Lusitana  VIII,  N."  20;  e  Leite  de  Vasconcellos,  No  IO. 

(4)  Conheço  alguns  que  expressam  ideias  iguaes,  como  Contra  a  morte  não  ha 
remédio.— O  amor  não  tem  lei.  —  O  que  tem  de  j.v,  tem  muita  força  — ,  mas  não  me 
recordo  de  nenhum  que  lhe  corresponda  formalmente. 

(5)  P.  485.  Aqui  não  me  pranteis  horta— com  D.  Duardos  e  IHérida  -porque 
isso  não  me  conforta. 

(6)  Comquanto  D.  Francisco  fosse  muito  amigo  de  citações  de  conceitos 
alheios,  diz  ahi  mal  d'elas,  exceptuando  todavia  o  Auto  de  D.  Duardos,  do  qual 
transcreve  quatro  trechos  diversos^ 


138 


CAROLINA  MICHAÉLIS  DE   VASC0NCELL08 


ainda  no  Folheto  de  Ambas  Lisboas  de  1739  (N.°  14),  numa  pa- 
ródia das  sessões  usuaes  da  Academia  (1). 

Quanto  á  discussão  sobre  os  méritos  de  D.  Duardos  e  I*ri- 
maleão  como  finos  namorados,  intercalada  por  Jorge  Ferreira 
no  seu  Sagramor  (2),  lá  pelas  voltas  de  l.V>0,  ela  baseia-se  no 
livro  de  cavalarias,  e  não  na  tragi comédia  derivada  de  GUI 
Vicente,  comquanto  naturalmente  nâo  lhe  fosse  desconhecida. 

A  essa  se  refere,  declaradamente,  o  autor  desconhecido  do 
Auto  popular  de  Guiomar  do  Porto.  Uma  velha  Celestina  tece 
louvores  interessados  a  vários  livros  de  amor,  de  autores  cas- 
telhanos. Entre  eles  dois  Portugueses,  Gil  Vicente  e  Bernar- 
dim Ribeiro.  Eis  o  trecho  curioso: 


Alcoviteira.    Não  sois  devota  de  ler 

cantigas?  cartas  de  amores? 
livros  de  bons  amadores? 

Guiomar.  Alguns  tenho  em  meu  poder 

de  mui  famosos  autores. 

Alcoviteira.     Muito  gosto  eu,  senhora, 

de  Amadis;  Carcel  (V  amor, 

hum  Sermão  do  mesmo  autor; 

e  a  Donzella  Theodora; 

e  mais  Silvestre  e  Amador. 

E  dos  Autos  Aquilano, 

Dom  Duardos  com  sus  flores;  (sic) 

e  o  Tormento  d'  amores, 

e  o  Cancioneiro  castelhano, 

e  Boscan.  com^eus  primores. 

Guiomar.  Todos  esses  tenho  eu 

e  outros  que  não  nomeaes. 

Alcoviteira.     D'  aqueles  papeis  gostaes; 
e  aqueste  papel  meu, 
por  ser  meu  o  engeitaes?  (3). 


(1)  Quando  o  secretario  pos  fitn  á  tempestade  de  parvoíces  de  que  constava  a  sua 
oração.  .  feita  pausa...  nomeou  o  primeiro  assumpto  que  foy  a  heróica  acção  do 
Príncipe  D.  Duardos  se  fingir  hortelão  para  ver  e  f aliar  ã  Princeza  Flêrida,  como 
consta  do  Auto  do  mesmo  D.  Duardos,  logo  na  2?  folha.  —  A  façanhosa  acção  foi 
assunto  para  quatro  sonetos  em  versos  de  arte  maior,  e  para  outras  composições, 

(2)  Cap.  XIII. 

(3)  Nunca  vi  o  exemplar  único  de  1649  (com  licença  de  1619)  que  se  conserva 
em  Lisboa  na  livraria Minhava.  Tenho  que  louvar  me  aqui,  como  em  todos  os  trechos 
de  Autos  nunca  reeditados,  em  T.  Braga,  Eschola  de  Gil  Vicente.  Vid.  p.  184  e  565. 


HúM.IVCES    VELHOS  139 


Quanto  ao  texto  do  romance,  peço  vénia  para  ser  um  pou- 
co extensa  (1).  Os  que  até  hoje  se  ocuparam  d'  ele,  recorre- 
ram naturalmente  de  preferência  ás  Obras  de  Gil  Vicente,  na 
accessível  impressão  de  Hamburgo  que  se  cinge  á  edição- 
príncipe.  Não  me  parece  todavia  que  a  Copilacão  on  Compi- 
lação encerre  neste  caso  o  texto  melhor. 

Antes  de  o  Plauto  português  se  haver  abalançado  nos  úl- 
timos anos  da  sua  vida,  por  órdeni  de  D.  João  III  (2),  a  colec- 
cionar as  suas  obras  —  trabalho  que  não  havia  realizado 
por  inteiro  quando  cerrou  os  olhos  em  1540  (3)  e  que  seus 
filhos  Luis  e  Paula  terminaram  após  vinte  e  dois  anos  (4) — 
muitas  comédias  e  diversas  trovas  haviam  saido  avulsas, 
empremidas  pelo  metido,  como  se  diz  no  Privilégio  de  1561,  ou 
fora  do  corpo  grande,  segundo  se  explica  nos  índices  expurga- 
Wrioa  de  1581  e  1642  (5). 


(i)  Ha  muito  que  preparo  a  edição  crítica  das  Obras  de  Gil  Vicente,  come- 
çando com  as  três  Barcas  &  o  D.  Duardos.  Mas  como  ainda  me  faltem  materiaes 
indispensáveis  para  boa  realização  do  plano,  aproveito  este  ensejo  de  apelar  para 
os  letrados  que  generosamente  queiram  auxiliar-me  com  as  raridades  que  possuam. 

(a)  Num  Preâmbulo  que  Gil  Vicente  deixou  escrito,  destinado  a  acompanhar 
as  Obras  e  dirigido  ao  monarca,  ele  confessa  que  nunca  pensara  em  publicar  essa 
colecção.  Pelo  contrário  estava  mesmo  ditei  minado  a  leixar  suas  miseriimas 
obras  por  imprimir  e  só  por  serviço  de  S.  A.  trabalhou  a  copilacão  delias  com 
muita  pena  de  sua  velhice  (III,  389). 

(3)  No  Prologo  do  filho  a  D.  Sebastião,  Luis  Vicente  declara  que  o  pae  escre- 
veu por  sua  mão  e  ajuntou  em  hum  livro  muito  grande  parte  delias  (falta  vírgula 
depois  de  grande,  mas  talvez  esse  adjetivo  qualifique  também  parte).  E  ajuntara 
todas,  se  a  morte  o  não  consumira 

(4)  Em  continuação  do  trecho  que  tresladei  na  nota  anterior  lê-seM  este  livro 
ajuntei  as  mais  obras  que  faltavam  e  de  que  pude  ter  noticia.  Mas  também:  tomei  a 
minhas  costas  o  trabalho  de  as  apurar  e  fazer  imprimir.  Por  uma  rubrica  relativa 
ao  Livro  V  confirma-se  que  não  encontrou  todas  as  Obras  Varias:  vae  muito  care- 
cido das  obras  metidas  porque  as  mais  das  que  o  autor  fez  d'esta  calidade  se  per- 
deram. São  d'ele  também  diversas  Notas  explicativas.  P.  ex  a  final  do  Li- 
vro II,  em  que  declara  que  a  Comedia  Floresta  de  Enganos  fora  a  derradeira  que 
Gil  Vicente  fez  em  seus  dias. 

(5)  A  respeito  dos  índices  portugueses  veja-se  o  Catalogo  da  Livraria  de 
J.  M.  Nepomuceno  (Lisboa,  1897),  N.°s  882-886,  mas  principalmente  o  Dicciona- 
rio  Bibliogrâphico  de  Inocêncio  da  Silva,  nas  continuações  que  devemos  a  Brito 
Aranha,  vol.  X,  p.  387. 


140  CAROLINA  MICHAÈLI8  DE    VA8C0NCELL0S 

Essas  edições  avulsas  foram  utilizadas  p.  ex.  por  Fernflo 
de  Oliveira  na  sua  Grammática,  impressa  em  1639;  por  Jofto  de 
Barros  na  que  publicou  em  1540;  por  Jorge  Ferreira  de  \ 
concellos  (que  faleceu  em  1568),  nas  suas  Comédias;  pelo  glo* 

sador  António  Lópcz,  e  pelos  numerosos  poetas  dramáticos  da 
Escola  Vicentina,  incluindo  Luis  de  Camões.  Sairiam  portanto 
em  edições-príncipes  logo  depois  da  sua  composição  8  re- 
presentação, isto  é  entre  1502  e  1530,  e  portanto  sem  serem  su- 
jeitas á  censura  que  começou  a  funcionar  ne-ssa  data,  irregu- 
larmente embora,  até  a  publicação  dos  índices  e  a  instituição 
das  Mesas  em  conformidade  com  as  ordens  vindas  de  Roma 
desde  1543  e  especialmente  com  as  resoluções  do  Concílio 
Tridentino. 

D.  Duardos  pertence  ao  número  das  peças  publicadas 
em  vida  do  autor.  Comquanto  nenhuma  impressão  quinhen- 
tista se  conservasse,  o  figurar  no  Rol  dos  livrou  defezos  de  1551 
e  no  de  1561  o  Auto  de  D.  Duardos  que  non  tiver  cen- 
sura como  foi  emendado  (e  também  no  castelhano  de  1559), 
fala  com  suficiente  clareza.  Além  d'isso  ha  confirmação  no 
Prólogo- Dedicatória  a  D.  João  III,  escrito,  segundo  já  disse, 
antes  do  falecimento  da  Rainha  D.a  Leonor  (1525).  Não 
menos  o  confirmam  reimpressões  posteriores  que  repetem 
o  titulo  original  Auto  nuevamente  liecho  e  se  afastam  em 
bastantes  pormenores  da  impressão  de  1562,  não  só  com  re- 
lação a  emendas  ordenadas  em  1581  e  1624  pelos  Deputados 
da  Santa  Inquisição.  Uma,  muito  tardia  (de  1720)  que  parece 
ser  reprodução  de  outra  de  1647  (1),  contém  o  Prólogo-Dedi- 
catôria  da  perdida  impressão-príncipe,  o  qual  não  entrara  na 
Compilação  de  1562,  mas  sim  na  mutiladíssima  de  1586  (aug- 
mentada  unicamente  nesse  Auto,  que  constitue  o  maior  mere- 
cimento d'ela).  Parece  evidente  que  o  privilegiado  moço  da 
capela  real,  incumbido  d'essa  edição  (2),  se  valeu  de  um  texto 
avulso,  guardado  por  ventura  no  paço  e  que  o  editor  do  folheto 


(i)     Conheço  a  de  I720;masade  1647  só  pelas  descriçàes  dadas  por  Gallardo 
(Ensayo  4575)  e  outros  bibliógrafos. 

(2)     Afonso  López,  editor  também  da  colecção  de  Autos  de  1587. 


ROMANCES   VELHOS  141 


de  1720  recorreu  a  outro,  não  idêntico,  mas  quasi  igual.  Seja 
porém  como  fôr,  o  texto  de  1586  e  o  dos  folhetos  avulsos  deve 
ser  consultado.  For  diversos  motivos:  Io)  Porque  os  impresso- 
res de  1561  procederam  com  lastimável  incúria.  2o) Porque  ig- 
noramos se  a  tragicomédia  de  D.Duardos  pertence  como  creio 
ao  numero  dos  textos  que  Gil  Vicente  preparou  pessoalmente 
para  a  Compilação,  ou  se  foi  o  filho  que  a  apurou  (1).  3.°  Por- 
que ignoramos  igualmente  se  o  pae  ou  o  filho  retocou  a  re- 
dacção original,  procedimento  que  quanto  ao  pae  seria  muito 
natural,  e  pôde  ser  provado  com  relação  a  outros  Autos  por 
alusões  a  acontecimentos  posteriores  á  data  da  elaboração 
primeira. 

No  texto  de  1720,  que  pelo  de  1647  parece  derivar  de  uma 
das  impressões  anteriores  á  1562,  a  que  o  Rol  do  Cardeal- 
Infante  se  referia  em  1551  e  1561,  notam-se  emendas  ordena- 
das pelos  Censores  como  p.  ex.  a  substituição  constante  de 
diesa  por  reina;  mas  também  variantes  de  valor.  Especial- 
mente no  Romance.  Algumas  lições  são  confirmadas  pela  tra- 
dição oral  e  por  um  folheto  gótico  hespanhol. 

Pelo  confronto  das  lições  que  faculto  ao  leitor,  reconhece- 
se  em  primeiro  lugar,  que  a  do  folheto  de  1720  e  a  de  1586, 
embora  lhes  faltem  dois  hemistíquios,  é  mais  perfeita  e  mais 
desenvolvida  que  a  de  1562;  em  segundo  lugar  que  foi  essa  a 
que  se  divulgou  em  Castela  antes  de  1550;  em  terceiro  lugar 
que  não  foi  a  redacção  primitiva,  mas,  pelo  contrario,  a  das 
Obras  que  serviu  de  modelo  a  Almeida-Uarrett. 

Quanto  ás  abreviações  populares,  tão  reduzidas  estão  que 
não  é  fácil  dizer  de  qual  das  duas  derivam.  Alguns  indícios 
ha  comtudo  que  falam  a  favor  da  lição  que  tenho  em  conta 
de  mais  antiga  (2) .  * 

Certas  divergências  explicam-se,  de  resto,  pelo  duplo  des- 


(i)  A  edição  de  1562  foi  vista  também  pelos  Deputados  da  Mesa  Censória 
mas  tratada  com  grande  benignidade  e  tolerância,  talvez  pelo  favor  dispensado 
por  D.  João  III  e  D.  Manuel  a  Gil  Vicente  e  por  D.  Sebastião  a  seus  descen- 
dentes. 

(2)  Reparem  nas  concordâncias  siguintes:  v.  11  preguntar pelo  bem  que  m< 
queria — v.  13  venceu. 


742  CAROLINA  MICHAÉLI8  DE   VA8CONCELL08 


tino  do  romance,  como  parte  integrante  de  uma  obra  maior, 
e  como  cantar  independente.  No  Auto,  Gil  Vicente  apresen- 
tou-o  logo  era  ambas  as  formas,  i.  é  recitado,  aos  bocados, 
por  três  personagens  diversos:  Artada,  incumbida  das  parce- 
las narrativas  (1),  Flérida,  com  os  queixumes  de  despedi- 
da (2),  Dom  Duardos,  com  as  promessas  consoladoras.  Logo 
depois  foi  repetido,  cantado  como  remate  da  festa,  em  coro, 
atrás  da  scena,  pelos  marinheiros  da  galeota  real  em  que  os 
dois  iam  embarcar,  e  talvez  no  palco  por  Artada  (3).  Com 
música  de  Gil  Vicente,  como  é  provável  (4).  É  o  que  se  infere 
tanto  das  indicações  scénicas  como  dos  verso9  de  introdução 
e  dos  finaes  da  peça  que  se  seguem  ao  romance.  O  texto  não 
foi,  porém,  repetido  na  impressão.  Apenas  se  explica:  Este  ro- 
mance se  disse  representado,  e  depois  tornado  a  cantar  por  des- 
pedida. 


(i)     O  seu  nome  precede   (indireitamente)   os  cinco  primeiros  versos.  Repete- 
se  diante  do  hemistíquio  Alli  habla  don  Duardos,  e  dos  sete  versos  finaes,  de  Sus 
lágrimas  em  diante.  Também  é  Artada  quem  explica  previamente  ao  público  a  mo- 
ralidade (já  transcrita)  do  drama,  que  se  cifra  no  fatalismo  do  amor: 
Cantando  quiero  decir 
la  conclusiòn: 
Al  amor  y  à  la  Fortuna 
no  hay  defensión  ninguna  (p.  248). 
E  é  ela  quem  profere  o  prefácio: 

Cantemos  nuevo  romance 
á  la  nueva  despedida 
peligrosa. 

(2)  O  nome  de  Flerida  falta  nas .  Obras  antes  do  verso  6.°  Quedá-os  á  Dias 
mis  flores.  Por  descuido,  evidentemente. 

(3)  Já  mostrei  que  ela  emprega  duas  vezes  o  verbo  cantar.  Ainda  assim  o 
modo  como  trataram  o  romance  na  representação  teatral  não  é  bem  claro.  Depois 
das  palavras  de  Artada  é  o  patrão  da  galera  que  diz  a  frase  final: 

Lo  mismo  iremos  cantando 
por  ese  mar  adelante, 
á  las  sirenas  rogando 
y  vuestra  Alteza  mandando 
que  en  la  mar  también  se  cante. 

Podia-se  entender  que  o  romance  já  fora  anteriormente  cantado  (por  Artada) 
Creio,  porém,  que  essa  interpretação  seria  errónea. 

(4)  Falta  a  respectiva  explicação. 


ROMANCES   VELHOS  143 


Eis  agora  os  textos  acompanhados  de  algumas  miseelas 
críticas. 


I.  Folha  votante  portuguesa  de  1720. 

En  el  mes  era  de  abril      de  mayo  antes  un  dia 
cuando  los  lírios  y  rosas      mnestran  más  su  alegria, 
en  la  noche  mas  serena      que  el  cielo  hazer  podia, 
cuando  la  hermosa  infanta      Fiérida  ya  se  partia. 
5  En  la  huerta  de  su  padre      á  las  árboles  decia: 
«Ya  mas  en  cuanto  viviere      os  veré  tan  solo  un  dia, 
ni  cantar  los  ruisefiores      con  suave  melodia  (1). 
Quédate  á  di os,  agua  clara,      quédate  á  dio.j,  agua  fria, 
quedáos  d  dios,  mis  flores  (2),      mi  gloria  que  ser  solia. 

10  Voyme  d  tierras  estraiias      pues  ventura  allá  me  guia. 
Si  mi  padre  os  perguntare      que  tanto  bien  me  queria, 
dezid  que  el  amor  me  lleva      que  no  f  ue  la  culpa  mia; 
tal  tema  tomo  conmigo      que  me  vencia  su  porfia. 
Triste  no  sé  donde  voy    '  ni  nadie  me  lo  decia.» 

15  Alli  habló  Don  Duardos       (falta) 

(falta) (3)      no  lloreis  mi  alegria, 

que  en  los  reinos  dê  Inglatierra      más  claras  aguas  habia 
y  más  hermosos  jardines      y  huertas,  senora  mia. 
Tendreis  trescientas  doncellas      de  alta  genealogia; 

20  de  plata  son  los  palácios      para  vuestra  senoria; 

de  esmeraldas  y  jacintos       (falta) ; 

las  câmaras  ladrilladas      de  oro  fino  de  Turquia, 
con  letreros  esmaltados      que  cuentan  la  vida  mia, 
cuentan  los  vivos  dolores      que  me  distes  aquel  dia 

25  cuando  con  Primaleon      fuertemente  combatia. 
Senora,  vos  me  matastes,      que  yo  a  él  no  lo  temia. » 
Sus  lágrimas  consolaba      Fiérida  que  esto  oia; 
fuéranse  á  las  galeras      que  Don  Duardos  tenia; 
cincuenta  eran  por  cuenta  (4),      todas  vau  en  compania. 

30  Al  son  de  sus  dulces  remos      la  Infanta  se  adormecia. 
en  brazos  de  Don  Duardos      que  bien  le  pertenecia. 
Sepan  todos  los  nacidos      aquesta  sentencia  mia: 
•que  contra  muerte  y  amor      nadie  no  tiene  valia.» 


144 


CAROLINA  MICHAÈLIS  DE   VA8C0NCELL08 


II.  Ed.  1586. 


5 los 

biv[i]ere      


con  dios 


10 


preguntare      que  grande  bien  m.  q. 

diria  que  el  amor 

comigo      


15 (falta) 

(falta) 

de  Inglaterra      


temeis. .  .doncellaa 


20 


25 


(falta) 


.consolava 


no  le  temia 


30 


.nascidos 


pertencia. 


nadia 


ROMANCES    VELHOS  H5 


III.  Folha  volante  hespanhola  s.  I.  n.  a. 


5  los 

Jamas 

en  los  ramos 


10  

me  buscase  (5)      que  grande  bien  m.  q 

decidle  que  Amor  me  lleva         

comigo      q.  m.  forzó  s.  p 

donde  vo      

15  . .    bien  oireis  lo  que  decia: 

Pues  vuestro  mal  me  quebranta      no  11.,  seúora  infanta  (6). 

Inglaterra      

y  vuestros  s.  m.  (7) 

temeis 

20  

toda  la  tapecerla 


cuenta[n] 

contando  v.  d 

25 


fueronse  á  las  galeas 

por  todas 

30  

s.  cuantos  son  n 

la  Muerte  y  Amor 


140  CAROLINA  MICHA£LIS  DE    VASCONCELLOS 


IV.  Cancionero  de  Romances  1550. 


podria 


5  los 

Jamás 

eu  los  ramos 


y  quedad  con  dios  m.  f.  

10  ....  á  las  tierras  estranas  (8)       

me  buscare q.  grande  bien  m.  q. 

digan  que  el  amor  m.  11 

q.  in.  forzó  s.  p 


15 (falta)  •  •  • 

(falta)   •• 

Inglaterra      

y  vuestros,  s.  m. . . 

temeis 

20 

toda  la  tapecerla 


contando  vivos  d que  me  distedes  (9)  un  dia 

25  


(1<0 

y  fuéronse  á  las  galeras  que  D.  D.  habia 

por  todas       

30 


s.  cuantos  çon  n. 


ROMANCES  VELHOS 


V.  Obras  de  Gil  Vicente,  1562.  (11) 

Artada 

q.  lyrios  y  r 

qu'el 


5 los 

Flkrida 

6,  7,  8  faltam  (12). 


10 á  tierras  estrangeras       

me  buscare      q.  grande  b.  m.  q 

digau  que  amor  m.  11 

comigo       profia 

adó  vo       

15  Artada habla (fàfta) 

D.  Duardos.  (falta) Hallareis 

d'Inglaterra       

y  vuesos,  s.  m 

temeis genelosia 

20  d'esmeraldas ...    p.  vuesa  s 

(falta)   

(falta) d'orO 


25   Primalion       

no  temia 

Artada 

.  Fueronse  á  las  yaleras  


30  la  princesa  se  adormía 


s.  cuantos  sou  u. . 
la  m.  y  a. 


148  CAROLINA  MlCHAÈLIS  DE   VASC0NCELL08 


VI.  Tanger:  ti  adição  oral. 

Entrar  quiere  el  mes  de  mayo      y  el  de  abril  ante3  un  dia  (13) 
cuando  las  rosas  y  flores      muestran  su  alegria 

(3  falta) "• 

cuando  la  seriora  Infanta      Flérida  ya  se  partia. 
5  De  los  sus  ojos  lloraba,      de  la  su  boca  decia  (14): 


(6  e  7  faltam) 

Adios,  adios,  aguas  claras,      adios,  adios,  aguas  frias, 
adios  mis  rica3  doncellas  (15),      las  que  conmigo  yacian. 

10  

Si  mis  padres  preguntaren      los  que  á  mi  tanto  querian 
decildos  que  a.  m.  11.      que  la  culpa  non  es  mia, 
tanto  porfio  el  amor      que  a  mi  vencerme  podia. 


15 


20 

(15-27  faltam) . 


25 


En  treinta  y  cinco  navios      Flérida  se  embarcara 
30  Al  s.  d.  1 .  d.  r el  sueno  la  venceria 


porque  ai  amor  y  a  la  muerte      nadie  los  pone  á  porfia  (16). 


ROMANCES   VELHOS  149 


VII.  Ilha  de  S.  Jorge:  tradição  oral.  (17) 


Era  pelo  mes  d'abril      de  maio  antes  um  dia 


(2  e  3  faltam) 

quando  a  bella  Infanta      já  da  frota  se  espedia  (18) 
5  Fora  ao  jardim  de  seu  pae,      ella  chorava  e  dizia 

(6  passou  á  ser  101 

(7  falta) • 

Fica-te  (19)  embora,  milflores      meus  jardios  d'agoa  fria 

(9  falta) 

10  qu'eu  te  não  torno  a  ver      senão  hoje  neste  dia. 
Se  meu  pae  te  perguntar      pelo  bem  que  me  queria 

diz-lhe  que  o  amor  me  ieva       (falta) 

(falta) que  me  venceu  uma  porfia 

não  sei  pr'a  onde  me  leva      nem  que  ventura  é  a  minha. 

15  Responde  eu-[lhe]  Dom  Duardos      que  escutava  o  que  dizia. 
Calai-vos,  bela  Infanta,  (20)      calai-vos,  pérola  minha. 
Em  portos  de  Inglaterra      mais  claras  aguas  havia, 
mais  jardins  e  arvoredos      para  vossa  senhoria, 
também. . .  (21)  donzela[s]      para  vossa  companhia. 


20 


25 


.  (20-27  faltam)  • 


Chegados  são  ás  galeras      que  Dom  Duardos  trazia. 
A  mar  lhe  catava  honra      e  as  ondas  cortesia  (22). 
30  ao  doce  remar  dos  remos      a  menina  adormecia 
no  colo  do  seu  amor      pois  assi  lhe  convenia  (23) 


(32  e  33  faltam). 


150  CAROLINA   MICHAÊLIS  DE    VASCONCELLOS 


VIII.  Almeida-Garrett,  Vol.  III  p.  14»  (24) 

Era  pelo  mes  de  abril      de  maio  antes  um  dia 

quando  lírios  o  rosas      mostram  mais  sua  alegria, 

era  a  noite  mais  serena      que  fazer  no  ceo  podia, 

quando  a  formosa  infanta      Flórida  já  se  partia; 

5  e  na  horta  de  seu  padre      entre  as  árvores  dizia: 


(8,  7.  8,  faltam). 


Com  deus  vos  ficado,  flores,      que  éreis  a  minha  alegria: 

10  voi-me  a  terras  estrangeiras      pois  lá  ventura  me  guia. 
E  se  meu  pae  me  buscare      pae  que  tanto  me  queria, 
digatn-lhe  que  amor  me  leva,       que  eu  por  vontade  não  ia, 
mas  tato  atimou  comigo  (25)      que  me  venceu  coa  porfia. 
jTriste!  não  sei  onde  vou,      e  ninguém  não  m'o  dizia. 

15  Ali  fala  Dom  Duardos;       

«Não  choreis,  minha  alegria, 

que  nos  reinos  de  Inglaterra      mais  claras  aguas  havia 
e  mais  formosos  jardins      e  flores  de  mais  valia. 
Tereis  trezentas  donzelas      de  alta  genealogia; 

20  de  prata  são  os  palácios      para  vossa  senhoria; 

de  esmeraldas  e  jacintos       

e  oiro  fino  de  Turquia, 

com  letreiros  esmaltados,       que  a  minha  vida  se  lia, 
contando  das  vivas  dores      que  me  destes  nesse  dia 

25  quando  com  Primalião      fortemente  combatia. 

Matastes  me  vós,  senhora,      que  eu  a  ele  o  não  temia» 
Suas  lágrimas  inchugava      Flórida  que  isto  ouvia. 
Já  se  foram  ás  galeras      que  Dom  Duardos  havia; 
Cincuenta  eram  por  conta;      todas  vão  em  companhia. 

30  Ao  som  do  doce  remar      a  princeza  adormecia 

.aios  braços  de  Dom  Duardos  que  tam  bem  a  merecia. 
Saibam  quantos  são  nacidos  sentença  que  aâo  varia, 
contra  a  morte  e  contra  amor      que  ningum  nõo  tem  valia. 


ROMANCES   VELHOS 


IX.  Lição  restituída. 

En  el  mes  era  de  abril      de  mayo  antes  un  dia, 
(cuando  los  lírios  y  rosas      muestran  más  sn  alegria) 
en  la  noche  más  serena      que  el  cielo  hacer  podia, 
cuando  la  hermosa  infanta      Flérida  ya  se  partia. 
5  En  la  huerta  de  su  padre      á  los  árboles  decia: 
«Jamas  eu  cuanto  viviere      os  veré  tan  solo  un  dia 
ni  cantar  los  ruisenores      con  suave  melodia. 
Quédate  á  dios,  agua  clara,      quédate  á  dios,  agua  fria, 
quedáos  á  dios,  mis  tlores,      mi  gloria  que  ser  solia. 

10  Voyme  á  tierras  estranas      pues  ventura  allá  me  guia. 
Si  mi  padre  os  preguntare,      que  tanto  bien  me  queria, 
decid  que  el  amor  me  lleva,      que  no  fue  la  culpa  mia; 
tal  tema  tomo  comigo      que  me  venció  su  porfia. 
jTriste!  no  sé  donde  voy,      ni  que  ventura  es  la  mia.» 

15  Alll  habló  Don  Duardos,      bien  oireis  lo  que  decia: 
«No  lloreis,  seiiora  infanta,      no  lloreis,  mi  alegria, 
que  en  los  reinos  de  Inglaterra      más  claras  aguas  había 
y  más  hermosos  jardines,       y  huertas,  seiiora  mia. 
Tendreis  trescientas  doncellas      de  alta  genealogia; 

20  de  plata  son  los  palácios      para  vuestra  senoria, 
de  esmeraldas  y  jacintos      toda  la  tapeceria; 
las  camarás  ladrilladas      de  oro  fino  de  Turquia, 
con  letreros  esmaltados      que  cuentan  la  vida  mia; 
cuentan  los  vivos  dolores      que  me  distes  aquel  dia 

25  cuando  con  Primalion      fuertemento  combatia. 
Seiiora,  vos  me  malaste3,      que  á  él  no  le  temia.» 
Sus  lágrimas  consolaba      Flérida  que  esto  oia; 
fueronse  á  las  galeras      que  Don  Duardos  tenía, 
cincuenta  eran  por  cuenta,       todas  van  en  compania. 

30  Al  son  de  sus  dulces  remos      la  Infanta  se  adormecia 
en  brazos  de  Don  Duardos,      que  bien  le  pertenecía. 
Sepan  todos  los  nacidos      aquesta  sentencia  mia: 
«que  contra  muerte  y  amor      nadie  no  tiene  valia.» 


CAROLINA  MICHAÊLIS  DE   VASCONCELLOS 


NOTAS  AOS  TEXTOS 

(i)  I.  7.— A  lição  não  satisfaz  completamente.  Mas  a  variante  en  los  ramos 
não  é  melhor.  Em  ambas  as  redacções  é  a  omissão  do  verbo  (oiré)  que  se  torna 
notada,  comquanto  seja  frequente  em  textos  populares,  depois  de  ver.  —  Confer 
ver  cantar,  ver  dizer,  etc. 

(2)  I.  9. — Mi  jardin  seria  preferível,  por  causa  da  resposta  de  D.  Duardos,  em 
que  se  repetem  as  coisas  enumeradas  por  Flérida,  e  por  causa  de  solia,  no  sin- 
gular.—  A  fórmula  mil  flores,  no  texto  açoriano,  fala  todavia  a  favor  de  mis  fiares. 

(3)  I.  15-16.— As  divergências  que  se  notam  aqui,  podem  provir,  como  já  in- 
diquei, da  forma  representada,  da  cual  se  afastava  a  cantada. — Aqui  habla  Don 
Duardos  talvez  fosse  originariamente  mera  indicação  scénica.  Metida  no  ro- 
mance avulso  pelo  próprio  Gil  Vicente,  ou  espontaneamente  pelos  cantores,  exigia 
um  hemistíquio  complementar.  Ocorre  o  bordão  tantas  vezes  usado:  bien  oireis 
lo  que  decia;  ou  então  omissão  das  primeiras  palavras  da  réplica,  que  provavel- 
mente equivaliam  a  Ao  lloreis,  mi  alegria.  Creio  que  as  possuímos  no  verso  i6bdo 
texto  de  António  Lopez:  No  lloreis,  senora  infanta.  São  as  que  introduzi  na  lição 
restituída. 

(4)  I.29. — A  fórmula  por  cueuta  foi  substituída  em  Hespanha  por  outra  {por 
todas),  por  causa  da  consonância  com  cincuenta ,  O  defeito  passara  despercebido 
em  Portugal,  talvez  porque  a  Gil  Vicente  escapara  por  conta,  á  portuguesa.  Em 
outras  lições  modificariam  o  algarismo  para  remediar  o  mal.  Os  treinta  y  cinco  do 
texto  judeu-hespanhol  não  servem,  porém,  ritmicamente. 

(5)  III.  1 1.  —Buscase  talvez  seja  errata  por  buscare. 

(6)  III.  16. —O  artificioso  hemistíquio  Pues  vuestro  mal  me  quebranta,  que  rima 
com  o  octonário  imediato  deve  ser  postiço.  Colocando  em  primeiro  lugar  o  verso 
no  lloreis  senora  infanta  e  completando-o  por  meio  de  no  lloreis  mi  alegria,  temos 
lição  análoga  á  açoriana'  Calai  vos,  bela  Infanta  —calai-vos,  pérola  minha. 

(7)  III.  18. — Esta  variante  huertas  (nascida  talvez  por  erro  de  leitura)  entrou 
no  texto  que  serviu  de  padrão  á  nacionalização  açoriana. 

(8)  IV.  10. — Las  é  retoque,  de  quem  aborrecia  o  hiato.  Luis  de  Camões  uti- 
lizou o  verso  emendado,  como  mostrei.  E  como  os  Ampkitriòes  são  provavelmente 
anteriores  a  i  550,  conhecia-o  de  qualquer  Pliego  suelto  perdido,  ou  da  tradição  pa- 
laciana. Claro  está  que  também  é  possível  que  espontaneamente  melhorasse  o  texto. 

(9)  IV.  24. — Bellermann,  traductor  do  romance  Portugiesisc/ie  Volkslieder  und 
Romanzen  (Leipzig  1864),  não  encarava  o  problema  com  saber  suficiente.  Basean- 
do-se  em  Duran  que  o  publicara  como  obra  anónima  no  Romancero  (Madr.  1828- 
32,  vol.  IV,  p.  4),  imaginava  que  Gil  Vicente  se  havia  apoderado  de  um  romance 
velho,  castelhano,  modernizando-o  arbitrariamente.  Creio  que  dístedes  era  a  prin- 
cipal entre  as  formas  arcaicas  em  que  se  estribava  a  sua  ideia. 

(10)  IV.  27. — Bellermann  imprimiu  via,  em  lugar  de  oia. 

(n)  V.  Este  texto,  reproduzido  como  autêntico,  pelos  historiadores  modernos 
das  literaturas  peninsulares  (p.  ex.  na  Antologia  VII-,  203  e  XII,  477)  foi  traduzido 
por  Storck,  11  à  o  sem  que  de  vez  em  quando  ele  desse  a  preferência  aos  retoques 
de  Alnieida-darrett. 


ROMANCES    VELHOS  153 


(12)  V.  6-8. — Bellermann  reconheceu  que  estes  versos  (assim  como  15  b  -16  a 
e  21  b-22  a)  eram  primitivos,  e  faziam  falta  no  texto  da  tragicomédia. 

(13)  VI.  1. — Já  disse  que  o  verso  está  deturpado.  Houve  evidentemente  con- 
fusão com  outros  princípios  de  romances,  de  assonáncia  diversa  p.  ex.: 

Entrar  qtdert  el  mes  de  Mayo        salir  quiere  el  mes  de  Abril, 
Salir  quiere  el  mes  de  Marzo       entrar  quiere  el  mes  de  Abril . 
fConfer  Catálogo  Judio  Espafiol  N.°  142.) 

(14)  VI.  5. — Verso  estereotípico,  que  se  repete  em  muitos  textos  tradicionaes. 

(15)  VI.  9. — Embora  falte  em  todos  os  restantes  textos,  pôde  ser  primitivo. 
Na  sua  réplica,  D.  Duardos  refere-se   pelo  menos,  ás  donzelas  de  Flérida. 

(16)  VI.  12-13  ou  33.— No  texto,  impresso  no  Catálogo  dei  Romancero  Judio- 
Espaãol,  esse  verso  faca  entre  o  12  e  o  13o  É  deturpação  da  sentença  final,  que 
se  baralhou  na  memória  do  povo  com  a  porfia  de  amor  mencionada  no  sítio  in- 
dicado. 

(17)  VII.  Foi  publicado  por  T.  Braga  no  Rom.  de  Arch.  Açoriano  N.°  56  e  na  2.a 
ed.  do  Romanceiro  Geral  p.  442.  A  sua  derivação  de  um  texto  que  se  parecia  com 
ode  1562,  prova-se  pelos  vocábulos  perguntar  (1 1)  e  pela  existência  dos  versos  6, 
(10)  e  15  h  e  16a  Cdizia-infantaJ. 

(18)  VII.  4. — Já  da  frota  equivale  a  estando  já  embarcada  na  galera  real? 

(19)  VII.  9. — Fica-te  em  lugar  à&Jicade,  fornia  arcaica  e  popular,  não  despre- 
zada por  Almeida-Garrett. 

(20)  VII.  1 5  b  _  1 6  a  Vid.  Nota  3  e  6. 

(21)  VII.  19. —  Também  isto  quero  donzelas,  lição  estragada.  Proponho:  também 
tereis  donzelas. 

(22)  VII.  29.  Este  verso  (estereotípico)  provém  de  um  Romance  chamado  de 
D.  Maria  (Açor.  43). 

(23)  VII.  31. — Braga  imprimiu  convencia;  talvez  seja  convenia,  castelhanismo; 
proveniente  de  alguma  lição  perdida.  Convém  recolher  mais  redacções  de  diversas 
cantadeiras,  a  ver  se  apuramos  um  texto  mais  completo  e  perfeito. 

(24)  VIII.  —  Lição  ms.  do  século  XVII,  do  Cavalheiro  de  Oliveira,  segundo 
Almeida  Garrett.  T.  Braga  acredita  no  facto  de  aquele  ilustradíssimo  Português 
haver  recolhido  entre  os  Judeus  de  Holanda  romances,  trovas  e  cantigas  popu- 
lares (Vid.  Poesia  Popular  Portugueza,  p  481  e  200).  Pelayo  tem -no  em  conta  de 
supercheria  inocente;  e  eu  concordo,  quanto  á  este  caso,  porque  o  D.  Duardos  que 
os  dois  apresentam  é  tradução  do  texto  vicentino  (ed.  de  1562),  aferido  pelo  do 
Cancionero  de  romances,  e  em  seguida  retocado  com  fino  sentimento  artístico.  Pro- 
vas d'isso  são  a  omissão  dos  versos  6,  7,  8,  a  dos  hemistlquios  15  b  e  16  a,  2i*> 
e  22  a,  assim  como  09  vocábulos:  estrangeiras  (v.  10),  buscare  (v.  11),  por  conta 
(29),   a  princesa  (30). 

Nas  impressões  de  Braga  ha  alterações  por  descuido:  no  v.  2  falta  sua;  no  13o 
ha  ateimou  (talvez  de  propósito);  no  v.  14  falta  não,  no  26  °  ha  mataste;  no  27  ° 
enchuga. 

(25)  VIII.  20. — Atimar  (por  atentar,  derivado  de  tema  no  sentido  de  teima)  é 
um  dos  vocábulos  favoritos  dos  falsificadores  do  século  xvu, 


154  CAROLINA  MICHAClIS  DE    VASCONCELLOS 


G.  Romances  de  assunto  clássico  ou  bíblico. 

Os  cantares  velhos  sobre  essas  matérias  não  são  numeio- 
sos.  Por  isso  só  poucos  alcançaram  voga  popular.  Fazem  ex- 
cepção: o  lindo  conto  de  Here  e  Leandro,  tratado  com  predilec- 
ção pelos  quinhentistas  peninsulares,  tanto  em  longos  poemas 
narrativos,  como  em  sonetos,  madrigaea  e  epigramas,  mas 
também  por  jograes  semi-artistas;  o  cerco  de  Troya,  familiar  a 
todos  os  que  liam;  a  megalomania  criminosa  do  Nero,  o  incen- 
diário de  Roma,  que  não  se  apagou  na  recordação  dos  povos. 
Ha  também  muitíssimas  alusões  a  Dido  e  Eneas,  Aquiles  e 
Polixena,  Paris  e  Helena,  Orfeo  e  Euridice,  mas  o  seu  teor 
não  permite  que  as  derivemos  de  romances  (1). 


XXIX 

No  pequeno  ciclo  de  Hero  e  Leandro  ha  um,  impresso  na 
Flor  de  Enamorados,  que  principia: 

Por  el  brazo  d'Elesponto  (2)       Leandro  va  navegando. 

Outro,  num  Pliego  suelto  de  Cracóvia  (N.°  101),  começa: 
Al  pie  dei  mar  d'Elesponto      estava  el  fuerte  Leandro. 

O  quinhentista  português  Pedro  de  Andrade  Caminha  conhe- 
cia outro,  divergente,  mas  também  com  a  assonância  a-o, 
talvez  mera  variante  dos  dois.  Na  resposta  centónica  ao  Pe- 
legrino  hespanhol,  a  estrofe  2.a  termina: 

[77]  Camino  dei  Elesponto      caulina  el  triste  Leandro  (3). 

Outros  três,  um  de  forma  esmerada  que  se  imprimiu  na  Ter- 


(i)     O  mesmo  vale  das  alusões  a  Hero  e  Leandro,  muito  frequentes  nos  auto- 
res apresentados  ao  leitor;  especialmente  nos  poetas  cómicos  da  escola  vicentina. 

(2)  Del  Esponto  em  Duran  466. 

(3)  CM.  de  Vasconcellos,  Pedro  de  Andrade  Caminha,  f,  108. 


ROMANCES    VELHOS 


cera  Silva,  mais  um  da  Flor  de  Enamorados  (ambos  em  -ia)  (1) 
e  o  muito  interessante  que  se  conservou  tradicional  entre  os 
Judeus  de  Tanger,  em  ó  e  em  senários,  divergem  por  com- 
pleto (2). 


XXX 

O  único  cantar  relativo  á  guerra  de  Tróia,  de  que  posso 
assinalar  uru  rasto,  é  narrativo  e  de  origem  literária  (3).  Com 
quanto  não  possua  qualidades  superiores,  e  seja  extenso  de- 
mais para  se  tornar  tradicional,  propagou-se  em  Pliegos  suel- 
tos, de  1547  a  1570  (4);  teve  a  honra  de  entrar  tanto  no  Can- 
ciónero  de  Romances  (5)  como  na  Ensaladilla  (6);  foi  glosado 
(7)  e  levado  á  índia  por  capitães  e  soldados  portugueses,  tal- 
vez em  lição  reduzida  (8). 

Conta  Diogo  do  Conto  a  seguinte  anecdota,  bem  caracte- 


(i)  El  cielo  estada  nublado       la  luna  SU  luz  perdia 

Antologia  IX  21  j. 

Aguardando  estaba  Hero       ai  amante  que  solia, 
Diiran  467. 

(2)  Catálogo  Jud.  Esp.  N.°  41: 

Três  her/nai/icas  era//        ires  hermanicas  son. 

(3)  Luis  Hurtado,  a  quem  é  atribuído  num  Pliego  Suelto  de  Praga,  é  provavel- 
mente o  mesmo  Hurtado  que  publicara  glosas  de  alguns  romances  em  outro 
folheto  da  mesma  colecção.  E  ambos  s.-rào  idênticos  àquele  padre-cura  de  Toledo 
que  ganhou  renome  pela  parte  que  teve  na  publicação  do  Palmerin  castelhano,  e 
por  diversas  outras  proezas  literárias,  das  quaes  me  ocupo  num  tratado  extenso 
relativo  á  Francisco  de  Moraes. 

4)     Vid.  Wolf,  Sammlung p.  8,  13,  lia,  124.  N.°  LXIV  Romance  nue 
hechu  por  Luys  H/irtado. 

(5)  Duran  N.°  474. 

(6)  Estr.  1  Ingr.  2. 

(7)  Sammlung N.°  LXV:  corregido.  y  glosado  par  Gutietre  Velatçutt  de  Mo/i- 
dragon. 

(8)  Não  é  de  crer  que  alguém  tivesse  ânimo  de  glosar  em  décimas  08  300 
versos  da  obra  preparada  por  Hurtado!  Creio  já  haver  dicto  que  de  poqui- 
ssimas  glosas  se  podem  extraer  romances  completos:  os  parafrascadores  seguiam 
a  praxe  popular  de  encurtar  os  textos,  reduzindo-os  ao  mais  essencial  e  patético, 


CAROLINA   MICHAÊLIS  DE   VASCONCELLOS 


rística,  Da  ida  do  Visorrey  D.  Luiz  de  Ataíde  a  Barcelor,  que 
se  realizou  era  1571. 

Feito  isto,  partio-se  o  Viso-Bey  pêra  Barcellor;  e  chegando  á  sua  ba- 
rra, commetteo  logo  a  entrada  com  todos  os  navios  de  remo,  indo  elle 
diante  todos  na  sua  manchua,  sentado  em  numa  cadeira  de  brocado,  ar- 
mado de  plumas,  e  perto  delle  o  Veiga,  tangendo  em  huma  arpa  e  can- 
tando aquelle  Romance  velho  que  diz: 

Entrem  los  Griegos  en  Troya      três  a  três  y  quatro  a  quatro. 

E  chegando  perto  da  fortaleza,  começaram  a  vir  zunindo  por  cima  das 
embarcações  algumas  bombardadas,  com  que  o  Veiga  que  hia  cantando, 
se  embaraçou;  ao  que  oViso-Rey  muito  seguro  lhedisse:  «Oh  idepor diante, 
não  vos  estorve  nada».  Luiz  de  Mello  da  Silva  hia  junto  do  Viso-Rey, 
e  alguns  outros  Fidalgos  e  Capilâes  perto  de  Luiz  de  Silva,  os  quaes, 
vendo  as  bombardadas,  disseram  a  L.  da  M.  da  S.  que  o  Viso-Rey  nâo 
hia  bem,  que  aquillo  era  muito  arriscar;  ao  que  lhe  respondeo:  «Deixai-o, 
senhores  ir;  e  se  o  matarem,  aqui  vou  eu  que  governarei  a  índia;  e  se  me 
matarem  a  mi,  ahi  vam  vossas  mercêa.»  O  Viso-Rey,  ouvindo  f aliar  sem 
perceber  o  que,  perguntou  a  L.  de  M.  o  que  era;  e  elle  lhe  disse  tudo  o 
que  respondera;  o  que  elle  festejou  e  celebrou  muito  (1). 
O  texto  usual  diz: 

[78]  En  Troya  entran  los  Griegos      três  a  três  y  quatro  a  quatro. 


XXXI 


Com  o  célebre  romance  antigo, 

[79J  Mira  Nero  de  Tarpeya      a  Roma  como  se  ardia: 
[80]  gritos  dan  nifios  y  viejos      y  él  de  nada  se  dolia  (2) 

impresso  muita  vez,  avulso  e  em  colecções,  glosado  (3),  me- 
morado constantemente  em  livros  castelhanos  como  a  Celesti- 
na, o  Orfeo  de  Câncer,  o  Diáblo  Cojuelo  (4);  citado  por  Lope  na 
Roma  abrasada,  e  por  Alarcon  na  Comedia  Mudarse  por  me- 


(i)     Década  VII  Cap.  32. 

(2)  Duran  571,  cingindo-se  ao  Cancionero  de  romances,  á  Silva;  e  á  glosa  de 
Mondragon. 

(3)  P.  ex.  por  Velazquez  de  Mondragon  (Crislobal),  segundo  se  diz  no  Ensayo 
sob  N.°  4248  (IV  c.  999).— Confer  Sammlung,  N.°  LXXVI. 

(4)  Tranco  V,  $l,\. 


ROMANCES   VELHOS  157 


jorarse{\)  e  parodiado  no  Don  Quixote  (2),  deram -se  igual- 
mente casos  anecdóticos,  na  era  das  conquistas. 

O  leitor  náo  esqueceu,  por  certo,  aquele  que  foi  narrado 
outro  dia  aqui  mesmo  (3). 

Na  índia,  os  Portugueses,  nâo  menos  dispostos  a  motejarem 
de  tudo  e  de  todos  do  que  na  pátria,  serviram-se  do  texto,  e 
certamente  também  da  sonada,  para  censurar  de  desapiedado 
a  D.  Constantino  de  Bragança,  por  causa  de  uma  ocorrência 
de  pouco  peso. 

...todo  este  inverno  (lõGO -61)  gastou  em  acabar  huma  náo  que  fez  de- 
fronte dos  seus  Paços,  pêra  se  ir  nella  pêra  o  Reyno,  por  esperar  em  Se- 
tembro por  suecessor,  a  que  pos  nome  as  chagas,  pela  devoção  que  tinha 
ás  de  Christo,  que  foi  a  cousa  que  assim  na  índia  como  em  Portugal  lhe 
remorderam  mais  que  todas.  E  tanto  que  lhe  contrafizeram  aquelle  Ro- 
mance velho  que  diz: 

Mira  Nero  de  Tarpeya      a  Roma  como  se  ardia 

em 

Mira  Nero  da  janella  (!)      la  nave  como  se  hazia. 
« 

No  que  nào  tiveram  nenhuma  razão,  porque  nem  a  elle  lhe  cabia  tal 
nome,  por  ser  muito  alheio  e  differente  da  sua  natureza,  nem  a  sua  nao 
foi  feita  com  encargos  com  que  outras  depois  se  fizeram  por  alguns  capi- 
tães, nem  com  os  apparelhos  e  madeiras  das  ribeiras  de  El  Rej-,  como  al- 
guns falsamente  disseram,  nem  os  Officiaes  ficaram  clamando  que  lhes 
não  pagara  seus  jornaes;  mas  foi  feita  com  o  que  poupou  de  seus  ordena- 
dos e  com  empréstimos  de  amigos  que  depois  pagou  mui  bem,  e  com  tão 
poucos  embaraços  e  com  tantas  bênçãos  como  se  pode  conjecturar  do 
muito  que  durou,  e  das  prósperas  viajens  que  sempre  fez  (4). 

Para  que  se  comprenda  a  indisposição  dos  Coenses,  que  se 
dirigia  mais  contra  a  janela  que  servia  de  atalaia  ao  Yiso- 
Rey  do  que  contra  a  nao,  será  bom  ter  em  consideração,  além 
do  trecho  transcrito,  o  que  o  historiador,  panegirista  e  admi- 
rador sincero  das  suas  virtudes,  acrescenta  no  mesmo  capí- 
tulo, como  moralidade  da  fábula,  chamando  a  l>.  Constantino 


(i)  Acto  II  Seena  XIV. 

(2)  Parte  II.  Cap.  44  e  5».— Cfr.  Ensayo  I  c.  86  e  1284;  IV  861 . 

(3)  Cultura  I  y.  74 

(4)  Década  VII,  Livro  IX,  Cap.  1  7. 


CAROLINA  MICHAÈLIS  DE    VASC0NCELL08 


muito  grande  olhador  e  poupador  da  fazenda  dei  rey,  tanto  que 
por  saber  que  havia  desordens  na  Alfândega  a  mandou  passar 
pêra  onde  hoje  está  a  ribeira  das  galés,  pêra  das  suas  janeUãS 
ver  tudo. 

Inde  irae. 

Antes  cTisso  o  dizedor  António  Prestea  havia  metido  uma 
paródia  no  Auto  do  Procurador.  Num  engraçado  louvor  da 
vida  de  casado,  um  tipo  popular  diz  mal  da  vida  murciana  (1) 
e  das  estroinices  livianas  da  rapaziada  assim  corno  das  fan- 
farronices  dos  escudeiros  mat antes,  ou.  como  ele  se  expressa, 
dos  feros  (não  do  fero  do  escudeiro  de  João  d' Acha)  e  continua: 

não  me  fala,  faz  me  cacha 

en  Roma  (que  arde  ella)  Nero  (p.  112)  (2). 

O  Auto  do  Desembargador  termina  com  um  diálogo  entre 
o  amo  (avarento)  e  o  moço  (guloso  e  cobiçoso ),  na  ocasião 
indignado  (como  o  leitor  atento  já  sabe),  por  não  ter  havi- 
do a  sua  parte  na  ceia  de  casamento,  nem  recebido  o  fato 
que  lhe  tinham  prometido.  Desculpando  se  com  as  enormes 
despesas  que  tivera,  o  amo  diz:  como  podes  ter  a  vileza  de 
exigir  prendas,  num  dia  que  me  arruina? 


Como  estais  hoje  este  dia 
vilão,  vendo  de  despejos 
a  Roma  como  se  ardia? 

E  o  moço  continua  a  cantarolar: 

Gritos  dão  niíios  e  viejos, 

seiior,  de  la  cena  mia  (p.  234)  (8). 

Nas  suas  Cartas  Familiares,  que  são  excelentes  minas  de 
curiosidades,  o  grande  D.  Francisco  Manuel  de  Mello  disse 


(i)  Murciano  é  termo  castelhano,  de  gíria,  equivalente  a  vadio,  pândego, 
devasso.  Em  Portugal  só  conheço  a  boa  couve  murciana.  Em  ambos  os  empregos, 
temos  derivados  de  Murcia, 

(2)  Enjoam-me,  repugnam-me  os  .Veros, por  culpa  dos  quaes  sempre  qualquer 
Roma  está  a  arder;  eis  o  que  esses  dois  octonários  mal  construidos  talvez  quei- 
ram dizer. 

(3)  Note-se  mais  uma  vez  a  rima:  despejos  (port.)  e  viejos  (cast.). 


ROMANCES    VELHOS  159 


uma  vez  p<  ra  inculpar  o  correspondente,  de  o  esquecer  sem 

dó  nem  piedade: 

estaes  peor  que  Nero  de  Tarpea,  porqiie  nem  por  semelhança  sabeis  de 
meus  successos,  pois  a  memória  nu  no*  <'■  que  lástima  (1). 

Nos  cárceres  da  Inquisição,  o  pobre  mas  engraçado  Judeu 
António  Serrão  de  Castro  expressou  desejos  de  ser  o  Nero 
das  ratasanas  que  de  dia  e  de  noite  o  atormentavam.  Plane- 
ava mesmo  juntar  um  exército  de  todos  os  entes  armados  de 
garras  e  unhas  (animaes  e  gente). 

E  com  tal  gente  serei 
de  ratos  Nero  cruel, 
que  a  nenhum  darei  quartel 
e  a  nenhum  perdoarei. 
Tantos  males  vos  farei 
que  se  diga  nesse  dia, 
vendo  com  tal  tirania 
dar  vos  morte  triste  e  feia: 
Mira  Nero  da  Tarpea 
como  Romalá  se  ardia  fp.  184,  Parte  111,  Estr.  39). 

Aportuguesado,  como  se  vê. 

O  octonário 

[80  a]  Quando  lloma  cum/uistava, 

citado  na  Ulysipo  í.  SA  v  |,  nau  é  início  de  romance,  mas 
sim  de  umas  trovas  sentenciosas  em  que  o  autor,  o  nobre  ca- 
valeiro Gómez  Manrique  (a.  1412  c.  1490),  põe  em  contraste 
as  virtudes  antigas  e  os  vícios  do  seu  tempo  (2).  Por  isso  nao 
o  metto  em  conta.  Na  comédia  é,  como  de  costume,  um  escu- 
deiro que  ostenta  o  seu  saber  o  gosto  literário  dizendo  a 
outro: 

Vós,  como  vos  tirarem  de  •AfuHas  y  pàêriónei  mias»  e  Quando  lioma 
conquistaca,  logo  perdeis  a  concorrente». 


(ij      Centúria  II,  Carta  rç. 

(2)  Dezir  (ou  Exclaiiiaciôn)  e  querella.  -  Vid.  Canc.  General  N.°  7''  *  Cainio- 
nero  de  Gómez  Manri<jue  I  188.  (Variantes  de  cotujuistava  são  prosperava  e  gover- 
nava; ib.  II  234.)  Também  andavam  em  1'liegos  Sueltos  no  meio  de  romances  (v. 
Durán,  Catálogo^.0  11). 


160  CAROLINA  MICHAÈLIS  DE    VASCONCELLOS 


XXXII 


Entre  as  citações  sobre  assuntos  bíblicos  que  juntei,  nào 
ha  nenhuma  em  que,  com  segurança,  se  possa  reconhecer  de- 
rivação de  romances  (1).  Por  isso  darei  um  único  exemplo: 
também,  sem  o  meter  em  conta. 

No  romance  que  trata  do  desespero  do  Psalmista  pela  mor- 
te de  seu  filho: 

Con  rabia  está  el  rei  David      rasgando  su  corazon  (2) 

ha  os  versos  cantados  em  tantos  motetes: 

[80  b]  oh  fili  mihi,  fili  mihi      oh  fili  mihi  Absalon!  (sic) 
[80  c]  qu'es  de  la  tu  hermosura      tu  estremada  perfecion? 

As  palavras  latinas  serviram  de  modelo  a  Frey  António  de 
Portalegre  (autor  de  uma  Meditação  da  sacratiscima  morte  e 
paixão  de  N.  S.  (1548)  com  diversos  romances  espirituaes  em 
castelhano,  numas  Trovas  que  dizem: 

Fili  mi  Jesu  Jesu      o  mi  Jesu,  fili  mi, 

quem  me  matasse  por  ti      porque  não  morresses  tu! 

A  continuação  castelhana  reaparece  no  Auto  do  Juízo  final, 
onde  sae  da  boca  do  próprio  Absalão  que  exclama: 

qu'é  de  minha  formosura*} 

Mas  como  a  semelhança  não  vae  mais  longe,  concluo  que  a 
coincidência  é  fortuita,  resultante  natural  da  igualdade  dos 
assuntos. 


(i)     Entre  os  Judeus  de  Tânger  e  do  Oriente,  a  espécie  está  muito  bem  repre- 
sentada. Vid.  Catálogo  N.os  29-40. 

(2)     Duran  (N.°  453)  segue  o  Canc.  de  Rom. 


ROMANCES    VELHOS 


H.  Romances  novelescos. 

XXXIII 

O  romance  commovente  do  Conde  Alárcos  e  da  Infanta 
Solisa 

[81]  Retraída  está  la  Infanta      bien  asi  como  solía  (Pr.  163),  (1) 

obra  que  parece  saida  da  inspiração  pessoal  de  um  poeta  po- 
pular (2)  -os  folhetos  do  século  x*vi  indicam  o  nome  Pedro  de 
Riafio  -passou  a  Portugal  antes  de  1550.  O  cego  madeirense 
Baltasar  Diaz,  jâ  nosso  conhecido  como  introdutor  do  Marquês 
de  Mántua  na  literatura  portuguesa,  (3)  e  protótipo  dos  cegos 
que  nacionalizaram  poesias  e  histórias  populares  já  tratadas 
no  reino  vizinho  (4),  glosou-o,  antes  ou  depois  de  1537  (5)  pro- 
vavelmente em  quintilhas.  E  o  assunto  patético  que  entusias- 
mou tantos  autores  de  tragédias,  de  Lope  até  Schlegel,  vul- 
garizou-se  de  tal  modo  que  hoje  é  um  dos  mais  propagados  em 
todas  as  províncias  do  continente,  nas  Ilhas,  no  Brasil  e  mes^ 
mo  em  Goa  (6).  'Estendeu-SQ  pari  })assu  (ou  a  par  e  passo  como 


(i)     Na  América  do  Sul  (N.°  8)  dizem: 

Retirada  está  la  Infanta       que  no  está  como  solía. 

(2)  Vid.  Antologia  XII  535-540.  Não  se  descobriu  por  ora  novela  nenhuma 
sobre  o  assunto,  que  por  ventura  servisse  para  a  metrificação  de  Pedro  de  Riafio. 

(3)  Vid.  N.°  XXII. 

(4)  A  lista  não  é  extensa  como  em  Castela.  A  maior  parte  dos  cegos  de  cá 
preferia  vender  folhas  volantes,  rezar  orações  pelas  portas,  e  recitar  contos,  e  can- 
tigas ao  som  da  guitarra.  Conf.  p.  Nota  7. 

(5)  Na  petição  deferida  por  D.  João  III  em  janeiro  de  1537,  Baltasar  Diaz, 
cego  da  Ilha  da  Madeira  diz:  que  tem  feitas  algiias  obras  assy  em  prosa  como  em 
meti  o,  as  quacs  foram  ja  vistas  e  aprovadas  e  alguas  delias  ymprimidas...  e...  que* 
na  mandar ymptitnir  as  ditas  obras  que  tem  feitas,  e  outras  que  espera  defaser. 

(6)  No  Romanceiro  Geral  de  T.  Braga  ha  18  versões  (p.  488-566).  E  a  colec- 
ção ainda  não  está  completa.  Vid.  Rcvue  Hispanique  IX  466.  Uuasi  todas  são 
consideravelmente  abreviadas  com  excepção  do  texto  retocado  por  Almeida-da- 
rrett.  Muitas  têm  introdução  narrativa,  que  provém  do  Romance  de  Silvaninha; 
algumas  apresentam  um  desfecho  postiço;  e  todas  são  inoportunamente  enfeita- 
das con  trechos  líricos  e  pormenores  romântico?. 

11 


CAROLINA   MICHAÉLIS  DE    VASCONCELLOS 


prefiro  dizer  com  o  povo)  com  o  original  castelhano,  que 
igualmente  se  perpetuou  nas  Astúrias  (1),  na  América  (2),entre 
os  Judeus  expatriados  (3),  na  Catalunha  (4),  e  na  Galiza  [6  . 

Resta  estabelecer,  se  em  todas  essas  regiões  se  canta  pela 
música  fixada  por  Salinas,  o  cego  catedrático  de  Salamanca, 
ou  com  sonadas  diversas. 

Mas  tal  popularidade  (6)  ao  avesso  do  que  aconteceria 
em  outras  partes,  não  levou  á  multiplicação  das  impressões. 
Para  os  analfabetos  a  transmissão  oral  foi  julgada  suficiente! 
Ou  tornar-se-hia  obrigatória  a  supressão  desde  que  os  Depu- 
tados da  Santa  Inquisição,,  rigorosíssimos  também  com  os 
Autos  sacros  de  Baltasar  Diaz,  prohibiram:  A  sua  glosa  com  o 
Romance  que  começa:  Eetrahida  está  a  Infanteí  (7)  Das  edi- 
ções anteriores  a  1624  nenhuma  subsiste  (8),  de  sorte  que  essa 
prohibição  (e  talvez  outra  no  índice  castelhano  de  1583)  é  o 
único  sinal  que  resta  da  primeira  redaeoão  portuguesa  (9). 
É  pena  realmente.  Seria  interessante  conferi-la  com  a  versão 
artística  de  Almeida  -Garrett. 

Provável  é  que  pelos  anos  de  1530  corressem  ainda  outras 


(i)     Rom.  Astur.  N.°  78.  Antologia  X  p.  116. 

(2)  Rom.  Amer.  N.°  8.  De  Chile.  (Vid.  D.  Maria  Goyri  N.°  24.)      ' 

(3)  Cat.  Jud.  Esp.  N.°   64. 

(4)  Milá,  Romancerillo  p.  237;  (lição  bilingue). 

(5)  Romania  VI  p.  68. 

(6)  Claro  está  que  não  falta  na  Ensaladilla.  (Estr.  3  Ingr.  20.) 

(7)  F.  98.  Vid.  Poesia  Popular  Portuguesa,  i.a  ed.  p.  192S,  202-2 10;  e  Eschola 
de  Gil  Vicente  132  s  e  144. 

(8)  Também  dos  Autos,  nem  um  só  exemplar  quinhentista  se  tem  conservado. 

(9)  Todas  as  obras  d'esse  bardo  madeirense  con  arte  de  ciego  juçlar  que  canta 
viejas  fazanas  são  escritas  em  português,  porque  era  homem  do  povo  e  escrevia 
para  o  povo.  Tanto  os  Autos  sacros  (S.  Aleixo;  S.  Caterina,  Nascimento  de  Christo, 
Paixão}  Salomão}  como  a.  Feira  da  Ladra;  Os  Conselhos  pai  a  bem  casar;  Malícia 
das  Mulheres  e  a  importante  Historia  da  Emperatriz  P01  cina  que  é  um  longo  ro- 
mance jugralesco  em-w),  Vid.  T.  Braga,  Floresta  p.  104-149  e  Romania  II  132. 
Quanto  a  esse  romance,  ainda  hoje  reproduzido  como  folheto  de  cordel,  ouçamos 
D.  Francisco  Manuel  de  Mello  que  numa  das  suas  Cartas  Familiares  trata  de  uma 
regateira  que  em  troca  de  trinta  reis  mensaes  ajustara  um  cego  para  lhe  rezar  pe- 
los mortos.  Este  não  deixava  Testamento  de  Pilato,  Despedida  ou  apartamento  da 
alma  e  Imperatriz  Porcina  que  entoada  lhe  não  rezasse. 


ROMANCES    VELHOS 


glosas.  Pelo  menos,  Jorge  Ferreira  de  Vasconcellos  alude  a 
várias  na  sua  Ulyqipp.  (Acto  V,  Scena  7,  f.  256  v).  Como  de 
costume,  é  da  boca  de  um  escudeiro  que  sae  a  seguinte  apre- 
cia ção  irónica  e  grosseira  do  talento  de  um  seu  camarada: 

Que  dizeis  agora,  monseor  de  la  capa  roxa?  Este  meço  não  he  de  uns 
porretas  que  grosara  Retrahida  está  la  Infanta?  e  Pêra  qué  pariste,  ma- 
dre? 

António  Prestes  aproveitou  o  primeiro  octonário  á  sua  ma- 
neira, a  fim  de  dar  um  tom  grotesco  a  uma  banalidade.  A  um 
moço  que  não  lhe  abre  a  porta  logo  logo,  é  lançada  a  pre- 
gunta: 

Tão  fechado? 
tão  Retraída  está  la  Infanta?  (p.  230). 


XXXIV 


Não  muito  menos  divulgado  é  modernamente  (1),  e  pare- 
ce tê-lo  sido  já  em  1640,  o  romance  de  Silvaninha  (2);  de  te- 
ma antipático,  mas  impressivo:  o  amor  incestuoso  de  um  pae 
brutal  e  tirano,  e  o  cruel  martírio  da  filha,  presa  numa  torre, 
e  morta  a  fome  e  sede  (3),*sem  que  nenhum  dos  irmãos,  nem 
a  própria  mãe  lhe  possa  valer.  Mas  nenhuma  redacção  antiga 
castelhana  se  encontra.  Nem  ha  (que  eu  saiba)  referência  al- 
guma que  ateste  a  sua  existência  além  das  fronteiras.  A  mais 
antiga  menção  do  verso  inicial: 

[82]  Passeaoa-se  Silvana      por  um  corredor  um  dia, 


(i)  No  Romanceiro  Geral  de  T.  Braga  (p.  447-488)  ha  doze  versões.  Ena  terri- 
tórios castelhanos  colheram-se:  três  nas  Astúrias  (N.°s  74-76.  Antologia  X  \>.  126); 
várias  na  Catalunha  (Milá  N.°  272  p.  261);  duas  em  Tânger  (98-98  );  uma  na  Amé- 
rica do  Sul  (Montevideo;  N.°  20).  E  na  própria  Castela  (Burgos:  vid.  D.  Maria 
(joyri,  N.°  26)  também  já  se  encontrou.  Creio  que  também  na  Galiza. 

(2)  Vid.  Antologia  X  131,  metrificação  de  uma  novela? 

(3)  Pào  por  onça  e  agua  salgada  (ou:  çumo  de  laranja). 


CAROLINA  MICHAÉLIS  DE   VASCONCELLUS 


encontra-se,  á  portuguesa,  no  Auto  do  Fidalgo  Aprendiz  |  I   . 
de  D.  Francisco  ManueL-de  Mello  (2),  numa  das  scenas 
tereotípicas  desde  a  Rubena  de  Gil  Vicente),  em  que  se  enu- 
meram cantigas  e  romances  tradicionaes  ou  da  moda.  D  < 
vez  é  a  donzela  que  incita  o  pretendente  a  tanger  viola  e  a 
cantar. 

Buitks.     Entoai  por  meu  prazer 

qualquer  cousa. 
D.  Gil.  Sem  guitarra? 

Ei-Ia!  Tomai \(Dú-lhe  huma  vio- 
la, tange  como  que  quer  can- 
ta?'). 
D.  Gil.     Pois  que  não  posso  ai  fazer... 
Brites.     Ai!  que  canta  e  não  escarra! 
D.  Gil.     Ora,ei-lova.V. (Canta D.  Gil  o  me- 
lhor que  pode  o  que  se  segue). 
Passeava-se  Silvana 
por  hum  corredor  hum  dia... 
Brites.     Ai  senhoi!  en  não  queria 
senão  letra  castelhana! 


(i)  Menéndez  Pelayo  afirma  repetidas  vezes  que  o  autor  português  citava  um 
texto  castelhano,  e  imprime  em  conformidade 

Paseahase  Silvana  por  un  corredor  un  dia 

(Antologia  X  130  2  236;  XII  5 14).  Certamente  não  recorreu  á  edição  original  {Obras 
Métricas  1665,  Vol.  II  247).  Aliás,  teria  reparado  nos  pequeninos  traços  que  dis- 
tinguem o  idioma  Occidental,  e  nns  ditos  da  protagonista  que,  descontente  com  o 
cantar  escolhido,  declara  expressamente: 

Ai,  senhor,  eu  não  queria 
senão  letta  castelhana, 

documentando  assim  que  as  que  ouvira  até  então  foram  letras  portuguesas.  Vid. 
Almeida-Garrett  (II  105),  que  já  havia  elucidado  este  ponto. 

(2)  Vale  a  pena  lembrar  que  D.  Francisco  Manuel  foi  também  um  dos  primeiros 
letrados  portugueses  que  registaram  o  assunto  de  contos  populares.  Nas  Cartas 
Familiares  (V,  7)  dizia  em  1649:  Eu  cuido  que  virei  a  ser  aquela  dona  atrevida  doce 
na  morte,  agra  na  vida  que  nos  contam  quando  pequenos. Era  outro  lugar  (II,  63), 
refere-se  á  Historia  do  Salsinha  que  não  havia  de  dizer  sim  nem  não.  Faria  e 
Sousa,  seu  coevo,  mencionou  a  História  das  três  cidras  do  amor  (nas  Rimas  de 
Camões,  Vol.  V  p.  246)  e  antes  d'ele  Simão  Machado  citara  a  mesma  (na  Comedia 
de  Diu,  impressa  em  1631  em  2.a  ed.). 


ROMANCES    VELHOS 


D.  Gil.  Cantarei  algaravia, 

se  mandais.  Pois  que  quereis? 
Brites.  Uma  letra  nova  quero. 
D.  Gil.  Acazar  va  cl  caballero...  (Canta). 
Brites.  Ai  mãe!  acinte  o  fazeis! 

por  isso  eu  me  desespero. 
D.  Gil.  Ora  estai!  que  já  entendo! 

Quereis  romances  trovados! 

Mis  amorosos  cuidados 

como  se  estaran  durmiendo . 
Brites.  Isto  foram  meus  pecados! 

Vós  cuido  que  estais  zombando! 

Ora  dizei! 
D.  Gil.  Já  me  estanco! 

Gavião,  gavião  pranco 

vai  ferido  e  vai  voando... 
Brites.  Huy  jpelo  pássaro  manco! 

Sabeis  algiia  ao  divino? 
D.  Gil.  Sei. 
Brites.         Dizei. 
D.  Gil.  Pois  6  famosa: 

Andorinha  gloriosa... 
Brites.  Tendei  cousas  de  menino... 
D.  Gil.  Sou  todo  amor,  minha  ro3a!  (1). 


XXXV 


O  romance  velho,  entoado  em  castelhano  pelo  fidalgo 
aprendiz,  como  acabamos  de  ver,  e  ridicularizado  pela  dama 
como  coisa  de  menino: 

[83]  A  cazar  va  cl  caballero       á  caza  como  solia  (Pr.  159), 

é  o  da  Infantiriha  enfeitiçada  e  do  cavaleiro  burlado,  lindj 
conto  ou  fabliau  francês,  que  é  costume  considerar  como  de 
origem   céltica   (2),   por  causa  das  fadas-feiticeiras  e  mais 


(i)     Na  nova  edição,  revista   por  Méndcz   dos  Ilemedios  (Coimbra,  1878),  n&o 
ha  notas  sobre  as  diversas  poesias,  apontadas  nesta  scena, 
(2)     Vid  Antologia  XII  520  ss. 


108  CAROLINA  MICHAELI8  DE    VASCONCELLOS 

traços  sobrenaturacs  que  o  caracterizam  (1).  Metrificado  tal- 
vez por  un  poeta  distinto  (Rodrigo  de  Reinosa?)  andou  em 
folhetos,  entrou  no  Cancionero  de  romances,  e  existe  hoje  tan- 
to era  regiões  portuguesas  (2),  como  castelhanas  (3),  em  re- 
dações  em  parte  puras,  era  parte  confundido  com  <>  romance 
análogo,  da  mal  ata  fingida  (4). 


XXXVI 


O  tema  da  donzela  que  vai  á  guerra  em  traje  de  varão, 
comum  á  poesia  de  várias- nações,  também  passou,  provavel- 
mente de  França,  á  península  ibérica,  tomando  nela  a  forma 
de  romance  (5).  Verdade  é  que  não  figura  nas  compilações 
antigas,  nem  se  encontra  em  folhetos  góticos  ou  livros  de 
música;  nem  tão  pouco  sei  de  menção  alguma  d'ele  em  obras 
castelhanas.  Nem  sequer  na  Ensaladilla  ha  prova  da  sua 
existência  (6). 

Os  mais  antigos  e  principaes  testemunhos  da  sua  populari- 
dade encontram-se  nas  comédias  do  quinhentista  português 


(i)     Braga  colocou-o  resolutamente  no  Cyclo  Arthuriano. 

(2)  No  Romanceiro  Geral  p.  230-263  ha  quinze  versões:  oito  da  infeitiçada  e 
sete  da  que  se  finge  ma/ata,  algumas  com  notáveis  castelhanismos  na  dição. — A  de 
Almeida-Garrett  contém  palavras  e  locuções  (como /rima  por  grima',  e  enzinha) 
que  documentam  a  derivação  directa  dos  textos  contidos  no  Cancionero  de  Ro- 
mances, y  reproduzidos  por  Duran,  Depping,  Ochoa. 

(3)  Ainda  hoje  se  canta  en  Tânger  e  na  Bósnia.  Vid.  Cat.  /ud.  Esp.  No  1 14. 

(4)  Na  Ensaladilla  é  só  o  romance    da  málata  que  figura: 

De  Francia  salió  la  nina       de  Fr  anciã  la  bien  guarnida 
(Estr.  10  Ingr.  61). 

(5)  Feitos  bélicos  de  heroinas  históricas  (como  Louise  Labé,  a  donzela  de 
Lutzelburg,  ou  a  Monja  Alférez,  Catalina  Erauso,  Antónia  Rodríguez)  são  poste- 
riores ao  romance.  Mas  quantos  casos,  hoje  esquecidos  ,  não  se  dariam  na  idade- 
media  e  fructificariam  na  fantasia  dos  cantores  do  povo.  Vid  Antologia  XII  512,  x 
40  1 19  e  269. 

(6)  O  cantar  perdido  Pregonadas  sou  las  cortes  en  los  reinos  comarcanos  (Estr.  7. 
Ingr'  35)  f°i  aparentemente  diverso.  Note-se  todavia  que  a  assonáncia  é  idên- 
tica (-ao). 


ROMANCES    VELHOS  167 


Jorge  Ferreira  de  Vasconcellos.  Mas,  como  na  maioria  dos 
exemplos,,  a  língua  em  que  ele  produz  o  romance,  é  a  caste- 
lhana dos  romances  épicos. 

[84]  Pregonadas  son  las  guerras      de  Francia  contra  Aragón.  (1) 
Como  las  haria,  triste      viejo,  cano  y  pecador? 

Na  Ulijsipo,  o  verso  inicial  vai  precedido  de  uns  ditos  burles- 
camente conceituosos.  É  um  poeta  que  afirma: 

Congelaram-se  os  desejos  de  meus  pensameutos...  e  pêra  os  fazer  co- 
rrldios,  íiz-lhe  hum  emplastro  de  sândalo  e  óleo  de  Pregonadas  son  las 
gucrras-de  Francia  contra  Aragone.  (f .  117  v  .)  (2). 

Na  Aulegraphia  (f .  84  v ),  a  cita  vai  acompanhada  de  uma 
indicação  digna  de  nota.  Dois  galanes  do  paço  (Dinardo  Pe- 
reira e  (írasidel  de  Abreu)  conversara,  emquanto  não  lhes  ser- 
vem o  jantar,  discorrendo  com  agudeza  requintada  sobre  os 
acepipes  literários  de  então.  E  os  criados  dos  dois  (Rocha  e 
Cardoso,  escudeiros,  bem  se  vê)  motejam,  era  apartes  chisto- 
sos e  ás  vezes  mordentes,  das  falas  alambicadas  dos  amos.  Fi- 
nalmente Dinardo  canta  com  gentil  voz  o  romance,  interrom- 
pondo-se  por  se  lhe  quebrar  a  prima  da  guitarra.  A  princípio, 
emquanto  vai  afinando  o  instrumento,  declara  que  irá  tocar 
O  Rapaz  do  Conde  Daros,  como  se  tal  fosse  o  título  com  que  o 
cantar  era  conhecido.  Não  ha  porém  outros  trechos  que  confir- 
mem este  pormenor  (3).  Eis  a  parcela  da  conversa  que  impor- 
ta para  o  caso: 


(i)  Kste  intróito  também  se  encontra  em  várias  lições  do  Romance  do  Conde 
.W.-Vid.  Rom  Ilist.  N.°5 

Grandes  guerras  se puhlican       entre  Espana y  Portugal, 

Vid.  Antologia  X  38,  165  e  166  Romancerillo  Catalan  p.  221  Las  guerras  son  pu- 
blicadas, las  de  Pransa  y  Portugal  (var.  se  son  cri  da  das  por  P.  y  A  Portugal  ou  El 
Rey  n' ha  f et  fé  unas  cridas  per  Espanya  y  Portugal). 

(2)  A  ideia  de  procurar  no  Conde  Daros  o  Conde  Claros,  entendendo  o  rapaz 
do  C.  CL,  e  de  supor  que  anunciando  um  romance,  Dinardo  cantaria  outro,  lie 
pode  merecer  aplausos. 

(3)  Ignoramos  por  isso  o  sentido  em  que  devemos  tomar  o  título.  Quem  é 
Conde?  e  quem  rapaz?  A  concluir  de  uma  versão  catalã,  o  Conde  seria  o  velho 
pae;  e  o  rapaz,  a  donzela  disfraçada. 


CAROLINA  MICHAÈLIS   DE    VASCONCELLOS 


Dinardo  (a  Grasidel).— Ora  pois  que  assi  te  tocarei  O  rapaz  do  Condi 
D  ar  os. 

Rocha  (a  Cardoso).— De  prazei  vem  vosso  amo!  Algum  passarinho 
novo  viu  lá! 

Cardoso. — Veria  muito  má  ventura,  que  sempre  anda  após  estes... 

Dinardo.—  {Canta.) 

Pregonadas  son  las  guerras      de  Francia  contra  AragoneJ 

Rocha. -O  que  elle  tem  para  seu  remédio  é  gentil  voz. 
Dinardo.  -(Continuando  a  cantar). 

Como  las  haria,  triste      viejo,  cano  y  pecador? 

Ah  pesar  de  Mafoma!  (1)  (Quebrou-se  lhe  uma  corda). 

Cardoso.— Quebrou-lhe  a  prima!  Inda  bem! 

Dinardo. — Vedes,  este  pesar  tem  a  música:  quando  estais  no  melhor, 
deixa-vos  em  branco  uma  prima  falsa  (2). 

Os  nomes  com  que  a  Donzela  que  vai  á  guerra  (3),  figura 
nos  modernos  textos  portugueses,  aparentemente  muito  bem 
conservados,  são  D.  Martinho  (4),  D.  Marcos,  D.  Carlos,  ou 
simplezmente  D.  Varão,  D.  Barão  (5). 

Quanto  á  Hespanha,  Mílà  y  Fontanals  encontrou  na  Ca- 
talunha algumas  versões,  bilingues,  em  que  a  Xina-yuerrera 
se  chama  D.  Aíarcos  (6).  Muito  mais  tarde  Munthe  (I  b)  e 
Juan  Menéndez  Pidal  (N.°  50)  recolheram  versões  nas  Astú- 
rias, em  uma  das  quaes  a  heroina  é  apelidada  donzella  de  Por- 


(i)  Mais  um  passo  que  prova,  quão  motivada  era  a  frase  quinhentista:  renegar 
como  os  mouros  (ou  como  uns  motiros) ,  em  castelhano  renegar  como  unos  moros 
(p.  ex.,  na  Crónica  de  Don  Francesillo  cap.  21). 

(2)  Acto  III,  Scena  I. — Confer  Almeida-Garrett  III  p.  71  ss;  F.  Wolf,  Proben 
p.  12  e  99;  Braga,  Poesia  Popular  Portuguesa  p.  382. 

(3)  Guerra  que,  nas  lições  do  Algarve,  se  fez  nos  .campos  de  Mazagão.  De 
uma  Nota  anterior  se  vê  que  em  diversas  partes  França  e  Aragão  são  substituí- 
dos por  Espanha  e  Portugal. 

(4)  A's  vezes:  D.  Martinho  de  Azevedo,  mudado  por  etimologia  popular  em 
O  Avisado. 

(5)  O  primeiro  letrado  peninsular  que  colheu  o  romance  na  tradição  oral,  foi 
Costa  e  Silva.  Vejam-se  as  Notas  do  poema  Isabel  ou  a  Heroina  de  Aragão^  Lisboa 
1832,  composto  sobre  o  tema  romântico.  Depois  entrou  no  Romanceiro  de  Al- 
meida-Garrett e  nas  colecções  de  Braga.  Hoje  lá  figura  com  14  lições  (p.  95-148  do 
Romanceiro  Geral).  No  Cyclo  Scandinavo-germano. 

(6)  Publicadas  em  1863.N.0  245  da  nova  edição  de  1883,  p.  223.—  Confer  An- 
tologia X  269. 


ROMANCES    VELHOS  189 


tugal  (1).  Ha  pouco  descobriu-se  entre  os  Judeus  hespanhoes 
tanto  do  Levante  como  do  Oriente  uma  redacção,  bastante 
deturpada  e  assaz  divergente  nos  pormenores,  mas  ainda 
assim  de  muito  valor.  Começa  com  os  versos: 

Reventada  seas,  Alda,      por  mitad  dei  corazón! 
siete  hijas  me  jiariste      y  entre  ellas  ningun  varon  (2) 

muito  parecidos  aos  de  Catalunha: 

Maldita  seas,  comtesa      y  la  teva  generacio, 

de  siete  Jiijas  q'has  parida      no  has  parit  ua  varo! 


XXXVII 

O  romance  desenvolto  de  uma  Infantinha,  muito  diversa 
da  bem-fadada,  pois  enganada  polo  filho  dei  rei  de  França, 
teve  de  confessar: 

[85J  Tiempo  es,  el  caballero      tienipo  es  de  andar  de  aqui  (Pr.  158), 
era  cantado  em  Portugal  no  tempo  de  D.  Manuel;  por  ven- 
tura com  a  música  conservada  no  Caucione  ro  palaciano,  pu- 
blicado por  Barbieri  (3). 

Na  comédia,  também  bastante  licenciosa,  de  Rubena,  com- 
posta e  representada  em  1521  no  paço  real,  como  já  contei,  a 
moça,  enviada  a  buscar  a  benzedeira  (como  as  interessad-ts 
dizem  eufemistica  mente),  cantarola  primeiro,  num  aparto 
travesso,  o  primeiro  octónario  do  romance,  afim  de  patentear 
que  níio  se  deixava  iludir.  E  pira  a  cita  sor  bem  clara,  salta 
do  primeiro  octónario,  para  o  quarío,  mudando  a  conjunção 
para  que.  Cantando  diz 

Tiempo  es,  el  caballero!      que  se  me  acarta  el  vestir  (1). 

Muitas  vezc3  impresso  em  folhetos  avulsos  (5),  c  acolhido 


(i)     Antologia  X  40  e  1 19  ss. 

(2)  Catálogo  Judio -JíspauoT^i.0  121. 

(3)  Canc.  Musical,  N.°  333:  Tiempo  es,  til  txcudero. 

(4)  Gil  Vicente,  Obias  II  p.  11:  Defa-mt  cantar primero  —'Tiempo,  etc. 

(5)  Vid.  Duran,  Romanccro,  N.°  307,   e    Catálogo  41;  Salva,  Catálogo  55  e  99 
(Ileredia,  1769  é  1770). 


770  CAROLINA  MICHAÈLIS  DE   VASC0NCELL0S 

no  Cancwnero  de  romances  (1),  glosado  sentimentaliiiente  por 
Francisco  do  Lora,  antes  de  15'24  (2),  B  ruflanescamente  por 
un  anónimo  (8),  contrafeito  a  sério  por  Castillejo  (4),  citado 
a  miude  (p.,  ex.  por  Castillejo  (5),  por  Góngor.i  6  .  e  Ofl  (  ró- 
nica  de  D.  Francesillo)  (7),  reescrito  por  Duran  (8),  o  roman- 
ce parece  ter  desaparecido  da  península,  Só  entre  os  Jude- 
us do  Oriente,  era  Viena  de  Áustria,  é  que  se  conserva  uma 
lição: 

Hora  es  el  cáballero      hora  es  do,  andar  aqui  (9). 


/  Romances  líricos. 

XXXVIII 

Principiemos  com  o  que  contém  a  pregunta  melancólica 

[86]  Para  qué  pariste,  madre,      un  hijo  tau  desdichadof 

Por  força  foi  repetido  muita  vez,  até  causar  enfado  nos  in- 
telectuaes,  de  sentidos  delicados.  Sem  isso,  não  se  compren- 
dia  o  enjoo  cora  que  Jorge  Ferreira  de  Vasconcellos  diz  mal 
dos  que  o  cantavam  e  glosavam.  Primeiro  na  Ulysipo,  no  tre- 
cho já  transcrito  sob  N.°  XXXIII.  Depois,  na  mesma  comé- 


(i)     Duran,  Romancero,  N.°  306. 

(2)  Vid  Registrum  41 1 1  (Ensayo  II  c.  550). 

(3)  Talvez  Rodrigo  de  Reinosa?  —  Ensayo  N.°  4490:  Glosa  hecha  á  modo  de 
disparates  de  Ti  empo  es  el  cáballero,  nueva  y  de  pasatiempo.  Confer  Duran,  Catá- 
logo N.°  50. 

(4)  Duran  1359:  Tiempo  es  ya,  Castillejo,  tiempo  es  de  andar  aqui  (aqui  por 
de  aqui,  como  em  Duran    307  e  no  Cat.  Jud.  ksp.). 

(5)  Obras,  p.  161. 

(6)  Duran  334. 

(7)  Cap.  31,  fim. 

(8)  N.°  308-316;  vid.  especialmente  N.°  313. 
(<))     Catálogo  Judio-Espanol,  N.°  103. 


ROMANCES   VELHOS  171 


dia,  onde  moteja  da  semsaboriã  dos  temas  líricos  que  estavam 
em  voga,  e  espalhavam 

alegrias  tristes,  tristezas  contentes,  cuidados  desesperados,  desejos 
impossíveis  com  suas  magoas  de  cada  hora,  delido  tudo  cm: 

Pêra  que  pariste,  madre      un  hijo  tan  desdichado? 

Continuando  assenta  rindo  que  esse  verso  era  a  estopada 
com  que  de  presente  socorrem  as  suas  desgraças  os  sadios  que 
topareis,  sem  errar  passada  Entre  Tejo  e  Guadiana.  (1) 

E  pela  terceira  vez,  na  scena  II  do  Acto  III  da  Eufro.sina; 
isto  é  naquela  palestra  entre  os  escudeiros  Zelótipo  e  Cariófilo, 
da  qual  já  extractei  referências  a  Mala  la  vistes,  Conde  Cla- 
ros, Calainos  de  Arábia,  etc. 

Depois  de  haverem  censurado  os  poetas  que  entendem  di- 
zer tudo  em  duas  palavras,  e  estas  prenhes  (2),  e  de  haver 
motejado  do  seu  estilo  forgicado,  composto  de  breves  sentenças 
com  desprezo  da  cópia,  passam  a  cortar  e  morder  nos  de  laia 
mais  plebeia,  que  cuidam  que  põe  a  sua  no  fito,  se  arregaça- 
rem os  pulsos  (3),  tomando  ares  feros 

mas  o  seu  frásis  tem  mais  salitre  que  o  romance: 

Paru  que,  pariste,  madre,       un  hijo  fan  desdiehadof    I  . 

Evidentemente  houve   um   texto  que,  cantado,  começava 
assim.  Deseoiiheço-o,  todavia.  Posso  apenas  apontar  um.  cm 
que  o  verso  citado  ocupava  o  8°  lugar. 
É  o  que  principia: 

Descubra  se  el  pensamiento      de  mi  secreto  cuidado.  (5) 

não  na  lição  impresa  no  Cancionero  de  Romances,  que  ó  in- 
completa, mas  na  que  serviu  de  tema  a  uma  glosa  de  Fran- 
cÍ8co  Marquina,  perto  de  1530,  e  foi  transcrita  por  Salva   6). 


(i)  P.  260. 

(2)  D' estes  dizem  que  são  tio  bando  da  brevidade. 

(3)  Os  punhos  das  mangas. 

(4)  Eufrosina,  p.  189. 

(5)  Duran  1457. 

(6)  Salva,  Catálogo  N.°  óo.  Dos    dizeres  do  erudito  bibliófilo  devemos  inferir 
que  o  texto  tão  pouco  está  completo  no  Pliego  Suelto. 


772  CAROLINA  MICHAÈLIS  DE   VASCONCELLOS 

Confira-se  o  verso  (oposto): 

Para  quê  venistes,  hijo,      á  madre  tan  dèsdtchãdáf 

o  qual  faz  parte  de  um  cantar  de  Bernardo  dei  Carpio,  na  li- 
ção tradicional  de  Tânger  (1). 


XXXIX 

Não  menos  popular  era  outro  romance,  de  subjectivismo 
igualmente  pessimista;  mas  esse  no  traje  típico  das  endechas. 
É  o  que  principia: 

[97]   Parióme  mi  madre      una  noche  escura, 

quando  não  vai  precedido  do  intróito: 

Quando  yo  naci,      nació  la  tristura! 

Com  ele,  se  canta  uma  variante  entre  os  Judeus  de  Tânger  (2). 
Sem  ele,  entrou  na  Flor  de  Enamorados  de  Linares  (f.  63),  (3) 
de  onde  o  Dr.  J.  Priebsch  o  passou  para  os  seus  Comentários 
ás  Poesias  Inéditas  de  Andrade  Caminha  (p.  551),  porque  esse 
quinhentista  nos  deixou  outras  Endechas  ao  mesmo  som  de 
Parióme  mi  madre  (4). 

António  Prestes  menciona-o  como  cantar  soturno  dos  mal- 
fadados. Na  jà  citada  Representação  em  prosa  dialogada  que 
precede  o  Auto  dos  Dois  Irmãos,  cuja  publicação  elevemos  a 
T.  Braga  (5),  um  dos  interlocutores  expõe  que,  a  seu  ver, 
Autos  de  Natal  devem  ser  muito  alegres  e  prazenteiros. 

Hão  de  ter  letra  que  esmeche,  feguras  que  escachem  entremeses, 
pacso3  novos  alagados  em  riso,  vivos  por  «saudade  por  fio  de  mel*.  Se  não, 


(i)     Cat.  Jud.  Esp.^.°  i. 

(2)  Ibid,N.°i4i. 

(3)  Sem  ele  estão  também  na  Comedia  das  Famosas  Asturianas  de  Lope 
de  Vega. 

(4)  N.°  387.—  E  muito  possível  que  umas  Endechas  de  Camões  (Do  la  mi  ven- 
tura) e  outras  de  Diego  Bernárdez  eram  cantadas  com  a  mesma  música.  Vid.  C.  M. 
de  Vasconcellos,  Pedro  Andrade  Caminha,  p.  38  ss. 

(5)  Eschola  de  Gil  Vicente,  p.  246.  1'cna  c  que  não  a  publicasse  integralmente. 


aCX.I.VCES    VELHOS  173 


fazei  autos  a  rolas  veuvas  que  não  riem  nem  põe  pee  em  ramo  verde, 
nem  bebem  agua  crara,  e  tudo  são: 

Parióme  mi  madre      huma  noche  oscara!  (1) 

Lembro  ainda  que  o  verso  figura  na  Ensaladilla  (2),  e  também 
que  foi  este  cantar  do  Malfadado,  se  en  armas  dichoso,  en  amo- 
res desdichado,  e  nao  um  romance  parecido  de  Jorge  de  Mon- 
temor (3),  nem  o  jocoso  de  Quevedo  (Parióme  adrede  mi  ma- 
dre) (4)  que  os  poetas  alemães  Chamisso  e  Uhland  imitaram 
nas  composições  entituladas  Pech  e  Unstern. 


XL 


Seguindo  o  exemplo  dado  pelo  poeta  cómico,  vou  juntar  ao 
romance  de  que  acabo  de  tratar,  o  da  Bola,  geralmete  cha- 
mado da  Fontefrida  ou  Fonte- fria  por  causa  do  Verso  inicial: 

Fonte  frida,  fonte  frida  (5),      fonte  frida  y  con  amor 

do  todas  las  avecicas      van  tomar  consolación, 

sino  es  la  tortolica      que  está  viuda  y  con  dolor  (Pr.  116)  (6). 

Ao  traçar  o  passo  transcristo,  António  Prestes  tinha  na  mente 
sem  dúvida  alguma,  os  versos  7.°  e  8,°  d'esse  poético  cantar, 


(i)  Estes  modismos  vulgares,  não  os  sei  interpretar  satisfactoriamente.  O  que 
o  poeta  cómico  quer  dizer  c  que  os  personagens  hão  de  dizer  graças  de  arromba 
que  arrasem  tudo,  e  que  despertem  desejos  de  outras  mais,  em  ponto  quasi  tão 
subido  como  assucar  para  rebuçados. — Pulhas  «de  entrudo»  ou  «de  carreteiro». 

(2)  Estr.  3)Ingr.  18. 

(3)  Diana,  Libro  V:  Citando  yo  triste  naci       luego  naci  desdichada, 

(4)  Duran,  1647. 

(5)  Luis  Milan  emprega  a  fórmula  parodística 

Fuente  fria,  fuente  fria,      fuente  fria  sois,  setlur! 

para  motejar  do  gelo  da  frialdade  de  Don  Diego  Ladron.  (Cortcsano,  p.  155.) 

(6)  Impresso  no  Cancionero  Generalas  1516.  com  glosa  de  Tapia  (Andando 
con  triste  vida)  N."  439,  e  igualmente  no  Espejo  de  Jiiuimorados,  linsayo  N.°  451. 
(Confer  Cancionero  Rennert  N.°  263),  no  Canaonero  de  Romances  ^Duran  1446)  e 
em  diversos  folhetos  góticos  (Sammlung,  N.°  VII  e  LXX1V  de  Pinar). 


CAROLINA   MICHAÈLIS  DE    VASCONCtLLOS 


em  que  a  viuvinha,  inconsolável  como  a  Raquel  bíblica,  res- 
ponde ao  rouxinol  que  lhe  oferece  os  seus  servi' 

[88]  que  ni  poso  en  ramo  verde      ni  en  prado  que  t<  nga  flor, 

(/>/<■  si  dl  agua  hallo  clara      túrbia  la  bebia  yo. 

Do  princípio  d'esta  réplica 

[89]   Vete  de  ahí,  enemigo      maio,  falso,  enganador  (v.  7), 

ou  do  fim  da  fala 

déjame,  triste  enemigo      maio  falso  mal  traidor  (v.  12), 

ha  duas  reminiscências  no  próprio  António  Prestes:  uma  no 
Auto  do  Procurador  (p.  137),  outro  no  do  Desembargador 
(p.  226).  Ambas  as  vezes  com  a  variante  falso,  maio,  engana- 
dor, que  não  é  arbitrária.  Aparece  no  Cancionero  Musical  (1) 
e  também  numa  Glosa  de  Carasa  (2).  Modificação  volunta- 
riosa, que  rebaixa  de  dois  tons  a  imprecação  da  torto  rilha, 
encontra-se  nos  Amphitriões  de  Luis  de  Camões,  onde  o  prota- 
gonista aplica  os  qualificativos 

ladrão,  perro,  enganador, 

a  um  dos  Sósias,  cujas  informações,  inconscientemente  dispa- 
ratadas, o  enraiveceram  (3). 


(i)     No  97.  A  música  é  anónima. — No  texto  ha  variantes.  A  mais  notável  é  o 
curioso  acrescento  que  hoy  ha  siete  anos,  que  perdi  mi  buen  amor/ 

(2)  Cancionero    Rétmert,  N.°  40.  O  tema  abreviado,  bem  diverso  da  lição  mais 
conhecida,  diz: 

Fonte  frida,  fonte  frida       fonte  frida  y  con  amor, 
do  todas  las  pajarijas       van  tomar  consolacion 
sino  es  la  tortolica       que  está  bibda  y  con  dolor. 
Nunca  posa  en  ramo  verde        ni  en  prado  que  tenga  flor, 
y  el  agua  qu  'e//a  bebia        turbia  la  hallaba  yo. 
Por  ay  pasó  cantando        el  traydor  dei  rruisenor. 
Palabras  que  le  dezia       llenas  son  de  traicion: 
«si  te  pluviese,  senora       de  ser  yo  tu  serbidor>>. 
«Váyaste  de  ay,  cruel,        falso,  maio,  enganador, 
á  quien  tan  suia  me  hize        no  le  haria  traiçiún.» 

O  verso  2.0  e  o  último  não  estão  em  tipo  espaçado  na  edição  crítica  do  erudito 
norte-americano. 

(3)  Acto  IV,  Scena  IV.  O  Poeta  fez  também  umas  voltas  graciosas  a  um  can- 


ROMANCES    VELHOS  175 


O  delicado  toma  poético  da  rola- viuva  é  património  inter- 
nacional (1)  e  já  ocupou  vários  folkloristas,  como  Grimm  e 
Reinhold  Koliler  (que  náo  desconheciam  o  romance  peninsu- 
lar). Ultimamente  houve  quem  chamasse  a  atenção  dos  es- 
trangeiros para  quatro  coplas  populares  portuguesas  (2).  Jun- 
tarei mais  uma  que  diz: 

A  rola  que  enviuvou 
jurou  de  não  ser  casada. 
Não  pousa  em  ramo  verde, 
nem  quer  beber  agua  clara, 

notando  que  é  idêntica  á  dos  Galegos  que  li  ha  dias  na  ad- 
mirável edição  crítica  e  comentada  das  Poesias  líricas  de 
Luis  Barahona  de  Soto,  de  D.  Francisco  Rodríguez  Marín.  Pois 
diz: 

A  rida  qu 'enviudou 
xurou  de  non  ser  casada, 
nin  posar  en  ramo  verde, 
nin  beber  d'auga  crara  (3). 

Como  adição  ás  reminescências  literárias  que  ahi  mesmo  se 
transladam  e  são,  além  de  uma  estância  da  Egloga  IV  do  ilus- 


tar  velho  português  {Apartaram-tt  os  meus  olhos),  em  que  temos  og  mesmos  tres 
adjectivos  no  plural: 

Falsos  a  mores  t 

falsos,  maios,  enganadores. 

Confer  Primavera  ic>7.a:  traidora,  falsa,  malina. 

(i)  Conheço  duas  poesias  árabes,  dedicadas  á  rola,  muito  mais  complicada- 
mente artísticas  do  que  o  romance  popular,  no  qual  ainda  assim  alguns  conhoce- 
dores  quiseram  descobrir  vestígios  orientaes. 

(2)  O  meu  bom  amigo,  o  excelente  filólogo  e  íolklorista  Dr.  J.  Leite  de  Vascon- 
cellos,  num  artiguinho  A  Rola- Viuva  na  poesia  popular  portuguesa,  publicado  em 
Modem  Lançuage  Notes,  VoJ.  XXI  (p.  33),  como  adição  a  um  estudo  de  Phil.  S. 
Allen  (ib.  Vol.  XIX  p.  175  ss).  A  quadra  relativa  ao  rouxinol  que  junta  em  nota, 
0  povo  refere-a,  segundo  a  minha  experieneia,  a  gente  enlutada,  que  de  triste  re- 
cusa ouvir  o  canto  de  aves,  ou  outra  qualquer  música,  tema  nào  menos  universal 
que   o  da  Rola. 

(3)  Não  seria  antes:  nin  de  beber  ouça  ciara: 


CAROLINA  MICHAtLIS  DE   VASCONCELLOU 


tre  «amigo  de  Gregório  Silvestre  (1),  uni  trecho  de  Lopo  de 
Vega  (2)  e  outro  de  Luis  de  Velez  de  (.nevara  ('■>),  cisahini.-iis 
duas,  de  interesse  particular,  porque  mostram  como  a  lenda, 
já  em  si  táo  patética,  de  D.  Inês  de  Castro,  Foi  realçada  ainda 
com  outros  motivos  poéticos  tradicionaes. 

Na  Tragédia  famosa  Reinar  despué»  de  rnorir  do  segundo 
dos  dois  dramaturgos,  que  já  utilizei  (sob  N.°  VI),  náo  faltam 
agouros  sinistros  que  alvoroçam  o  coração  presago  da  infeliz. 
No  dia  anterior  á  catástrofe  sangrenta,  ela  sonha  o  sonho 
do  lião  coroado  que  a  separa  dos  filhinhos.  Além  d'isso,  re- 
para passeando  nas  videiras  que  se  enlaçam  em  volta  de 
amieiros,  e  ouve  uma  rola-viuva  que  geme  na  sua  solidão: 

Apenas  de  nuestra  quinta      salí  á  caza  esta  mariana 
cuando  vi  una  tortolilla      que  entre  los  chopos  lloraba 
su  amante  esposo  perdido  (4). 

E  a  mesma  reminiscência  encontra-se,  em  boca  do  Justi- 
ceiro (!)  naqueles  versos  apócrifos  do  fide-indigno  A.  Lourenço 


(i)  Já  citei  mais  acima  o  título  do  Estúdio  biográfico,  bibliográfico  y  crítico, 
premiado  com  medalha  de  ouro  pela  Real  Academia  Espanola.  A  p.  824  é  que  se 
lê  a  anotação,  e  a  estrofe  a  que  pertence.  Desculpem  os  que  a  conhecem,  se  a  tres- 
lado,  a  bem  dos  leitores  portugueses: 

Cual  tórtola  que  pierde 

su  dulce  y  agradable  companía, 

que  sola  y  sin  abrigo  está  gimiendo 

y,  ajena  de  alegria, 

ni  posa  en  ramo  verde 

ni  en  cosa  que  le  vaya  pareciendo* 

tal  esto  yo,  delante  no  teniendo 

tu  claro  rosfro,  que  llevó  dei  mio 

las  lumbres  y  dei  alma  los  despojos, 

usando  ya  tan  mal  dei  sefiorío 

que  turban  mis  enojos 

las  aguas  deste  rio 

con  lágrimas  sangricntas  de  mis  ojos. 

(2)  Los  Hijos  de  la  Barbuda  (Rivadeneyra  XLV  p.  134S). 

(3)  Los  Melindres  de  Belisa.  I.  1. 

(4)  Acto  I.  Scena  VII. 


ROMANCES   VELHOS  177 


( 'a  minha  já  mencionados  (1),  em  que  andam  baralhadas  algu- 
mas das  Trovas  de  Garcia  de  Resende  com  outras  de  nova, 
mas  rasteira  invenção  (2).  Sentado  na  câmara  onde  aquela  se- 
nhora jaz  ferida,  em  uma  camilha,  e  segurando-a  nos  seus 
braços,  é  que  D.  Pedro  improvisa  entre  outras  cousas  a  es- 


trofe seguinte: 


E  baste! 


Oh  crueldade  tão  forte 

e  injustiça  tamanha! 

viu-se  nunca  em  Espanha 

tào  cruel  e  triste  morte? 

Contar-se-ha  por  maravilha! 

Minha  alma  tão  verdadeira, 

pois  morreis  d'esta  maneira, 

eu  serei  a  torturilha 

que  lhe  morre  a  companheira  (3). 


XLI 


Muito  maior  foi  a  popularidade  de  outro  romance  velho, 
de  tema  c  som  tristonho,  em  que  um  prisioneiro  sem-nome 
descreve,  cheio  de  saudades  pesarosas,  os  efeitos  que  a  resu- 
rreição  primaveril  produz  em  todos  os  seres  animados...  que 
gozam  de  liberdade. 

Em  fins  do  século  xv  ou  princípios  do  xvi  já  existiam  duas 


( i )  Obras  Inéditas  dos  nossos  insignes  poetas  Pedro  da  Costa  Perestrello  coevo 
do  grande  Luis  de  Camões  e  Francisco  Galvão...  e  de  muitos  Anónimos  dos  mais 
esclarecidos  séculos  da  Literatura  Portuguesa    1791. 

(2)  O  editor  salvaguardou-se,  metendo-os  entre  as  Obras  Poéticas  de  vários 
anónimos,  as  quaes  os  sábios  ajuizarão  de  quem  sejão,  pela  elevação  c  i\  liarão  dos 
differ entes  estilos  (p.  14). 

(3)  Exclamação  á  morte  de  Donna  Inez  de  Castro  quando  o  Sogro  a  veio  matar, 
fielmente  traladada  do  seu  Original  antigo  (v.  p.    178).    De    passagem    direi    ainda, 

eme  na  prosa  em  que  esses  versículos  andam"aparece  um  Verso  camoniano:  Mtnlia, 
it/ma,  lembrai-vos  d'  ella  como  última  palavra  de  D.  Inôs!  Note-  se  a  torturilha, 
vocábulo  tào  pouco  usado  em  Portugal  que  patenteia  a  derivação  de  um  texto 
castelhano. 

1-! 


178  CAROLINA  MICHAÉLIS  DE   VASCONCELLOS 

redacções,  ambas  com  numerosas  variantes.  Uma  puramente 
lírica,  tem  apenas  seis  versos  em  -óe: 

[90]    Por  May  o  era  por  May  o  (1)       cu  and  o  los  (2)  grandes  calores, 
cuando  los  enamorados      van  servir  á  sus  amores. 
sino  yo,  triste  mezquino      que  yayo  en  estas  prUionet, 
que  ni  sé  cuando  es  de  dia      ni  menos  cuando  <-s  de  noche 
sino  por  una  avecilla      que  me  cantaba  ai  albor: 
Matómela  un  ballcstero!      dele  Dios  mal  galar don  (Pr.  111). 

Outra,  muito  mais  extensa  (com  vinte  verè03  de  lamentações 
em  -ô),  acaba  com  um  epílogo  narrativo  (3).  É  a  que  começa : 

Por  d  mes  era  de  Mayo      cuando  hace  la  ralar, 

cuando  canta  la  colunaria      y  responde  d  ruisenor, 

cuando  los  enamorados      van  á  servir  ai  amor,  etc.  (Pr.  11 1  il ). 

Não  é  impossível  que  ambas  sejam  destroços  de  algum  cantar 
juglaresco,  relativo  a  um  dos  presos  afamados  de  que  se  ocu- 
pou o  romanceiro  épico:  Sancho  Diaz:  Oonzalo  Gústios;  rei 
D.  Garcia  (4);  Fernan  González;  o  paladino  Reinaldos;  o  no- 
velesco  Vergílio,  ou  o  conde  Nilo  (5).  • 

A  lição  mais  curta  apareceu  na  edição  princeps  do  Canclo- 
nero  General  (6)  e  em  Pliegos  Sueltos  (7),  passando  depois  ao 
Cancionero  de  romances  (8);  foi  imbutida  na  Emaladilla  (9), 


(i)     Ou  precedido  de  conjunção:  Que  por  Mayo. 

(2)  Variante:  las  c. 

(3)  Oídolo  habia  el  rey  mandóle  quitar  la  prisiòn.  Creio  que  terá  de  prestar 
atenção  a  este  desfecho  e  a  outros  parecidos,  quem  tratar  dos  romances  do  Conde 
Arnaldos  e  Sedução  do  Canto. 

(4)  Confer  Depping,  Romancero  castellano  (I  p.  273). 

(5)  Na  Antolo°ía  XII  p.  528,  Menéndez  y  Pelayo  nomeia  Vergilios  cujas  rela- 
ções com  o  Conde  Nilo  ou  Olinos  estão  por  determinar.  Claro  está  que  apesar 
d'isso  convém  separar  os  temas,  como  fez  D.  Maria  Goyri  nas  suas  utilíssimas  re- 
gras sobre  Romances  que  deben  buscarse  (vid.  N.°,  22  e  74). 

(6)  Vol.  I  p.  550  da  edição  de  1882  (N.°,  464).  Mas  como  ahi  é  tema  de  um  glo- 
sador,  é  provável  que  este  abreviasse  um  modelo  mais  extenso. 

(7)  Vide  Registrum  de  Cólon  411a,  Ensayo  II  c.  550;  F.  Wolf,  Romanzen- 
poesie  p.  6. 

(8)  Vid.  Primavera  114  c  Duran  N.°  1453. 

(9)  Estr.  7,  Ingr.  36:  Por  el  mes  era  de  Mayo.  • 


ROMANCES    VELHOS 


glosada  por  trovadores  (IA,  fixada  musicalmente  (2),  levada 
ao  teatro  (3),  e  perpetuada  por  todas  essas  vias  na  memória 
da  liarão,  com  fidelidade  tâo  carinhosa  que  ainda  se  conserva 
na  Andaluzia  (4),  na  Catalunha  (5),  e  em  Madrid  (6).  Além 
disso  entrou  inteira  ou  cm  fragmentos,  ora  inalterados,  ora 
livremente  retocados,  em  romances  análogos,  ou  mesmo  di- 
versos, quer  como  intróito  poético,  quer  como  canto  interca- 
lado (7).  Seis  traduções  para  a  lingua  de  Goethe  atestam  tam- 
bém a  grande  aceitação  que  teve  (8),  ou  antes  o  seu  valor 
poético. 

O  confronto  das  lições  entre  si,e  com  outros  trechos  pareci- 
dos, relativos  á  noite  de  S.  João,  seria  interessante,  especial- 
mente se  recorrêssemos  ao  cancioneiro  popular  e  aos  canta- 
res de  gesta  da  França,  onde  notei  numerosas  descrições  das 


(i)     Conheço   três   glosas.  Unia  é  de  Nicolas  Nunez:  Que  por  Mayo,  no  Canc. 
.  de  1 5 1 1 ,  no  de  Renuert  N.°    125   e  em  diversas  folhas   volantes    como  a  de 
Praga  XXXV,  e  principia: 

Kn  mi  desdicha  se  cobra  {Canc.  Gen.,  vol  I  p.  5  5°)* 
A  segunda  foi  feita  por  Garci-Sanchez  de  Badajoz  estando  preso  en  una  torre  e 
principia: 

Si  de  amor  libre  estuviera  (ib.  II  5 20  do  Canc.  Gen.,  de  1527). 
A  liç.lo  Por  May  o  é  intermédia,  mais  próxima  de  I  do  que  de  II.  (Confer  Kennert 
13  e  uma  folha  avulsa  da  Biblioteca  Municipal  do  Porto).  A  terceira  é  do  autor 
anónimo  da  comedia  Thebâyda  (p.  257  da  ed.  de  1894):  Citando  el  bien  de  vos  me 
vino.  Confer  Ensayo  I  c.  1 179. 

(2)  Vid.    Çanc.  Musical  N.°  69,  com  texto  desconexo,    mas  facilmente  cofri- 
givel  á  vista  das  outras    redacções.  Os  [octonários  16  e  18  são  variantes  de  5  e  6. 

(3)  P.  ex.,  por  Alareon  en  Las  paredes  oyen  (Acto  III  scena  9)  com  variantes, 
pois  diz: 

Por  mayo  era,  por  mayo       cuando  los  grandes  calores, 
citando  los  enamorados       á  sus  damas  llevan  flores. 

(4)  Vid.  Duran,  Romancero  N.°  372. 

(5)  Vid.  Milá,  Pomancerillo  N.°  239. 

(6)  Vid  D.  Maria  Goyri  No  22,  também  com  lindas  variantes,  que  julgo  já  ter 
lido  ou  ouvido.  Cfr.  Munthe  II. 

(7)  Vejam  p.  ex.  Munthe  II;  Almeida-Garrett  II   174;  Arch.  Açoriano  No  27   e 
28;  Kom.  Madeira  80;  Milá  239  e  240. 

(8)  Conheço  versões  de  Platen,  Geibel,  Diez,  Beauregard  de  Pandin,  (Karl  von 
Jarigsen),  o  Anónima  de  Aarau,  e  Fastenrath. 


780  CAROLINA  MICHAÉLIS  DE   VASC0NCELL0S 

maiores  três  festas  do  ano  (1).  Mas  isso  nos  levaria  muito 
longe.  Restrinjo-me  como  devo,  á  prova  de  que  o  romanc 
cantava  na  corte  portuguesa,  no  reinado  de  D.  Manuel,  por- 
ventura com  a  música  publicada  por  Barbieri  (2). 

Também  neste  caso  foi  Gil  Vicente  quem  o  fez  entoar  nas 
suas  representações.  Na  Farsa  Quem  tem  farelos?  ou  do  Fidal- 
go pobre,  estreada  em  1505,  é  o  protagonista  Aires  Rosado 
que  o  canta  de  noite,  passeando  diante  da  janela  da  ama- 
da (3). 

O  octonário  inicial  reaparece  duas  vezes  nos  seus  Autos. 
Entrou  num  Quodlibet  (Ensaiada  por  Gil  Vicente  guisada) 
com  que  termina  a  Farsa  dos  Físicos  (  4  );  e  na  tragicomédia 
satírica  Romagem  dos  Agravados  (5),  composta  para  festejar 
o  nascimento  do  Infante  D.  Felipe  (1533).  Serve  ahi  de  prin- 
cípio de  um  romance,  de  oito  versos  inteiros,  que  na  essência  é 
narrativo,  sendo  todavia  transformado  em  composição  lírica 
de  sete  estrofes  (cada  uma  das  quaes  consta  dó*  seis  octoná- 
rios  e  um  quebrado)  pela  introdução  de  ura  estribilho,  e  por 
artes  de  leixaprem  (6),  afim  de  ser  bailado  e  cantado  por  vo- 
zes. Despido  de  todos  esses  accessórios,  o  texto  com  que 
acaba  a  representação,  diz: 

Por  Maio  era,  por  Maio      ocho  dia3  por  andar, 
el  ifante  D.  Felipe      nació  en  Évora  ciudad. 


(i)  Ha  p.  ex.  descrições  da  Páscoa  de  Maio,  Páscoa  do  Espírito  Santo  (Pâaues 
fleuries)  no  Yvain,  Gerard  de  Viane,  Guillaume  d'Orange,  Gui  de  Bourgogne,  etc. — 
Confiram-se  as  quadras  410  a  414  do  Poema  de  Alfonso  XI. 

(2)  As  ideias  que  Barbieri  proferiu,  louvando-se  em  Duran,  a  respeito  de 
Alonso  de  Cardona  como  suposto  autor  do  romance,  não  tem  base  sólida.  Por  isso 
não  deviam  ser  reproduzidas  por  T.  Braga  (inexactamente,  de  mais  a  mais)  na 
Poesia  Populai  Portugueza  (p.  339). 

(3)  Vol  III  p.  19:  Por  'May  o  era,  por  May  o. 

(4)  Vol.  III  p.  323:  En  el  mes  era  de  Mayo. 

(5)  Vol.  II  p.  531:  Por  Mayo  era  por  Mayo.  Só  por  engano  o  leitor  é  remetido 
ao  Triumpho  de  Inverno  na  Poesia  Popular  Portugueza  (p.  340). 

(6)  O  squema  vem  a  ser  xaxaRXR.  Os  versos  3  e  4  da  estrofe  primeira  re- 
petem-se  como  1  e  2  da  segunda,  e  assim  por  diante.  Como  se  vê  no  Cancioneiro 
Musical,  esta  arte  de  leixaprem  (trovadoresea)  foi  aplicada  a  diversos  romances  e 
algumas  cantigas; 


ROMANCES   VELHOS  181 


No  nació  en  noche  escura      ni  tampoco  por  lunar, 
nació  cuando  el  sol  decrina      sus  rayos  sobre  la  mar. 
En  un  dia  de  domingo,       domingo  para  notar, 
cuando  las  aves  cantaban      cada  una  su  cantar, 
cuando  los  árboles  verdes      sus  frutos  quieren  pintar,  (1) 
alumbró  Dios  á  la  reina      con  su  fruto  natural.    2) 


XLII 


Outro  fragmento  lírico,  mais  artístico  do  que  popular,  que 
também  é  o  desabafo  de  um  desgraçado,  mas  d'esta  vez  revol- 
toso, é  o  que  diz: 

[91]  Maldita  seau,  ventura      que  asi  me  haces  andar  (3) 
desterrado  de  mis  tierras      de  donde  soy  natural, 
por  amar  una  seiíora      la  cual  no  debia  de  amar. 
Adaméla  por  mi  bien      y  salíóme  por  mi  mal, 
porque  amô  donde  no  espero      galardones  alcanzar: 
por  hacer  placer  á  amor      Amor  me  hizo  pesar. 

Como  tema  de  uma  glosa  (de  Nicolas  Nufiez)  entrou  não  só  na 
edição  princeps  do  Cancionero  General  (4),  mas  também  em 
folhetos  avulsos  (5),  e  no  Cancionero  de  romances.  Uma  glosa 
incompleta  e  deturpada,  de  Pinar,  encontra-se  no  Cancionero 
Eennert  (6).  Outro  texto  mais  extenso  (de  16  versos),  antepõe 
á  exclamação  o  dístico  aparentemente  estranho 

De  la  luna  tengo  quexa      y  dei  sol  mayor  pesar: 
siempre  lo  hubiera  por  eso      de  no  dexarme  holgar! 


(i)     Talvez:  querian? 

(2)  Ordenárão-se  todas  as  figuras  como  em  dança,  e  a  vozes  bailarão  e  cantarão 
a  cantiga  seguinte.  E  com  esta  musica  e  dança  se  sahirão  e  fenece  esta  última  tra- 
s,i comédia  (1533). 

(3)  Duran  1448  (  6  versos). — Variantes:  3  á  u.  s. — que  no  deviera  amar. 

(4)  Partido  de  mi  bevir.  —  Canc.  Gen.  N.°  443  e  444,  (Vol.  I  p.  538). 

(5)  Pragtr  Sammlung,  N.°  VII  (p.  7  e  131). 

(6)  N.°  60  e  61  De  chica  culpa  gt  an  pena. —  Só  consta  de  três  décimas.  Na 
terceira  o  verso  glosado  diz: 

adamar  una  seiiora       que  no  deviera  amar 
0  <[t:e  imo  dá  sentido), 


/ 

182  CAROLINA  MICHAÈLIS  DE   VASCONCELLOS 


e  faz  seguir  no  fim  uma  descrição  entusiástica  d;is  feiçOes  e 
da  figura  da  amada.  Assim  completado,  o  romance  tem  por 
título  Romance  que  hizo  ungalán,  alabando  á  9%  amiga  [1).  Esta 
segunda  parto  narrativa  começa: 

•  Yo  me  amaba  una  senora      <ju<'  en  el  mando  no  hay  8U  par  (2). 

Em  Portugal  parece  que  só  o  fragmento  de  sois  vor 
estava  em  voga.  A  maldição  entrou,  na  liç&o  que  trasladei, 
na  Carta  d'  Africa. 

Vejo  desfeitos  em  vão 

todos  meus  contentamentos; 

porém  os  meus  pensamentos 

não  cansam  nem  cansarão: 

se  a  alma  mais  que  a  vida  dura, 

maia  que  a  vida  hão  de  durar  (3). 

Maldita  seas,  ventura 

que  assi  me  liazes  andar  (Estr.  7)  (4). 


(1)  Praçer  Sammlung  N.°  VI  p.  128;  transcrito  na  Antologia  IX  p.  221.  Ahi 
mesmo  ha  a  p.  349  copia  "de  outro  folheto  gótico,  com  algumas  variantes.  O  verso 
que  nos  interessa,  diz  no  primeiro: 

Maldita  sea  la  fortuna       que  asi  me  quiere  tratar, 

e  no  último:  que  así  me  f ti  era  ã  tratar. 

(2)  Outros  romances  ha  que,  principiando  de  modo  parecido,  são  totalmente 
diversos,  muito  embora  um  d'eles  siga  o  nosso  (Cahcionero  Rennert  2  p.  152),  ou 
ande  mesmo  fundido  com  ele.  Começa: 

Yo  adamara  una  donzella        blanca  y  de  bel  parecer; 
existe  fragmentário  com  a  variante 

Amara  yo  una  senora       y  améla  por  mas  valer, 
e  foi  acabado  por  Quirós  (Canc.  Gen.  I  560,  N.°  457). — Outro  que  diz: 

Yo  me  adamc  una  amiga        de  dentro  en  mi  corazon. 

(Duran  1456)  foi  glosado  por  Alcaudete.  (Vid.  Salva,  N.°  2;e  Ensayo  N.°  90,  91  92). 

(^)  O  texto  está  defeituoso  nas  edições  de  Juromenha  e  1'raga;  mas  já  foi  res- 
taurado devidamente  por  Storck. 

(4)  Em  Hespanha,  Florencia  Pinar  utilizou  o  primeiro  octonário  no  Jogo  de 
Xaipes  que  fez  para  a  Rainha  I).  Isabel;  isto  é  antes  de  1504.  Vid.  Canc.  General, 
N.°  875  (Estr.  38),  Vol.  II  p.  93, 


H0MANCES   VELHOS 


XLIII 

Outro  cantar,  inteiramente  artístico,  ministrou  ao  autor 
das  Cartas  d'  Africa  não  uma,  mas  três  sentenças  muy  tristes 
e  doloridas,  E'  o  que  principia: 

Esperança  me  despide,      el  galardon  no  parece; 
[92]  plazer  no  sabe  de  mi      cuidado  no  me  fallesce; 
[93]  quando  más  pienso  alegrarme      mayor  pesar  (1),  me  recresce; 
[94]  el  dia  que  ha  de  ser  triste      para  mi  solo  amanesce  (2). 

Eis  o  teor  das  paráfrases: 

O  mór  mal  que  ca  padeço  Poderá  eu  viver  contente 

é  ver  quanto  sem  razão  com  (3)  saber  que  estava  lai 

outros  olhos  lograrão  a  que  é  causa  de  meu  mal, 

o  que  eu  por  amor  mereço.  por  me  não  ter  lá  presente. 

Isto  tanto  me  entristece  Mas  por  quão  mal  lhe  merece 

que  depois  que  estou  aqui  meu  amor  tão  maltratar-me, 

plazer  no  sabe  de  mi,  quando  más  pienso  alegrarme, 

cuidado  no  me  falece.  maior  pasion  me  recrece. 

(I,  Estr.  12;  (I,  Estr.  16) 

Quem  disser  que  saudade 
é  vida  para  gabar, 
se  o  disser  de  verdade, 
di-lo-ha  para  me  enojar. 
Vida  que  a  alma  entristece, 
em  que  toda  a  dôr  conBiste, 
el  dia  que  ha  de  ser  triste 
para  mi(m)  solo  amanece  (II,  Estr.  10) 


XLIV 

Resta-me  falar  de  dois  cantares  líricos,  anónimos,  que  es- 
tiveram muito  em  moda  desde  fins  do  século  xv,  quer  fosse 
pela  sentimentalidade  trivial  dos  motivos,  que  se  prestavam 

(i)     Duran  1394  {Cancionero  General  N.°  453).  Ha  outra  redacção  mais  resumi- 
da (N.°   1395)- 

(2)  Nos  Camioneros  está  plazer;  no  texto  português  ha  pasion. 

(3)  Como,  nas  edições  de  Juromenha  e  Braga. 


184  CAROLINA  MICHAÊLIS  DE    VASCONCELLOS 

a  infinitas  variações,  quer  pela  graça  insinuante  das  respecti- 
vas músicas. 

Um  d'eles,  chamado  romance  Indevidamente,  pois  consta 
de  quadras  diversamente  aconsonantadas  {abba  ou  àbab),  e 

uma  lamentação  saudosa  sobre  o  bom  tempo  passado,  bom 
principalmente  por  ser  passado.,  tema  realmente  universal  e 
im-morredoiro. 

Se  nâo  for  no  Cancioneiro  Geral  português,  não  posso  di- 
zer, onde  se  publicou  primeiro.  Provavelmente  em  folhas  vo- 
lantes perdidas.  Mas  antes  que  a  arte  de  Gtatêmbevg  se  apo- 
derasse d'ele,  talvez  já  corresse  em  cadernos  escritos  (peque- 
nos Cancioneiros  de  mão),  a  nao  ser  que  se  propagasse  exclu- 
sivamente nas  asas  do  bel-canto.  (1)  Começa: 

[95]   Tiempo  bueno,  tiempo  bueno      quien  te  mo  llevó  de  mi?  (2) 
que  en  acordarme  de  ti  (3)      todo  plazer  mo  os  ajeuo  (1). 

Por  infelicidade,  nenhuma  composição  musical  corresponden- 
te entrou  nos  diversos  libros  de  vihuela  do  século  XVI.  Mesmo 
o  texto  d'  essa  vulgarização  do  dantesco  Nissun  magior  dolo- 
re  deixou  de  entrar  em  Cancioneiros  e  Romanceiros.  Seria  por 
já  lhe  faltarem  os  atractivos  das  cousas  novamente  feitas/ 

Conhecemo-lo  apenas  peias  glosas  que  provocou  e  pelas 
numerosas  menções  honrosas  que  teve. 

Eis  as  castelhanas  de  que  me  lembro:  Simplez  citações  da 
primeira  quadra  na  Ensaladilla  de  Praga  (5),  e  em  outra  di- 


(i)  A  linguagem  é  um  tanto  arcaica.  Não  nos  vocábulos,  mas  nas  construções 
e  no  modo  de  dizer  (veja-se  p.  ex°  o  dativo  ético  me;  o  emprego  de  simiente  como 
termo  colectivo,  com  o  verbo  no  plural).  Quer-me  parecer  que  lhe  falta  a  elegância 
das  cantigas  palacianas  posteriores  a  1500. 

(2)  Julgo  que  esta  é  a  redacção  mais  antiga.  Ha  todavia  as  variantes: 

quien  te  me  aparto  de  mi 
quien  te  aparto  de  mi 
quien  se  te  llevó  d'  aqui 
quien  te  me  llevó  r/'  aqui. 

(3)  Variantes:  que  en  solo  pensar  en  ti. 

(4)  Variante:  todo  el p.  m'  es  ageno.  —Em  1880  juntara  as  que  então  conhecia 
(numa  Nota  publicada  em  Zeittchrift  V  p.  77) 

(5)  Estr.  12,  Ingr.  70. 


ROMANCES    VELHOS  185 


versa,  contida  num  caderno  de  Chistes  hechos  ]><>>■  diversos  au- 
tores por  gentil  modo  y  estilo  naevamente  impresso  (1)  Citação 
do  primeiro  verso  duplo  no  Auto  dkl  Tkiuxpiio  dkl  Sacka- 
MENTO  (2);  só  do  heraistíquio  inicial,  numa  Trova  de  Bos- 
can  (3). 

(ilosas:  Io)  de  Marquina  Por  la  gloria  antepasada,  de  três 
quadras,  num  Pliego  Suelto  de  c.  1530,  descrito  por  Salva  (Ca- 
tálogo N.°  60)  (4). 

2o)  de  cinco  quadras;  de  Cristóbal  Velázquez  de  Mondra 
gon:  Oh  enganosa  e  inconstante)  transcritas  no  Ensayo  N ."424s, 
também  de  um  folheto  gótico,  s.  1.  n.  a.  (5). 

3o)  de  seis  quadras;  de  Castillejo:  Oh  vida  doce  y  Sabrosa, 
impressas  na  Biblioteca  de  Autores  Espanoles,  Vol.  XXXII  p. 
121,  e  contidas  no  manuscrito  analizado  por  Gallardo  no  Ensa- 
i/o  N.°  1678  ir,;. 

4o;  de  três  quadras;  por  um  anónimo  que  talvez  seja  Bur- 
guillos:  (7)  Oh  triste  ventara  tuia,  impressas  em  J'o,nanis<-lir 
Studien  Vol.  XIV  p.  227,  segundo  o  Cancionero  de  Oxford  (8). 

õ°j  de  cinco,  incompletas;  obra  de  ura  anónimo  que  tal- 
vez seja  o  Dr  Viilalobos,  publicada  no  Cancionero  de  Nájera . 
por  Morol-Fatio,  em  t/Espagne  au  A  17' •  et  A  17/  °  siecle,  N.° 
LXXIX:  Oh  memoria  de  mi  rida. 


(i)     Conserva-se  na  Biblioteca  Nacional  de  Lisboa  numa   Miscelânea   preciota 

de  folhetos  antigos  (  I3Ô). — Varias  das  cantigas  que  o  caderno  de  chis- 

tes contém,  popularizaram-se  em  Portugal. 

(2)  Rouanet,  Autos,  Farsas y  Colóquios,  Vol.   III  p.  365. 

(3)  Ed.  Knapp,  p.  159. 

4)  Sob  N.°  84  Xota,  Salva  regista  uma  glosa  contida  em  outro  Pliego  Suelto* 
mas  sem  indicações  exactas. 

(5)  Variantes:  Octonário  7  Auiujue,  8  las  simientes,  II  e  13  como,  1415  atuído 
fuè  mayor  mi  estima,  contemplando  lo  pasado,  17  con  tanto  da H o  presente,  19-20 
</ue  bueno  y  ma/o  me  enoja,  cuitado  dei  que  lo  s/ente. 

(6)  Vol.  II  c.  289.  Tem  Prólogo  a  el  Rey,  datado  de  1  54 1 .  Divergências  do 
texto  publicado  na  Bibl,  de  Aut.  I''.sp\  5  tiempo  fne,  14  estima,  15-16  la  memoria  me 
lastima  contemplar  en  lo  pasado.  2  2  ansi. 

(7)  No  MS.  Goi  (f.  750)  da  Bibl.  Paris.  Ulua  glosa  que  principia  Ok  triste  ventu- 
ra mia  é  atribuído  a  esse  poeta. 

(8)  Foi  publicado    em  1880  em  Romanische  Porscliuneen  por  K.  Vollmoller. 


186  CAROLINA  MICHAÈLIS  DE   VASCONCELLOS 

6°  e  7°)  de  Joaquin  Romero  de  Cepeda,  Obras  Ed.  1682 
a  f.  86  e  57  (1),  segundo  Grallardo,  Èn$ayo  8707  (2). 

8o)  de  um  anónimo,  no  Cancionero  de  Paris  N.°  60o  l. 
264  v-);  talvez  inédita  (3). 

Em  Portugal,  cinco  das  quadras,  entituladas  Rrymançe 
foram  impressas  em  1516  no  Cancioneiro  Geral,  com  glosa  de 
Garcia  de  Resende  que  principia 

Los  tiempos  atrás  passados  ( 1). 

Em  castelhano,  como  se  vê. 

Cuanto  a  referências,  temos  na  Ulysipo  f.  103)  o  trecho 
significativo,  já  acima  transcrito  (5),  em  que  um  personagem 
interrompe  citações  insulsas  de  o:tro,  advertindo-o,  cheio  de 
ironia,  de  que  se  se  empègasse  naquele  ma  re-magnum ,  nem 
mesmo  fateixas  de  Tiempo  bueno,  nem  arrepiques  de  Rey  don 
Sancho  o  tirariam  a  lume  (f.  103). 

Na  Carta  I  d' Africa  serve  de  remate  a  uma  estrofe: 

Tudo  *ão  queixas  em  vão 
e  tudo  são  vãos  clamores: 
capitão  contra  os  moradores, 
eles  contra  o  capitão. 
Emfim  tal  vai  tudo  aqui 
que  brada  grande  e  pequeno; 
Tiempo  bueno,  tiempo  bueno, 
quien  se  te  llevó  cf  aqui?  (Estr.  21). 

Na   Elegia  amorosa  portuguesa  de  Andrade   Caminha  (6), 


(i)     Tenho  em  conta  de  variante  da  copla  final  de  Tiempo  bueno  o  Mote  alheio: 

Todo  me  cansa  y  da  pena; 
no  sé  qué  remédio  escoja, 
que  si  la  vida  me  enoja, 
tampoco  la  muerte  es  buena. 

(2)  Nunca  vi  estas  Obras,  por  isso  ignoro  se  ha  voltas  da   i.a  quadra,  ou  uma 
glosa  do  cantar  inteiro.  Km  Madrid  não  deve  ser  difícil  a  verificação. 

(3)  Morcl-Fatio,  Catalogue  des  Manuscrita  Espagnols  et  Portugais,  p.  213. 

(4;    voi.nip.  584(f.  217). 

(5)  Sob  N.°  V,  14. 

(6)  Poesias,  Ed.  1791,  p.  176. 


ROMANCES   VELHOS  187 


que  encerra  dezaseis  girõas  castelhanos,  citam-se  os  mesmos 
dois  octonários: 

—Este  bem  (i)  a  meu  mal  faita 
porque  venha  a  faltar  tudo, 
*  e  a  alma  assim  se  sobresalta 

que  ora  grito,  ora  sou  mudo, 
ora  a  voz  é  baixa,  ora  e  alta. 
—Choro  o  tempo  que  perdi, 
fermcso,  brando  e  sereno, 
só  pelo  que  nele  vi. 
Tiempo  butno,  tiempo  bueno, 
quien  te  me  llevó  (2)  de  mi?  (Estr.  10) 

Do  mesmo  quinhentista  áulico  existe  a  paráfrase  de  uma 
esparsa  graciosa  que,  principiando 

Tiempo  de  placer  cumplido 

e  terminando: 

quien  te  me  llevó  de  mi? 

claramente  se  patenteia  como  a  estância  segunda  de  uma  das 
diversas  glosas  de  Tiempo  bueno  (3).  E  realmente  faz  parte 
da  4.°,  que  registei  (4), 

Tiempo  de  placer  cumplido, 
aunque  para  mi  cruel 
pues  ya  lo  ten#o  perdido, 
tiempo  que  después  de  ido 
se  me  va  el  alma  trás  él! 
Quan  contento  me  hallara 
y  quan  contento  quedara 
ai  tiempo  que  te  perdi, 
si  tal  ventura  alcançara 
que  la  vida  me  llevara! 
Quien  té  me,  aparto  de  mif  (5) 

No  s<V,ulo  xvil  Simão  Mai-luido  (c.  1.560  c.  L632J  ainda  ci- 


( )  morrer  cedo. 

(2)  I. levou,  com  um  quarto  ú  castelhana,  e  outro  á  portuguesa. 

(3)  Poesias  inéditas,  X.°  465,  comentado  a  p.  557. 

(4)  Reparei  neste  facto  post-festit/n  (a  3  de  Maio  de  1907). 

(5)  Na  poesia  de   Caminha  falta  o  verso   3.0,  talvez  de  propósito.   Variantes:   6 
Oh.  q.  c.-j  y  qtian  alegre  10  llevó. 


188  CAROLINA  MICHAÈLIS  DE   VASC0NCELL08 

tava  o  romance,  provavelmente  de  memória.  \;i  Comédia 
mágica  de  Alfea  mudou-o  em 

Tiempo  bue.no,  tiempo  bueno, 
mal  me  aproveché  de  ti!  (1) 

Rodríguez  Lobo  também  o  cita  (2). 


XLV 


O  outro  cantar  lírico  é  o  celebérrimo  da  bela  malmaridada. 
Entre  todos  quantos  deixo  aqui  consignados,  talvez  esse  seja 
o  que  durante  século  e  meio  inspirou  maior  número  de  vates 
e  de  compositores  (3).  Conforme  já  o  disseram  investigado- 
res castelhanos,  não  seria  difícil  escrever  a  respeito  d'ele  um 
opúsculo,  em  lugar  de  uma  nota  (4) 
A  parte  mais  divulgada  é  a  inicial: 

[96]  La  bella  mal  maridada  [96a]  de  las  mas  lindas  que  vi  (5), 
si  hábeis  (e>)  de  tornar  amores,      vida  no  dejeis  á  mi  (Pr.  142)  (7) 


(i)     Foi.  151  da  ed.  de  163 1. 

(2)  Obras,  ed.  1723  p.  749. 

(3)  Gabriel,  o  Músico;  Luis  de  Narvaez;  Valderrabano;  Juan  Vázquez. 

(4)  Vid.  Milá,  Poesia  Herôico-Popular  p .  393;  C.  M.  de  Vasconcellos,  Poesias  de 
Sá  de  Mii anda ,  Halle  1885  p.  747;  Barbieri,  Cancionero  Musical  p.  105;  Jeanroy, 
Origines  de.  la  póesie  lyrique;  Francisco  Rodríguez  Marin,  Luis  Barahona  de  Soto, 
p.  715;  Antologia  XII  503  ss;  T.  Braga,  Poesia  Popular  Portuguesa  p.  239. 

(5)  Também  se  dizia  de  las  lindas  que  yo  vi  e  por  fusão  das  duas  lições:  de 
las  mas  lindas  que  yo  vi. 

(6)  Ou:  si  lias,  seguido  naturalmente  de  no  dejes. 

(7)  Variantes:  no  dejeis  por  otro  ã  mi,  ou  por  otro  no  dejeis  ã  mi.  Nas  glosas 
que  examinei  es?e  hemistíquio  é  sempre  tomado  no  sentido  de:  no  me  dejeis  vida. 
Os  editores  do  romance,  pelo  contrário,  põem  vírgula  depois  de  vida,  comos  e  com 
esse  vocábulo  o  poeta  apostrofasse  a  Bela,  tão  infeliz  e  tão  infiel.  O  verso 

ti  hábeis  de  tomar  amores       por  otro  ã  mi  no  dejeis 

no  Romance  das  Senhas  do  Marido,  de  Juan  de  Ribera  (Pr.  156),  em  -é,  parece  ser 
reminiscência  do  divulgadissimo  texto. 


ROMANCES    VELHOS  189 


Era  todavia  frequente  variar,  dizendo: 

miérribresete  (1)  cuan  (2)  amada,      seiíora,  fiaste  de  mi; 

ou  então 

véote  tristet  enojada,      la  verdad  (8),  dímela  a  mi. 

Esta  última  lição  parece  ser  a  primitiva  (4). 

Mas  como  (por  um  d'esses  descuidos  de  poetas  semipopu- 
lares,  de  que  não  faltam  exemplos)  os  quatro  hemistíquios 
iniciaes.  formassem  uma  quadra:  (abai)  com  as  eonsonâncias 
perfeitas  ada-i  ada-i,  esta  desprendeu-se  do  conjunto,  divul- 
gou-se  avulsa  (e  provocou  a  variante  miemhrese-te  quan  ama- 
da), emquanto,  pelo  outro  lado,  retocadores  escrupulosos  anu- 
laram o  que  era  excesso  de  rima  no  princípio  de  um  cantar 
narrativo,  e  introduziram  a  lição,  a  que  dei  lugar  de  prefe- 
rência. 

Em  vista  d'isso,  não  admira  que  a  poesia  fosse  tratada  ora 
como  cancion  antiga  ou  como  copla  a  que  faziam  voltas  os 
que  só  olhavam  para  os  primeiros  quatro  octonârios,  ora  como 
cantar,  ou  corno  romance  pelo3  entendidos  (5). 

Composto  de  26  versos,  assonantados  em  -i,  de  sabor  tra- 
dicional, o  texto  que  se  conserva,  acolhido  bastante  tarde 
num  cancioneiro  de  romances  (6),  consta  de  dois  actos.  O 
primeiro  é  um  dialogo  entre  o  seductor  e  a  mal-empivgada 
ou  mal-casada.  No  segundo,  intervém  o  marido  velho,  como 
vingador  da  sua  honra  manchada.  Do  desfecho— formado  pe- 


(i)     Var:  acuérdate, 

(2)  Cuando   (no  Cancionero  Rennert  N.°  230)  é  lapso. 

(3)  Em  geral,  segue-se  então  o  verso 

Si  has  de  tomar  amores        vida  no  dejes  á  mi 

que  nas  remodelações  é  2.0. 

(4)  Var:  la  razón. 

(5)  Os  compositores  musicaes  deram-lhe  o  título  de  Villancico,  injustificada* 
mente,  isto  é  sem  observar  em  as  regras  da  Poética. — Também  houve  um  autor  de 
voltas  (Rennert  N.°  230)  que  procedeu  assim. 

(6)  O  de  Sepúlveda  (1551).  Vid.  Primavera  142;  Duran  N.°  1459;  Antologia 
XII  505. 


CAROLINA  MICHAtLIS  DE    VASCONCELLOS 


lo  motivo  do  enterro  nâo- sagrado  dos  que  morrem  de  amor — 
logo  direi  duas  palavras. 

Quanto  a  glosas  e  voltas,  nao  ha  (que  eu  saiba)  nenhuma 
do  texto  inteiro.  Uma  única,  de  que  ainda  falarei,  abrange  on- 
ze versos  (a  parte  primeira,  incompleta,  do  pequeno  drama). 
É  de  Quesada  (1).  Quanto  a  Juan  de  Zamora  (2),  autor  de  ou- 
tra, perdida,  nao  sei  se  procederia  do  mesmo  modo. 

Todas  as  restantes  são  de  poetas  de  renome  (a  começai'  ena 
1515  com  Gil  Vicente  e  a  acabar  com  Lope  de  Vega  e  Queve- 
do, perto  de  1650).  E  quer  sejam  sérias  e  sentimentaes,  quer 
burlescas  e  irónicas,  quer  transpostas  ao  divino,  só  parafra- 
seiam a  quadra  inicial.  As  citas  até  se  restringem  aos  dois 
hemistíquios  La  bella  mal-maridada  de  /as  mus  lindas  que  vi, 
proverbiaes  jâ  a  princípios  do  século,  pelo  menos  em  Portugal. 

Alguns  dos  versificadores  do  Cancioneiro  Geral  serviram- 
se  d'eles. 

1.°  O  cortesfio  Nuno  Pereira,  despeitado  contra  D.  Leo- 
nor da  Silva,  inspiradora  do  processo  do  Cuidar  contra  o  Sus- 
pirar, porque  atinai  casara  com  outrem,  em  tempo  que  ele  a 
servia,  dirigiu-lhe  versos  satíricos  que  tem  mais  sal  do  que  a 
maioria  das  imitações,  comquanto  o  sal  seja  grosso.  Neles  tra- 
ta-a  de  donzela  mal-maridada  (Vol.  I.  p.  250.  f.  33a). 

2.°  Outro  palaciano,  Jorge  de  Silveira,  reforçou  a  nota, 
dizendo-lhe: 

por  vós  fizesteis  lembrar 

a  gentil  mal-maridada;  •   , 

por  vós  a  vereis  cantar...  (ib.  p.  255.  33°). 

3."  Clareia  de  Resende,  tendo  de  mandar  novas  da  corte 
ao  capitão  da  Mina,  aludiu  á  mesma  ou  a  outra  dama; 

a  que  sabeis  que  casou 

que  diz  que  é  mal-maridada  (III.  576.  f.  215  f). 


(i)  Vid.  Duran,  Catálogo  N.°  16;  Salva  N.°  108.  Convém  conferir  os  Pliegos 
Sueltos,  descritos  por  Duran  sob  N.°  12  e  25,  com  os  da  Sammlung  de  Praga 
N.°  LVII  e  LXII.  Não  entrou  em  Cancioneiros. 

(2)  Num  folheto  comprado  por  Fernan  Cólon  em  1524,  o  romance  da  Bella  (?) 
era  atribuído  a  um  poeta  d'esse  nome,  aliás  desconhecido,  se  as  indicações  do  Re- 


ROMANCES   VELHOS 


O  curioso,  que  procure  o  resto,  pois  não  deixa  de  ser  digno  de 
nota. 

4.°  Gil  Vicente  parodiou,  em  linguagem  de  preto,  a  co- 
pla primeira,  juntou-lhe  uma  volta  que  traslado,  para  facili- 
tar a  procura  do  modelo  e  de  imitações  ulteriores.  Na  tragi- 
comédia  da  Fragua  d' Amor,  representada  na  festa  do  despo- 
sorio  de  D.  João  III  com  D.  Caterina  d' Áustria  (na  ausência 
dela  no  ano  de  1526),  um  Negro,  vindo  de  TordesiUas,  prova- 
velmente no  séquito  de  D.  Caterina,  canta  na  lingua  estereo- 
típica  dos  Africauos  levados  a  Portugal  e  Hespanha: 

Le  bella  mal  maruvada 
de  linde  que  a  mi  ve 
vejo-ta  triste  nojada, 
dize  tu  razão  puruque. 

A  mi  cuida  que  doromia 
quando  ma  foram  cassa; 
se  acordaro  a  mi  jazia 
esse  nunca  a  mi  lembra. 
Le  bella  mal  maruvada 
não  sei  quem  cassa  a  mi. 
Mia  marido  não  vale  nada 
mi  sabe  razão  puni  que  (1). 

5o)     No  Triumpho  do  Yeráo  dá-nos  outra  paródia;  d'estavez, 
em  forma  de  dueto  de  ura  casal  popular  (torneira  e  ferreiro). 

Ela  canta: 

Marido  mal  maridado 
dos  mores  ladrões  que  eu  vi, 
vejo -te  mal  empregado, 
mas  peor  vejo  a  mi. 

E  ele  replica: 

Tu  velha  bem  maridada 
das  mais  bravas  que  eu  vi, 
vejo-te  mal  castigada 
porque  eu  hei  medo  de  ti. 


"istrttm  forem  exactas  e  completas. — Km   outro,  que  o  mesmo   comprou    cm   1513 
em  Tarragona,  la  Bella  constava  de  Coplas,  cujo  último  verso  terá   tristt para  mi 
denota  divergência  dos  textos  conhecidos. 
(1)      Oh  as,  Vol.  II  p.  333. 


192  CAfíOLlHA  MiCHAÉLIS  DE    VASCONCLLLOS 


E  continuam  com  cinco  voltas,  dialogadas  (todas  em  *aàa  -í  > 
alegres;  e  com  certeza  muito  aplaudidas  na  representação 
de  1526  (1). 

6o)  Na  Rubena,  a  feiticeira  prediz  que  o  demo  havia  de 
cantar  de  voz  em  grito,  no  acto  de  as  fadas  levarem  a  Cisme- 
fía,  caracterizando-a  como  uma  de  las  más  lindas  </ue  vi  (II  29  . 

7o)     Na  Farsa  da  Lusitânia  I  {&&%)   duplica  as  cita« 
Temos  primeiro  um  galan  de  los  mas  lindos  que  yo  vi  (Til  299  . 
Logo  depois,  são  as  aves  que  hão  de  entoar  por  alvorada  no 
noivado  platónico  de  Lusitânia  com  Mercúrio,  o  cantar 

la  bella  mal  maridada, 
mal  gozo  viste  de  ti, 

dito  que  parece  aludir  ã  scena  final,  trágica,  do  romance. 
Uma  das  testemunhas  d'esse  acto  lamenta  a  sorte  da  mal-ca- 
sada  e  mal-empregada,  exclamando: 

;Guayas  de  ella  y  de  su  vida, 
de  su  cuerpo  y  su  lindeza 
y  de  su  gracia  vellida! 
jA  quê  manos  es  vertida 
la  flor  de  la  gentileza! 

Temos  ahi,  aparentemente,  o  modelo  para  uma  volta  agressi- 
va e  compassiva,  em  que  um  poeta  de  origem  portuguesa  cen- 
surou em  1557  em  castelhano  (no  Caucione ro  de  Antuérpia) 
os  que  glosavam   o  velho  cantar,  nos  conhecidíssimos  versos: 

Oh  bella  mal  maridada 
á  que  manos  has  venido! 
Mal  casada  y  mal  trovada, 
de  los  poetas  tratada 
peor  que  de  tu  marido! 


No  es  para  tener  querella 
que,  en  sirviendo  á  una  casada 
aunque  no  Io  soa  ella, 
en  la  primem  embajada 
va  la  glosa  de  la  Bella? 


(i)     Vol.  II  485-486. 


ROMANCES    VELHOS  193 


8°)  Na  comédia  Os  Estrangeiros  (Acto  III,  scena  13),  o 
sentencio3o  Francisco  de  Sá  de  Miranda  não  vai  mais  longe 
do  que  os  versificadore3  do  Cancioneiro.  O  doutor  da  peca 
apregoa  os  grandes  privilégios  que  teriam  as  mulheres  dos 
doutores,  se  os  entendessem;  mas  o  truâo  retruca:  que  negra 
consolação! ',  principalmente  para  las  bellas  mal  maridadas!  (1). 

9o)  António  Prestes  emprega  uma  vez  a  fórmula  casado  e 
bem-maridado  (p.  216);  outra  vez  casada  e  maridada—de  las 
mas  liadas  que  vi  (p.  304).  Finalmente  aplica-a,  em  sentido  de- 
rivado, a  um  engano.  Ahi  (p.  113),  de  los  mas  lindos  que  yo  vi 
equivale  ao  modismo:  de  marca  maior. 

10°)  No  Auto  das  Regateiras  do  Chiado  (p.  65  da  ediçáo 
moderna),  lê-se:  E  vós,  bella  mal-ma vidada — de  las  mas  lindas 
que  yo  vi. 

11°)  No  Auto  de  Rodrigo  e  Mendo  cita-se  o  segundo  he- 
mistiquio  (2). 

12°)  Mesmo  Jorge  Ferreira  de  Vasconcellos  nao  adianta 
nada.  Na  Atdegraphia  (f,  46)  diz  de  uma  mulher  esquiva: 
Aquella  bella  mal-maridada  não  se  toma  com  fita  vermelha. 

Glosas  e  Voltas  sâo,  ao  contrário,  raras  neste  país.  Pos- 
terior a  <  i  i  1  Vicente  ha  uma  Esparsa  em  diálogo,  de  Christó- 
vam  Falcão — a  uma  mal-empregada — que  mostra  de  que  fonte 
deriva,  pelo  tema  e  pelas  rimas. 

Elbj 

Solteira  fôreis,  senhora! 
Vira-vos  viver  contente! 
Ainda  que  o  eu  não  fora, 
fora  eu  só  o  descontente. 
Mas  ver  vos  mal  «empregada! 
triste  de  vós  e  de  mi  !(m) 
de  vós— por  serdes  casada 
e  de  mim— porque  vos  vi. 

Ela 
Oh  enganoso  casar! 
oh  casar  cheo  de  enganos! 


(i)     P.  u  da  edição  de  1784. 

(2)     Eschola  de  Gil  Vicente,  p.  331. 

18 


194  CAROLINA   MICHAÉLI8  DE    VASCONCELLOS 


Se  eu  tal  pudera  cuidar, 
solteira  fora  mil  aunos! 
Mas  fui,  triste,  enganada! 
Com  enganos  me  perdi! 
Inda  m'eu  veja  vingada  (1) 
de  qnem  se  vingou  de  mi(mj! 

Umas  voltas  de  Sá  de  Miranda  (com  as  mesmas  rimas: 
-ada  -i  -i  -ada)  A  este  cantar  velho:  Doíla  bella  mal  maridada, 
ou,  segundo  outro  manuscrito:  Aquela  cantiga  velha  Dona 
bella  cm  letra  castelhana  (2): 

Asi  que  aquella  hermosura, 
jamás  vista  sin  espanto, 
]a  gracia  y  desenvoltura, 
todo  se  es  mudado  en  llanto! 
Suerte  tan  presto  mudada, 
tan  envidiosa  de  si! 
Doncella  dichosa  ausi, 
y  duena  tan  desdichada! 

No  sé  que  me  diga,  ó  á  quicn 
culpemos  en  mal  tamaíi". 
No  se  ayuda  tanto  bien 
sino  para  tanto  dano. 
En  todo  tan  acabada 
— dije  yo  luego  que  os  vi  — 
no  nacistes  vos  asi 
para  ser  bien  empleada. 

Entre  os  versos  de  D.  Francisco  Manuel  de  Mello  ha  na 
Avena  de  Tersícore  (II  71),  um  romance,  ou  elogio  de  chança, 
em  que  a  própria  Bella  fala,  dizendo-se  Biudilla  mal  mari- 
dada.  Em  nada  mais  se  semelha  á  copla  antiga. 

Não  sei  se  Gil  Vicente  se  serviu  da  composição  de  Gabriel, 
um  dos  músicos  mais  afamados  dos  Reis  Católicos  e  poeta  do 
Cancionero  General;  mas  com  certeza  não  se  serviu  das  pala- 
vras do  texto,  tal  como  anda  na  colecção  publicada  por  Bar- 
bieri. 


(i)     Ed.  de  1871  p.  21.  — Confer  Revista  Lusitana  IV,  156. 

(2)  Poesias  de  Sá  de  Miranda,  ed.  C.  M.  de  Vasconcellos,  Halle  1886  e  p.  747. 
O  tema  da  casada  sem  piedade,  que  lá  cito,  não  se  deve  confundir  com  o  da  mal 
empregada  ou  mal  casada,  como  os  Portugueses  deziam  e  ainda  hoje  dizem  de 
preferencia. 


ROMANCES    VELHOS 


O  véote  que  repete  nas  três  imitações,  mostra  que  a  lição 
então  propagada  na  Corte  de  D.  Manuel,  era  a  que  tenho  em 
conta  de  primitiva  do  romance  (1). 

Junto  a  lista  das  voltas  e  glosas  castelhanas  de  que  sei (2) — 
lista  que  apesar  de  constar  de  trinta  e  tantos  números,  de  27 
poetas,  ainda  está  incompleta  (3).  Tão  numerosas  foram  que, 
além  das  ironias  já  mencionadas  de  Gregório  Silvestre,  houve 
outras,  p.  ex.  de  Jerónimo  de  Arbolanche  que  se  gabava,  ci- 
tando entre  as  muitas  cousas  literárias  que  nâo  fazia,  a  de  nâo 
cantar  de  coro: 

Ni  d  la  mal  maridada  bella  glosas— Hago...  (4). 

Io)  Gabriel,  el  Músico:  Mira  como  por  quererte. — Canc. 
Mus.  N.°  158  (5). 

2o)  Quesada:  Cuando  amor  en  mi  ponia. — Pliego  suelto, 
descrito  por  Duran,  Catálogo  N.°  XVI,  e  Salva  N.°  108  (6). 

3o)  Juan  de  Zamora.  Terminam:  Será  triste  para  mi.  Vid. 
Registram  3967.  (Ensayo  II  c.  541)  e  4048  (ib.  547)  (7). 

4o)  Velazquez  de  Mondragón:  Las  gradas  que  repartia. 
Ensayo  4248. 


(1)  Os  Libros  de  Musica  de  Narvaez  (1538)  e  Valderrabano  (1547)  são  poste- 
riores aos  Autos  de  Gil  Vicente.  Todas  as  três  composições  musicaes  da  Bella 
foram  reimpressas  por  Barbieri.  Vid.  N.°  158  e  p.  607  e  609. — Ainda  ha  outra 
música  de  Juan  Vázquez  {Ensayo  N.°  4186). — Segundo  Milá,  Poesia  Heroico-Po- 
pular  p.  393,  um  canto  espiritual  era  cantado  em  Valência  ao  som  de  La  Bella. 
Uma  poesia  religiosa  de  Ocafia  (f.  21)  cantava-se  também  ai  tono  de  La  Bella. 

(2)  Em  geral  é  a  primeira  quadra  què  aparece  com  o  Mote,  seguida  de  estro- 
fes de  oito  versos  cuja  última  rima  k-i  (abba  cddc). 

(3)  Falta  nela  p.  ex  notícia  exacta  de  umas  voltas  de  D.  Fadrique  Enriquez; 
das  de  Burguillos,  e  de  diversas  que  fazem  parte  de  Comedias  de  Lope  como 
La  bella  mal  maridada;  L^a  adúltera  perdonada;  Los  locos  de  Valência;  El  acero  de 
Madrid. 

(4)  Ensayo  N.°  237. 

(5)  Quanto  a  Juan  Vazquez  (Ensayo  N.°  4186)  ignoro  se  a  sua  composição  mu- 
sical se  referia  á  copla,  ao  romance,  ou  a  alguma  das  voltas. 

(6)  Confer  Duran  Catálogo  XLI  c  XXV,  Sammlung  LVII  e  LXII. 

(7)  O  nome  Juan  de  Zamora  só  se  menciona  num  dos  folhetos.  E  das  indica- 
ções dadas  não  se  vê,  se  o  romance  em  si  era  atribuído  àquele  autor,  oujuma  glosa 
das  Coplas  en  es/anol. 


196  CAROLINA   MICHAÉLI8  DE   VASCONCELLOS 

5")  Games:  Llorar  quiero  d  mi  y  a  ti. —  Canc.  Renneri 
N.°  230. 

6o)  Castillejo:  Mal  caçada  sin  ventura.  -Biblioteca  dê  Au- 
tores Espanoles,  Vol.  XX XV  p.  L30.  No  tema  ha  a  variante:  es 
gran  dolo r  para  mi. 

7o)  Jorge  de  Montemor:  A  unafea  que  mando  glosar  La 
Bella;  e  Bien  acertara  natura  em  Obras  de  amor,  Ed.  1.631  f.  61 « 
Cancionero  f.  163;  outras  coplas  a  f.  42. 

8o)  Gaspar  Gril  Polo:  Amor  cata  que  es  locura, — Diana, 
Libro  III  (p.  300  da  ed.  de  L886). 

9o)  Alonso  Pérez:  El  súl  se  rios  eclipso . — Diana ,  Parte  II 
Libro  VI  p.  382  da  ed.  1622;  e  outra  vez  a  p.  387  Si  el  tem- 
piado  venteztco. 

1<>")  Diego  Hurtado  de  Mendoza:  Al  tiempo  que  el  cièlc 
quiso,  Ed.  Kiiapp  p.  414  ou  Bibl.  de  Aut.  Esp.  XXXV  p.  99). 

1  1")  Coloma:  Ilizoos  de  tau  alto  ser.-  Cancionero  de  Ná- 
jera,  Ed.  Morel-Fatio  p.  509. 

12°)  Pedro  de  Padilla:  Naturatezà  esmerar.  Romancero 
p.  437. —  Feas pudo  Dios  criar,  p.  438. — Gran  razón  tiene  la 
bella  p.  439. 

13°)  Gregório  Silvestre:  Oh  que  desgracia  ha  venido. — Quê 
os  fatigue  a  vós  la  bella. — Qué  desventura  ha  venido. — Muy 
grande  locura  ha  sido.— Canc.  Ined.  Paris.  X."  601  f.  278;  177  e 
178 v  Obras  ed.  1588;  o  último]  n."  Canc.  Gen.  II  p.  602 
(Ed.  1557  f.  391  v);  Bibl.  de  Aut.  Êèp.  XXXV  p.  130;  Garcia 
Pérez,  Catálogo  524  ss.:  F.  Rodríguez  Marín  p.  717. 

14")  Licenciado  Ximénez:  Casi  estoy  mararillado. — Gar- 
cia Perez,  Catálogo  p.  527  d). 

15")  Barahona  de  Soto:  Alma  delicada  y  bella. — Ed.  Ma- 
rín p.  593. — Que  donoso  casamiento ,  ib.  584  (burlesco)  e  (íarcía 
Pérez  526. 


(i)  No  Canc.  Inédito  Paris.  No  6ol  a  f.  175  v  ha  uma  composição  de  um  Le- 
trado a  Gregório  Silvestre  que  principia  Casi  estoy  desesperado.  Julgo  será  do  Li- 
cenciado Ximenez,  predecessor  do  Português  como  organista  da  catedral  de  Gra- 
nada, e  autor  do  Hospital  de  Enamorados,  publicado  por  Luis  Hurtado  de  Toledo. 
As  \  nltas  Que  os  fatigue  a  vós,  la  Bella  são  no  mesmo  ms.  Respuesta  ai  letrado-, 
Cír.  Garcia  Pérez  p.  528. 


ROMANCES   VELHOS 


16°)  Diego  de  Carvajal:  Quando  nos  quiso  mostrar. — 
Canc.  Ined.  Paris.  602  f.  84. 

17°)  Bernardino  de  Ayala:  Hanse  en  mi  favor  mostrado, 
ib.  f.  85. 

18.°  Diego  de  Fuentes:  Despues  que  naturaleza. — Obras, 
ed.  1.663. 

19°)     Anónimo:  El  bien  de  su  natural.  Canc.  Ined.  Paris, 
601  f.  276  *, 

20°)  O  es  defecto  de  natura.  602  f.  71. 

21°)  —  Oh  quan  <le.sdicb.ado  estado,  602  f.  86. 

22°  —  Duruiiendo  anoche  sonára.,  ih.  f.  192. 

23°)  La  bella  que  Dios  crio,  601  f.  135  v. 

Ao  divino: 

24°)  Ocafia,  Si  me  adurmiere,  madre.  —  Obras  eá.  1603 
f.  21.— Vid.  Ensayo  3257. 

25°)  Gregório  Silvestre:  Gran  cosa  es  el  alma  mia. — 
Bibl.  de  Aut  Esp.  XXXV,  833  c.  12.  Imagen  toda  hermosa. 

Com  relação  a  citas  em  poesias,  novelas,  comédias  espa- 
nholas, escolho  apenas  a  ancedota  do  cego  que  canta  á  porta 
de  uma  dama  o  romance  da  Bella,  sendo  apedrejado  pelo  mari- 
do, a  qual  foi  contada  no  Cortesano  de  Luis  Milan,  p.  12;  uma 
Lembrança  de  D.  Francesillo  na  sua  disparatada  mas  tao  cu- 
riosa Crónica  fcap.  7);  e  a  circunstância,  que  mesmo  em  Autos 
sacros  se  entoava  sem  pejo  esse  cantar  trivial  e  velhaco  (1), 
muito  embora  só  saísse  da  boca  do  bobo. 


Quanto  á  scena  final  do  romance,  já  me  ocupei  d'  ela  (2  . 
sem  de  modo  algum  exgotar  o  assunto.  Entre  as  adições  com 
que  podia  enriquecer  o  artigo  que  em  1891  dediquei  ao  tema 
universal  e  lírico  do  mal  de  amores  e  enterro  fora  do  recintos 


(i)  Veja-se  Rouanet  Autos  Vo).  I  p.  172  (v.  82  do  Auto  dei  Maná);  III  p.  14 
(v.  343  da  Resurreción  de  Cristo);  III  p.  457  (v.  281-2  de  La  Puaite  de  la  Orada); 
III  p.  378  (v.  999  da  Farsa  dei  Trtumpho  dei  Sacramento). 

(2)  Zeitschrift  XVI  p.  397-421:  Romamenstudien .  Confer  Kritischer  Jahres- 
bericht  IV,  2  p.  195. 


198  CAROLINA  MICHAÈLIS  DE    VASCONCELLOS 


sagrados,  ha  um  romance  de  Guadalcanal  (1),  outro  de  Bogotá 
('2),  diversas  variantes  dos  textos  que  comuniquei  (3),  e  diver- 
sas quadras,  vulgares,  umas  sérias,  outras  de  broma. 
E  são  duas  açorianas  (4),  e  quatro  galegas  (5). 


Quem  morre  de  mal  de  amores 
não  se  enterra  em  sagrado; 
enterra-se  em  campo  verde 
aonde  se  apagtora  o  gado. 
* 

Se  eu  morrer,  enterrar- me-hão-de 
na  cova  aonde  eu  disser, 
deixai-me  um  braço  de  fora 
pra  abraçar  quem  eu  quiser. 
* 

Xastre,  quero-ch'un  recado, 
e  mais  non  é  de  costura, 
que  che  quero  preguntar 
s'  o  mal  d'  amores  ten  cura? 
* 

Mal  de  amores  [non]  ten  cura, 
mal  d'  amores  cura  non  ten, 
qu'eu  xa  tiven  mal  d'  amores 
e  non  m'  o  curou  ninguém. 

O  mal  d'  amor  non  ten  cura 
e  todos  me  din  que  o  ten  (7). 
Tomar  de  novo  outra  moza 
é  o  que  mais  me  conven. 
* 

Cuando  triste,  cuando  alegre, 
ando  ben  apesarado, 
todo  o  que  ten  mal  d'  amores 
ten  un  mal  desesperado. 


(i)     Antologia  X  p.  186. 

(2)  O  romance  que  se  encontra  na  Tercem  Silva  é  igual  ao  que  anda  na  Pior 
de  Enamorados  de  Linares  (Antologia  IX  325). 

(3)  Antologia  X  231.  Confer  Duran  N.°  1425. 

(4)  Zeitschrift  XVI  p.  423  N.°  23,  e  426  N.°  93,  colhidas  por  H.  Lang. 

(5)  Ballesteros  I  155  275  e  120. 

(6)  Variante  que  ouvi  cantar: 

O  mal  d'  amores  ten  cura       e  todos  din  que  o  non  ten. 
Tomar  de  novo  outra  moza       é  o  que  mais  me  conven. 


ROMANCES    VELHOS  790 


K.  Romances  em  versos  pareados. 

XLV 

Entre  os  romances  em  rimas  pareadas,  dissonantadas  (1), 
muita  vez  em  disparates,  que  (como  já  disse)  em  geral  contêm 
Avisos,  Porquês,  Arrenegos,  Maldições  (2)  ha  um  (quasi  tao  di- 
vulgado em  Hespanha  como  as  Coplas  de  Calainos)  de  cuja 
passagem  por  este  reino  ficou  um  testemunho.  São  as  Maldi- 
ções lançadas  por  certo  Salaya  a  um  seu  criado,  que  lhe  fur- 
tara uma  capa  (3).  Principiara: 

Mucho  quisiera  apartarme      de  no  decir  maldiciones 
e  acabam: 

Y  sobre  tu  sepultura      yo  quiero  este  escrito  haya 
*Aqui  yace  en  esta  vaya      el  mayor  ladrou  d'  Espana 
el  cual  con  muy  sotil  mana      hurtó  su  capa  a  Salaya  (4). 


(i)  Considerando  também  esta  espécie  como  escrita  en  versos  longos  de  deza- 
seis  sílabas,  a  rima  seria  encadeada,  como  desde  a  reforma  de  Sá  de  Miranda, 
se  usava  em  trechos  narrativos  das  Eglogas  de  medida  nova.  Mas  talvez  sejam 
de  uma  época,  em  que  só  os  eruditos  se  lembravam  dos  versos  largos  e  já  era 
costume  inveterado  dividi-los  em  octonários. 

(2)  Falei  do  género  diversas  vezes,  p.  ex.  num  artiguinho  sobre  A  maneira  do 
Aplaha  (Rev.  Lusitana  I  379  381).  Mais  abaixo  tornarei  a  ele. 

(3)  Nos  títulos  que  encabeçam  o  romance  nos  Pliegos  Sueltos,  esse  criado  cha- 
nia-se  ora  Misauco,  ora  Misanco  ou  Misancho,  pormenor  que  não  condiz  com 
as  indicações  contidas  no  verso 

■SÉ  quereis  saber  su  nombre       de  pato  e  cochino  es, 
a  não  ser  que  nas  terras  d'  este  ladrão  chamem  os  cevados  e  os  marrecos:   sancho 
incho!,  como  em  outras  localidades  portuguesas  os  chamam:  chico! chico  (de  onde 
derivo  chiqueiro)  sem  saber  se  chico  significa  pequeno  ou  Francisco,  Confer  Cil  Vi- 
cente II  31 . 

(4)  Lembro  ao  leitor  que  nessas  Maldições  se  encontra,  na  parte  erudita,  dedi- 
cada á  historia  pátria,  o  verso 

De  los  osos  seas  comido       como  Favila  el  ncmbrado, 
citado  por  Cervantes,  no  Dou  Quixote  II  e.  34,  e  por  outros  escritores.  {Lisandro 
p.  27),  mas  <[iie  de  balde  fora  procurado  no  Romanceiro  épico. 


200  CAROLINA  MICHAÊLIS  DE   VASC0NCELL08 


Com  alusão  directa  a  este  trecho  final  é  que  António  Prestes 
diz  no  Auto  dos  Canta nnhos  (p.  466),  utilizando  a  rima  vaya 

Salaya: 

Ah  villão!  que  ia  mais  vaya 
nesta  mão  roubas-me  aqui  (1). 
Se  não  fora  ver  quem  vi, 
[97]  as  maldições  de  Salaya 
praguejara  contra  ti. 

Um  escudeiro,  casado,  namora  uma  menina.  Ela  deixa  eaii 
da  janela  uma  cartinha,  fingindo  ser  um  papel  de  almíscar 
que  lhe  caíra  do  peito.  Para  enganar  o  criado  que  lhe  servia 
de  guarda,  manda-o  apanhá-lo  na  rua.  Antes  de  ir,  este  fecha. 
porém,  de  desconfiado,  portas  e  janelas...  Entá<»  o  escudeiro, 
que  esperava  poder  continuar  a  conversa,  diz  os  versos  cita- 
dos, acrescentando: 

Tiras-me  tudo  o  que  tem       i 

os  meus  olhos 

pois  fechado  tem  seu  bem. 

Duran  (2),  que  recolheu  o  texto  de  um  folheto  gótico  (3),  indi- 
ca como  autor  certo  Diego  Garcia,  natural  de  Berganza;  um 
Português  portanto.  Mas  sem  razáo  suficiente;  unicamente 
por  as  Maldições  andarem  em  um  impresso  juntas  a  umas  co- 
plas d'aquele  autor  (4).  Provavelmente  Salaya  é  o  verdadeiro 
autor,  idêntico  ao  Alonso  de  Salaya  que  escreveu  uma  Glosa 
de  la  Reina  Troyana:  Con  doloroso  gemido;  um  romance   de 


(i)  Não  ponho  ponctuação,  em  dúvida  sobre  se  ha  de  ir  ponto  depois  de 
mão,  ou  ponto  e  vírgula  depois  de  vaya. 

(2)  N.°  1886. 

(3)  Vid.  Duran,  Catálogo^.0  61  e  26;  Salva  N.°  127;  Ensayo,  X.°  3766  e  2292. 

(4)  Coplas  hechas  por  Diego  Garcia,  natural  de  la  ciudad  de  Ber°anza,  con 
unos  Amores  de  un  caballero  y  una  doncella,  con  las  Maldiciones  de  Salaya  (Duran 
N.°  126  e  Ensayo  2292).  Pelo  modo  de  dizer,  parece  que  Las  Maldiciones  eram 
obra  conhecida.  Em  outra  impressão  estão  em  primeiro  lugar  {Maldiciones  de  Sa- 
laya hechas  a  un  criado  suyo  que  se  llamava  Misauco,  sobre  una  capa  que  le  hurtô), 
indo  seguidas  de  dois  romances,  utilizados  em  Portugal  I  Castelhanos  v  Leoneses  e 
Por  (Guadalquivir  arriba). 


ROMANCES   VELHOS  201 


Amadis  En  ttn  hermoso  ver<j<>/,  várias  outras  miudezas,  de  que 
o  curioso  encontra  amostras  no  Ensayo  de  Gallardo  (1),  o  uma 
Farsa  (com  um  Português  entre  as  figuras  (2). 


L.  Apêndice  de  Romances,  ainda  ndo   verificados. 

Além  dos  trechos  citados  até  aqui,  passo  apontar  vários, 
em  que  ha  provavelmente  alusão  a  romances,  mas  alusão  tá  o 
vaga  ou  a  textos  táo  raros  e  escondidos  que  náo  os  conheço. 
Vou  registá-los,  na  esperança  de  que  outros  mais  lidos  e  que 
dispõem  de  bibliotecas  bem  providas,  seráo  mais  felizes  do 
que  eu.  Omito  todavia  as  repetições  de  formulas  consagra- 
das, táo  singelas  e  estereotípicas  que  náo  é  possível  dizer 
qual  romance  foi  a  fonte  em  que  os  Portugueses  as  beberam, 
como  p.  ex.  os  hemistíquios  en  Paru  esa  ciudad  (3);  a  Paris 
esa  ciudad:  o  en  ena  Roma  la  santa. 


XLVI 

Começo  com  uma  aneedota  relativa  a  um  dos  mais  intrépi- 
dos fronteiros  do  Africa  que  ao  mesmo  tempo  era  dos  cor- 
tesáos  mais  galantes  da  corte  de  D.  Manuel,  e  poeta  muit) 
apreciado,  comquanto  dos  seus  ditos  e  motes  náo  se  conser- 
vasse senáo  pequena  parte:  D.  João  de  Meneses,  o  suposto 
glosador  do  romance  de  Durandarte,  com  quem  o  leitor  já 
travou  relações  (4). 


(i)     Xo  3768. 

(2)  N.°  3767.  Pelo  estudo  da  Farsa  talvez  fosse  possível  estabelecer,  se  Sa- 
laya  era  Português. 

(3)  Sá  de  Miranda  juntou  ambas  no  Prologo  da  Comédia  dos  Vilhalpandos.  E  .1 
Fama  que  ahi  diz:  de  quantas  cousas  em  todo  [o  mundo\  lia,  nenhuma  responde  à 
sua  fama:  nem  em  Paris  essa  cidade,  nem  [<w]  essa  Roma  la  saneia. 

(4)  Como  já  disse,  nas  considerações  finaes  hei  de  lhe  dedicar  mais  algumas 
palavras. 


202  CAROLINA  MICHAÈLIS  DE   VASC0NCELL08 

«Sendo  hum  dia  (1)  este  capitão  fora  de  Arzilla,  e  pondo-se  ein  um 
valle  a  descansar,  emquanto  tornavam  as  escuitas,  acertou  correr  a  Ar- 
zilla no  mesmo  dia  um  Alcaide  com  muita  copia  de  gente;  e  sabendo 
que  o  Capitão  era  fora,  tomou  lhe  o  passo,  por  onde  havia  de  tornar;  e 
alguns  dos  Mouros,  subindo-se  em  hum  outeiro  que  senhoreava  o  valle 
começaram  (os  que  sabiam  cantar  hespanhol)  a  lhe  cantar, 

Já  vos  jazedes,      peixes  nas  redes! 

Já  vos  jazedes,      D.  João  de  Meneses!  (2) 

E  o  capitão,  começando  caminhar  para  ha  villa,  hla  muito  pensativo; 
e  tornando  em  si,  e  entendendo  que  hindo  assi  quebraria  os  corações  aos 
cavalleiros,  chamou  a  hum  cavalleiro  que  cantava  muito  bem,  e  rogcu- 
lhe  que  para  se  desmelancolizarem,  cantasse  algúa  cousa.  K  o  cavalleiro 
começou  a  cantar  este  romance: 

[98]  Mi  compadre  Gomez  Árias      que  mal  consejo  me  dia! 

e  indo  proseguindo,  chegou  a  hum  passo  d'elle  que  diz: 

[99]  Nunca  viera  xáboneros      tan  bien  render  su  xabon 

porque  acertou  de  ser  a  tempo  que  se  viam  já  muito  bem  os  Mouros  que 
o  esperavam,  proseguio  o  Capitão  as  duas  regras  seguintes  do  romance 
dizendo 

[100]  A  ellos  compadre,  á  ellos      que  ellos  xáboneros  son. 

E  dando  após  estas  palavras  Santiago]  nos  inimigos,  houve  d'  ellesuma 
tão  famosa  victoria,  que  merecera  ser  escrita  por  algum  grande  histo- 
riador, com  outras  muitas  qu<)  em  Africa  este  Capitão  e  outros  ilustres 
Capitães  houveram  (3). 

O  romance, evidentemente  vulgar  (talvez  paródia  de  outro 
velho  e  heróico?)  foi  aproveitado  também  por  Sá  de  Miranda 
na  comédia  dos  Vilhalpandos  (4).  Na  scena  VIII  do  Acto  III, 


(i)     Em  1495;  ou  entre  1547  e  1509. 

(2)  Cantar  velho  mas  português,  e  não  castelhano,  de  que  fizeram  uso  Gil  Vi- 
cente (I  218),  Jorge  Ferreira  de  VasconcelJos  {Eufrosina  p.  149)  e  Luis  de  Ca- 
mões {Auto  de  Filodemo  II  6,  v.  1088),  sem  a  repetição  postiça  com  o  nome  do 
Grande  Africano,  que  foi  acrescentada  ad  hoc  na  escaramuça  de  apar  de  Arzila. 

(3)  T.  Braga  Poesia  Populay-  Portugueza  (p.  369),  tirou  esta  anecdota  histórica 
de  um  MS.  da  Torre  do  Tombo:  Memoria  dos  Ditos  e  Sentenças  de  Reis  etc.  f.  564 
(MS.  1127). 

(4)  Entre  1536  e  1549. 


ROMANCES   VELHOS 


de  que  já  extractei  uma  referência  (N.°  27),  um  soldado  hes- 
panhol,  caracterizado  como  valentão,  entra  cantando 
A  ellos  compadre,  a  elb>s      <nte  ellos  xaboncros  sone!  (1) 

<  'anta,  ou  segundo  o  dizer  do  poeta,  garganteia  todo  requebra- 
do, e  tão  enlevado  que  nem  vê  o  personagem  Milvo  (alcovitei- 
ro da  peça)  que  por  isso  lança  o   aparte:  já  cuida  que  os  leva 
todos  de  vencida. — Mas  não  é  ouvido,  e  o  soldado  continua 
Que  nunca  vi  xaboneros      vender  tan  bien  su  xabone! 


XLVII 


Nas  Cartas  d'  Africa,  camonianas  ou  pseudo-camonianas, 
restam  uns  centões,  que  não  cheguei  a  identificar.  Na  estrofe 
5a  da  II  (2)  lê-se,  ou  devia  lêr-se 

A  menudo  sospirando      hablando  de  tarde  en  tarde. 

Ocorreu-me  Valdevinos,  o  suspirador  por  excelência,  tão 
afamado  neste  país  de  namorados  onde  todo  o  negocio  è  suspi- 
rar e  dizer  saudades,  na  opinião  do  sentencioso  eremita  da  Ta- 
pada; mas  nada  encontro  no  ciclo  a  ele  dedicado.  Também 
me  lembrei  do  bom  velho  Árias  Gonzálo,  no  acto  de  lamentar 
a  morte  dos  filhos,  do  alto  dos  muros  de  Çamora,  porque  num 
dos  Romances  historiados  de  Lucas  Rodríguez(3j  que  lhe  dizem 
respeito,  e  tem  a  devida  assonáncia  -áo  ocorre 

Unas  veces  mira  ai  cielo      y  otras  buelve  suspirando. 

Mas  bem  se  vê  que  não  é  esse  o  verdadeiro  padrão  <4).  Só  se 
houve  redacção  velha,  perdida. 


(i)     Nas  edições  vulgares  em  grafia  portuguesa  A  elhos  (p.  236  da  ed.  de  1786). 

(2)  No  texto  de  Juromenha  e  Braga  temos:  Suspirando  a  mentido,  mas  a  rima 
exige  a  inversão. 

(3)  N.°  IX  p.  80. 

(4)  Confira-se  Gil  Vicente,  I  130: 

Cantando  de  quando  em  quando       e  ás  vezes  suspirando. 


204  CAROLINA  MICHAÉ'LIS  DE    VASC0NCELL0S 

Mais  parecido  é  um  passo  do  Auto  de  D.  Duardos,  relativo 
ao  protagonista,  do  qual  se  diz  na  edição  princeps: 

Suspira  de  tarde  en  tardo,       pêro  quéjase  d  menudo; 

e  no  folheto: 

Entre  si  de  tarde  en  tarde      hal>l<i  y  suspira  d  meiuu/o 

(II  p.  233).      . 

Já  relevei  o  remate  da  estrofe  14a 

[102]  los  bordones  qttè  oitos  Uevan      lanças  w>ê  parecer  arte. 

Deve  pertencer  a  um  romance  em  que  as  figuras  principaea 
sao  paladinos  disfarçados  em  romeiros,  quer  fosse  ura  dos  can- 
tares de  Gaiferos,  quer  o  do  Pai  metro  de  Mérida,  o  do  Moris- 
cote  ou  de  Jtdianesa,  quer  um  de  de  D.  Inês  de  ('astro    1  . 

A  18a  acaba 

[103]  Y  que  nueras  me  traedes      dei  mi  amor  i pie  álWi  era? 
pregunta  que  tem  analogia  com  a  de  Alfonso  Ramos 

Y que  nuevas  me  traedes      de  mi  ftotabien  guarmda  (Pr  118); 
a  do  rei  Ramiro: 

pues  que  nuevas  me  traedes      dei  campo  de  Paloma  res  (Pr.  99); 
a  dei  rei  D.  Juan  11: 

dí-me  que  nuevas  me  traes      de  Antequera  mi  villa  (Pr.  74); 

a  lo  Conde  Claros: 

p.  :es  que  nuevas  me  traeis      de  la  Infanta  como  está  (Pr.  191). 

e  varias  outras.  Mas  nenhuma  tem  a  assonância  -éa. 
Na  última  estrofe,  o  desfecho 

[104]  A  que  muerte  condenado      puedo  ser  que  grave  fuese  (19a) 

antes  par,  ce  lírico  do  que  épico. 


(i)     O  romance  de  D.  Isabel,  cantado  na  Catalunha,  principia: 
Do   a  Isabel  se  pasea       en  su  palácio  real; 
mii   ndo  sus  campos  verdes       romeritos  ve  pasar. 
Noi    van  á  pié  los  romeros,       en  buenos  caballos  van; 
los  rosários  que  ellos  traen        son  cabezas  de  metal 
las  calabazas  dei  vino       llenas  de  pólvora  van. 
Mili,  Romam  erillo  N.°  253).  Ahi  é  que  o  verso  alegado  entrava  menos  mal. 


ROMANCES    VELHOS  205 


Ó  mesmo  vale  de  algumas  citas  da  Carta  I  (1)  (104). 

[105]  Si  no  muere  este  desejo  (sic)      moriré  yo  deseando  (Est*.  10a) 

[106]  Que  ya  no  es  en  mi  mano      el  querer  no  ser  querido  (19a); 

[107]  Naves  de  la  tierra  mia      venid  ora  e  llevadme  (22a); 

[i08]  Pues  que  sufrir  e  callar      conviene  a  mi  pensam[i]e?ito  (24a)! 


XLVIII 


Na  Âulegraphia  (f.  31)  um  personagem  diz  com  relação  a 

um  segredo,  que  o  tem  sabido  [)<>r  uns  certos  canos  de  Carmo- 
na. Como  a  frase  não  é  rítmica,  nem  vestida  á  castelhana, 
estou  em  dúvida,   se  ha  ahi  uma  reminiscência   do   famoso 


(i;     Todas  as  citas  líricas,  que  naturalmente  não  mencionei  neste  estudo,  já  fo- 
ram identificadas  por  W.  Storck  e  por  mim.  Menos  a  que  diz: 

Triste  dei,  triste,  que  muere 
si  ai  paraiso  no  va  (estr.  6). 

Pertence  a  uma  cantiga  impressa  num  Pliego  suelto  gótico,  como  ingrediente  de 
uma  Ensaiada  de  que  já  falei;  e  foi  aproveitada  também  pelo  autor  da  i  7y- 
sipo  (f.  1 19  v  ).  O  mais  curioso  é  todavia  que  essa  cantiga  é  hoje  popular  em  Por- 
tugal e  na  Galiza.  Em  Viana  ouvi  cantar 

Coitadinho  do  que  morre 
se  ao  paraiso  não  vai. 
O  que  fica,  logo  come... 
e  da  maçoa  se  desfaz. 

e  em  Vigo  com  formas  dialectaes,  mais  pronunciadas: 
Coitadinho  do  que  morre 
s'ó  paraiso  non  vai. 
O  que  queda  logo  come 
e  do  pesar  se  desfai. 

No  século  xvi  cantavam  na  corte  com  superior  elegância  e  picardia: 

De  três  dias  muerto  está... 
la  viuda  casar  se  quiere! 
Triste  dei,  triste  que  muere 
si  ai  paraiso  no  vá! 

A  quadra  gallega,  já  a  vi  impressa,  quer  no  Cancionero  de  Ballesteros,  quer  no 
DiccionaHô  do  Valladares  Nuúez. 


CAROLINA  MICHAÈLIS  DE    VASCONCELLOS 


aqueducto,  utilizado  por  Valdevinos  e  Sevilha,  e  citado  do  ro- 
mance: 

[l(i{f]  Por  los  canoa  de  Carmona      por  do  va  el  agua  á  Sevilla 
por  ahi  iba  Valdovinos      y  con  él  su  linda  amiga, 

ou  melhor: 

por  ahi  va  Valdovinos      a  ver  a  su  linda  amiga  (1). 

Na  Ulysipo  notei  mais  dois  eentões: 

[110]  Saliendo  de  tinamontaiia  (f.  203). 
[Ill]  Triste,  sola,  emparedada  (ib). 

Em  Gil  Vicente: 

[112]  Al  tiempo  que  el  sol  salta  (IIÍ,  233). 
[113]  Media  noehe  con  lunar  (ib.)  (2). 

No  Auto  de  Rodrigo  e  Mendo: 

[114]  Las  nochcs  siempre  acordadas, 


XLIX 


António  Prestes  enxertou  no  Auto  da  Ave- Mar  ia  (p.  55) , 
o  verso  castelhano 

[115]   Yo  le  daria,  bel  conde,  quanto  darsele  podia. 

É  a  sensualidade,  que  em  discussão  com  o  hostis  humani  generis 
sobre  a  melhor  maneira  de  enganar  o  mundo,  o  pronuncia,  logo 
depois  de  haver  empregado  a  exclamação  Moro  alcaide,  moro 


(i)  O  texto  impresso  na  Antologia  IX  247  e  no  Ensayo  (Vol.  IV  c.  97  N.°  3619) 
provém  de  um  folheto  impresso  ein  1603,  onde  é  atribuído  a  Juan  de  Ribera,  e  está 
modernizado.  Mas  felizmente  já  não  desconhecemos  a  versão  antiga.  E  a  que  o 
iSnr.  Bonilla  encontrou  num  manuscrito  de  meados  do  século  XVI  e  que  publicou 
nos  Anales,  p.  31. 

(2)  Na  Ensaladilla,  de  que  fazem  parte,  ainda  ha  mais  alguns  versos  castelha- 
nos, que  podiam  pertencer  a  romances.  P.  ex.: 

recorde,  que  no  dormia       á  las  J>ucrtas  de  la  villa, 
era  la  páscoa  Jlorida       en  el  mes  de  San  yuan. 


ROMANCES    VELHOS  207 


alcaide.  Parece  resposta  ás  repetidas  preguntas:  que  me  dásf 
Quanto  ciareis?  de  tentadores  humanos,  nos  romances  da  Bela 
Infanta,  ou  das  Senhas  do  Marido  (1).  Talvez  pertencesse  á 
lição  primitiva,  hoje  perdida. 


André  Falcão  de  Resende,  sobrinho  do  grande  antiquário, 
escreveu  um  enorme  romance  histórico,  em  que  conta  a  céle- 
bre victória  que  D.  Joáo  d'  Áustria  houve  contra  os  Tur- 
cos na  grande  batalha  naval  no  golfo  de  Lepanto,  por  a  toada 
do  romance  velho  que  diz: 

[116]  Olá  olá!  que  tocan  ai  arma,  Juana!  (2) 

Tanto  lhe  agradou  este  refram  (que  me  parece  ser  do  último 
terço  do  século)  que  o  repetiu  em  outro  romance  (omitindo  o 
noine-próprio)  também  em  castelhano,  sobre  a  Jornada  do 
Emperador  Carlos  I  a  Viena  d' Áustria  e  retirada  do  (irão 
Turco  Solimão  (3). 

Mais  aioderno  ainda,  do  tempo  de  Lope,  Quevedo, e  (ióngo- 
f  a,  deve  ser  o  cantar  puramente  artístico,  amatório,vilhanesco 


(i)  No  Romance  de  Rosailorida  (ou  Roca/rida)  e  de  Montesinos,  a  heroina 
manda  ofrecer  ao  amado  as  suas  riquezas,  uma  a  uma,  repetindo  depois  de  cada 
promessa 

ti  mas  quiere  Montesinos        vo  muclio  mus  le  daria, 

{Zeitschrift  XVII  547).  Numa  das  versões  portuguesas  do  Conde  Claros  (Zeit- 
schrift  III  65)  e  especialmente  na  Xau  Catrineta  ha  ofrecimentos  iguaes,  seguidos 
sempre  da  recusa  —  .\âo  quero. ..  Xe/n  quero.  Aro  Cancionero  Popular  também  ha 
quadras  que  lembram  esse  motivo.  P.  ex. 

Em  português:  En  galego: 

Ahi  tens  meu  coração  Ehi  tês  o  meu  coraçon, 

e  a  chave  para  o  abrir.  as  chaves  par'  o  abrir. 

Nada  mais  tenho  que  dar  Non  eu  tengo  mais  que  darche, 

nem  tu  mais  que  me  pedir.  ni  ti  mais  que  me  pedir. 

(2)  Em  -áa. — Vid.  Garcia  Pérez  p.  180. 

(3)  Ib.  p.  161. 


208  CAROLINA  MICHAÉLIS  DE   VA8C0NCELL0X 

ou  festivo,  que  D.  Francisco  Manuel  de  Mello  introduziu  no 
seu  curioso  Guia  de  ÇOêadúi  (l)y  aproveitando  uma  parcela 

que,  como  o  N.°  1 1  õ ,  parece  ser  estribilho. 

[117]  El  aspid  anda  ev  lai  floree! 
alerta!  alerta!  zayales! 

O  fragmento 

[118]  Sobre  mi  vi  guerra  armar: 
una  diz  que  me  llevaria, 
otra  que  me  ha  de  llevar, 

pronunciado,  no  Auto  do  Físico  de  Jerónimo  Ribeiro,  por 
um  criado  que  chasqueia  de  uma  briga  (2)  de  cacaracá  entre 
duas  moças  de  servir,  tanto  pôde  ser  troco  de  um  romance, 
como  mote  de  cantiga. 


LI 


Deixei  para  o  fim  dois  versos  evidentemente  portugueses 
e  um  romance  histórico  perdido. 

(i)  Ed.  1873  p.  136.  No  Capítulo  XXIX  (Governo  da  casa)  conta,  com  aquele 
estilo  admiravelmente  sóbrio  e  próprio  que  o  distingue,  o  conto  do  ramalhete  em 
que  o  próprio  pae  entrega  á  filha  doente  a  carta  do  namorado. 

(z)  Autos,  ed.  1587,  f.  106.  Vid.  Eschola  de  Gil  Vicente,  p.  242.  No  Auto  da 
Feira  de  Gil  Vicente.  (I  163),  Roma  a  santa  cidade,  entoa  em  português  o  cantar- 
cillo: 

Três  amigos  que  tu  havia 
sobre  mi  armam  porfia. 
Ver  quero  eu  quem  a  mi  leva, 
precedido  do  dístico 

Sobre  mi  armavam  guerra, 
ver  quero  eu  quem  a  mi  leva, 
omo  se  fosse  mote. 

Se  dissesse  pouco  mais  ou  menos 

Três  amidos  (que  Deus  tenha) 

Sobre  mim  armavam  guerra. 

Ver  q.  eu  q.  a.  m. 

seria   paralclistiéa,  ;l  maneira  antiga,  como  tantas  outras  deliciosas  composições 
arcaicas  com  que  enfeitou  os  seus  Autos.  Pena  é  que  nos  falte  a  continuação. 


ROMANCES    VELHOS  209 


Um  dos  versos  parece  princípio  de  romance.  É  o  que  já 
ouvimos  sair  da  boca  da  ama  de  Rubena: 

[119]  Eu  me  sam  dona  Giralda  (1). 

Conferindo-o  com  as  primeiras  palavras  das  Trovas  de  D. 
Inês  (Eu  rnera  moça  menina),  e  do  romance  Yo  m 'era  mora 
morainia,  estou  naturalmente  inclinada  a  supor  nele  um  ro- 
mance. (2)  Tanto  mais  que  no  repertório  da  Ama  textos  narra- 
tivos andam  de  mistura  com  textos  líricos,  todos  eles  pro- 
vavelmente com  melopeias  pausadas,  próprias  a  embalar  me- 
ninos (3). 

O  outro 

[120]  Os  que  me  sotm  guardare 

é  positivamente  um  verso  de  romance,  desligado  do  meio  do 
contexto.  João  de  Barros  que  o  alega  na  sua  Gramática 
como  exemplo  do  -e  paragógico — em  cuja  frequência  em  tex- 
tos cantados  em  Portugal  o  leitor  reparou  por  certo — chama-o 
rimance  (4). 

Qual  seria?  De  um  verso  tão  anódino  nada  se  pôde  inferir 
Mas  sempre  direi  que  entre  os  de  que  tratei  neste  estudo  ha 
um  de  assunto  português,  com  reflexos  no  Cancionero  Geral, 
com  a  assonáncia  -á,  que  contém  um  octónario  parecido.  E  o 
de  Inês  de  Castro,  ou  segundo  a  misteriosa  nomenclatura  cas- 
telana  de  D.  Isabel  de  Liar,  já  acima  mencionado.  A  infeliz, 
surprendida  no  seu  paço  rústico,  confessa  que  nâo  tem  ao 
perto  defensor  nenhum 

bieri  parece  que  noy  sola,      no  tengo  quien  me  guardar  (5). 


(i)     Gil  Vicente  II  26. 

(2)  Ainda  ha  diversos  outros  textos  que  começam  de  modo  semelhante.  Nas 
ubra3  do  próprio  poeta  cómico  temos  p.  ex.  Eu  m'era  dona  Isabel  (II  404)  e  Yo 
me  soy  Pêro  (afio  (ib  405).  Mas  pelo  modo  como  são  citados,  parecem  versos  sol- 
tos, inventados  ad  hoc,  sem  continuação,  e  não  cantares  tradicionaes. 

(3)  Aproveito  o  ensejo  para  chamar  a  atenção  do  leitor  para  o  fascículo  de 
Canções  do  Berço  com  algumas  das  respectivas  músicas  publicado  recentemente  por 
Leite  de  Vasconcellos  (Lisboa,  1907). 

(4)  Vid.  p.  163  da  Compilação  de  1785. 

(5)  Pr.  104. 

14 


CAROLINA   MICHAÊLI8  DE    VASCONCELLOS 


Em  outra  redacção  a  concordância  é  maior  ainda.  O  prín- 
cipe D.  Juan  Manuel,  rei  de  Ceuta  e  Tanger,  procura-a  depois 
do  desenlace  fatal,  e  encontra  o  paço  deserto, 

que  no  halló  los  porteros      que  la  solian  guardar. 

Maior!  mas  não  completa.  E  de  mais  a  mais  ha,  como  de  cos- 
tume, fórmulas  análogas  em  outros  textos:  los  que  me  kabian 
de  guardar,  no  romance  de  D.  Lambra  (1);  que  los  reinos  solta 
guardar,  no  jugralesco  de  Roldão  (2);  quê  á  <jlla  guardar  sol  ia. 
no  de  Calainos,  etc,  etc  .    8). 

O  romance  português  a  que  me  refiro,  é  histórico.  Trata 
da  victória  de  Salsete,  ganha  na  índia  em  1547  por  D.  João 
de  Castro,  e  foi  composto,  segundo  Diogo  do  Couto  (4),  por  um 
curioso.  Isto  é,  como  na  maioria  dos  casos,  por  um  anónimo 
que  nâo  ligava  grande  importância  á  sua  obra,  destinada  a 
dizer  no  momento  dado  o  que  interessava  a  toda  a  comuni- 
dade. Conio  todavia  só  conhecemos  os  cinco  octonários  con- 
servados pelo  historiador:  : 

[121]  Pelos  campos  de  Salsete  mouros  mal  feridos  vão; 
vai-lhes  dando  no  alcance  o  de  Castro  Dom  João. 
Vinte  mil  eram  por  todos, 

é  difícil  decidir,  se  é  remedo  directo  de  outro  cantar  velho, 
como  alguém  suspeitou  (5),  ou  se  apenas  segue,  como  era  de 
esperar,  o  estilo  tradicional  dos  que  tratam  de  batalhas  ou 
refregas  fronteiriças. 

Embora  avulso,  o  facto  nâo  é  indiferente  para  as  conclu- 
sões geraes  que  finalmente  passo  a  expor. 


(i)  Pr.  19,  Yo  me  estaba  en  Barbadillo. 

(2)  Pr.  187,  Dia  era  de  San  Jorge. 

(3)  Pr.  193,  Ya  cabalga  Calainos. 

(4)  Década  VI  Libro  V.  CaJ>.  X. 

(5)  T.  Braga  aponta  como  modelo  o  romance  de  Roncesvales 

En  los  campos  de  Alventosa        mataron  à  Don  Btltran. 
Vid.  Poesia  Popular  Portu°ueza  p.  415. 


ROMANCES   VELHOS  211 


III 


Notas  e  observações  complementares. 

Como  a  impressão  das  Partes  I  e  II  levasse  naturalmente 
bastante  tempo,  continuei  com  as  minhas  pesquisas  e  encon- 
trei mais  alguns  materiaes  e  indícios  que  nao  devo  omitir, 
porque  influem  nas  Conclusões  Geraes  (1). 

Ad  24  e  2ô. — Com  verdadeira  satisfação  aponto  mais 
duas  lições  oraes  do  tripartido  romance  do  Cid  e  do  rei  Búcar, 
meio-histórico,  meio-romántico,  cuja  evolução  tanto  me  in- 
teressa. 

Uma  d'elas  contém,  deturpado  mas  reconhecível,  o  verso 
importante  relativo  ao  cavalo  Babieca  e  á  égua  do  Mouro, 
cuja  paródia  suponho  haver  descoberto  no  Cancioneiro  Geral, 
mas  cujo  original  procurei  de  balde,  tanto  no  romanceiro  an- 
tigo como  nas  preciosas  derivações  tradicionaes,  conservadas 
nos  Açores,  na  Ilha  da  Madeira,  no  Algarve,  na  Catalunha  e 
em  Tanger.  Se  agora  surge  num  texto  trasmontano,  temos 
mais  uma  confirmação  do  valor  excepcional  que  na  Intro- 
dução atribuo  a  essa  mina. 

O  respeitivo  texto,  impresso  ha  pouco  tempo  no  Roman- 
ceiro do  Abade  José  Augusto  Tavares  (N.°  72)  é  de  Nozedo 
de  Cima  (concelho  de  Vinhaes)  (2).  Designá-lo  hei  comi.  O 
outro,  que  faz  parte  do  Romanceiro  inédito  de  Leite  de  Vas- 


(i)  Ha  alguns  retoques  nas  páginas  que  seguem,  facilmente  reconhecíveis  por 
meio  dos  índices. 

(2)  Vid.  Kev.  Lus.  IX,  p.  277-323  (1907).  Mencionei  esta  continuação  do  Ro- 
manceiro Trasmontano  (numerada  de  24  a  101)  diversas  vezes  em  observações  que 
acrecentei  na  revisão  das  provas,  e  por  isso  deviam  ter  a  marca  PS.  (p.  ex.  a  p 
769,  Nota  5  e  1.019).  Aproveito  a  ocasião  para  mencionar  outra  pequena  colecção 
de  romances,  também  trasmontanos,  publicados  por  Tavares  Teixeira  na  esplen- 
dida Rcista  Portugália  (I  388-390,  631  8.,  862  e  II  280,  472  s.). 


212  CAROLINA  MICHAÈLI8  DE    VASCONCBLLOS 

eoncellos,  é  de  Parada  de  Infanções,  e  diverge  bastante  (1). 
Designo-o  com  II. 

Ambos  começam  narrati vãmente: 

Bem  se  passeia  Moirito  (2)      de  calçada  em  calçada 
olhando  para  Valência      como  está  de  amuralhada  (3). 

Continuam  com  a  Lamentação  sobre  a  perda  de  Valença,  al- 
terada na  transmissão  secular,  mas  nem  por  isso  notavelmente 
inferior  á  redacção  que  estava  em  voga  nos  dias  de  Gil  Vi- 
cente entre  os  Judeus  portugueses.  Nem  mesmo  faltam  os  im- 
propérios contra  as  filhas  do  Campeador,  pelo  menos  em  I: 

cOh  Valência,  oh  Valência!      de  fogo  sejas  queimada! 

pois  quando  eras  dos  Mouros      eras  de  prata  lavrada; 

agora  [que]  sois  de  christãos,      sois  de  pedra  mal  talhada. 

Se  minha  espada  me  não  quebra,      minha  sustancia  me  não  falta,  (4) 

antes  de  vinte  e  quatro  horas      a  Mouros  serás  tornada. 

A  fliha  dei  rei  D.  Oucidres  (5)      ja  foi  minha  cautivada! 

agora  tem  a  mais  nova,      que  será  minha  namorada». 

Ou,  um  pouco  melhor,  se  bem  com  omissão  dos  versos  4-7: 

«Oh  Valência,  oh  Valência,      de  fogo  sejas  queimada! 
quando  tu  eras  dos  Mouros,      d'ouro  eras  mociçada; 
agora  que  es  de  Christãos,      nem  de  pedra  mal-picada!» 

Do  diálogo  entre  o  Mouro  e  a  filha  do  Cid,  cheio  de  curio- 


(i)  Numa  observação,  que  na  sua  qualidade  de  publicador  juntou  ao  texto  re- 
colhido pelo  Abade,  Leite  de  Vasconcellos  alude  á  variante  que  possue.  Não  con- 
tente de  me  auxiliar  na  revisão  das  provas,  pôs  depois  á  minha  disposição  essa  pro- 
metedora amostra  da  sua  colheita. 

(2)  Em  II  Mourilho.  Não  tem  nome-próprio.  Nem  tão  pouco  o  tem  a  filha  do 
Cid.  Somente  o  cavalo  e  o  conquistador  de  Valência,  transformado  todavia  em  Rei. 

(3)  Em  II  como  estaba  muralhada.  Os  dois  versos  iniciaes  correspondem  ao 
primeiro  e  quinto  do  intróito  que  se  lê  no  Cancionero  de  Romances. 

(4)  O  nome  da  espada  Tizona  que  o  Campeador  ganhou  nessa  perseguição 
do  rei  Bucar,  quadrava  admiravelmente  neste  verso;  creio  todavia  que  a  fantástica 
sustancia  substitue  apenas  lança. 

(5)  Dom  Oucidres,  em  II  Rei  Dom  Cidro,  emparelha  com  o  Rucido  da  Ilha  da 
Madeira  e  o  Dom  da  Silva  do  Algarve.  Em  outros  tempos  diriam  o  bom  Cide  ou 
slmprezmente  Ruy  Cide. 


ROMANCES    VELHOS  213 


sos  vulgarismos  em  ambas  as  lições,  nào  tenho  de  me  ocupar 
aqui.  No  Acto  III  também  é  somente  o  verso-modelo,  com- 
quanto  desfigurado,  que  reclama  a  nossa  atenção. 
A  namorada  dissera: 

A  Babeca  de  meu  pae,      ela  trepa  (\)  na  calçada 

e  o  Mouro  replica: 

Não  se  me  dá  pela  Babeca      nem  por  quem  a  cavalgava; 
se  a  Babeca  corre  muito,      o  meu  cavalo  voava  (2). 

No  texto  de  Parada  de  Infanções,  que  se  aproxima  em  di- 
versas particularidades  do  da  Ilha  da  Madeira,  o  trecho  diz, 
com  alusão  pouco  clara  ao  parentesco  dos  dois  aniraaes: 

Não  ha  cavalo  que  alcance      a  minha  egoinha  baia, 

se  não  o  cavalo  que  eu  tenho      qu'ela  d'ele  anda  prenhada, 

deturpação  que  talvez  seja  obra  de  alguma  informadora  de 
memória  deficiente,  mas  de  inventiva  fértil (3).  Em  todo  o  caso, 
ambas  transmudam  o  sexo  do  corsel  perseguido  e  d 'aquele 
em  que  ia  o  perseguidor — pela  sírnplez  razão,  creio  eu,  de  o 
vocábulo  Babeca  parecer  feminino  ao  povo  português,  exac- 
tamente como  planet a,  cometa,  tema  e  diversos  outros  em  a  (4). 
A  concluir  da  paródia  e  dos  passos  paralelos  do  Poema 
dei  Cid  e  das  Crónicas,  a  redacção  do  romance,  em  voga  no 
século  xv  na  Corte  portuguesa,  devia  ser: 

si  Babieca  bien  corria      )     ,  ,  . 

\     la  yegua  mejor  volaba. 
OU  si  el  caballo  bien  corre      ) 


(i)     Trepa  ou  trupa?  com  alusaõ  ao  estrupido  dos  cascos? 

(2)  Para  reforçar  a  nota,  ainda  se  junta  o  verso: 

Botou  por  um  vale  abaixo        não  CORRIA  que  VOAVA. 

(3)  É  fácil,  mas  ocioso,  propormos  emendas  como  se  não  o  cavalo  que  eu  mon- 
to que  d'' ele  ANDOU  prenhada. 

(4)  Nos  Açores  não  houve  transmutação  dos  sexos.  Serviram-se  de  outro 
expediente,  masculinizando  o  nome  do  cavalo  do  Cid.  Creio  que  Gabelo,nome  bí- 
blico, está  por  Babelo,  e  que  esse,  com  troca  de  sufixo,  equivale  a  Babeco  (por 
Babieca). 


274  CAROLINA  MICHAELIS  DE    VASCONCELLOS 


Se  agora,  no  romance  de  Tanger  ou  alhures,  se  encon 
trasse  variante  que  correspondesse  a 

se  não  por  Dabeca  seu  filho      que  perdi  numa  batalha, 

seria  isso  ouro  sobre  azul! 

Como  digno  de  reparo,  registo  também,  que  no  texto  de 
Parada  de  Infanções  subsiste  o  nome  do  rio  em  que  o  Mouro 
perseguido  embarcava,  falsificado  embora,  pois  o  chamam 
Guadiana,  em  vez  de  Guadalaviar. 

Ao  passar  do  Guadiana      atirou-lhe  úa  lançada; 
a  lança  ficou  no  corpo      e  o  pau  caiu  á  agua. 

Com  respeito  á  substituição  de  Valência  por  Alfama,  de 
que  ha  exemplo  no  texto  da  Ilha  da  Madeira,  estabeleçamos 
que  aquela  conquista  histórica,  cantada  em  romances  caste- 
lhanos, teve  repercussão  forte  nos  historiadores  portugueses.  (1) 
O  povo  contentou-se  aparentemente  com  a  adaptação  rudi- 
mentar do  romance  antigo  sobre  Valença  ao  caso  de  1 481 . 

Ad  41. — Por  descuido  deixei  de  registar  a  imitação  conhe- 
cida de  um  dos  romances  tardios  de  Zaide  e  Zaida. — 

Mira,  Juana,  que  te  digo      que  no  baxes  d  la  calle 

é  de  Rodriguez  Lobo,  e  anda  nas  suas  Obras  (p.  713),  com  a 
epígrafe:  Otro  contrahecho  ai  Romance  que  comiença  Mira  Zai- 
de que  te  digo. 

Ad  45. — Um  dos  provérbios  sobre  o  tema  Antes  morte  que 
deshonra  entrou  no  romance  trasmontano  do  Conde-  malfeitor 
(N.°  88  da  coleção  do  Abe  Tavares).  Ao  declarar  que  não  daria 
a  mão  de  esposo  á  romeira  por  ele  violada  na  estrada  de  San- 
tiago, proclama:  Mais  quero  morrer  com  honra  que  viver  en- 
vergonhado. 

Ad  67. — Diversas  aplicações  teve  a  fórmula  Ojos  que  nos 
(resp.  me)  vieron  ir,  proveniente  do  romance  de  Durandarte 
a  Belerma.  Neles  a  segunda  metade  dizia  nunca  nos  ou  nunca 


(i)     Vid.  Resende,  Vida  e  Feytos,  Cap.  35;  Ruy  de  Pina,  Crónica  de  D.  Alfonso 
V,  Cap.  211. 


ROMANCES   VELHOS  215 


me  veran  en  Fr  anciã  (1).  Indiquei  repetições  nas  Trovas  rae- 
dievaes  de  Duarte  de  Brito,  numa  cantiga  de  Cristóvam  Fal- 
cão (ou  algum  camarada  seu),  e  num  romance  tradicional  de 
Gaiferos  e  Melisendra:  sempre  com  a  continuação  nunca  nos 
veran  voltar.  Nessa  mesma  redacção,  com  a  consonância  -a, 
serve  de  remate  a  uma  das  numerosas  versões  do  canto  ro- 
mântico de  Claros  (ou  Carlos)  de  Montalban,  cantadas  em 
Portugal.  O  N.°  60  do  Romanceiro  Trasmontano  termina  fa- 
lando da  salvação  de  Claralinda  das  mãos  da  justiça  pelo 
Conde: 

Pegara-lhe  pela  mão,      pousava-a  no  cavalgar. 
Olhos  que  a  viram  ir      não-na  viram  ca  voltar. 

Esta  concordância  na  rima  suscita  naturalmente  a  suposição 
que  o  provérbio  (2)  fizesse  parte  de  um  romance  velho  des- 
conhecido em  -ar,  relativo  quer  a  Gaiferos,  quer  ao  Conde 
Claros,  quer  a  Durandarte. 

Outras  duas  citações  antigas  e  por  isso  preciosas,  encon- 
tram-se  no  Cancioneiro  Geral,  nas  mesmas  condições  em  que 
assinalei  uma  na  comedia  Ulysipo,  isto  é  interrompida  no 
meio,  como  foi  e  é  costume  proceder  com  ditados  muito  co- 
nhecidos. Trata-se  de  um  lado  de  uns  versinhos  de  ocasião,  do 
próprio  Garcia  de  Resende,  escritas  quando  entre  1511  e  lolti 
ele  ia  coleccionando  materiaes  para  o  seu  Cancioneiro;  e  pela 
outra  parte  de  rimas  mais  antigas  (3)  do  estribei ro-mór  de 
D.  João  II. 

Eis  a  Esparsa  era  que  o  compilador  insta  com  ura  amigo 
para  este  lhe  trazer  de  Alcobaça  um  florilégio  de  máo,  de 
certo  frade.  E  ameaça-o,  rindo,  de  quebra  de  relações,  se  es- 
quecesse a  encomenda: 


(i)  Na  Tercera  Parte  da  Silva  (Zaragoza  1550).  Durandarte  fala  de  si  só,  na 
i.a  p.  s.  —  Vid.  Antologia  IX,  324). 

(2)  Chamo-o  assim  pelo  valor  adquirido,  e  não  por  conhecer  algum  prolóquio 
popular  de  sentido  igual  e  forma  semelhante,  que  por  ventura  fosse  fonte  comum 
de  romancistas  e  trovistas. 

(3)  É  provável,  fossem  redigidos  em  vida  de  D.  João  II.  Em  todo  o  caso.  sâo 
anteriores  a  1499. 


210  CAROLINA   MICHAÈLIS  DE   VASCONCELLOS 


Decoray  polo  caminho 

té  cheguardes  ho  moesteiro 

qu'aa  de  vir  o  Cançioneyro 

do  abade  frey  Martinho. 

E  8'esperardes  de  vir 

sem  m'o  mandardes  trazer, 

podeis  crer 

que  quem  tinheis  em  poder 

para  sempre  vos  servir, 

olhos  que  o  viram  ir...  (1). 

Pedro  Homem,  pela  sua  vez,  aplica  o  verso  volante  a  um 
mensajeiro,  tao  inopinadamente  desaparecido  (morrendo,  ao 
que  parece)  (2)  que  não  chegou  a  comunicar-lhe  as  desejadas 
novas  do  amigo,  futuro  camareiro-mór  de  D.  Manuel,  e  me- 
nos ainda  a  enearregar-se  da  resposta.  E  diz: 

Luis  de  Santa  Maria 
chegou  em  ora  tão  forte 
que  lhe  ocupou  a  morte 
sua  pousentadaria. 
Nam  pude  d'ele  fruir 
soomente  novas  de  vós! 
Dizem  que  é  longe  de  nós! 
Olhos  que  o  vyram  hyr., . 

A  integrante  seria  no  primeiro  caso  Nunca  mais  ô  querem  ver, 
e  no  segundo  Nunca  mais  o  hão  de  ver;  ou  coisa  semelhante. 
Repare-se  em  que  ambas  as  vezes  (3)  se  apresenta  o  verso 
cortado,  em  português,  e  transformado,  segundo  as  exigên- 
cias do  momento. 

Ad  70. — Cheguei  a  descobrir  o  adágio,  em  castelhano,  na 


( i )  Vol.  III,  p.  634,  f.  223  «  :  Trovas  suas  a  Dioguo  de  Melo  que partiya  pêra  Al- 
cobaça e  avyalhe  de  trazer  de  laa  hum  Cançioneyro  d^um  abade  que  chamam  frey 
Martinho. 

(2)  Se  não  fòr  assim,  devemos  imaginar  que  houve  óbitos  nas  casas  onde  con- 
tava apear-se. 

(3)  Vol.  I,  p.  460,  f.  59.  e  \De  Pedr'Omen  a  Dom  Joam  Manuel. — Na  estrofe  ini- 
cial da  correspondência  versificada,  Pedro  Homem,  talvez  novato  na  arte  de  trovar, 
invoca  rei  Dom  Denis  com  licença  d'Aretusa.  Era  portanto  sabedor  da  veia  feliz  do 
monarca-trovador,  conforme  já  expliquei  no  Cancioneiro  da  Ajuda. 


ROMANCES    VELHOS  217 


forma  concisa  Antes  envidia  que  mancilla.  Gomo  todavia  não 
o  posso  documentar  senão  com  textos  de  1600,  como  os  Diá- 
logos Apologaes,  é  possível  que  ele  seja  mera  redução  do 
verso  de  romance,  e  obra  individual  do  grande  D.  Francisco 
Manuel  de  Melo  (1). 

Ad  71. — Mais  um  exemplo  da  popularidade  do  ditado 

que  os  erros  por  amores      dinos  são  de  perdoar! 

Numas  Trovas  inspiradas  por  uma  aventura  de  palácio,  no 
ano  de  1546  ou  1547,  é  que  um  anónimo  o  empregou  em  for- 
ma, levemente  diversa  da  que  figura  no  romance  do  Conde 
Claros. 

A  aventura  fora  trágica.  Um  fidalgo  entrara  de  noite  nos 
aposentos  de  D.  Juliana  de  Lara,  filha  do  Marquês  de  Villa- 
real.  Por  esse  crime  foi  sentenciado  á  morte.  A  sentença,  quer 
executada,  quer  não,  foi  pelos  poetas  da  corte  considerada 
iníqua  e  provocou  censuras,  em  prosa  e  verso.  Parece  que  o 
temerário  era  D.  João  Lobo,  filho  do  3.°  Barão  de  Alvito, 
D.  Rodrigo  (2).  Por  uma  carta  que  este  dirigiu  a  D.  João  III 
vê-se,  pelo  menos  que,  sem  grave  culpa,  estivera  preso  no 
Castelo  de  Soure,  por  queixas  de  Marquês,  relativas  aos  amo- 
res de  D.  Juliana  com  seu  filho  (3). Nas  Trovas  á  sentença  dada 
contra  um  Fidalgo  (4)  diz-se  na  2.a  estrofe: 

que  ainda  que  era  feio  o  feito 
era  fermosa  a  rezâo, 
e  devera  de  lembrar 
ao  senhor  e  aos  doutores 
que.  os  erros  por  amores 
erros  são  de  perdoar. 


(i)  Vertido  para  português  fica  sem  rima.  De  mais  a  mais  mazela  nunca  teve 
aqui  nem  tem  o  sentido  figurado  de  lástima,  compaixão,  que  antigamente  davam 
em  Castela  a  mancilla. 

(2)  Vid.  Th.  Braga,  Camões,  Ed.  1907  p.  364,  onde  se  citam  uns  dizeres  alusi- 
vos ao  caso,  tirados  da  Arte  de  Galanteria. 

(3)  Vid.  Braamcamp-Freire,  Brasões  de  Cintra,  Vol.  II,  p.  457. 

(4)  Foram  publicadas  por  A.  F.  Barata  num  Cancioneiro  Geral,  a  que  se  deu  o 
sub-titulo  de  continuação  ao  de  Kesende.  (Évora,  1902.)  Vid.  p.  32. 


218  CAROLINA  MICHAELIS  DE   VASCONCELLOS 


A  estrofe  3.R  remata  igualmente  com  uma  alusão  ao  ro- 
mance: 

mais  queria  ser  o  Conde 

que  el-rey  que  o  manda  matar. 

Não  consta  pelo  menos  que  D.  João  Lobo  fosse  Conde  como 
o  de  Montalban. 

Ad  90. — O  lindo  cantar  de  Maio,  entoado  pelo  Prisionei- 
ro, tradicional  em  Madrid,  na  Catalunha  e  na  Andaluzia,  (1) 
subsiste  também  em  Tras-os-Montes,  em  lição  desfigurada  nó 
princípio  e  alterada  no  fim,  mas  ainda  assim  muito  parecida 
á  do  Cancionero  General: 

Manhanas  de  S.  João      pelas  manhãs  do  alvor 

todos  os  criados  vão      visitar  o  seu  senhor. 

Só  eu  sou  um  triste  coitado      que  aqui  estou  nesta  prisão; 

não  sei  quando  é  [de]  dia,      nem  quando  ardia  o  sol; 

se  não  são  tre3  passarinhos      que  me  cantam  no  alvor. 

Uma  era  a  calandrínha,      outra  era  o  rouxinol, 

outra  era  o  pintasirgo      que  inda  canta  melhor  (2). 

Ad  91.— Ahí  mesmo  se  conserva  também  uma  contribuição 
ao  tema  tão  propagado  do  Mal  de  amores  e  Enterro  fora  do  sa- 
grado. No  Romance  do  Conde  (3)  o  personagem  mal-feitor 
junta  ao  ditado  cavalheiresco  sobre  a  honra,  que  já  tresladei, 
o  testamento  lírico  dos  apaixonados: 

Nem  por  mim  toquen  [os]  sinos      nem  subam  ao  campanário; 
nem  me  enterrem  na  igreja,      nem  tão  pouco  em  sagrado; 
enterrem-me  naquele  vale      onde  pasta  o  meu  cavalo;  (sic) 
deixem-me  a  cabeça  de  fora      e  o  meu  cabelo  entrançado 
que  digam  os  passageiros:       «Deus  te  perdoe,  desgraçado!» 
nem  morreu  de  garrotilho      nem  tão  pouco  constipado; 
morrera  de  mal  de  amores,      que  é  um  mal  mui  desgraçado  (4) 

Ad  95. — Além  da  Glosa  de  Garcia  de  Resende  e  das  outras 
que  mencionei,  ha  uma  tardia  imitação,  de  André  Falcão  de 
Resende,  bom  humanista  e  amigo  sincero  de  Camões.   Este 


(i)  Segundo  D.  Maria  Goyri  N.°  22. 

(2)  Romanceiro  Trastnontano  N.°  50. 

(3)  Ib.  N.°  88. 

(4)  Erro  por:  desesperado? 


ROMANCES   VELHOS  219 


Português  êsceveu-a  aparentemente  nos  desalentos  da  sua 
triste  velhice  (1).  Por  estarem  inéditas  treslado-as  aqui  <-l 
Como  se  vê,  as  sentidas  quadras  são  artísticas,  e  tem  consoan- 
tes perfeitas,  mas  contínuas,  de  sorte  que  merecem  o  título  de 
romance  (3). 

Tiempo  bueno,  tiempo  bueno 

r;quién  te  me  llevó  de  mi? 

Voló  el  bien  raio  y  ageno 

y  el  que  tenía  perdi! 
5  Após  un  dia  sereno, 

oh  quantos  obscuros  vi! 

En  Abril  de  flores  lleno 

y  claro  cielo  nasci, 

y  mi  fresca  edad  qual  heno 
10  tan  presto  seeó-se  ansi, 

que  dei  cabello  d'oro  (?)  hebeno 
'   en  plata  y  nieve  bolvi: 

y  el  buen  fruto  dulce  y  ameno 

que  ya  sazonado  cogi, 
15  buelto  en  amargo  veneno 

en  llanto  y  dolor  perdi! 

Si  no  pongo  a  vicios  freno 

sin  freno  corren  atrás  mi; 

y  si  no  los  encadeno, 
20  preso  corno  mereci.  (?) 

Cerca  estando  dei  septeno 

dei  mal  en  que  ejvejeci 

con  el  cuerpo  terra  pleno 

caeré,  pues  no  subi, 
25  sob  la  tierra  hombre  terreno 

que  el  cielo  desmereci, 

mas  ya  me  acoja  en  bu  seno 

aquel  sumo  bien;  y  en  si 

que  es  de  tanta  piedad  lleno 


(i)     Faleceu  em  1599. 

(2)  Garcia  Perez,  que  publicou  alguns  textos  castelhanos  de  A.  Falcão  de  Re- 
sende no  seu  Catalogo  Razonado,  p.  160-205,  e  entre  eles  uns  cinco  extensos  ro- 
mances, de  que  inda  falarei,  omitiu  as  Trovas,  não  sei  porque. — Devo  copia  ao 
Exmo.  Sr.  Dr.  Mendes  dos  Remédios,  a  cuja  amabilidade  nunca  recorro  em  vao, 
quando  preciso  de  esclarescimentos  sobre  livros  e  manuscritos  conservados  na 
Biblioteca  da  Universidade,  de  que  é  digníssimo  chefe. 

(3)  Contrafazendo  este  romance  antigo  é  a  epígrafe  manuscrita. 


220  CAROLINA  MICHAÉLIS  DE   VASCONCELLOS 


30  que  inorir  quiso  por  mi, 

buelva  con  su  gracia  en  bueno 
mi  mal-bivir  basta  aqui. 
Ame  yo  a  el  solo  bueno 
cuyo  amor  es  sin  fin  (1). 


* 
*  * 


P.  S.  Ad  104,  Nota  11.  No  Cancioneiro  de  Villa  Real,  pu- 
blicado por  A.  Gomez  Pereira  na  Revista  Lusitana  (Vol.  ?y 
p.  199),  ha  uma  quadra  (N°  1044)  que  diz: 

Coitadinho  de  quem  morre 
se  ó  paraíso  não  vae: 
quem  cá  fica  logo  come, 
logo  a  paixão  se  lhe  vae, 

* 
*  * 

[122]  Continuo  com  uma  referência  antiga  mas  vaga  a  ro- 
mances em  geral, contida  no  Preâmbulo  de  Resende.  Já  a  men- 
cionei no  §  28,  mas  sem  entrar  nas  explicações  precisas.  Em 


(i)  O  manuscrito  conimbricense, apógrafo de  princípios  do  século  xvn,está  bas- 
tante danificado,  especialmente  nas  margens.  Algumas  palavras  foram  completadas 
pelo  meu  solícito  informador.  —  O  copista  antigo  cometeu  seguramente  mais  de  um 
erro. Emendei  apenas  os  lusismos  gráficos  e  introduzi  a  pontuação  necessária.  Creio 
que  os  versos  20  a  26  estão  deturpados:  variantes,  metidas  entre  linhas,  entrariam 
no  texto  em  lugares  trocados.  Ignoro  todavia,  se  o  poeta  quis  que  se  lesse: 

y  si  no  los  encadeno 

el  cielo  desmereci. 

Cerca  estando  dei  septeno  (se.  decénio) 

dei  mal  en  que  envejeci, 

sob  la  tierra  hombre  terreno, 

caeré,  pues  no  subi? 
ou  símplezmente: 

y  si  no  los  encadeno 

nel  mal  en  que  envejeci 

sob  la  tieira,  terra  pleno, 

caeré,  pues  no  subi? 
Eis  as  palavras  cuja  grafia  rectifiquei: 2  quiem—leuó—  3  biem  sano — 4  tenhia  —  5  hum 
7  Aòlir  —  \ò  Tam — 12  em  prata — 13  buem  — 15  bueto  que—  17  sino  puse  —  30  morrir 
42  A  rimayf»  é  um  lu sismo  típico. 


H0MANCE8   V6J-H0S  221 


prosa,  cheia  de  bom  senso  e  patriótico  sentir,  o  compilador 
do  Cancioneiro  censura  o  pernicioso  descuido  dos  Portugueses 
que  como  idealistas  perduUrios  sabem  fazer  e  não  dizer  (1). 
E  depois  de  aludir  aos  descobrimentos  marítimos  e  conquistas 
na  Africa  e  Ásia  como  a  feitos  não  divulgados  como  foram,  se 
gente  d' outra  nação  os  fizera,  passa  âs  trovas  de  folgar  e  gen- 
tilezas, por  ele  juntadas  a  custo  (2),  para  afirmar  que  tam- 
bém se  teriam  perdido  sem  a  sua  intervenção. 

E  assim  muytos  emperadores,  reys  e  pessoas  de  memorias,  poios  ry- 
mançes  <■  trovas  sabemos  suas  estarias: 

Se  o  prólogo  inteiro,  que  condiz  com  muitas  outras  queixas, 
coevas  e  ulteriores,  sobre  a  falta  de  um  Homero  ou  Vergilio  lu- 
sitano, e  a  necessidade  do  seu  advento  (3),  atesta  por  um  lado 
a  existência  de  poemas  artísticos  e  cantares  dignos  de  nota 
sobre  feitos  heróicos,  e  cousas  acontecidas  íiacionaes,  a  parte 
tresladada  é  testemunho,  pelo  outro  lado,  de  que  Garcia  de 
Resende  conhecia  romances  sobre  temas  não-portugueses,quer 
fossem  os  do  Cid  e  Bernardo  dei  Cárpio,  quer  os  de  Carlos 
Magno  e  dos  paladinos  Roldão,  Montesinos,  Durandarte,Guari- 
nos,  Gaiferos,  etc.  Além  d'esses  indeterminados,  históricos,  e 
fora  dos  problemáticos  Eu  me  era  moça  menina  e  Pelos  campos 
de  Mondego  (N°  28  e  29),  cujo  eco  os  príncipes  da  crítica  pe- 
ninsular julgaram  reconhecer  nas  Trovas  de  D.  Inês,  por  ele 
compostas,  sabemos  que  (rareia  de  Resende  conhecia  Oh  Be- 
lema  (N°  67),  o  texto  lírico  La  hella  mal  maridada  (N°  96),  e 
Tiempo  bueno.  E  com  certeza  não  iremos  longe  de  mais,  admi- 
tindo que  estava  familiarizado,  não  só  com  todos  aqueles  ro- 
mances que  os  poetas  palacianos,  seus  amigos,  cantavam,  cita- 
vam e  sabiam  de  cór,  mas  também  com  todos  os  impressos  no 


(i)  A  crítica  moderna  pôde  e  deve  ampliar  esta  justa  censura,  lamentando  que 
tanta  vez  dissessem  sem  escrever,  escrevessem  sem  publicar,  e  publicassem  sem 
pôr  á  venda. 

(2)  Ha  Trovas  em  que  o  coleccionador  pede  aos  cortesãos  assentem  por  es- 
crito os  seus  improvisos,  e  mandem  treslado. 

(3)  A  immortalidade  que  só  a  poesia  dá  aos  heroes  é  um  lugar-comum,  dos 
melhores  todavia,  que  os  autores  de  novelas  de  cavalaria,  epopeias  e  crónicas 
costumam  apregoar  em  Prólogos  e  Dedicatórias.  * 


222  CAROLINA  MICHAÈLIS  DE    VASCONCELLOS 

Cancionero  General  de  Castela,  que  lhe  servira  de  modelo,  no 
de  Enchia  e  em  Cancioneiros  Musicaes  manuscritos,  sem  falar 
nos  populares  que  ouviria  nas  suas  idas  ao  reino  vizinho. 

As  afirmações  opostas  dos  que,  antes  de  mim,  se  ocuparam 
do  assunto,  e  procuraram  de  balde  vestígios  de  romances  ve- 
lhos no  Cancioneiro  de  Resende,  são  erróneas. 

[123]  De  balde  procuraram  também  o  vocábulo  roman- 
ce, encontrando  apenas  rimance ,  nos  três  exemplos  regista- 
dos (1). 

Com  relação  a  esta  fornia  divergente  direi  que  me  parece 
dejustiça  ligar-lhe  importância,  como  a  um  produto  da  etimo- 
iogi&)popular  (2),  anterior  a  1500.  Tanto  mais  assim  porque  ri- 
mance, remance  de  segada,  se  conservou  em  certos  lugares  de 
Tras-os-Montes  (3),  como  título  de  narrativas  tradiciones  em 
versos  octónarios  de  rima  contínua.  E  também  porque  no  sé- 
culo XV,  tempo  de  eclosão  dos  cantares  épico-líricos  peninsu- 
lares, houve,  ao  par  de  romanço  (4)  na  acepção  de  língua  vulgar, 
chã,  símplez,  comprensível  a  pessoas  sem  erudição,  a  forma 
paralela  rimanço.  Quem  usou  d'ela  foi  o  rei  D.  Duarte  (5).  Na 
linguagem  literária  nem  um  nem  outra  permaneceu  todavia 
(6).   Mesmo  os  exemplos  quinhentistas  são  raros  (7).  Aos  do 


(i)  Vol.  I  p.  XXX  no  Preâmbulo;  vol.  Ill  584  duas  vezes,  como  título  de  Tiem- 
po  bueno. 

(2)  Leite  de  Vasconcellos  já  tratou  do  termo,  na  Introdução  do  seu  Roman- 
ceiro. A  vogal  pretónica  de  romance  (lat.  romanicè),  reduzida  em  boca  portuguesa  a 
u,  passou  na  pronúncia  do  vulgo  a  e  surdo,  vogal  que  depois  foi  substituída  por 
i,  por  influencia  de  rima  —rimar. 

(3)  Campo  de  Víboras  e  Duas  Igrejas,  segundo  Leite  de  Vasconcellos. —No 
Alemtejo  também  se  diz  remance  (vid.  Rev.  Lus.  X,  240). 

(4)  Substantivo  verbal  de  romançai  rimançar. 

(5)  No  Leal  Conselheiro  Cap.  39;  Aquestas  cousas  susos criptas...  screvy  em  sim- 
prez  rimanço  por  se  melhor  poderem  reteer.-Sò  por  descuido  T.  Braga  lhe  atribuiu  o 
significado  de  composição  rimada,  no  Archipelago  Açoriano,  p  IX. 

(6)  Modernamente  rimance  tornou  a  estar  em  voga  entre  os  poetas.  Os  que 
se  prezam  de  patriotas  de  bom  saber  (moços  lusíadas,  como  disse  um  d'eles)  ser- 
vein-se  do  nome  restrictamente  nacional,  deixando  o  que  é  comum  a  toda  a  pe 
nínsula  E  antes  isso,  mil  vezes,  do  que  a  introdução  do  estrangeirismo  Roman- 
za,  que  outros  advogam. 

(7)  De  passagem  assentarei  que  na  Diana  de  Montemor  (ou  antes  na  novela 


ROMANCES   VELHOS  223 


Cancioneiro  posso  juntar  apenas  dois  significativos,  de  João  de 
Barros,  cujo  interesse  pelo  género  já  documentei,  citando 
o  trecho  da  Gramática  de  1536  em  que,  tratando  do  e  pa- 
ragógico,  diz  como  se  faz  nos  Rimances  antigos,  que  por  fa- 
zerem consoante  diziam:  os  que  me  soem  guardare,  por  guar- 
dar (1). 

Falando  de  uma  cantiga  histórica,  composta  na  Abássia 
do  Preste  João,  entre  1515  e  1520,  relativa  a  uma  desastrosa 
batalha  perto  de  Zeila,  preludiada  por  um  desafio  entre  o  Ca- 
pitão Mouro  Mahamed  e  um  ex-  frade  peninsular,  dizia  nas 
Décadas: 

Do  qual  caso  se  fez  hurna  cantiga  (ao  modo  como  acerca  de  nós  se  can- 
tam os  rimances  de  cousas  acontecidas)  que  os  nossos  ouviram  cantar  na 
corte  do  Preste  d'ahi  a  dous  annos  (2). 

[124j  Mais  feliz  do  que  T.  Braga  e  Menéndez  y  Pelayo 
encontrei  um  passo  no  Cancioneiro  em  que  positivamente  ocor- 
re a  forma  romance,  conforme  também  já  deixei  indicado. 
Único  por  ora,  é  todavia  tão  bom,  que,  sendo  datável  com 
exactidão,  atesta  que  na  corte  de  D.  João  II,  mancebos  na- 
morados de  Portugal  tinham  o  costume  de  cantar  romances. 
Isto  é,  entre  1481  e  1496. 

Abrindo  o  Vol.  Ill  a  p.  358,  o  leitor  encara  com  umas  Tro- 
cas a  modo  de  carta:  De  João  da  Silveira,  a  Pêro  Moniz  e  a 
D.  Garcia  d' Alboquerque  (quando  foram  com  D.  João  de  Sou- 
sa a  Castela,  que  foy  embaixador)  do  que  lhes  havia  ^acon- 
tecer. í'3)  Aos  dois  fidalgos,  moços  tão  apaixonados  que  saíam 
descontentes  de  ao  pé  das  suas  damas,  João  da  Silveira  pre- 
diz, adevinhando,  quaes  demonstrações  da  sua  sentimentalida- 
de saudosa  haviam  de  dar  duranta  a  jornada;  a  saber  suspiros, 


intercalada  de  Abindarraez  e  Jarifa),   romance  é  tauibem  empregado,  como    equi- 
valente de  linguagem  vulgar  (com  relação  á  cantiga  do  Mouro:  Em  Cartama  me  he 
criado)  pela  símplez  razão  de  os  Castelhanos   não  possuírem   senão   essa  forma 
única  para  as  diversas  acepções  da  palavra, 
(i)     Sob  N.°  120. 

(2)  Década  III,  Livro  I,  Cap.  5. 

(3)  F.  i88f. 


224  CAROLINA  MICHAÊLIS  DE   VA8C0NCELL08 


falas  frautadas,  passeios  solitários  era  noites  de  luar,  e  final- 
mente cantar  romance: 

Mais  am  de  cantar  rromançe 

em  que  cuidam  que  i 'entendem  (1). 

Seguramente,  não  entoariam  romances  históricos  de  em- 
peradores,  reis  e  pessoas  de  memória.  Mas  tão  pouco  é  neces- 
sidade que  escolhessem  actualidades  alegórico-sentimentaea 
como  os  romances  líricos  de  Badajoz,  Enchia,  Cardona,  ou 
dos  seus  conterrâneos  Gil  Vicente  e  Garcia  de  Resende.  Na 
Celestina  (c.  1499),  Semprónio  canta  e  tange  Mira  Nero  de 
Tarpeya  (2),  a  pedido  do  apaixonado  Calisto  que  reclamara  a 
mais  triste  canção  conhecida. 

A  aludida  embaixada  realizou-se  logo  depois  de  Cristóvam 
Colombo  haver  entrado  no  porto  de  Lisboa,  de  regresso  da 
memorável  expedição  ás  Antilhas  (3).  Resolvido  a  entender- 
se  sem  demora  com  os  Reis  Católicos  a  respeito  da  demarca- 
ção das  conquistas  no  Oceano,  o  monarca  português  deu  ins- 
truções tanto  a  Ruy  de  Sousa  (veterano  em  missões  diplomá- 
ticas e  poeta  palaciano,  bem  se  vê)  como  a  seu  filho  D.  João 
que  já  o  havia  acompanhado  mais  de  uma  vez  a  Castela, 
onde  era  pessoa  gratíssima.  Com  muy  honrada  companhia 
abalaram  em  Março  de  1494.  Entrevistaram-se  com  os  reis 
em  Medina  dei  Campo,  Arévalo  e  Tordesilhas,  onde  a  7  Ju- 
nho o  histórico  tratado  de  demarcação  foi  assinado. 


[125]  Passando  a  materiaes  colhidos  fora  do  Cancioneiro, 
embora  também  se  refiram  a  Poetas  Palacianos,  apresento 
mais  uma  anecdota  histórica,  proveniente  da  mesma  fonte  ar- 
quivada de  onde  saiu  a  dos  Xaboneros  (4).  Nela,  figura  em  cir- 


(1)  Na  impressão  de  1516  (e  na  de  1846)  ha  Cuidem. 

(2)  Emperador  também! 

(3)  Vid.  Visconde  de  Santarém,  Cuadro   Elementar,    392  s;    e    Vida  e  Eeytus, 
cap.  167  s. 

(4)  Memória  dos  Ditos  e  Sentenças  de  A'eis:  MS.    N.°    1126   e    1127  Torre  do 
Tombo.  Aproveitada  por  T.  Braga  na  Poesia  Popular  Portuguesa,  p.  2,g  e  369. 


ROMANCES  VELHOS  225 


cunstáncias  cuja  autenticidade  se  pôde  controlar,  outro  ex- 
patriado português,  residente  na  Corte  castelhana. 

«Estando  cl  Rey  D.  Fernando  huma  sesta  ouvindo  música, 
cantou-lhc  o  seu  músico  um  romance,  a  letra  do  qual  continha 
o  vencimento  que  se  houvera  contra  el  Rey  D.  Afonso.  E  de- 
pois de  acabado,  preguntou  el  Rey  a  Fernão  da  Silveira:  que 
lhe  parecia?  E  podendo  mais  com  ele  a  natureza  de  Português 
que  o  ódio  particular  que  tinha  a  el  Rey  D.  João,  respon- 
deu: «Senhor,  muito  bem  está  o  Romance  do  pay;  mas  faça- 
rae  V.  A.  agora  a  mercê  que  mande  cantar  o  Vilancete  do 
filho». 

Escuso  memorar  as  peripécias  da  batalha  em  que  el-rci 
D.  Afonso  foi  vencido,  e  o  Príncipe  D.  João  saiu  vencedor, 
tão  decantadas  sâo  (1).  Mas,  por  excepção,  darei  aqui  alguns 
traços  biográficos  de  Fernão  da  Silveira  que  deviam  seguir 
mais  abaixo,  porque  sem  eles  a  anecdota  não  se  compren- 
de.  O  rancor  ao  Príncipe  Perfeito  é  indício  seguro  para  a 
sua  identificação.  Não  se  trata  do  personagem  notável  conhe- 
cido como  Coudel-mór  e  Regedor,  tão  íntegro  magistrado  que 
mereceu  da  severidade  de  D.  João  II  o  honroso  apodo  de 
Bom  (2).  O  expatriado  era  filho  de  outro  benemérito  magistra- 
do e  diplomata:  o  Doutor  João  Fernandez  da  Silveira,  escri- 
vão da  puridade  de  D.  Afonso  V,  transformado  em  D.  João  da 
Silveira  (1480),  um  lustro  depois  de  o  monarca  o  haver  elevado 
a  1 .°  Barão  de  Alvito  (em  1475).  O  posto  de  confiança  de  escri- 
vão particular  em  que  Fernão  era  sucessor  do  pae,  devia-o  a 


(i)  Vid.  p.  ex.  Resende,  Vida  e  Feytos  cap.  56  e  154;  Góes,  Cltronica  doPiin- 
cipe,  cap.  78.  Claro  está  que  as  alusões  a  Toro  e  Çamora  são  tão  frequentes  em  am- 
bas as  literaturas  como  as  relativas  a  Aljubarrota.  As  obras  de  arte,  entre  sérias  e 
burlescas  ou  satíricas,  suscitadas  pela  batalha  de  Toro,  reclamam  um  artigo  que 
talvez  escreverei  algum  dia.  Uma  das  mais  curiosas  é  a  Comédia  Antónia  Garcia  de 
Tirso  de  Molina,  cuja  figura  principal  (mulherona  de  forças  gigantescas  e  ânimo 
varonil  como  as  serranas  do  Arcipreste)  foi  ideada  para  irmanar  com  a  Forneira  de 
Aljubarrota,  no  mesmo  sentido  em  que  a  acção  de  Toro  irmana  com  a  de  Aljuba- 
rrota, contrabalançando-a. 

(2)  O  Coudel-mór  era  filho  do  rico-homem  Nuno  Martins  da  Silveira.  Fidalgo 
da  casa  do  Infante  D.  Fernando  (pae  de  D.  Manuel)  e  Senhor  das  Sarzedas  e  de 
Sovereira-Fermosa,  fora  nomeado  Coudel-mór  por  carta  de  1454.  Substituído 
nesse  cargo,  no  fim  da  vida,  pelo  filho  primogénito,  Francisco,  passou  a  ser  Rege- 

U 


226  CAROLINA  MICHAÉLIS  DE  VA8C0NCELL08 

serviços  pessoaes,  prestados,  leal  e  valorosamente,  na  tomada 
de  Arzila,  era  Tanger,  e  na  acção  de  Toro  (1).  Afeiçoado  e  li- 
gado aos  Braganças,  entrou  coratudo,  por  motivos  que  se  ig- 
noram, na  conspiração  do  Duque  de  Viseu  (1484).  Por  isso  teve 
de  fugir  disfarçado  para  Castela,  onde  se  conservou  durante 
anos.  A  requerimento  do  Justiceiro  português  foi  finalmente 
desterrado  da  península.  Perseguido  por  ordem  sua,  foi  morto 
a  ferro  na  cidade  de  Avinhão,  a  8  de  Dezembro,  de  1480.  Se- 
gundo os  Cronistas,  também  este  Fernão  da  Silveira  era  ho- 
mem de  muito  preço  e  de  qualidades  taes  que  o  próprio  rei 
que  castigava  a  sua  traição,  gabava  a  sua  hombridade  (2) . 
Anteriormente,  já  estivera  em  Castela,  em  companhia  do 
Duque  D.  Diogo,  como  se  infere  d'uns  versos  seus  de  que  logo 
terei  de  falar. 

O  caso  contado  passou-se  portanto  entre  1482  e  1489. 

O  romance  sobre  a  batalha  de  Toro  não  subsiste.  Tanto  a  le- 
tra como  a  música  desapareceu  (3).  Mas  se  o  Vilancete  por 
deshecha,  a  que  o  Português  alude  na  sua  resposta,  não  era  fic- 
tício (como  presumo),  o  romance  tinha  feitio  áulico.  Vilancetes 
ou  Villancicos  por  deshecha,  postiço  acrescento  lírico,  que  se 


dor  das  Justiças.  Faleceu  em  1493. — Em  1490  ainda  fora  a  Castela  como  embai- 
xador, a  tratar  o  casamento  do  Príncipe  D.  Afonso.  Nas  Festas  de  Évora  foi  um 
dos  Juizes  das  Justas.  — Vid.  Braamcamp-Freire,  Brasões  de  Cintra,  II  390  e  III 
194,  e  Sepulturas  do  Espinheiro,  p.  14  e  52;  Caet.  de  Sousa,  Hist.  Geneal.  III  128; 
Visconde  de  Santarém,  Quadro  I, passim. — PS.  Ha  um  terceiro  Fernão  da  Silva, 
filho  e  neto  dos  dois  Coudeis-móres,  poeta  também.  A  seu  respeito,  veja-se  Braam- 
camp-Freire, A  Gente  do  Cancioneiro,  na  Rev.  Lus.,  X  p.  297. 

(1)  Vid.  Góes,  C /irónica  do  Príncipe,'  e  Caet.  de  Sousa,  Hist.  Geneal.  XII  442. 

(2)  Resende,  Vida  e  Feytos,  cap.  52,  54,  56;  Ruy  de  Pina,  Crónica  de  D.  João  Ih 
cap.  18. 

(3)  Procurèi-as  de  balde  no  Cancionero  Musical,  onde  era  o  seu  lugar,  ao  lado 
dos  romances  relativos  á  tomada  de  Albuquerque  (1480);  Setenil  (1484);  Ronda 
(1485);  Baza  (1489);  Granada  (1486,  1489  e  1492);  isto  é,  os  números  321,  332,  331, 
328,  330,  327,  315. — O  único  romance  sobre  a  batalha  de  Toro  que  conheço,  é 
erudito,  e  muito  posterior.  E'  o  que  começa  En  esa  ciudad  de  Toro,  grande  turba- 
ciôn  habla.  (N.°   1024  de  Duran,  onde  na  epígrafe  se  deve  ler:  yuan   \_II  y  Al- 

fonso~\  V.)  —  Obra  d'aquele  Alonso  de  Fuentes  que  no  seu  Libro  de  los  Cuarenta 
Cantos  (1550)  iniciou  o  regresso  ao  estilo  popular  e  a  assuntos  de  historia  pátria 
e  estrangeira. 


ROMANCES   VELHOS  227 


juntava  ao  recitativo  dos  romances  velhos,  provavelmente  por 
instigação  dos  compositores  musicaes,  estavam  em  voga  por 
voltas  de  1500  a  ponto  tal(l)que  a  locução  responder  a  um  ro- 
mance com  um  vilhancico  ou  rematar  um  romance  com  um  vi- 
llancico,  para  indicar  um  contraste  evidente  entre  duas  coisas 
caprichosamente  juxtapostas  ou  encarreiradas,  se  tornou  pro- 
verbial (2). 

* 


[126]  Agora  outra  série  de  provas  da  familiaridade  dos 
Portugueses  com  romances.  Com  relação  a  textos  já  então  co- 
rrentes entre  o  povo,  em  linguagem,  como  as  redigidas  por  Bal- 
tasar Díaz,  chamarei  a  atenção  apenas  para  uma  única  e 
vaga  referência,  contida  numa  obra  quinhentista.  É  Jorge  Fe- 
rreira de  Vasconcellos  que  aplica  a  expressão  Bella  Infan- 
tinha  a  uma  donzela  (3),  evocando  uma  figura  novelesca,  por 
ventura  já  então  nacionalizada,  pelo  próprio  cego  da  Madeira, 
ou  algum  camarada  seu.  Não  sei  dizer,  porém,  se  o  autor  da 
Aulegrafia  tinha  em  mente,  como  é  provável,  a  protagonista 
decantadíssima  das  Senhas  do  Marido,  chamada  ainda  hoje 
Bella  Infanta  no  Ribatejo  e  em  Tras-os-Montes,  e  Dona  Infanta 
na  Beira  Baixa  (4);  ou  alguma  das  Infantinhas  de  França, 
quer  fosse  a  enfeitiçada  por  sete  fadas,  hoje  geralmente  trans- 
formada, por  falsa  interpretação  do  título  em  filha  dei  rei  de 
Hespanha  (5),  quer  a  menos  divulgada  que  se  fingiu  malata  (le- 
prosa) afim  de  se  salvaguardar  do  cavaleiro  andante  (h)  que  a 


(i)  Vid.  Canc.  General  N.°  435,  447-452,  454,  456,  457,  468,  470,  472,  474, 
475»  477-48o;  Canc.  Musical 'N.°  336.  Em  um  dos  parágrafos  seguintes  mencionarei 
um  romance  português  acompanhado  de  desfeita. 

(2)  Vejo-a  empregada  v.  g.  por  Luis  Milan  no  Cortesano,^.  118. 

(3)  F.  133:  que  me  lançarei  em  lençoes  de  veludo  com  a  Bela  Infantinha. 

(4)  Estava  a  bela  Infanta        no  seu  jardim  assentada. 

A's  numerosas    redacções  conhecidas   do   tema,   havemos  de  juntar  agora  os 
No.  34,  51,  62,  63,  83,  94,  99  do  Romanceiro  Trasmontano. 

(5)  O  caçador  foi  à  caça,        á  caça  como  soia. 

(6)  Vid.  Braga,  Romanceiro  p.  240-263  e  Abade  Tavares,  Romanceiro  Tras- 
montano No.  31,  37,  46,  75. 


228  CAROLINA  MICHAÉLIS  DE   VASC0NCELLÔ8 

encontrara  na  floresta.  Também  a  esposa  do  Conde-Sol  leva  ás 
vezes  ó  título  de  Infantina. 

[127]  Quanto  a  romances  literários,  compostos  antes  de 
1550  por  Portugueses  determinados,  pouquíssimos  surgiram 
por  ora  na  minha  exposição.  Em  português  apenas  o  curto 
fragmento  indiático  sobre  a  victoria  do  Salscte,  ganha  por 
D.  João  de  Castro,  quasi  em  meados  do  século  xvi  (N.°  121) 
obra,  todavia,  de  um  Anónimo-,  os  romances  juglarescos  do 
Conde  Alarcos  (perdido),  Marquês  de  Mantua,  c  Emperatriz 
Porcina,  traduzidos  do  castelhano  por  Baltasar  Uiaz.  Nesse 
idioma,  o  romance  de  D.  Duardos  e  Flérida,  escrito  por  Gil 
Vicente  entre  1521  e  1525. 

Podíamos  juntar-lhe  o  de  Tiempo  bueno,  anterior  a  1516, 
pois  foi  proclamado  como  original  de  Garcia  de  Resende,  pela 
voz  autorizadíssima  de  Menéndez  y  Pelayo  (1).  Quanto  a 
mim,  confesso  que  conservo  dúvidas  fortes  a  este  respeito; mas 
poucas  quanto  ás  origens  portuguesas  do  texto.  A  favor  des- 
tas fala  a  designação  puramente  nacional  de  rimance,  o  facto 
de  a  compilação  de  Resende  ser  a  mais  antiga  em  que  apare- 
ceu na  península;  a  grande  voga  que  teve  neste  país,  e  em  ul- 
timo lugar  a  sentimentalidade  do  assunto  e  a  repartição  do 
cantar  em  quadras  (2).  A  favor  do  próprio  Garcia  póde-se 
alegar  que  no  título  falta  o  adjectivo  Allieyo  (3).  De  mais 
a  mais,  é  certo  que  ele  estava  familiarizado  com  roman- 
ces, em  ponto  superior  a  todos  os  coevos  que  até  aqui  apre- 
sentei ao  leitor;  e  poetava  frequentemente  em  castelhano, 
como  em  geral  os  palacianos  do  seu  tempo.  Causadora  das 
minhas  dúvidas  é  a  profunda  melancolia  com  que  o  autor 
fala,  na  quadra  segunda,  dos  seus  cabelos  brancos  (4)  e  tam- 


(i)     Antologia  VII,  p.  CXLVIU. 

(2)  Nous  seus  Commentarios  as  Rimas  de  Camões  (Vol.  III.  86)  Faria  e  Sousa 
cita  Tiempo  bueno,  classificando- o  de  coplas  antigas...  comuns  a  todos. 

(3)  Repito  que  o  texto  é  encabeçado  da  palavra  Rymançe,  sem  mais  nada;  e  a 
paráfrase,  de  Grosa  de  Garcia  de  Rresende  a  este  rrymance. 

Infelizmente,  sem  acrescento  algum.  Se  na  primeira  parcela  falta  Allieyo,  na  se- 
gunda nào  ha  seu. 

(4)  Com  referência  ás  horas  ufanas  do  tempo  pretérito  diz:  Mas  en  ellas  se  sem- 
braron  la  simiente  de  mis  canas. 


ROMANCES   VELHOS  229 


bera  a  sintaxe  arcaica  do  texto  (1).  A'  procura  de  um  roman- 
cista português,  encanecido  antes  de  1516  (2),  aventuro-me  a 
indigitar  um  único  nome:  o  de  D.  João  de  Meneses,  o  Grande 
Africano.  D'ele  passo  a  ocupar-me. 

[128]  Cumpre-me  principiar  com  outros  dois  romances  em 
castelhano  que,  sendo  indubitavelmente  do  período  medie- 
val da  poesia  peninsular,  sâo,  na  minha  opinião  de  procedên- 
cia portuguesa,  embora  não  entrassem  no  Cancioneiro  Geral. 
Ambos  sao  líricos  e  de  sentimentalidade  melancólica,  como 
Tiempo  bueno.  Claro  está  que  nao  é  meramente  por  este  mo- 
tivo que  os  reclamaria  para  Portugal.  O  estilo  de  afectuosi- 
dade  apaixonada  em  que  estão  escritos,  era  então  moda  tam- 
bém entre  Castelhanos  e  Catalães,  como  se  vê,  p.  ex.  em  Por 
unos  puertos  arriba  de  Juan  dei  Encina;  Caminando  por  mis 
males  de  Ciarei  Sanchez  de  Badajoz;  Caminando  sin  plazer  do 
Comendador  Castellví;  Triste  estaba  el  caballero  de  Alonso  de 
Cardona.  E  é  justamente  no  meio  d'esses  textos,  que  as  obras 
«portuguesas»  aparecem. 

A  primeira  Gritando  va  el  caballero  publicando  sti  gran  mal 
é  uma  narrativa  misteriosa.  Lamentando  a  sorte  da  sua  casta 
amiga,  morta  na  idade  de  vinte  e  dois  anos,  o  poeta  vai  cons- 
truindo-lhe  um  fantástico  monumento  fúnebre,  todo  alegórico, 
segundo  o  sistema  das  novelas  de  cavalaria. 

A  segunda,  Venid,  venid  amadores  quantos  en  el  mundo  sou , 
não  é  menos  apaixonada.  Um  vate  infeliz  convida  todos  quan- 
tos amam  a  assistir  á  morte  e  ao  enterro  do  seu  coração.  Pos- 
suímos porém  um  curto  fragmento,  os  dez  octonários  iniciaes 
apenas,  e  esses  por  terem  sido  glosados  na  Corte  caste- 
lhana. 

G  fitando  foi  impresso  e  louvado  numerosas  vezes.  Kegis- 


(i)  Os  glosadores  retocaram-na,  em  geral,  como  se  pôde  observar  na  tabela 
comparada  (incompleta),  que  publiquei  outr'ora  na  Zeitsc/irift.  Ouanto  a  lusismos 
tão  típicos  como  o  infinitivo  pessoal,  que  ocorre  em  diversas  poesias  de  Garcia 
(p.  ex  a  p.  599  en  seren por  vos  causados;  a  p.  614  seren  lexos  de  mirar  e  por  no  bi- 
vieren  llorando)  não  existem  em  Tiempo  bueno.  Só  lusimos  gráficos  e  fonéticos. 

(2)  Verdade  é  que  na  Glosa  ele  é  como  todos  os  demais,  laudator  temporis 
a<  ti,  mas  não  acentua  a  nota  das  cãs.  A  respeito  da  idade  do  compilador  queiram 
conferir  as  datas  biográficas  que  alego  mais  abaixo. 


230  CAROLINA  MICHAElIS  DE   VASC0NCELL08 

tado  entre  as  poesia?  predilectas  dos  palacianos  de  1500, 
p.  ex.  pelo  autor  da  Ensaladilla  de  Praga  (1),  e  celebrado  ao 
mesmo  tempo  no  Juego  trobado  de  Pinar  como  romance  ver- 
dadeiro, de  dolor  muy  desigual  (2),  entrou  no  Cancionero  de 
1511  (3),  e  passou  para  as  edições  modificadas  de  1520  (4) 
e  1557  (5),  sempre  com  a  declaração  expressa  De  D.  Juan 
Manuel.  Com  a  mesma  está  no  Espejo  de  Namorados  (6)  e  em 
diversos  Pliegos  sueltos  (7).  Mas  nem  por  isso  a  atribuição  fi- 
cou incontrovertida  (8).  Como  poesia  de  Juan  dei  Encina  figu- 
ra em  uma  das  impressões  do  Cancionero  privativo  d'esse  fe- 
cundo trovador  (9). 

Erroneamente,  segundo  entendem  os  próprios  conterrâ- 
neos (10). 


(i)     Estr.  5,  Ingr.  23. 

(2)  Canc.  Gen.  N.°  875,  Estr.  37,  sem  nome  de  autor  como  em  quasi  todas  as 
citações.  Romance  verdadero  por  ser  inspirado  por  um  caso  acontecido?  Talvez! 
Da  estrofe  dedicada  á  D.  Isabel,  Princesa  de  Portugal,  resulta  a  data  1491-1497, 
pois  de  ahi  em  diante  a  viuva  do  Príncipe  D.  Afonso,  esposada  de  D.  Manuel, 
ficou  sendo  Rainha  de  Portugal,  até  morrer  em   1498. 

(3)  N.°  455  da  reimpressão  moderna.  (Vol.  I  p.  544.) 

(4)  F.  110,  como  vejo  na  edição  fac-similada  de  Huntington, 

(5)  F.   207  v. 

(6)  N.°  16  do  exemplar  que  vi  na  Biblioteca  Nacional  de  Lisboa.  Confer  En- 
sayo  IV  c.  1459  N.°  4510. 

(7)  F.  Wolf  fala  de  um,  conservado  em  Viena  (vid.  Romanzenpoesie,  p.  6  e  97) 
e  de  outros  dois,  guardados  em  Praga  (Sammlung  p.  18  e  131  — N.°  XXXV  e 
LXXIV). 

(8)  Da  atribuição,  anacrónica,  ao  autor  do  Conde  Lucanor,  homónimo  do  Por- 
tuguês, falarei  no  paragrafo  imediato. 

(9)  Çaragoça,    15 16. 

(10)  Veja-se  o  que  Duran  diz  a  esse  respeito  no  Vol.  II  p.  675  do  Romancero 
General  s.  v.  Encina.  Emquanto  não  houver  reimpressão  das  obras  líricas  do  fun- 
dador da  teatro  castelhano,  não  me  é  fácil  verificar,  se  no  seu  Cancionero  entra- 
ram mais  obras  alheias.  Tão  pouco  sei,  em  que  Romancero  General  o  texto  de 
D.  João  Manuel  entrou  com  a  epígrafe  El  Mezquino  Amador.  Seguramente  não 
na  edição  de  1600,  de  cuja  reimpressão  fac-similada  tenho  a  vantagem  de  me 
poder  servir. 

Claro  está  que  Gritando  entrou  em  muitas  colecções  modernas  (Duran  N.°  297; 
Depping  II  469,  sem  nome  de  autor)  e  também  que  os  historiadores  da  literatura 
castelhana  o  mencionam  e  gabam,  comquanto  alguns  como  Ticknor  e  os  seus  su- 
cessores partam  de  um  ponto  de  vista  falso. 


ROMANCES  VELHOS  231 


Venid,  Venid,  amadores!  (1)  pelo  contrário,  ficou  oculto 
até  a  data  recente  da  publicação  de  um  Cancionero  antigo 
(10431  do  Museo  Britânico),  dei  Siglo  XV,  segundo  Hugo  Ren- 
nert  seu  editor  (2)  ou  de  principíos  do  século  xvi,  na  minha 
opinião  (3).  Apesar  d'isso  não  deixou  de  ser  apreciado  pelos 
coevos.  O  mesmo  Pinar  (4)  que  prestou  homenagem  a  D.  João 
Manuel,  glosou  os  dez  versos  que  possuimos.  Escreveu  além 
d'isso  duas  continuações  (5).  E  meteu  o  primeiro  hemistíquio 
no  Jogo  citado  (6).  Emquanto  ahi  o  classifica  correctamente 
como  un  romance  de  dolores  quen  passion  se  despedaza  (7),  deu 
á  letra  da  glosa  indicada,  a  epígrafe  inexacta  de  Canciôn,  se 
não  foram  apenas  os  copistas  que  a  adicionaram  por  causa  das 
proporções  mezquinhas  a  que  ficara  reduzida  (8). 

O  florilégio  importante  em  que  surgiu,  é  relativamente  rico 
de  versos  de  Portugueses  que  provadamente  estiveram  em 
Castela  e  Aragão,  de  Março  a  Outubro  de  1498.  E  entre  eles 
sobresae  o  autor  de  Gritando,  camareiro-mór  do  monarca,  e 
seu  íntimo  amigo  D.  João  de  Meneses.  O  primeiro  figura  ahi 
com  seu  nome  inteiro  D.  João  Manuel,  Português;  o  segundo 
aparece,  ora  com  a  máscara  de  Un  Galan  (9),  ora  com  o  pseu- 


(i)  A  mesma  exclamação  já  fora  empregada  pelo  Marquês  de  Santilhana  nas 
suas  Coplas  â  la  Muerte  de  la  Reyna  D.  Margarida  {Obras  p.  259).  A  deusa  do 
amor  {pobre  de  liessat  como  qualquer  das  protagonistas  de  Juan  Rodríguez  de  la 
Câmara)  principia  com  ela  os  seus  brados  de  endechera. 

(2)  Erlangen,  1895. 

(3)  Exposta  no  Literaturblatt  de  1897. 

(4)  Ou  a  mesma  Pinar ;  se  se  tratar  da  irmã.. 

(5)  N.°  164  é  o  tema;  165  é  a  glosa;  166  e  167  são  continuações,  em  que  não 
sou  capaz  de  descobrir  partes  do  romance,  a  não  ser  nos  versos  9-10  do  N.°  166. 
Tema  da  segunda  continuação  é  o  cantar  velho  Hagadesle  (hagadesle),  Monu- 
mento de  amores!  he!  que  ocorre  também  em  dois  romances  de  Garci-Sánchez  de 
Badajoz:  Despedido  de  consuelo  (Canc.  Gen.  II,  p.  525)  e  Cominando  por  mis   males 

(ib.  1,555). 

(6)  Canc.  Gen.  N.°  875,  Estr.  45. 

(7)  A  rima  é  contínua  (em-onj. 

(8)  Talvez  pelo  próprio  glosador.  Por  motivos  óbvios,  esse  abreviava  frequen- 
temente os  textos  alheios  que  parafraseava  ora  por  recomendação  de  um  Mece- 
nas, ora  pela  sua  livre  vontade. 

(9)  N.°  109  do  Cancionero  Rennert:  La  çarça  toma  receio,  epigrafado  Un  galán 


232  CAROLINA  MICHAÈLIS  DE    VASCONCELLOS 

dónimo  de  El  Grande  Africano.  Ao  falar  da  glosa  de  Dum u- 
darte,  que  pertence  ao  mesmo  grupo  de  composições  <|ue  o 
romance  com  a  glosa  e  as  duas  continuações  (1),  já  expliquei 
que  refiro  o  cognome  glorioso  ao  fidalgo  português  que  entre 
os  fronteiros  africanos  era  o  poeta  mais  notável,  ou,  se  assim 
o  quiserem,  ao  fronteiro  africano  mais  notável  entre  os  poetas 
cortesãos  do  Cancioneiro  de  Resende  e  do  Cancionero  Qemreâ 
de  Castilho  (2). 

[129]     Quem  são  esses  dois?  Em  primeiro  lugar  os  mais  al- 
tamente cotados  entre  os  poetas  bilíngues  da  escola  hespa- 


ã  tu  amiga,  é  a  estrofe  final  de  uma  composição  extensa  de  D.  João  de  Meneses, 
impressa  no  Cancioneiro  Geral  I,  108.  Logo  mostrarei  que  em  outra  impressão  o 
mesmo  fidalgo  aparece  disfarçado  em  un  gentilhombre  entre  muchos  conocido. 

(i)     Eis  como  o  pecúlio  do  Grande  Afticano  se  apresenta  na  edição   de   Ren- 
nert: 

EL  GRANDE  AFRICANO 

159.  [Villancico]:  Nunca  cessaran  mis  ojos. 

1 60.  Otro  suyo:  Vuestro  soy,  para  vos  naci. 

161.  Otras  suyas:  En  toda  la  trasmontana. 

I  162.  Glosa  de  Durandarte:  El  pensamiento  penado. 

\  163.  Respuesta  dei:  La  causa  que  vos  hubistes. 

164.  Cancion:  Venid,  venid,  amadores. 

165.  Glosa  de  Pinar:  A  la  voz  de  mis  gemidos. 

166.  Da   razón  á  los  amadores  1 

que  vinieron  ai  socorro  de  su  '     Aunque,  si  viera  senal. 
muerte  y  como  los  despede.  ) 

167.  Del    mismo   Pinar  en  que  1 

■r.  i  1  f  Haçndesle 

mamnesta  las    onrras   y  el\  s 

_  .      ,  1  ,  [         monumento  de  amores,  he. 

monumento  dei  corazón.  I  ' 

Cancion,  em  lugar  de  Cancion  suya,  diante  o  N.°  104,  não  invalida  a  probabili- 
dade de  a  obra  ser  do  mesmo  autor  das  composições  precedentes:  tão  vulgar  é 
essa  inexactidão.  Por  descuido  Rennert  atribuiu  ao  Grande  Africano  (segundo  se 
infere  do  índice  e  das  Notas)  não  só  os  N.°s  159-164,  mas  também  166  e  167. 
Sendo,  conforme  digo  no  texto,  continuações  da  Glosa  N.°  165  que  é  de  Pinar, 
muito  embora  literalmente  não  se  glose  coisa  alguma,  são  obra  de  Pinar.  Quando 
em  1897  tratei  de  Garci-Sanchez,  ainda  não  estava  bem  inteirada  da  actividade 
literária  de  D.  João  de  Meneses.  Vid  Rev.  Crítica  de  Ilist.  y  Lit.  II,  p.  127.  Nota 
2.  É  preciso  riscar  ahi  as  palavras  creio  que  sem  razão. 
(2)     Vid.  supra:  N.°  66,  98  e  100  do  meu  Catálogo. 


ROMANCES   VELHOS  233 

nhoLi;  quasi  os  únicos  que  virara  os  seus  versos  (1)  honrados 
e  aplaudidos  em  Castela  emquanto  viviam;  os  únicos  também 
cuja  fama  perdurou  e  teve  repercussão  entre  alguns  corifeus 
da  Escola  italiana  em  Portugal  (2).  Em  segundo  lugar  (com- 
quanto  D.  João  de  Meneses  fosse  mais  velho,  um  decénio 
pelo  menos),  um  par  de  amigos  cujas  poesias  andavam  (pa- 
rece) juntas  num  caderno  (como  as  de  Bernardim  Ribeiro, 
Cristóvam  Falcão  e  Sá  de  Miranda,  e  mais  tarde  as  de  Gar- 
cilaso  e  Boscan),  sendo  por  isso  confundidas  ás  vezes  (3). 
Amigos  que  juntos  serviram  D.  João  II  emquanto  Príncipe, 
se  interpreto  correctamente  uns  versos  do  Cancioneiro  (4). 
Juntos  foram  no  ano  1498  a  Castela,  onde  entraram  num 
mesmo  pleito  burlesco  entre  Portugueses  e  Hespanhoes  (5). 


(i)  Honrados  na  forma  já  indicada.  Logo  darei  mais  alguns  exemplos  da  acei- 
tação que  os  versos  dos  dois  cortesãos  portugueses  tiveram  no  país  vizinho. 
Claro  está  que  ainda  outros  personagens  coevos  figuram  nas  Cancioneros,  p.  ex. 
Ruy  de  Sande,  predecessor  de  Garcia  de  Resende,  como  moço  da  escrevaninha 
de  D.  João  II,  e  sucessor  de  D.  João  Manuel  na  embaixada  de  1499. 

(2)  Façamos  abstracção  dos  verdadeiramente  grandes,  como  Gil  Vicente,  Cris- 
tóvam Falcão,  Bernardim  Ribeiro,  Sá  de  Miranda,  cuja  principal  esfera  de  acção 
fica  fora  do  Cancioneiro. 

(3)  A  cantiga,  No  hallo  en  mis  males  culpa  está  com  o  nome  de  D.  João  de 
Meneses  no  Canc.  General,  N.°  337  (Vol.  I  p.  503);  com  o  de  D.  João  Manuel  no 
de  Resende  (Vol.  I  p.  410).  —  O  rifão  Senor  mio  como  estais  é  atribuído  a  D.  João 
Manuel  no  Canc.  de  Hennert(N.°  83a) e  a  Meneses  no  de  Resende  (III  136).  Nas  res- 
tantes parcelas  da  mesma  Empresa  das  Calças,  atribuídas  aos  dois,  ainda  ha  maior 
confusão.  A  ajuda  que  principia  Ya  vi  calzas  de  damasco  c  lá  (N.°  836)  obra  de 
D.  João  Manuel,  e  cá  (III  132)  do  empresário  D.  António  de  Velasco.  A  que  diz 
Em  aguas  de  chamalote  é  de  Meneses  na  colecção  portuguesa  (III  136),  e  de  D. 
Afonso  Pimentel  na  castelhana  (70^),  etc,  etc. 

(4)  Por  um  documento,  que  terei  de  citar  mais  abaixo,  sabe-se  que  D.  João 
Manuel  era  em  1475  fidalgo  da  casa  do  Príncipe.  Este  modo  de  dizer  é  tão  incom- 
pleto que  neste  caso  (e  em  outros  muitos)  originou  numerosos  erros.  Julgo  que  o 
Príncipe  era  D.  João  II  e  não  seu  filho  D.  Afonso,  nascido  em  1474.  A  casa  de 
D.  João  fora  constituída  em  1472.  Desconheço  todavia  a  lista  dos  Moradores. —  O 
vilancete,  a  que  aludo  no  texto,  seria  portanto  escrito  entre  1472  c  1481,  se  a 
minha  conjectura  fosse  viável.  — Vid.  Canc.  Ger.  I  135:  Se  vos  lá  dizeis  de  nós. — A 
epígrafe  diz:  Dom  Joam  de  Meneses  e  dom  Joum  Manuel  a  Pêro  de  Sousa  RH- 
beyro  porque  entrando  na  Camará  do  pryncipe  lhe  \prometeo  de  dizer  delles  e  na/n 
disse. 

(5)  Os  motejos  dos  Castelhanos  sobre  as  calças  de  chamelote  de  um  Português, 


234  CAROLINA  MICHAtLIS  DE   VASCONCELLOS 

Juntos  surgiram — e  este  traço  é  importante — na  memória  do 
introductor  da  medida  nova  e  do  gosto  ítalo-clássico  quando, 
no  retiro  da  Tapada,  recordava  a  sua  feliz  mocidade  na  corte 
de  D.  Manuel  (1).  Cheio  de  saudades  preguntava: 

Os  momos  e  03  seraos  de  Portugal, 
tam  falados  no  mundo,  onde  são  idos? 
e  as  graças  temperadas  do  seu  sal? 

Dos  motos  o  primor  e  altos  sentidos? 
'uns  ditos  delicados  cortesãos, 
que  é  d'eles?  quem  lhes  dá  somente  ouvidos? 

Logo  depois  pôe  em  foco  os  dois  vultos  que  mais  brilho 
haviam  dado  ás  festas  luxuosas  da  corte,  continuando: 

Porém,  oh  bom  dom  João  (o  de  Meneses), 
e  oh  Manuel  que  taes  tempos  lograstes, 
chamar-vos-hei  ditosos  muitas  vezes; 

Que  com  tanto  louvor  aqui  cantastes 
e  com  tal  voz  que  ainda  eu  alcancei 
os  derradeiros  ecos  que  deixastes  (2). 

[130]  Entre  os  materiaes  biográficos  que  juntei,  com  o  in- 
tuito de  apurar  datas  exactas  a  respeito  dos  Portugueses  que 
considero  como  mais  antigos  autores  de  romances  e  conhece- 
dores de  romances  velhos,  os  relativos  aos  dois  amigos  per- 
mitem-me  rectificar  diversas  afirmações  erróneas,  em  vigor 
até  hoje  (3). 


a  que  já  me  referi  na  Nota  supra,  encontram-se  no  Canc.  Ger.  III  131  e  no  Canc. 
de  Rennert  N°s.  76-86  com  nota  suplementar  a  p.  153  §. 

(1)  Vid.  Sá  de  Miranda,  Poesias  N.°  109  v.  127-132  e  142-147  da  ed.  de  C.  M. 
de  Vasconcellos,  Halle,  1889. 

(2)  E  assim  que  hoje  julgo  dever  lêr,  pontuar  e  interpretar  esses  versos,  refe- 
rindo o  apelido  de  Meneses  só  a  um  dos  dois  poetas,  mas  o  prenome  João  a  am- 
bos. Concordo  portanto  com  T.  Braga,  que  antes  de  mim  chegou  a  este  resultado, 
conforme  indiquei  no  Literaturblatt  de  1897,  N.°  4.  Outr'ora  eu  procurava  neles 
dois  titulares  do  tronco  de  Meneses,  o  Conde  de  Tarouca  e  o  de  Cantanhede,  dan- 
do importância  excessiva  ás  variantes:  dois  condes,  nos  amores  tam  corteses  e 
Mas  vós,  oh  bom  Dom  "João  —  Vos  de  Meneses  Dom  Manuel. 

(3;  Já  aludi  ao  crasso  anacronismo,  cometido  em  tempos  por  diversos  histo- 
riadores da  literatura  hespanhola  (como  p.  ex.  Bouterwek  e  Dozy)  pois  vindicaram  a 
composição  de  Gritando  va  el  caballero  a  um  homónimo  do  camareiro-mór  que  flo- 


ROMANCES    VELHOS  235 


Começo  com  D.  João  Manoel  que  figura  nas  Crónicas  do 
seu  tempo  principalmente  como  camareiro-mór,  valido  e  con- 
selheiro do  rei  Venturoso,  mas  também  como  alcaide  de 
Santarém  (1).  Logo  no  principio  do  reinado  foi  incumbido  de 
missões  de  confiança.  Em  1497  ultimou  o  casamento  do  mo- 
narca com  a  viuva  do  mal-logrado  Príncipe  D.  Afonso  (2). 
Em  1499  foi  pedir  aos  Reis  Católicos  a  mão  de  outra  sua 
filha  (3).  Para  assim  conquistar  o  favor  régio,  teriam  bastado 
talvez  as  suas  qualidades,  tanto  de  homem  de  bom  saber,  no 
sentido  do  Renascimento,  como  de  perfeito  cortesão.  Outra 
circunstância  foi,  porém,  o  ponto  de  partida  da  sua  fortuna 
e  da  intimidade  das  relações  que  o  prendiam  ao  monarca. 
D.  João,  e  mais  peculiarmente  seu  irmão  D.  Nuno  (4),  fo- 
ram colaços  de  D.  Manuel,  que  todavia  ao  nascer  em  1.°  de 
Junho  de  1469,  ainda  estava  assaz  distante  do  trono,  sepa- 
rado d'ele  por  oito  pessoas  que  legitimamente  o  herdavam,  se 
em  1496  continuassem  vivos.  Como  companheiros  do  Senhor 
D.  Manuel  os  dois  moços  se  criaram  no  paço  do  Infante  D.  Fer- 
nando (f  1470)  e  sua  esposa  D.  Beatriz.  Progenitor  fora  o  dis- 
tinto Carmelita  D.  Frei  João  (da  criação  do  Condestável  Nun' 
Alvarez) ,  (5) .  Capelão-mór  e  do  conselho  dos  reis,  o  qual  subiu  a 
Bispo  de  Ceuta  em  1445,  a  Bispo  de  Guarda  em  1459  e  ocu- 
pou além  disso  o  cargo  de  provincial  e  administrador  da 
Ordem,  até  morrer  em  1476     A  mâe  chamava-se  Justa  Ro- 


resceu  no  século  XIV;  i.  é.  ao  benemérito  sobrinho  de  Alfonso  o  Sábio,  a  que  de- 
vemos o  Conde  Lucanor.Este  erro  já  foi  apontado  por  F.  Wolf,  nas  Studien  (p.  479), 
e  Menéndez  Pelayo  disse  na  Antologia  o  suficiente  para  o  desarraigar  por  com- 
pleto. 

(1)  Vid.  Góes,  Crónica  de  D.  Manuel  I.  Cap.  5  e  46. 

(2)  Ib.  Cap.  22. 

(3)  D.  Maria  (mãe  de  D.  João  III,  D.  Luis,  D.  Henrique,  D.  Afonso,  D.  Fer- 
nando, D.  Duarte,  D.  Isabel,  D.  Beatriz).  Vid.  Góes,  cap.  46.  Acentuando  a  boa 
vontade  que  o  monarca  lhe  tinha,  o  Cronista  chama-o  pessoa  de  quem  com  tazão 
muito  confiava,  as  si  por  sei  mui  prudente  como  pela  criação  que  nelle  fezera. 

(4)  D.  Nuno  era  Alcaide  da  Guarda  e  almotacé-mór  da  Corte.  Faleceu  em 
1525.  Ele  rimava  também,  mas  só  de  longe  em  longe.  Vid.  Canc.  Ger,  III,  26  e 
278.  Garcia  de  Resende  e  Luis  da  Silveira  dirigiram-lhe  coplas  (II,  468  e  470^. 

(5)  Góes,  Crónica  I,  cap.  5.  Na  ordem  fora  Frei  João  de  S.  Lourenço.  Mas 
nunca  e  nenhures  Dom  Frei  João  Manuel  (como  disseram   Barbosa  Machado  II, 


236  CAROLINA  MICHAÊLIS  DE   VASCONCELLOS 

dríguez.  Ovelha  do  rebanho  egitaniense  do  Bispo  (1),  era  pro- 
vavelmente de  belos  dotes  físicos  e  d'alma;  além  d'isso  ins- 
truída e  de  família  abastada,  mas  não  nobre.  No  fim  da  vida 
o  Bispo  conseguiu  legitimar  os  filhos  (15  de  Nov.  de  147'»  . 
pouco  depois  de  haver  instituído  um  morgado  ;i  favor  do  mais 
velho  (2),  menor  então  de  vinte  e  cinco  anos.  No  acto,  este  era 
presente  na  qualidade  de  fidalgo  da  Casa  do  Príncipe.  E  já 
então  se  apelidava  Manuel  e  usava  do  título  Dom.  E  de  cror 
que  nâo  escolheria  como  patronímico  aquelle  nome  bem  so- 
ante, sem  acquiescôncia  do  seu  senhor  e  colaço. 

Historietas,  ou  antes  patranhas  genealógicas,  transforma- 
ram D.  Justa,  que  se  rehabilitou  perante  os  olhos  do  século 
pela  fundação  do  convento  de  Jesus  de  Setúbal,  em  descen- 
dente dos  insignes  Manueis  de  Castela;  ou  então  o  próprio 
Bispo  em  bastardo  dei  rei  D  Duarte,  havido  numa  D.  Maria 
Manuel,  sobrinha  da  primeira  esposa  de  D.  Pedro  I  de  Por- 
tugal (D.  Constança  Manuel)  (3). 

Ha  pouco,  investigações  cuidadosas  de  dois  historiadores 
beneméritos  (4)  destruíram  todavia  pela  raiz  essas  lendas 
fantasiadas  por  linhagistas  adictos  aos  novos  Manueis  de  Por- 
tugal, e  propagadas  por  Gaspar  Barreiros  e  Pedro  de  Mariz, 
(õ)  lendas  a  que  me  acuso  de  também  haver  dado  fé,  adicio- 
nando-lhes  até  um  ponto:  a  lembrança  de  vindicar  para  o 


687  e  Caet.  de  Sousa,  Hist.  Geneal.  XI,  371,  e  depois  d'eles  muitos  outros),  embora 
mais  tarde  se  insculpisse  esse  nome  na  sua  campa. 

(1)  Numa  Bula  de  1489,  em  que  lhe  foi  concedida  a  fundação  do  convento  de 
Jesus  em  Setúbal,  ela  é  designada  expressamente  como  mulier  egitaniensis. 

(2)  A  14  de  Agosto  do  mesmo  ano. 

(3)  Camilo  Castelo  Branco  foi   um   dos  propagadores  da  noticia.  Outros  de- 
ram á  amante  inventada  o  nome  D.  Juana  Manuel. 

(4)  Braamcamp-Freire,  Brasões  de  Cintra,  I  187-231  {Manueis);  Brito  Rebello, 
na  Arte  em  Natureza  e  Portugal,  Fase.  34  (Setúbal). 

(5)  Escuso  dizer  que  essas  patranhas  nao  ficaram  sem  contradição.  Um  satírico 
do  tempo  as  verberou,  brincando  com  o  nome  Justa: 

Justa  Rodriguez  justou 
com  um  frade  carmelita; 
e  esta  justa  maldita 
os  Manueis  nos  deixou. 


ROMANCES  VELHOS  237 


Bispo  D.  Frei  João  (pseudo-Manucl),  amante  de  Justa  Rodrí- 
guez,  uma  trova  que  é  de  Jorge  Manrique!  meramente  por 
ela  começar  com  as  palavras  amfibológicas  Justa  fué  mi  per- 
dición  (1). 

D.  João  Manuel  não  se  distinguiu  por  grandes  «feitos  mili- 
tares. Sei  apenas  de  uma  expedição  africana  em  que  tomou 
parte  em  1489,  a  fundação  tao  contrastada  da  fortaleza  da 
Graciosa  (2).  Morreu  em  Castela,  entre  24  de  Agosto  de  1498 
e  a  mesma  data  do  ano  de  1500  (3);  provavelmente  antes  de 
4  de  Fevereiro  de  1499  (4),  de  doença,  segundo  Damião  de 
Góes.  A  missão  foi  ultimada  por  Ruy  de  Sande,  dando  em  re- 
sultado o  segundo  casamento  de  D.  Manuel,  como  já  disse 
(õ).  Ignoro  que  idade  teria  (0).  Era  viuvo  de  D.  Isabel  de  Me- 


(i)  Com  esse  título  publiquei  um  artigo  no  Círculo  Camoniano,  Vol.  I  p.  294- 
299,  cheio  de  erratas  e  de  inexactidões. 

(2)  Vid.  Resende,  Vida  e  Feytos,  cap.  81;  Ruy  de  Pina,  cap.  38. — Confer  Canc. 
Ger.  I  383  e  397. 

(3)  Vid.  Góes,  Crónica  I  cap.  46;  e  Hist.  Geneal.  XI  1.  c.  Brito  Rebello  afirma 
que  Justa  Rodríguez  acompanhou  o  filho  a  Castela.  Contra  o  seu  costume  não  in- 
dica todavia  o  documento  em  que  se  baseia.  Podemos  suspeitar  que  D.  João  Ma- 
nuel já  andava  doente  ao  sair  da  pátria. 

(4)  Esta  é  a  data  do  documento,  pelo  qual  seu  filho  foi  nomeado  camarei- 
ro-mór.  Nele  ha  alusão  ao  pae  que  Deus  haja.  Vid.  Brasões  de  Cintra  I  21 1.  Gar- 
cia Perez,  Rennert,  Menéndez  y  Pelayo  colocam  a  sua  morte  erroneamente  no  ano 
1524.  Suspeito  que  1524  é  simplez  erro  por  1521,  e  que  esta  data  foi  por  má 
interpretação  de  um  trecho  de  Ticknor  (I  p.  60;  p.  56  da  ed.  alemã)  referida  a  D. 
João  Manuel,  sendo  na  verdade,  e  também  na  mente  d'aquele  historiador  da  lite- 
ratura castelhana,  a  da  morte  dei  Rei  D.  Manuel. 

(5)  Segundo  o  Quadro  Elementar  do  Visconde  de  Santarém  (Vol.  II  p.  7)  Ruy 
de  Sande  achava-se  no  desempenho  da  sua  missão  a  22  de  Abril  de  1500.  Como 
D.  João  Manuel  morreu  sem  a  terminar,  o  ilustre  diplomata  não  o  menciona. 

(6)  Creio  que  teria  pouco  menos  de  quarenta  anos.  As  relações  de  Justa  Ro- 
dríguez com  o  Bispo  da  Guarda  findaram  seguramente  quando  foi  chamada  ao  paço 
do  Infante  afim  de  criar  o  Senhor  D.  Manuel.  Mas  é  incerto,  quando  começaram, 
e  se  antes  de  D.  João  houve  outros  filhos  que  não  vingaram.  Braamcamp  supõe 
que  as  relações  datam  de  1466,  e  coloca  o  nascimento  do  camareiro-mór  no  ano 
de  1467,  e  o  de  Nuno,  como  é  justo,  em  1468  ou  1469.  Quer-me  parecer  todavia 
que,  se  o  Bispo  requereu  e  conseguiu  em  1460  licença  pontifical  para  testar,  co- 
meçando logo  a  juntar  bens,  procederia  assim  porque  já  então  tinha  motivos  para 
cuidar  do  futuro  de  Justa  Rodríguez  e  sua  prole.  E  as  datas  que  se  podem  abstra- 


238  CAROLINA  MICHAÉLI8  DE    VASC0NCELL08 


nese9  (1).  Deixou  uma  filha  e  um  varão,  D.  Bernardo  (2) 
que  imediatamente  foi  nomeado  camareiro-mór,  e  que  em 
1510  batalhava  nos  campos  africanos.  Só  depois  da  morte 
do  primogénito,  Justa  Rodríguez  se  recolheu  ao  convento 
que  fundara  e  onde  jaz. 

Por  uma  carta  latina  de  pêsames  e  de  consolação,  que  o 
afamado  latinistaCataldoSículo  (3),  mestre  do  Duque  de  Coim- 
bra D.  Jorge  (bastardo  de  D.  João  II)  e  de  diversos  próce- 
res, escreveu  então  a  D.  Justa  (4),  sabemos  que  ele  sustentara 
relações  epistolares  com  D.  João  Manuel  durante  quinze  anos. 
De  1484  em  diante. 

As  poesias  do  Camareiro-mór  dão  prova  de  fina  cultura, 
clássica  e  moderna,  mas  também  de  verdadeiro  talento  poé- 
tico. Os  traços  que  nelas  prenunciam  o  advento  do  Humanis- 
mo, e  lhes  dariam  de  1478  a  1500  valor  especial,  não  são 
comtudo  os  que  hoje  despertam  interesse.  Conforme  já  indicou 
com  simpatia  e  discernimento  o  autor  da  Antologia  (5),  ana- 
lizando  parte  das  obras  castelhanas  contidas  no  Cancioneiro 
de  Resende,  o  que  lhes  dá  graça  e  sabor  é  a  subtileza  do  ingé- 
nio,  são  as  luzes  e  os  matizes  poéticos  com  que  salpica  os  seus 


hir  do  posto  de   fidalgo  em  1475,  e  de  algumas  composições  poéticas  de   D.  João 
Manuel,   confirmam  a  suposição  que  nascera  em  1460,  ou  antes. 

Uns  versos  seus, escritos  em  resposta  a  Pedro  de  Cartagena  [Çanc.  Gen. N.°  162), 
são  anteriores  a  1478,  se  tal  for  realmente  a  data  do  falecimento  do  ilustre  Cas- 
telhano. 

(1)  No  Romance  Gritando  va  el  caballero  a  amada  fina-se  com  22  anos,  indi- 
cação que  faz  supor  realidade  e  intimidade.  Mas  alguns  traços  da  poesia,  a  desig- 
nação casta  Diana,  reforçada  pelo  simbólico  emblema  das  castanhas  e  o  verso  que 
murio  sin  la  °ozar  excluem  a  aplicação  á  esposa.  Essa  era  filha  do  Alcaide-mór  de 
Campo,  D.  Afonso  Telez  de  Meneses. 

(2)  Ha  quem  erradamente  o  chame  D.  Fernando. 

(3)  As  suas  obras  latinas,  nas  quaes  avulta  a  epopeia  Arcitinga,  foram  reim- 
pressas no  Vol.  VI  das  Provas  da  Hist.  Genealógica. 

(4)  Cataldus  felici  Etnanuelis  Regis  jVutrici.  A  carta  está  no  fim  da  edição  de 
1 500,  de  que  ha  um  exemplar  entre  os  Incunábulos  da  Biblioteca  Municipal  do  Por- 
to (Sign.  66).  Não  entrou  na  impressão  que,  promovida  por  António  de  Castro, 
foi  dedicada  á  Infanta  D.  Maria.  Em  ambas  faltam  cinco  cartas  a  D.  João  Manuel, 
de  que  Barbosa  Machado  dá  noticia,  tresladando  um  passo  importante. 

(5)  Vol.  VII,  p.  139-143.  Conf.  Clarus,  II,  232. 


ROMANCES    VELHOS  289 


assuntos.  E  também  a  elegância  e  pureza  da  dição  (1).  Dis- 
tinguindo um  Poema  (em  coplas  de  Jorge  Manrique)  sobre  os 
Sete  Pecados  Mortaes,  incompleto  por  causa  da  morte  do  au- 
tor (2),  espécie  de  visão  dantesca,  com  referências  a  Platão, 
Cicero  e  o  pitagórico  y  (3),  Menéndez  y  Pelayo  caracteriza-o 
de  menos  didáctico  e  menos  árido  do  que  o  poema  de  Juan  de 
Mena  que  lhe  serviu  de  modelo.  Nota  o  interesse  histórico  que 
desperta  a  Lamentação  sobre  a  desastrosa  morte  do  Príncipe, 
na  qual  tivera  parte  sem  culpa,  o  seu  íntimo,  D.  João  de  Me- 
neses. Do  Romance  não  fala,  ou  por  esquecimento,  ou  por  ele 
não  haver  entrado  na  compilação  de  Resende;  nem  tão  pouco 
dos  versos  de  amor  e  de  burla  aliás  comedida,  por  serem  ba- 
gatelas triviaes  de  mais. 

Entre  as  suas  composições  portuguesas  destacam-se  pela 
singeleza  e  sinceridade  da  inspiração  duas  religiosas,  e  duas 
didácticas  ou  moraes.  Essas  últimas  são  de  forma  e  dição  po- 
pular (4).  Numas  trovas  centónicas  mostra-se  bom  conhece- 
dor das  cantigas  áulicas  da  corte  dos  Reis  Católicos,  conser- 
vadas em  parte  no  Cancionero  Musical,  e  aproveita,  além  de 
um  texto  francês  (horrivelmente  deformado  na  colecção  de 
Resende)  uns  versos  do  amigo  Meneses  (5),  ao  qual  tributou 
ainda  outras  homenagens  (6).  Ura  dos  seus  correspondentes 


(i)  Apesar  d'isso  ha  nas  suas  poesias  castelhanas,  de  longe  em  longe,  um  infi- 
nitivo pessoal.  Vid.  Canc.  Ger.  I,  419,  1.  23. 

(2)  Boehl  de  Faber  (na  Floresta  I,  N.°  17)  erra  dizendo  que  as  coplas  eram 
dirigidas  a  D.  João  II. 

(3)  Acerca  d'este  simbólico  y,  que  é  costume  reconhecer  numa  das  entradas 
das  Capelas  Imperfeitas  da  Batalha,  vid.  C .  M.  de  Vasconcellos,  As  Capelas  Imper- 
feitas, Porto  1904.  O  mote  do  pórtico,  tratado  de  grego  durante  séculos  e  que  de 
balde  tentei  interpretar  como  português  e  de  D.  Manuel,  é  francês  e  de  D.  Duar- 
te e  diz  tant  que  seray,  completando-se  com  as  palavras  lealte  faray  inscritas  tal- 
vez no  fecho  do  arco.  Ambas  foram  descobertas  pelo  General  Brito  Rebello  nu- 
ma baixela  dei  Rei  D.  Duarte,  cuja  descripção  perdura.  Vid.  A  Revista,  1904. 

(4)  Nunca  vi...  e  Ouve  vê  e  cala,  em  pareados. 

(5)  Canc.  Ger.  I  407:  Mi  tormento  desigual;  impresso  entre  as  obras  de  Meneses 
I,  117. 

(6)  P.  ex.  numa  carta  que  lhe  dirigiu  (I  413).  Quanto  á  cantiga  No  hallo  a  mis 
males  culpa  (de  Meneses,  na  minha  opinião),  quem  sabe  se  andava  entre  os  versos 
de  D.  João  Manuel  como  letra  para  voltas  e  glosas,  que  não  chegou  a  compor? 


24o  Carolina  michaêlis  de  vasconcellos 

literários,  glosador  também  de  uma  das  cantigas  de  D.  Jofio 
Manuel  (1),  é  aquele  Álvaro  de  Brito  que  trocou  versos  com 
Gómez  Manrique  e  verberou  os  excessos  do  Roupeiro . 

[131]  D.  João  de  Meneses  é  realmente  de  prosápia  antiga 
e  ilustre,  enaltecida  tanto  pelos  melhores  vates  portugueses 
como  pelos  historiadores  nacionaes.  Descendia  em  linha  recta 
de  D.  Gonçalo  Telles  de  Meneses,  Conde  de  Neiva  desde  1378 
(2).  Como  um  dos  filhos  d'este  titular  chegasse  a  ser  Senhor 
de  Cantanhede  (3),  e  um  dos  bisnetos,  irmão  do  nosso  D.  João, 
fosse  levantado  a  Conde  d'aquela  vila  (1479)  (4),  é  costume 
designar  o  ramo  a  que  o  poeta  pertencia,  como  dos  Meneses- 
Cantanhede.  O  distintivo  é  necessário,  porque  outro  D.  João, 
de  Meneses  foi,  como  o  nosso,  fronteiro  intrépido  nos  campos 
africanos,  como  ele  Governador  da  casa  de  um  Príncipe,  co- 
mo ele  cortesão  acreditado,  e  poeta  nos  serões  de  D.  João  II 
e  D.  Manuel  (5).  Esse  homónimo,  coetâneo  e  parente,  era  filho 
do  grande  D.  Duarte  de  Meneses,  o  de  Alcácer  (trucidado  na 
serra  de  Benacofú  pelos  Berberes,  de  modo  tal  que  no  seu  ja- 
zigo enterraram  apenas  um  dedo)  (6),  neto  portanto  de  D.  Pe- 


( i )     Cuidados,  deixai-m  'açora. 

(2)  Era  bisneto  d'ele,  segundo  Braamcamp,  Brasas  de  Cintra  II.  p.  349.  La- 
mento que  o  capítulo  dedicado  ao  grosso  tronco  dos  Meneses  (I  59-72)  seja  tão 
lacónico. 

(3)  Vila  do  Douro,  cinco  léguas  ao  Norte  de  Coimbra,  afamada  pelo  juramento 
de  D.  Pedro  l,  relativo  a  Inês  de  Castro. 

(4)  Brasões  de  Cintra,  II  401. 

(5)  A  prova  de  que  não  era  inteiramente  hóspede  na  arte  de  metrificar,  temo'- 
la  em  trovas  d'ele,  impressas  no  Canc.  Ger.  II  65,111  95,  1 13,  1 19,  632.  Numa 
d'elas,  pequena  correspondência  sobre  questiúnculas  de  amor,  que  trocou  com  o 
seu  homónimo  (II  65),  dá-lhe  a  palma  de  valente,  de  cavaleiro  e  de  sabedor: 

A  vós  qu'em  cavalaria 
e  valentia 

fiais  toque  a  Cepiam, 
a  vós  qu'em  sabedoria 
precedeis  rei  Salamam, 
a  vós  so  cujo  poder 
jaz  toda  [a]  arte  de  trovar...,  etc. 

(6)  Segundo  Conde  de  Viana  e  Caminha,  desde  1460,  deu  assunto  a  uma 
Crónica  particular  de  Gomes  Annes  de  Zurara. 


ROMANCES    VELHOS  241 


dro,  o  de  Ceuta  (1).  Este  foi  feito  Conde  de  Tarouca  em 
1499  (2),  pouco  depois  Conde-PriOr  (3).  De  1508  em  diante  era 
Conde-Prior  e  Mordomo-mór  (4).  Mas  apesar  de  tudo,  também 
neste  cnso  houve  muita  confusão,  tanto  por  parte  de  estran- 
geiros como  por  nacionaes,  desde  João  de  Barros  até  Menén- 
dez  y  Pelayo  (õ). 

D.  João  de  Meneses-Cantanhede,  que  ujs  ocupa,  era  irmão 
mais  novo  do  1.°  Conde  (D.  Pedro  fal.  em  1518).  Nascido  no 
tempo  de  D.  Afonso  V,  ganhou  na  Africa  as  esporas  de  cava- 
leiro,  como  todos  os  fidalgos  de  então,  e  continuou  nos  dois  rei- 
nados imediatos  a  batalhar  ahi,  até  o  seu  último  alento.  Como 
Capitão  d' Arzila  foi  victorioso  contra  o  rei  de  Fez,  Molei-Ba- 
rraxa,  e  contra  Almandarim  de  Tetuao  em  1495  (6).  Distin- 
guiu-se  em  1501  e  1503  (7),  em  repetidas  correrias  contra  Al- 
cácer Quebir  e  aldeias  da  mesma  região.  Em  1504  foi  contra 


(i)  Primeiro  Conde  de  Viana  e  i.°  Capitão  de  Ceuta,  assunto  de  outra  Cró- 
nica, do  mesmo. 

(2)  Veja-se  p.  ex.  o  cap.  70  da  Pt  inteira  Parte  da  Crónica  de  D.  Manuel:  De 
como  D.  Joant  de'  Meneses  e  D.  Joa/n  de  Meneses  Conde  de  Tarouqua  foram  correr 
o  campo  de  Alcacer-Quil>ir.  E  vejam-se  as  trovas  ao  homónimo,  a  que  me  referi  em 
nota  anterior:  Do  Conde  de  Tarouca  a  D.  Joam  de  Meneses. 

(3)  Canc.  Cer.  III  631. 

(4)  Vid. Braamcamp,  Brasões  de  Cintra  II  422;  id.  Sepulturas  do  Espinheiro  p.  31 , 
40,  70,  72;  Góes,  Crónica  do  Príncipe,  cap.  99  e  102;  id.  Crónica  de  D.  Manuel 
Parte  III,  cap. 46; Resende,  l'ida  e  Feyos,  cap.  28,  35,  36;  Sousa,  Hist.  Geneal,  III 
125  e496. 

(5)  Já  outr'ora  tentei  deslindar  a  actividade  militar,  palaciana  e  literária  dos 
dois  homónimos  (Poesias  de  Sá  de  Miranda  p.  813  e  883).  Mas  desde  então  muitos 
documentos  vieram  elucidar  o  problema  mais  e  melhor;  especialmente  os  coleccio- 
nados por  Braamcamp  (Brasões  II  100).  O  Conde  de  Tarouca  tinha  Ires  irm&os: 
D.  Henrique  de  Meneses,  Conde  de  Loulé;  o  Bispo-conspirador  D.García;  e  o  cons- 
pirador D.  Fernando,  degolado  em  1484.  Era  Capitílo  de  Arzila  em  1481;  de  Tah- 
ger,  de  1486  a  1489.  Largou  esse  posto  quando  foi  nomeado  Governador  da  Casa 
do  Príncipe  D.  Afonso.  Passou  depois  da  sua  morte  a  mordomo-mór  de  D.  João 
II;  reassumiu  a  Capitania  de  Tanger  em  1501;  e  levou  nesse  mesmo  ano  uma  frota 
de  socorro  aos  Venezianos.  Depois  de  viuvo,  foi  nomeado  Prior  do  (rato;  em 
1 52 1  passou  a  Alférez-mór,  Faleceu  em  1522. 

(6)  Góes,  Crónica  de  D.  Manuel,  I  cap.  12. 

(7)  Ib.  Cap.  18-50. 

18 


242  CAROLINA  MICHAÉLIS  DE   VASC0NCELL08 

Larache  (1);  em  1507  como  Capitão  da  armada  enviada  con- 
tra Azamor.  Activíssimo  no  cerco  posto  pelo  rei  de  Fez, 
a  Arzila  (1508)  (2),  serviu  finalmente  de  Capitão  do  campo  na 
expedição  contra  Azamor  em  que  morreu  (1514)  (3).  Na  hie- 
rarquia oficial  era  Alcaide-mór  de  Cartaxo;  Comendador,  na 
Ordem  de  Cristo,  primeiro  de  Aljezur  (4)  e  depois  de  Moga- 
douro; de  Alvim,  na  de  Santiago.  Nos  paços  reaes  passou  da 
casa  de  D.  João  II  á  de  D.  Afonso,  único  e  mal-logrado  filho 
legítimo  do  monarca,  ignoro  em  que  qualidade.  Ha  coevos  que 
lhe  dão  o  título  de  (luarda-mór  (5),  e  Governador  da  casa  do 
Príncipe  (6).  Mas  sem  direito.  Quem  por  carta  de  9  de  Junho 
de  1489  foi  instituído  Governador  do  herdeiro  da  coroa,  ser- 
vindo também,  segundo  ordens  de  29  de  Out.  de  1490  (7),  no- 
minalmente junto  d'ele  os  ofícios  múltiplos  de  mordomo-mór, 
camareiro-mór,  veador  da  fazenda  e  escrivão  em  acumulação 
inverosímil  era  o  Conde  de  Tarouca. 

O  sucesso  mais  impressionante  da  sua  vida  no  paço,  que 
muito  a  amargorou  e  tornou  o  seu  nome  tristemente  memo- 
rado, é  a  catástrofe  no  Alfange  de  Santarém,  de  11  de  Ju- 
nho de  1491  (8),  pois  foi  ele  quem,  mão  por  mão,  correu  com 
o  Príncipe  D.  Afonso  a  desastrosa  carreira  do  páreo  no 
areal  do  Tejo,  em  que  o  maldito  murzelo  se  transformou  em 
homicida  do  jovem  recem-casado.  (9)  Catástrofe  que,  prantea- 
da por  toda  a  nação  e  também  no  pais  vizinho,  pátria  da 
Princesa,  inspirou  além  de  diversos  poemas  em  latim,  em  cas- 
telhano, e  em  português  (10),  e  de  sentidos  trechos  em  prosa 


(i)     Ib.  Cap.  83  e  84. 

(2)  Ib.  II  Cap.  27-29;  Barros,  Década  II,  Livro  IX,  Cap.  9. 

(3)  Góes,  Crónica  de  D.  Manuel,  III  Cap.  49-51,  especialmente  p.  237,  249  e 
252  (da  ed.de  1790). 

(4)  Canc.  Ger.  I  413;  Ruy  de  Pina,  Crónica  de  D.  João,  II  Cap.   50. 

(5)  Barros,  Década  II,  Livro  III,  Cap.  IX  p.  337. 

(6)  Hist.  Geneal.Ul  161  (e  157).    Quem   conferir  Vol.  III   125   e   496   com   X 
148-156  terá  mais  uma  prova  da  confusão  entre  os  dois  Meneses. 

(7)  Documento  da  Torre  do  Tombo:  Livro  Extras  f.  24v-  e  25. 

(8)  Em  profunda  síncope  durante  todo  o  dia  12,  o  Príncipe    expirou   a    13    de 
Junho. 

(9)  São  expressões  de  D.  Francisco  Manuel  de  Mello. 

(10)  Mcn«ionci  um  cujo  autor  é  D.  João  Manuel. 


HOMANCES  VELHOX 


patética  (1),  um  romance  popular  que  ainda  nos  ocupará  (2). 

Os  pormenores  do  acontecimento— ser  o  dia  uma  terça-fei- 
ra,  dia  assinalado  no  folklore  português,  ora  aziago,  ora  feliz 
e  a  casualidade  de  um  rapaz,  que  se  banhara  no  Tejo,  haver 
batido  os  çapatos  um  no  outro  para  lhes  sacudir  a  areia,  no 
próprio  momento  da  queda — foram  desde  então  tidos  em  conta 
de  prognósticos  funestos  pelo  valente  capitão.  E  esta  balda 
era  notória  entre  os  soldados,  na  Africa  e  na  índia  (3).  Pro- 
fundamente magoado,  D.  João  retirou-se  da  corte  depois  da 
catástrofe,  e  só  voltou,  ao  cabo  de  anos,  a  instâncias  do  mo- 
narca. Quanto  a  idas  ao  pais  vizinho  é  certo  que  pelo  menos 
uma  vez  passou  lá  seis  meses  (4),  travando  relações  com  di- 
versos próceres  que  poetavam  (5).  Em  1507  ou  1508  foi  no- 
meado governador  da  casa  e  camareiro-mór  do  então  Prín- 
cipe D.  João  III  (6). 

Embora  o  Conde  de  Tarouca  prestasse  serviços  igualmente 
notáveis  ao  reino,  é  em  especial  a  D.  João  de  Meneses-Can- 
tanhede  que  os  Cronistas  tecem  os  mais  encarecidos  louvores. 
Entre  muitos  trechos  escolho  um  do  sóbrio  e  austero  Damião 
de  Góes  que  o  chama  hum  dos  estimados  fidalgos  nestes  regnos 


(i)     Vid.  Resende,  Vida  e  Feytos,  cap.  131  e  132;  Pina,  Crónica  de  D.  João  II, 

caP-  35  e  36- 

(2)  Na  Parte  IV  d'este  estudo. 

(3)  É  nas  Décadas  que  colhi  dois  testemunhos  curiosos.  O  primeiro  foi  pres- 
tado pelo  grande  Vicerei  D.  Francisco  de  Almeida.  No  dia  em  que  expirou  nos 
areaes  do  Cabo  da  Boa  Esperança  (1504)  quando,  forçado  pelas  instâncias  dos 
fidalgos  ia  castigar  os  desmandos  d'uns  negros,  um  seu  servidor  começou  a  bater 
um  no  outro  os  çapatos  do  Vicerei.  Foi  então  que  disse:  «Quão  fora  estava  D. 
João  de  Meneses,  se  aqui  fora  e  ouvira  esse  teu  bater  de  çapatos,  dar  mais  um 
passo  adiante!  ainda  que  fora  pêra  dar  uma  batalha  de  muito  sua  honra!...»  Vid.  Dè~ 
cada  II,  Livro  3,  cap .  9,  p.  336.  O  segundo  passo  diz  respeito  ao  Vicerei  D.  Henri- 
que de  Meneses,  sobrinho  de  D.  João.  Quando  em  1524  ele  se  aprontava  para  uma 
expedição  bélica,  desmanchou  um  braço.  Aconselhado  a  não  a  emprender,  replicou: 
«Se  este  agoiro  fora  baterem-me  hum  çapato,  como  a  meu  tio  D.  João  de  Mene- 
ses, por -ventura  me  provocareis  a  não  sahir;  mas  isto  he  lançar-me  hombro  lóra, 
que  eu  tomo  por  muito  bom  prognóstico.»  Dec.  III,  9,  IV,  p.  387. 

(4)  De  Março  a  Out.  de  1498,  como  um  dos  oitenta  fidalgos  que  acompanha- 
ram o  monarca  a  Çaragoça. 

(5)  P.  ex.  com  o  Conde  de  Fuensalida.  Vid.  Canc.  Geral  I,  125. 

(6)  Góes,  Crónica  d,'  D.  Manuel,  I,  parte  cap.  12;  e  II,  cap.  27-29. 


244  CAROLINA   MICHAÉLIS  DE   VASCONCELLOS 

e  nos  de  Castela  de  quantos  em  seu  tempo  viveram,  porque  <'m 
armas  e  prudência  facilmente  ignara  Oft  pausava  qualquer  outra 
pessoa  em  que  estas  duas  nobres  artes  te  podessem  adiar  (1  ). 

Como  poeta  não  foi  menos  acatado,  como  já  se  viu  nuns 
versos  do  Conde  de  Tarouca.  Sendo  moço  dirigia  trovas  apai- 
xonadas ás  damas  e,  por  sinal,  de  exagero  tão  requintado,  e 
tão  cheias  de  heresias  de  amor,  que  uma  pelo  menos  teve  de 
ser  expurgada  (2).  Pouco  antes  de  findar  ainda  redigiu  vilan- 
cetes  de  amor  (3).  A  urbanidadc  perfeita  do  Qfie  era  mui  lin- 
do fidalgo  (segundo  o  dizer  do  próprio  deus  de  amor  no  famoso 
processo  entre  o  Cuidar  e  o  Suspirar  em  que  tomou  parte)  e 
por  acaso  também  aventuras  suas  que  desconhecemos,  leva- 
ram Gil  Vicente  a  enfileirá-lo  como  mártir  de  amor  numa  la- 
dainha burlesca  de  namorados,  santificados  pela  sua  musa 
folgazan  (4). 

Não  me  ponho  a  analizar  os  versos  de  D.  João.  Elogiados 
excessivamente  por  alguns  críticos  nacionaes,  não  agradam 
a  Menéndez  y  Pelayo  que  dá  pouco  apreço  a  versinhos  de 
amor,  preferindo  os  de  maior  pujança.  Ni  en  castellano  ni  en 
português  hallo  que  saliese  de  la  rutina  cortesana  que  en  su 
tiempo  pasaba  por  poesia  (5). 

A  cotação  em  que  o  tiveram  não  só  os  coevos,  mas  também 
os  poetas  da  escola  nova,  foi  positivamente  alta.  Repito-o  e 
vou  prová-lo.  A  trova  portugueza  sem  fezes  he  muito  para  agra- 
decer; e  se  não,  tomai-me  o  nosso  D.  João  de  Menezes!  Vereis 
se  falou  ninguém  melhor  que  elle.  E  mais,  tudo  he  seu  próprio, 
sem  se  ajudar  do  alheio.  Assim  é  que  Jorge  Ferreira  de  Vas- 
concellos  confirma  os  aplausos  de  Sá  de  Miranda  (6).  A  cantiga 


(i)     Góes,  Crónica  I,  p.  21  da  ed.  de  1790. 

(2)  Estrofe  2  da  poesia  impressa  no  Cone.  Ger,  I,  120.  O  índice  Expurgatório 
que  se  ocupa  d'ela  é  o  de  1624. 

(3)  Canc.  Ger.  I,  132.  Nao  creio  que  sejam  essas  trovas  os  derradeiros  ecos,  a 
que  Sá  de  Miranda  se  refere.  Esses,  seriam  versos  cantados  na  corte  ainda  em  1521. 

(4)  Obras  III,  8o. 

(5)  Antologia,  VII  p.  CXXXIII. 

(6)  Ulysipo,  f.  129.  Em  outra  scena  da  mesma  comédia,  o  dramaturgo  alude  á 
cortesania  perfeita  do  fidalgo:  haveis  que  soubera  aquelle  grande  D.  Joam  de  Me- 
nezes tratar  assi  hua  dama?  (f.  123  v.). 


ROMANCES    VELHOS  245 


Nunca  cessara*  los  oj&s  foi  emsoaáa  por  alguém  (1),  e  entrou 

no  Cancionero  Musical  (2).  A  já  citada 

No  hallo  á  mis  males  culpa 
porque  en  mi  terrible  pena 
la  causa  que  me  condena 
me  desculpa. 

anda  náo  só  1103  dois  C;mcionoit\>s  (3)  e  em  outros  Florilé- 
gios (4),  mas  também  em  Pliegos  Sueltos,  onde  é  atribuída  a 
nm  gentil  konibre  entre  muúkos  oonociêe  (6);  Foi  pasafrasead  a 
duas  vezos  por  Jorge  de  Montemor  ((>)  e  citada  tanto  nos  Au- 
tos de  Prestes  (Ti  como  nas  Cartas  d' Africa  (8).  Ainda  ha 
pouco  tornou  a  ser  publicada...  como  obra  de  um  notável 
quinhentista  castelhano  (9).  Mi  tornr>nto  desigual  foi  introdu- 


(1)  A  julgar  da  epígrafe  de  umas  trovas  suas  (Canc.  Ger.  I  \\z\De  canto  dyor- 
fumj,  D.  João  de  Meneses  era  compositor  como  Gil  Vicente  e  Garcia  de  Resende. 
Portanto  não  é  impossível  que  a  música  perdida,  a  que  se  refere  a  Nota  imediata, 
fosse  obra  sua  individual. 

(2)  Já  não  se  conserva,  infelizmente.  Estava  numa  das  folhas  arrancadas  ao 
precioso  códice  (a  73a).  Vid.  p.  LII  do  índice  alfabético,  anotado  por  Barbieri. 

(3)  Canc.  Gen.  I  p.  502  N.°  337;  Canc.  Ger.  I  410. 

(4)  P.  ex.  num  Canc.  (inédito)  de  Paris:  MS.  602  do  Foud;  Bsfagnol,  f.  231. 

(5)  P.  ex.  num  de  1570,  impresso  em  Granada,  que  faz  parte  da  Coleção  de 
Cracóvia  (N°  C). 

(6)  Obras  de  amor,  Ed.  1554,  f.  39  v  e  181.  Confer  Gallardo,  linsayo  N  '  3122. 

(7)  Autos  p.  453. 

(8)  Carta  I,  Estr.  2.  Por  causa  do  metro,  o  autor  transformou  o  último  verso 
dizendo  La  causa  que  me  condena  Me  serve  (1.  servira)  de  desculpa.  Em  toda  a  parte 
o  texto  tem  erros,  mesmo  na  impressão  portuguesa.  Tal  é  a  sorte,  pouco  invejável, 
dos  autores  bilingues,  ou  pelo  menos  dos  que  cometeram  lusismos.  O  infinitivo 
pessoal,  com  preposição,  em  oração  causal,  contido  na  quadra 

A  muerte  me  condenastes, 

seúoia,por  cuanto  os  quiero, 
y  luego  me  desculpastes 
por  (ou:  en)  serdes  vos  por  quien  muero, 

provocou  diversas  tentativas,  baldadas,  de  emenda.  No  Canc.  Gen.  p.  ex.  imprimi- 
ram en  ser  de  vos,  o  que  não  dá  sentido;  en  ser  vos  por  quien  me  muero  nas  Obras 
citadas  na  Nota  que  segue. 

(9)  Gutierre  de  Cetina,  na  bela  edição  de  Ilazaflas  y  la  Rua,  Vol.  I  p.  254. 
Nenhuma  das  variantes  serve  de  emenda. 


246  CAROLINA  MICHAÉLIS  DE    VASCONCELLOS 

zido  por  D.  João  Manuel  nas  suas  Trovas  centónicas  (1).  O 
simbolismo  da  garça  que,  solta  das  mftos  do  remoutador,  voa 
primeiro  a  medo,  para  finalmente  se  erguer  com  altivez,  es- 
quecendo as  peias,  propagou-se,  também  desligada  e  liberta 
(2).  A  sentença  Quem  tem  alma  não  tem  vida,  remate  de  uma 
esparsa,  serviu  de  tema  para  divagações  místicas  dos  prega- 
dores da  moda  (3)  e  inspirou  a  um  teólogo-poeta,  o  Frade 
da  Rainha,  um  soneto  sacro  cujas  únicíis  rimas  sâo  alma 
e  vida  (4).  O  dístico  antitético  Que  no  vivo,  porque  vivo — Y 
muero  porque  no  muero  transformou-se  em  lugar-comum  da 
poesia  áulica  (õ),  e  foi  immortalizado  por  Santa  Teresa,  que 
o  repetia  nos  seus  arroubos  extáticos  (6).  Luis  de  Camões 
guardava-o  também  na  sua  admirável  memória,  e  empre- 
gou-o  uma  vez,  parodiando-o  (7).  O  ditado  Cativo  são  de  ca- 
tiva reaparece  nas  Redondilhas  do  Poeta,  aplicado  com  suma 
arte  a  Bárbara,  sua  escrava. 


(i)     Canc,  Ger.  I  407. 

(2)  Rennert  N°  109  Un  galan  á  su  amifO.  A  conferir  com  o  Canc.  Ger.  I  108, 
como  já  deixei  explicado. 

(3)  João  de  Barros  condena  na  Rhopica  Pneuma  p.  94  o  emprego  no  púlpito 
de  este  mote  cortesão,  assim  como  de  outros,  de  origem  mundana. 

(4)  Vid.  T.  Braga,  Antologia  portuguesa  N°  1 68. 

(5)  Encontramo'la  p.  ex.  talqual  numa  composição  de  Duarte  de  Brito  no 
Canc.  Get .  I  343,  sem  que  seja  possível  decidir  quem  dos  dois  amigos  imitou  o  ou- 
tro. E  apenas  a  analogia  com  os  casos  alegados  que  me  leva  a  ter  D.  João  de  Me- 
neses em  conta  de  inventor.  Inventor,  ou  pelo  menos  introdutor  na  poesia  áulica 
do  verso  haurido  no  Cantar  dos  Cantares. 

(6)  Entre  os  metrificadores  do  Canc.  Geral  e  Santa  Teresa  ha  certa  distância. 
Ignoro  o  nome  do  transmissor  que  fez  do  dístico  a  triada  que  ela  parafraseou  por 
duas  vezes: 

Vivo  sin  vivir  en  mi 
y  tan  alta  vida  espero 
que  muero  porque  no  muero. 

Paralelos  e  reminiscências  vagas  como 

Ay  que  viviendo  no  vivo! 
ay  que  mnriendo  no  muero! 
não  faltam  no  Canc.  Geral. 

(7)  No  Filodemo,  Acto  II  Scena  8,  v.  21 13,  encontro,  transposto  para  a  3a 
p.,  a  parodia  que  muero,  porque  nu  muere. 


ROMANCES   VELHOS  247 


Como  D.  Joíio  Manuel,  o  de  Meneses  não  desatendia  por 
completo  as  fontes  tradicionaes  da  poesia  lírica.  Entre  os  ver- 
sos d'ele  coleccionados  em  Castela,  talvez  porque  os  escre- 
vera lá,  á  compita  com  magnates  dos  Reis  Católicos,  ha  vol- 
tas a  uma  letra,  na  qual  creio  reconhecer  certa  Serranilha 
antiga,  tanto  em  voga  que  foi  aproveitada  no  século  xv  pelo 
Marquês  de  Santilhana  e  não  somente  inspirou  voltas,  no  xvi, 
a  Sá  de  Miranda  e  a  diversos  anónimos,  mas  também  uma  Co- 
média ao  grande  Lope.  A  letra  diz: 

En  toda  la  trasmontana 
nunca  vi  cosa  mejor 
que  era  su  amiga  de  Antón 
vaquerizo  de  Morana  (1). 

Já  mencionei  a  glosa  de  Darandarte.  Contei  como  perto  de 
Arzila,  o  valente  Capitão  entoou  uni  dia  o  romance  alegre 
dos  Xaboneros  para  animar  os  combatentes.  (2)  E  Venid,  venid, 
amadores!  esse  desabafo  sentimental,  a  que  deu  a  forma  de 
romance  e  que  inspirou  pela  sua  vez  um  dos  irmãos  Pinar,  le- 
vou-me  a  dedicar-lhe  estas  páginas. 

Tal  conjunto  de  notas,  susceptível  de  ampliações,  faz 
suspeitar  que  I).  João  de  Meneses  sobresaía  da  schiera  vol- 
gare,  não  só  como  guerreiro  e  cortesão,  mas  também  como 
poeta  palaciano. 

Quanto  ao  cognome  El  Grande  Africano,  claro  é  que  muito 
melhor  quadrava  aos  dois  ascendentes  acima  nomeados,  cujos 
feitos  heróicos  enchem  duas  Crónicas  particulares.  Mas  o  he- 
roe  de  Ceuta  (f  1437)  e  ode  Alcácer  (f  1464)  não  podem  con- 
correr, cronologicamente,  c  menos  ainda,  porque  sempre  mi- 
litantes, nunca  poetaram  (salvo  erre)  (3). 


(i)  Contribuições  para  o  tema,do  qual  trato  numa  das  minhas  Rtindg/ossen(\.nc- 
dita),  encontram-se  nas  obras  seguintes: Cancionero  publicado  por  AV««<r/-/,N.°  i6l; 
Santillana  p.  466  da  ed.  de  Amador  de  los  Rios;  Sá  de  Miranda,  Poesias  N.°  55; 
Gallardo,  Ensayo  N.°  568,  1462,  3396;  Salva,  Catálogo  N.°  73;  Duran,  Catàhço  de 
Plieoos  Sueltos  N.°  13  e  51. 

(2)  Vid.  §  XLVI. 

(3)  Votar  por  eles,  atribuindo  os  versos  N.os  1  59-164  do  Cancionero  de  Rentnrt 
a  D.  Duarte  ou  D.  Pedro  de  Meneses,  equivaleria  a  um  atraso  de  alguns  decénios, 
na  colaboração  de  Portugal  no  Roíiiamero  palaciano. 


248  CAROLINA  MICHAÉLIS  DE    VASC0NCELL08 


A  favor  da  minha  interpretação  lalam  vários  factos  já  ci- 
tados que  vou  recapitulai-.  D.  João  de  Mènesefl  tomou  parte 
na  Entrada  dei  Rey  Dom  Manuel  em  Carteia  (descrita  num 
opúsculo  de  Garcia  de  Resende,  que  também  pertencia  ao  sé- 
quito do  monarca).  Ahi  se  relacionou  com  o  Conde  de  Kuen- 
salida.  No  Cancionero,  publicado  por  11.  Rennort,  ha  divei 
composições  de  Portugueses,  e  relativas  a  Portugueses,  que 
por  essa  ocasião  colaboraram  nos  pleitos  burlescos  de  Cara- 
goça.  Entre  eles  se  distinguem  es  dois  amigos:  D.  Joíio  Ma- 
nuel com  seu  nome  inteiro;  D.  João  de  Meneses  com  máscara 
transparente,  ora  como  Galan  (ou  gentil  hombre  entre  muchoê 
conocido),  ora  como  El  Grande  Africano  1 1  \, 

[132]  Quanto  ao  pecúlio  poético  de  ambos,  metade  em 
português,  metade  em  castelhano,  umas  quarenta  composições 
de  D.  João  Manuel,  extensas  em  parte  (2),  e  cincoenta  de  D. 
João  de  Meneses,  em  geral  curtas  (3),  ainda  direi  que  lucra- 
riam se,  tiradas  do  âmbito  monótono  e  acabrunhador  dos 
Cancioneiros,  aparecessem  em  edições  modernas,  com  orto- 
grafia e  pontuação  nacional  (4).  O  caso  que  se  deu  com  a  can- 
tiga No  liallo  a  mis  males  culpa,  e  outros  análogos  de  que  me 
ocupei  ha  tempos  (5),  justifica  essa  suposição.  Creio  todavia 
que  mesmo  assim  náo  produziriam  impressões  fortes.  As  suas 
Vidas — traços  individuaes  e  acontecimentos  históricos  em  que 


(1)  Na  Egloga  IV  de  Bernardim  Ribeiro  surge  certo  Africano,  como  amigo  e 
conselheiro  do  pastor  Jano.  Não  ha  comtudo,  indícios  suficientes  para  fazerem 
supor  que  se  trate  de  D.  João  de  Meneses. 

(2)  Cancionero  General,  Nos.  85,  162,  277,  278,  445,  555,  642,  820;  Canc.  Ge- 
ral, I,  374-439;  com  suplementos  no  Vol.  I,  134,  135,  464;  II,  580;  III,  25,  1 1 6, 
233;  Canc.  Rennert,^.0  83,  308-312. 

(3)  Cancionero  General  N.°  337;  Canc.  Geral.  I,  107-135  e  4,  21,  24,  43,  48, 
341;  II,  17,  576,  585,  599;  III,  53,  58,  71,  98,  112,  118,  135,  214,  232;  Canc.  Ren- 
nert  N.°s  159-164  e  109. 

(4)  Recomendo-as  ao  Dr.  Mendes  dos  Remédios  para  os  Subsídios  da  Histo- 
ria da  Literatura  Portuguesa. 

(5)  Aludo  ao  Mote  Olvide y  aborreci.  De  invenção  de  Juan  Alvarez  Gato;  foi 
retocado  por  Garci-Sánchez  de  Badajoz  e  acolhido  nas  Rimas  de  Camões.  E  tam- 
bém tenho  em  mente  as  três  Redondilhas  de  Garcia  de  Resende  (Canc.  Ger.  III, 
596:  Senhora,  pois  minha  vida;  607:  Esperei  já  não  espero;  608:  Meus  olhos,  lembre 
vos  eu)  que  tiveram  a  mesma  sorte. 


ROMANCES  VELHOS  249 


tiveram  parte — continuarão  a  ser  mais  interessantes  do  que 
as  Rimas.  E  o  que  sucedeu  com  os  poemas  do  Condestável  D. 
Pedro  de  Portugal,  comquanto  fossem  de  voo  mais  alto  e  de 
mais  possante  envergadura.  A  palidez  das  comedidas  queixas 
sentimentaes,as  perifrases  retóricas  e (quanto  ao  Condestável) 
o  exagerado  Humanismo  que  se  espraia  em  comparações  eru- 
ditas de  difícil  interpretação,  afugentará  em  geral  os  moder- 
nos leitores  peninsulares,  captivando  apenas  alguns  estran- 
geiros pelo  encanto  táo  português  da  atmosfera  de  afectivi- 
dade terna  e  meiga  em  que  andam  envolvidas. 

Se  dei  desenvolvimento  excessivo  aos  parágrafos  dedica- 
dos aos  dois  amigos,  foi  porque  me  importava  instilar  no  lei- 
tor pouco  a  pouco  noções  correctas  a  respeito  da  idade,  da  po- 
sição social  e  do  carácter  luso-castelhano  dos  autores  que  em 
Portugal  assinam  os  mais  velhos  romances  palacianos.  O 
apurar,  que  pelo  menos  um  d'eies  faleceu  antes  de  1500,  é  im- 
portante. Logo  reatarei  o  fio,  continuando  com  a  resenha  dos 
romancistas  mais  velhos  d'este  país.  Primeiro  tentarei,  po- 
rém, fixar  datas  tão  seguras  quanto  possível  a  respeito  dos 
que  citam  versos  de  romances  no  Cancioneiro  Geral. 

[133]  Nuno  Pereira  (1)  era,  como  já  fiz  ver,  servidor  de 
D.  Leonor  da  Silva,  menina  do  paço,  muito  cortejada,  no  rei- 
nado de  D.  João  II,  também  por  alguns  Castelhanos.  Esses 
amores  originaram  em  1483  no  paço  de  Santarém  o  de- 
cantado Processo  do  Cuidar  contra  o  Suspirar  que  ocupa  as 
quatorze  folhas  iniciaes  do  Cancioneiro  (2).  Nele,  diversos 


(i)  Vid.  T.  Braga,  Poetas  Palacianos  p.  315  326;  Menéndez  y  Pelayo,  Antologia 
VII  p.  cxxx  I.  —  Os  versos  d'ele  acham-se  no  Canc.  Ger.  I  1-104  passim;  249,  27 1; 
II  481,  578  s.;  III  92,  149,  153.  161,  168,  171,   193  s.  223. 

(2)     O  diálogo  inicial,  composto  de  um  rifão  e  quatro  voltas,  principia: 
Vós,  senhor  Nuno  Pereira, 
por  quem  hys  assy  cuydando? 
— Por  quem  vós  hys  sospirando, 
senhor  Jorge  da  Silveira. 
A  Nuno  atribuo  toda  a   estrambótica  parte   final  (de  p.  80  em  diante)  em  que  o 
Cuidar  ou  Seis  mar  sae  triunfante  do  pleito,  incluindo  os  versos  postos  em  boca  de 
Macias,  Mena,  Padron,  e  a  cantiga  portuguesa  que  todos  os   três  (e  a  mais  Tar- 
quinio,  o  de  Lucrécia!)  entoam  juntos  (p.  93). 

17 


250  CAROLINA  MICHAÈLIS  DE   VASCONCELLOS 

trovadores,  na  maioria  casados,  disseram  gentilmente  proli- 
xas semsaborias.  Empregando  promíscuos  os  dois  idiomas, 
louvam-se  de  preferência  em  Macias,  Rodríguez  dei  Padron  e 
Juan  de  Mena  (1),  tomando  uns  o  partido  de  Nuno,  campiâo 
do  Cuidar,  outros  o  de  seu  amigo  e  competidor  Jorge  de  Sil- 
veira que  defendia  o  Suspirar.  Ambos,  e  com  eles  Francisco 
da  Silveira, se  transformaram  comtudo  aparentemente  em  ini- 
migos maldizentes  da  Bda  quando,  desatendendo  os  nobres 
que  a  louvaram  em  metro  cónsono,  casou  com  um  provincia- 
no da  Beira  para  ser  dona  e  d' outrem  sogeita.  Satirizando  en- 
tão o  preferido  como  fidalgote  ridículo,  de  maneiras  rudes  (2) 
trataram-na  a  ela  de  Mal-maridada ,  motejo  lisonjeiro  em  si, 
e  que  foi  aproveitado  desde  então,  durante  decénios,  com  a 
assiduidade  que  mostrei,  por  a  espécie  ser  tão  numerosa  (3). 
Creio  que  o  caso  de  D.  Leonor  se  daria  pouco  depois  de  1483. 
Quanto  aos  motivos  da  recusa,  a  maledicência  dos  con- 
frades descobriu  certas  imperfeições  em  Nuno,  o  Cuidoso.  Nas- 
cido o  mais  tardar  em  1455,  coetâneo  portanto  do  Coudel- 
mór  e  de  D.  João  II,  encalvecera  muito  cedo  (antes  de  1481), 
defeito  que  de  balde  procurava  encobrir,  usando  de  cabe- 
leira. Galante  cortesão  e  born  trovador,  com  quem  o  Príncipe 
muito  folgava  por  lhe  ser  muy  afeiçoado,  segundo  o  testemunho 
de  Garcia  de  Resende,  não  conservou  essa  influência,  após 
a  subida  de  D.  João  ao  trono.  Uni  alvará  com  a  promessa  de  o 
fazer  Conde  foi  rasgado  pelo  soberano,  que  varonilmente  se 
arrependeu  da  leviandade  que  cometera  (4).  Por  estes  e  outros 
incidentes,  não  faltaram  motejadores  a  Nuno  Pereira.  A  calva 
foi-lhe  posta  á  mostra  por  diversos,  p.  ex.  Fernão  da  Silveira, 
o  de  Toro.  O  autor  anónimo  dos  Porquês  de  Setúbal  preguntava 

Porquê  traz  Nuno  Pereira 
cabeleira  sobre  velho  (5)? 

(i)  Na  Antologia  VII  p.  cxxxn  o  ilustre  crítico  parece  considerar  essas  inven- 
ções como  versos  da  própria  lavra  dos  indicados,  que  por  acaso  nunca  foram  re- 
colhidos em  Castela. —  E  lapso,  a  meu  ver. 

(2)  Canc.  Ger.  I  259-256.  Jorge  de  Silveira  trata-o  de  triste  castelhão;  ignoro, 
se  com  algum  direito. 

(3)  Ib.1469. 

(4)  Vida  e  Feytos,  cap.  24. 

(5)  Canc.  Ger.  III,  149. 


ROMANCES   VELHOS  251 


Contra  a  bajulice  ou  insciôncia  com  que  numa  carta  ao  Prín- 
cipe ele  lhe  dera  título  de  Alteza  (correspondente  a  Majesta- 
de) haviam-se  insurgido  ur.s  quatorze  trovadores,  aosquaes, 
de  resto,  ele  não  ficou  a  dever  o  troco,  apontando  os  senões 
de  cada  um  (1).  Garcia  de  Resende  registou  como  cronista  to- 
dos os  traços  por  mim  indicados  (2).  E  mais  alguns.  Por  elo 
sabemos  que  no  ano  dos  Processos  (o  jocoso  do  cuidar,  e  o  po- 
lítico-trágico  do  Duque  de  Bragança)  Nuno  Pereira  era  Al- 
caide de  Portel,  por  nomeação  do  incriminado  (3).  Ahi  mesmo 
tinha  hospedado  pouco  antes  o  pequ  nino  Príncipe  D.  Afonso 
quando,  ao  recolher  das  Terçarias  de  Mour.-1,  fora  levado  a 
Évora.  Fiel  ao  seu  rei,  entregou  cointudo  imediatamente  a 
Fortaleza  á  primeira  ordem  (4). 

Nos  seus  versos  documenta  o  seu  sentir  patriótico,  dizen- 
do mal  dos  nacionaes  que  de  qualquer  jornada  a  Castela 
voltavam  muy  ufanos,  cheios  de  admiração  por  Juan  de  Mena, 
e  amesquinhavam  tudo  quanto  era  português,  em  especial  a 
doce  língua  materna, desdanhando  d'esta  ter raqu'é  pequena  (5). 

De  outros  versos  seus  vê-se  que  de  pação  também  passou  a 
lavrador  (I  256)  e  casou  por  verdadeira  afeição  com  uma  filha 
do  Coudel-mor  chamada  D.  Isabel,  dando-se  bem  com  o  sossego 
da  vida  campestre  (6). 


(i)     Ib.  III,  241. 

(2)  Vida  e  Feytos,  cap.  24,  43,  44  e  200.  No  cap.  200  onde,  ao  falar  da  calvície 
afirma  que  Nuno  devia  então  ser  homem  de  quarenta  anos,  ou  mais.  Os  quarenta 
anos  bem  feitos,  a  que  o  próprio  alude  numa  trova  a  Fernão  da  Silveira,  refiro-os 
todavia  a  esse,  seu  sogro  ou  cunhado  (I,  469), 

(3)  Vid.  Vida  e  Feytos,  cap.  44. 

(4)  Ib.,  cap.  43. 

(5)  Canc,  Ger.  I  265  Trovas  a  Anrrique  d'  Almeyda  quando  veo  de  Castela  com 
o  Duque.  Isto  é:  das  Terçarias,  onde  estivera  com  D.  Diogo  de  Bragança,  servindo 
lhe  de  «viador». 

(6)  Ib.  I  256,  252  e  270. —  As  relações  de  parentesco  com  o  velho  Coudel-mór 
e  seus  filhos  Francisco  e  Jorge  não  são  bem  claras.  No  tempo  do  pleito  de  amor 
(I  14)  o  pae  trata-o  de  cunhado.  Nas  trovas  de  despeito  contra  D.  Leonor  são  os 
filhos  que  lhe  dão  ora  este  nome  (254),  ora  o  de  irmão  (255^.  Ahi  mesmo  Nuno  se 
dirige  a  Francisco  como  «meu  senhor  e  meu  cunhado».  Na  Táboa  genealógica, 
elaborada  por  Braamcamp-Freire,  não  ha  filha  alguma  casada  com  Nuno  Pereira. 
Talvez  apenas  por  não  jazer  no  Espinheiro,  ou  por  não  haver  deixado  descen- 
dência (Sepulturas  do  Espinheiro  p.  12;  cfr.  15.) 


252  CAROLINA  MICHAÈLIS  DE  VASC0NCELL08 


Notas  e  observações  complementares. 

[134]  Jorge  da  Silveira,  competidor  de  Nuno  no  cortejo  a 
D.  Leonor  da  Silva  e  no  rancor  fingido  com  que  persiguia 
a  Bela  mal-maridada,  era  filho  segundo  do  velho  Coudel-mór, 
irmão  portanto  de  Francisco,  que  sucedeu  ao  pae  em  1493  (1). 
Como  todos  os  altos  funcionários  do  paço  justou  nas  festas  de 
Évora.  Foi  do  Conselho  de  D.  Manuel.  Em  1515  foi  nomeado 
(ruarda-mór  e  Camareiro-mór  do  pequenino  Infante  D.  Fer- 
nando. Viveu  até  1523.  Jaz  no  Espinheiro,  com  sua  mulher 
Margarida  Furtado  (2),  uma  das  trovadoras  d'aquela  idade  (3). 
Comquanto  de  veia  fraca,  Jorge  não  se  contentou  de  secun- 
dar os  empresários  de  processos  satíricos  e  amorosos.  Já  sa- 
bemos que  instaurou  o  mais  falado  d' esses  divertimentos  pa- 
lacianos, com  a  ideia  talvez  de  renovar  as  Cortes  de  amor  da 
época  trovadoresca. 

[135]  Duarte  de  Brito,  que  aproveitou  o  verso  final  do  ro- 
mance Oh  Belerma,  era  cavaleiro  de  moradia  de  D.  João  II  (4), 
e  muito  amigo  de  D.  João  de  Meneses  (5).  É  um  dos  melhores 
poetas  do  Cancioneiro.  No  poema  do  Rouxinol,  com  invoca- 
ção ás  Musas,  comparações  clássicas  e  visões  dantescas,  do- 
cumenta-se  familiarizado  tanto  com  o  mundo  greco-latino, 


(i)  Vid.  T.  Braga,  Poetas  Palacianos  p.  382.  —  Canc.  Ger.  I  1-104  passim,  e  255; 
II  518;  III  32,47,  54,  119,  146,  168,  171,  184,  235. 

(2)  Sepulturas  do  Espinheiro,  p.  15. 

(3)  Uma  vez  ela  deu  uni  Mote  a  Duarte  de  Brito  [Canc.  Ger.  I  332");  em  outra 
ocasião  colaborou  nuns  Louvores  de  seu  primo  (e  futuro  cunhado)  Francisco  da 
Silveira  (III  182),  em  que  Jorge  também  tomou  parte  (ib    184). 

(4)  Vid.  Poetas  Palacianos  p.  327-344;  Antologia  VII,  p.  CXXXVI;  Canc.  Ger. 
1286-373. 

(5)  Numa  Carta  de  homenagem  respeitosa  (I  3i7)pinta-o  como  morto  de  pai- 
xão e  perdido  de  amores.  D.  João  responde  glosando  um  verso  de  Duarte  de 
Hrito,  que  lhe  fora  indigitado  por  D.  Leonor  Mazcarenhas  (I  110).  Outra  corres- 
pondência trocaram  os  dois  sobre  um  problema  d'amor  (I  340-341).  Jâ  falei  do 
dístico  Que  vivo  porque  no  vivo.— O  tema  da  garça,  encetado  por  D.  João,  reapa- 
rece igualmente  em  Trovas  de  D.  Duarte  (I  368). 


ROMANCES    VELHOS  253 


como  com  os  neo-clássicos  italianos  e  hespanhoes  (1).  Em  es- 
pecial foram  os  Infernos  de  Namorados  e  Sepulcros  de  Garci- 
Sanchez,  Guevara  e  o  Marquês  de  Santilhana,  que  tentou 
imitar. 

Uma  alusão  ás  Festas  da  Emperatriz  (2),  não  é  prova  su- 
ficiente de  que,  na  mocidade  de  D.  Alfonso  V,  ele  fosse  de 
idade  a  assistir  oficialmente  ao  casamento  de  D.  Leonor  de 
Portugal  com  o  Emperador  Frederico  II  (1451). 

[136]  O  fidalgo  João  da  Silveira,  que  ouvimos  prognosticar 
o  modo  como  certos  mancebos  apaixonados  haviam  de  cantar 
romances  saudosos,  longe  do  ninho  paterno,  nao  pôde  ser  o 
Dr.  João  Fernandez  da  Silveira,  benemérito  diplomata  que 
foi  elevado  em  1475  por  D.  Afonso  V  a  primeiro  Barão  de 
Alvito,  recebendo  um  lustro  depois  o  titulo  de  Dom  (3),  con- 
forme já  expliquei.  Este  parece  haver  versejado  de  longe  em 
longe,  produzindo  ao  todo,  quando  muito,  escassa  dúzia  de  tro- 
vinhas  anódinas.  Mas  nem  por  isso  devia  haver  confusão, 
porque  o  João  da  Silveira  de  que  trato,  metrificava  em  1494, 
e  talvez  posteriormente  (4).  E  o  Baráo,  como  sempre  o  cha- 
maram de  1475  era  diante,  nos  apodos  do  Cancioneiro,  por  ele 
ser  entáo  únicp  neste  país,  já  falecera  antes  de  9  de  Abril 
de  1489  (5). 


(i)  Duarte  de  Brito  conhecia  Novelas  de  amor  dos  séculos  xiv  e  xv;  p.  ex. 
as  de  Hocaccio,  Rodriguez  dei  Padron,  Juan  de  Flores. 

(2)  Canc.  Cer.  I  368. 

(3)  Brasões  de  Cintra,  II  390.  —  Resende  dá-lhe,  em  regra,  o  nome  abreviado 
D.  João  da  Silveira,  p.  ex.  em  Vida  e  l'eytos,  Cap.  35  e  148. 

(4)  Cartas-trovas,  impressas  no  Lane.  Ger.  III  599  a  603,  apresentam-no  como 
correspondente  de  Garcia  de  Resende. 

(5)  Ha  dúvidas  sobre  o  seu  pecúlio,  porque  o  2.°  Barão  d'Alvito,  D.  Diogo 
Lobo,  seu  filho,  metrificava  também  nos  serões,  e  figura  no  Cancioneiro,  ora  com 
seus  nomes  (II  574),  ora,  como  o  pae,  com  o  símplez  título  de  O  Barão  (I  1 17 
Í27),  ora  com  ambas  as  designações  (III  236),  p.  ex.  nas  Justas  de  Évora.  E  pois 
necessário  fixarmos  as  datas  de  todas  as  composições,  epigrafadas  O  Barão,  atri- 
buindo as  anteriores  a  1489  a  D.  João  e  as  posteriores  a  D.  Diogo;  ou  antes  as 
posteriores  a  1499,  porque  c  só  depois  d'esse  ano,  em  que  faleceu  a  Baronesa  D. 
Maria  de  Sousa,  verdadeira  proprietária  do  lugar  de  Alvito  e  do  magnifico  Castelo 
ahi  edificado  de  1482  a  1504,  que  D.  Diogo  teve  o  baronato.  Vid.  Brasões  de  Cin- 
tra II  423. — Os  versos  sobrescritados  O  Barão  ou  Barão  de  Alvito  encontram-se 


254  CAROLINA  MICHAÈLI8  DE   VA8C0NCELL08 

Ignoro  quem  seja  o  homónimo,  autor  também  só  de  insig- 
nificantes rimas  de  ocasião  (1),  mas  em  todo  o  caso  superior 
ern  talento  ao  liarão.  Se  foi  da  familia  do  Coudel-mór,  os  Ge- 
nealogistas esqueceram-8e  d'ele,  por  ter  falecido  novo,  c  sem 
descendência,  e  sem  haver  desempenhado  cargos  honoríficos 
ou  praticado  feitos  gloriosos  ('2). 

[137]  Quanto  a  Pêro  Moniz  sei  que  servia  de  reposteiro- 
mór  a  D.  Manuel  (1506)  (3).  Gil  Vicente  menciona-o  na  Fra- 
goa  d' Amor  (1525)  por  causa  dos  seus  lindos  ares  de  fidalgo, 
barba  castanha  escura  e  olhos  garços  cansados  (4).  Garcia  d' 
Albuquerque,  segundo  dos  mancebos  que  João  da  Silveira 
tinha  em  vista  (5),  era  filho  do  primeiro  Conde  de  Penamacor, 
D.  Lopo  de  Albuquerque,  que  serviu  de  Camareiro-mór  a 
D.  Alfonso  V,  tendo  todavia  de  sair  de  Portugal  por  impli- 
cado na  conspiração  do  Duque  de  Viseu  (1484). 

[138]  D.  João  de  Sousa  e  Ruy  de  Sousa,  seu  pae,  Senhores 
de  Sagres  e  Nisa,  sâo  notabilidades  da  corte  de  D.  Afonso  V 


no  Vol.  III  a  p.  8,  14,  37,  46,  54,  117,  172  227,  393,  397;  os  alusivos  ao  Barão,  ou 
a  Alvito,  acham-se  no  Vol.  I  138,  II  505;  alguns,  a  ele  dirigidos,  ha  no  Vol.  II  120, 
12!,  124,  368  e  no  III  127.  Inclino-me  a  atribui-las  todas  a  D.  Diogo.  Hesito  ape- 
nas quanto  ao  Vol.  III  p.  1 17  e  227,  e  quanto  a^s  Porquês  de  Setúbal  (III  239).  O 
nome  Lobo  Alvito,  empregado  por  Álvaro  de  Brito  (I  277)  e  na  pregunta 

Porqtte  a  Lobo  Alvito,  nado 
nam  lhe  sabemos  amyguof 
não  é  indício  seguro. 

(1)  As  composições  de  João  da  Silveira  estão  no  Vol.  III  a  p.  10,  19,  43,  56, 
57,  244,  251,  356,  359  e  599-603. 

(2)  Nas  obras  de  Draaincamp-Freire  não  encontrei  notícias. 

(3)  Brasões  de  Cintra  II  261. 

(4)  Obras  II  344.  —  Gil  Vicente  menciona-o  também  no  Processo  de  Vasco 
Abai  (Carie.  Oer.  Ill  535.). 

(5)  Vid.  Resende,  Vida  e  Peytos,  Cap.  52,  54  e  74;  Braamcamp-Freire,  Brasões 
de  Ctntta  II  392  c  A  Ciente  do  Cancioneiro,  em  Rev.  Lus.  XI  343.  Quem  possuir  a 
muito  útil  Tavoada  do  Cancioneiro  Geeral  dos  Aytos  (Lisboa  1900),  com  que  dois 
Obsequiosos  de  Sacavém  brindaram  os  investigadores,  poderá  verificar  com  facili- 
dade, quaes  as  obras  de  cada  um  dos  Poetas  Palacianos,  e  quaes  os  motejos  com 
que  os  companheiros  os  ridicularizaram.  Aos  que  não  tenham  essa  vantagem  direi 
(como  proprietária  gratíssima  do  Exemplar  N.°i)  que  os  versos  dos  nobres  rima- 
dores,  que  cito  nos  §§  129  a  144,  são,  como  de  costume,  galantes  letras  ás  damas, 
motes  de  Justas,  ou  rifões  de  burla. 


ROMANCES   VELHOS  255 


e  D.  João  I[,  distintos  como  diplomatas,  guerreiros  e  corte- 
sãos. Versejavam  só  excepcionalmente.  De  Ruy  subsistem 
três  trovas  (1);  de  D.  João  possuimo3  uma  única  (2).  O  pae  é 
o  mais  apreciado  (3),  mas  também  o  mais  apodado  dos  dois. 
Segundo  os  Porquês  de  Setúbal,  tanta  vez  citados,  ainda  era 
mundanal  aos  noventa  (4),  idade  que  talvez  não  se  deva  enten- 
der literalmente.  Ou  então  não  é  exacto  o  epitáfio  da  sua  cam- 
pa, que  dá  setenta  e  cinco  ao  velho  embaixador,  falecido  em 
Toledo  (õ),  entre  14  de  Fevereiro  e  4  de  Junho  de  1498  (6). 

D.  João  tomou  parte  na  guerra  de  sucessão,  decidida  pela 
batalha  de  Toro  (7).  Em  1498  esteve  na  empresa  da  Gracio- 
sa (8).  No  ano  imediato  figurou  nas  Justas  de  Évora,  corno 
mantendor  do  monarca.  Em  1497  não  faltou  na  ida  a  Castela 
e  Arngão,  sendo  distinguido  em  Toledo  «entre  todos»  pela 
Rainha  D.  Isabel  (9),  que  em  1494  (e  talvez  antes)  tivera  en- 
sejo de  avaliar  as  suas  qualidades  cavalheirescas;  especial- 
mente em  Arévalo  (10).  Do  Conselho  de  D.  João  II  e  do  su- 
cessor, pessoa  muito  principal,  muito  valente  cavaleiro,  muito 
bom  capitão,  singular  cavalgador  de  gineta  e  toureador  incom- 
parável (11),  eis  como  vivia  na  memória  de  Resende. 

[139]     Pedro  Homem,  conhecedor  do  romance  de  Duran- 
darte  a  Belerma  (como  Duarte  de  Brito),  era  fidalgo  do  Senhor 


(i)     Canc.  Ger.  III  118.  187;  II  189. 

(2)  Ib.  III  190. 

(3)  Ib.  I  169,  276,  478  III  1 18,  145.  Entre  os  elogios,  que  os  coevos  lhe  distri- 
buíram, o  mais  interessante  é  o  que  o  apelida  tal  fazedor  de  mornos,  qual  ante  nos 
se  nam  sabe. 

(4)  Ib.  Ill  239.  —  Ahí  também  se  alude  ao  filho. 

(5)  Resende,  Entrada  em  Castela  p.  298.  Dos  pormenores  da  sua  vida,  o  mais 
antigo  c  o  cargo  de  Guarda  de  D.  Afonso  V,  antes  de  o  Reisinho  pegar  nas  rôdeas 
da  Governo  em  1449. 

(6)  Sepulturas  do  Espinheiro  p.  9.  O  expediente  de  lermos  no  Cancioneiro  seten- 
ta (LXX,  em  vez  de  I.XLJ,  talvez  agracie  a  alguns  leitores. —  Vida  efeytos,  Cap.  1 73. 

(7)  Vida  e  Feytos,  Cap.  7  e  8,  34,  80  e  81;  167  e  168;  172  e  173;  Ruy  de  Pina, 
Crónica    de  D.   Afonso    V,  Cap.  189;  Góes  Crónica  do  Príncipe,  Cap.  96. 

(8)  Pina,  Crónica  de  D.  João  //,  Cap.  38. 

(9)  Entrada  em  Castela,  p.  302  e  305. 
'    (10)      Vida  e  Feytos,  Cap.  80  e  81. 

(1:)     Ib.,  Cap.  81. 


250  CAROLINA  MICHAÈLIS  DE   VASC0NCELL08 

D.  Manuel  e  um  dos  sete  aventureiros  que  o  acompanharam 
nas  Justas  das  bodas  de  1490  (1).  Depois  da  subida  d'ele  ao 
trono,  Pedro  Homem  sempre  ficou  ao  seu  lado,  na  qualida- 
de de  estribeiro-mór,  até  o  filho  D.  Francisco  lhe  suceder  em 
1518  (2).  Claro  está  que  era  das  relações  íntimas  de  D.  João 
Manuel,  D.  João  de  Meneses,  Jorge  da  Silveira,  Nuno  Perei- 
ra, o  Coudel-mór  e  seu  filho,  os  dois  Sousas,  emfim  toda  a  so- 
ciedade culta  dos  seraos.  Como  versificador  tratou  os  mesmos 
assuntos  palacianos  que  inspiraram  os  companheiros,  sem  in- 
dividualidade pronunciada  (3). 

[140]  Com  relação  a  Fernão  da  Silveira,  escrivão  da  pu- 
ridade de  D.  João  II,  adicto  aos  Braganças,  e  por  isso  justi- 
çado como  traidor,  o  qual  vimos  na  corte  do3  Reis  Católicos 
discutir  um  romance  sobre  a  batalha  de  Toro,  já  esbocei  li- 
geiros traços  biográficos  (4).  Como  poeta  foi  pouco  fértil, 
muito  menos  que  o  seu  homónimo  e  coetâneo,  com  o  qual  foi 
confundido  ás  vezes.  Mas  bom  Português  também,  conforme 
demonstrou  na  resposta  a  D.  Fernando  de  Aragão.  Quando  no 
tempo  das  terçarias  esteve  em  Castela,  mordendo  então  cas- 
telhano, por  necessidade  e  mal,  deu  réplica  salgada  a  um 
chasqueador  de  lá,  que  motejava  dos  Portugueses  vindos 
com  o  Duque  D.  Diogo,  e  dos  senões  do  seu  bilinguismo  obri- 
gado (5).  Claro  está  que  nessa  réplica  não  falta  a  alusão  á 
victória  de  Aljubarrota.  Português  era  também  na  sua  qua- 
lidade de  muito  namorado,  quasi- Macias ,  segundo  se  vê  nu- 
mas trovas  em  que  se  finge  morto,  afim  de  ouvir  o  que  as  da- 
mas diriam  d'ele  (6).  Nos  serões  pertence  ao  grupo  de  Nuno 
Pereira  e  dos  Silveiras  (7). 


(i)      Vida  e  Fcytos,  Cap.  128. 

(2)  Góes,  Crónica  I  Cap.  24. 

(3)  Vid.  Canc.  Ger.  I,  460-467,  409;  II,  598;  III,  25,  29,  61,  87,  112,  117,  187 

«93»  233  269- 

(4)  Vid. §  125. 

(5)  Canc.  (Sí?:  II  29:  Trovas  em  resposta  de  outra  que  certos  Castelhanos  escre- 
veram A  porta  do  paço  em  Castela,  andando  lá  o  Duque  D.  Diego. 

(6)  Vol.  I.3. 

(7)  Além  de  um  ramilhcte  de  veiv       de  galanteria  (Vol.  II   13  a  29),  no  qual 
está  metido  uma  pregunta  do  Coudel-mór  que  facilita  a  identificação,  parecem-me 


ftúMA.VCES    VELHOS  251 


Quanto  ao  valor  literário  do  Coudel-mór,  já  houve  quem  o 
caracterizasse  com  simpatia,  pelo  positivismo  e  pelo  humor 
que  o  distingue  (1).  Notarei  apenas  a  tendência  que  tinha  de 
datar  as  suas  composições  históricas;  e  do  outro  lado  a  pouca 
conta  em  que  os  companheiros  e  societários  tinham  a  sua 
veia.  Um  d'eles  preguntou  nos  Porquês  de  Setúbal: 

Porquê  o  Coudel-mór  fez 
tanta  má  trova  escrever?  (2), 

designando-o  d'este  modo  como  empresário  de  processos  de 
folgar.  Outro,  pelo  contrário,  deu  a  entender  que  era  autor 
dos  versos  que  corriam  com  o  nome  de  seus  filhos,  pelo  me- 
nos com  o  do  primogénito  (Francisco)  (3). 

[141]  D.  Pedro  de  Almeida,  o  que  contrafez  os  versos  re- 
lativos a  Babieca  e  á  egua-m&G,  é  outro  fidalgo  que  não  ins- 
creveu o  seu  nome  nas  páginas  da  história  portuguesa,  talvez 
por  sucumbir  cedo,  nos  areaes  da  Africa.  Comquanto  colabo- 
rasse nas  empresas  jocosas  dos  trovadores  e  trocistas  de  fins 
do  século  (4),  relacionou-se  mais  intimamente  com  os  senten- 
ciosos,  nascidos  em  sino  de  latim,  cndoutrinados  lá  fora  por 
Poliziano,  ou  cá  no  país  por  Justo  Balduíno  e  nas  aulas  de  Ca- 
taldo  Sículo.  O  seu  melhor  título  de  glória  é,  aos  meus  olhos, 
a  pequena   dedicatória  com  que  foram  submetidas  ao  seu 


ser  d'ele  certos  rifões,  assaz  rudes,  impressos  no  Vol.  II  p.  102  e  III  76-80,  109, 
1 1 1  e  149,  todos  pertencentes  a  empresas  burlescas,  em  que  surgem  em  geral  os 
dois  homónimos  (o  Coudel-Mór  e  Regedor,  com  esses  seus  títulos;  o  Escrivão, 
com  o  seu  nome  ) 

(1)  Vid.  Poetas  Palacianos  p.  360-372;  Antologia  VII  p.  CXXXIV.  O  principal 
núcleo  dos  seus  poemas,  didácticos  e  cultur-históricos,  está  no  Vol.  I  136- 178, 
240,450,470,  471,  472.  No  Vol.  II,  II,  23  589  e  no  III  77,  79,  81,  83,  103, 
110,  14H,  ha  bagatelas  insignificantes:  Ajudas  e  Respostas  provocadas  por  nutrem, 
assim  como  algumas  cantigas.  Uma  d'essas  foi  glosada  por  João  Gomez  da  Mina 

("  41). 

(2)  Vol.  III  241. 

(3)  Ib.  159. 

(4)  No  Vol.  III,  311-320  ha  versos  de  amor  da  sua  lavra.  A  maior  parte  das 
suas  trovas  {Ajudas  e  Respostas)  anda  todavia  nos  cadernos  dos  seus  amigos  e  co- 
rrespondentes: D.  Luis  de  Meneses  \\\  474-476)  e  João  Rodrlguez  de  Sá  c  Mene- 
ses (II  427-441). 


258  CAROLINA  MICHAÊLIS  DE   VASC0NCELL08 

juizo  traduções  portuguesas  de  algumas  Heróldas  do  Sulmo- 
nense(l): 

Eu  fiquei,  Senhor,  corrido 
porque  sei  que  vos  rirei 
de  quam  mal  ensinei  Dido 
a  fa'ar  o  português 
Trabalhei  mui  bem  meu  giro: 
trabalhei  porem  em  vilo 
sem  dar  boa  concrus-ão, 
porque  ela...  era  de  Tyro, 
e  bem  sabeis  d'onde  eu  são  (2). 

[142]  Assim  lhe  escrevia  João  Rodriguez  de  Sá  e  Meneses, 
com  receio  de  que  a  innovação  não  agradasse  e  as  belezas  dos 
clássicos  latinos  naufragassem  em  linguagem  e  no  metro  na- 
cional. Este  autor  é  um  dos  que,  com  versões  de  Ovídio  e  Ti- 
bulo  (3),  e  urnas  Quintilhas  heráldicas,  em  que,  descrevendo 
os  brasões  das  mais  notáveis  famílias  de  Portugal,  toca,  de 
leve  embora,  em  feitos  históricos  (4),  galgou  as  barreiras 
acanhadas  da  fútil  poesia  áulica,  na  qual  a  princípio  comun- 
gara, naturalmente.  Atingindo  idade  nestoriana  (5),  transfor- 
mou-se,  no  reinado  de  D.  JoíLo  III,  em  amigo  e  inteligente 
Mecenas  de  poetas  quinhentistas  e  homens  de  bom  saber, 
como  Lourenço  de  Cáceres  (6).  Alguns  como  Diogo  Bernár- 
dez,  António  Ferreira,  Pedro  de  Andrade  Caminha  enaltece- 


(i)     Como  se  vô  trata-se  ein  especial  da  Carta  de  Dido  a  Eneas. 

(2)  Caiu.  G,-r.  Ií,  436. 

(3)  Ib  II,  375-417.  João  Rodriguez  de  Sá  e  Meneses  e  João  Rodriguez  de 
Lucena  (II  548  e  557)  são  os  únicos  traduetores  de  textos  latinos  que  figuram  no 
Cancioneiro.  Ambos  seguiam  as  pisadas  de  Encina,  o  qual  pouco  antes  de  1490 
tentara  nacionalizar  as  Bucólicas  de  Vergilio  (com  liberdade  muito  maior).  Vid. 
Antologia,  VIÍ  p,  1-110. 

(4)  Ib.  II  358. 

(5)  Diz-ie  que,  nascido  em  Í464  (?\  morreu  em  1576.  Antes  de  1557  um  do» 
■eus  admiradores  rematava  uma  Carta  que  lhe  dirigia  com  os  parabéns  seguintes: 

Inda  os  bisnetos  vejais 
dos  bisnetos  que  ja  vedes. 

Góes  Crónica  IV,  cap.  38,  dizia  em  1567  que  ele  contava  mais  de  oitenta  anos. 

(6)  Memorias  de  Literatura.  Vol.  V  349. 


ROMANCES  VELHOS  259 


ram-no  como  antigo  pae  das  Musas  d' esta  terra.  E  Sá  de  Mi- 
randa, que  não  era  louvaminheiro,  dizia-lhe: 

As  letras  que  não  achastes, 

vós  as  metestes  na  terra! 

A'  nobreza  os  ajuntastes 

com  que  d'antes  tinham  guerra  (1). 

Por  tudo  isso  é  assaz  conhecido.  Restrinjo-me  a  lembrar  que 
era  sobrinho  de  D.  João  de  Meneses,  ao  lado  do  qual  ganhara 
em  Azamor,  em  1507,  as  esporas  de  cavaleiro.  Como  filho  do 
poeta  palaciano  Anrique  de  Sâ  (2),  era  Alcaidc-mór  do  Porto, 
herdeiro  de  Sever,  e  Senhor  de  Massarellos,  S.  João  da  Foz  e 
Matozinhos  (8). 

Parece-me  certo  que  o  poeta  que,  pessoalmente,  aprovei- 
tou os  aforismos  românticos  do  Mensajeiro  e  dos  Erros  por 
amores,  havia  de  coinprcnder  o  dístico  alusivo  ao  cavalo 
do  Cid. 

[145]  Garcia  de  Resende  (o,.  1470— c.  1536),  último  do  pe- 
queno grupo  romancista  do  Cancioneiro,  é  o  mais  importante, 
porque  foi  o  primeiro  que  compôs  um  poema  narrativo  com 
sabor  nacional,  sobre  um  acontecimento  histórico  transacto, 
que  emparelha  com  os  romances  (4),  mais  uma  vez  o  repeti- 
mos. O  autor  das  Trovas  de  D.  Inês,  c  talvez  de  Tiempo  bue- 
no,  glosador  d'este  romance  lírico,  e  citador  de  Durandarte  e 
da  Bela  mal  maridada,  evolucionou  todavia  de  modo  diverso. 
De  poeta  palaciano,  bilingue  (5),  e  de  benemérito  colecciona- 
dor das  produções  métricas  da  sua  época,  passou  a  historia- 


(i)  Sá  de  Miranda,  Poesias  p.  205  (texto)  e  749,  788,  e  a  Tabela  Genealógica. 
Claro  está  que  hoje    podia  ampliar  e  rectificar  essas  páginas,  redigidas  em   1880. 

(2)  Ciiuc.  Ger.  II  526-343;  200;  234. 

(3)  Brasões  de  Cintra.  I  336. 

(4)  Se  abstrahirmos  da  prosa  dos  linhagistas  e  dos  Cronistas  de  D.  \lfonso  IV 
e  D.  Pedro,  foi  Resende  quem  primeiro  se  ocupou  dos  amores  de  D.  Inôs,  assun- 
to, posteriormente,  de  tantos  poemas  c  dramas.  Ao  curioso  recomendo  o  Capítulo 
<Ca/nões  e  António  ferreira.  1  VI"  <l..s  Fontes  dos  Lusíadas)  do  Dr.  José  Maria  Ro- 
drigues, obra  importante  publicada  no  Instituto.  A  p.  175  da  Separata,  ha  refe- 
rencia aos  Campos  do  Mondego. 

(5)  Canc.  Ger.  II  154,  156,  184,  315,  451,  470,  476,  487,  488,  587,  596;  III  6, 
22,  36,  39,  49,  57,  69,  71,  75,  248,  255,  262,  271,  573  a  666. 


260  CAROLINA  MICHAÈLIS  DE   VASCONCELLOS 


dor,  de  segunda  mão  embora,  compondo  o  livro  Vida  e  Feitos, 
tantas  vezes  citado  nestas  páginas,  por  estar  repleto  de  infor- 
mações preciosas  sobre  a  corte  e  o  Príncipe  Perfeito,  que  o 
honrara  com  a  sua  confiança. --Moço  da  câmara  d'ele  até  1490, 
dos  que  faziam  guarda  a  el  rei  sob  as  ordens  do  Guarda-mór 
e  dormiam  perto  d'ele,  e  durante  um  ano  ao  serviço  do  Prin- 
cipe  D.  Afonso,  voltou  ao  de  D.  João  II,  avançando  então 
ao  posto  de  moço  da  escrevaninha  (1).  Em  1498  acompanhou 
o  sucessor  a  Castela  e  Aragão,  como  secretário  e  tesoureiro  (2). 
Em  1514  fazia  parte,  nas  mesmas  qualidades,  da  embaixada 
de  Tristão  da  Cunha  á  cúria  de  Leão  X.-  No  reinado  de  D. 
João  III  ocupou  a  posição  de  escrivão  da  fazenda  e  fidalgo 
da  casa  dei  rei,  que  lhe  fora  outorgada  por  D.  Manuel.  No 
fim  da  vida  tornou  a  versejar  sobre  assuntos  portugueses,  na 
forma  e  no  estilo  despretencioso  das  Trovas,  compendiando 
todos  os  acontecimentos  notórios  do  seu  tempo  numa  crónica 
rimada,  a  que  deu  o  título  apropriado  de  Miscelânea  e  varie- 
dade de  historias.  Comquanto  não  fosse  insigne  em  nenhuma 
especialidade,  a  critica  moderna,  tanto  nacional  como  estran- 
geira, fez  justiça  aos  serviços  importantes  que  prestou  á  pá- 
tria, e  ao  seu  espírito  enciclopédico  de  músico,  desenhador, 
poeta  e  historiador  (3). 

A  alusão  á  Bela  é  bastante  posterior  ás  de  Nuno  Pereira  e 
Jorge  da  Silveira.  Não  se  refere  portanto  a  D.  Leonor  da 
Silva  (4). 

[144]  Gregório  Afonso,  um  dos  poucos  versejadores  de  baixa 
esfera  que  por  excepção  figuram  no  florilégio  aristocrático  de 
Resende,  não  escreveu  romances  de  que  saibamos,  nem  os  ci- 
tou. Todavia  tive  de  mencioná-lo  (õ)  como  autor  de  uma  com- 


(i)     Do  predecessor  Ruy  de  Sande,  (mais  tarde  D.  Rodrigo  de  Sande)  jâ  falei 
mais  acima. 

(2)  Além  da  Crónica  e  Entrada  e/n  Castela,  deixou  ainda  outro  opúsculo  his- 
tórico: Ilida  da  Infanta  D.  Beatiiz  pêra  Saboya. 

(3)  Braamcamp-Freire,  nas  Sepulturas  do  Espinheiro,  p.  67-80,  e  Menéndez 
y  Pelayo  na  Antologia  VII  p.  cxll. 

(4)  A  composição,  em  que  ocorre,  deve  ser  de  1508  ou  1509.  Emende-se  neste 
sentido  a  dúvida,  expressa  mais  acima. 

(5)  N°§47. 


ROMANCES   VELHOS  261 


posição  em  estilo  popular,  imitada  por  Gil  Vicente  no  Auto  da 
Barca  do  Inferno,  e  por  isso  reimpressa  e  muito  citada.  Esses 
Arrenegos  (1),  que  irmanam  com  outros  géneros  igualmente 
populares  (como  os  Porquês,  os  Nuncas,  os  Disparates,  as 
Maldições,  os  Apiahás,  algumas  Regras  de  bem  viver,  Pala- 
vras moraes,  Avisos  para  guardar)  e  com  alguns  textos  líri- 
cos, constituem  nos  Romanceros  o  grupo  especial  dos  parea- 
dos  dissonantes  ou  discordantes,  que  já  mencionei  diversas 
vezes. 

Nada  se  sabe  d'ele  senão  que  foi  criado  do  Bispo  d'Evora, 
D.  Afonso  de  Portugal  (;2),  primo  dei  rei,  e  pae  de  D.  Fran- 
cisco, primeiro  Cunde  de  Vimioso,  autor  de  sábias  Sentenças 
vasadas  em  singelas  quadras  vulgares.  Sabia  castelhano  mui- 
to regularmente  (3)  e  por  certo  não  escreveria  apenas  as  três 
amostras  conservadas  pelo  compilador.  Pôde  ser  escrevesse 
para  o  povo  composições  propagadas  por  cegos  ambulantes,  e 
mais  tarde  em  Folhas  soltas  (4). 

[145]  Reatando  agora  o  fio  que  mais  acima  quebrei,  torno 
aos  raros  autores  de  romances  que  figuram  no  Cancioneiro 
Geral,  ou  vieram  pouco  depois.  Todos  eles  são  tào  distinta- 
mente conhecidos,  ao  contrário  dos  meros  citadores,  que  es- 
tou dispensada  de  apurar  pormenores  biográficos. 

Bernardim  Ribeiro  (1482-1552),  o  poeta  mavioso  da  Meni- 
na e  Moça  e  de  cinco  Eglogas  com  mais  algumas  poesias  me- 
nores, foi  mencionado  por  mim,  porque  utilizou  o  provérbio 
salomónico  dos  Erros  por  amores  (5)  e  também  para  assentar 


(1)  Canc.  Ger.,  Vol.  II  534. 

(2)  Bispo  de  1485  a  1522. 

(3)  No  Cancioneiro  (II  593  e  544)  ha  duas  cantigas  castelhanas  de  Greqoti» 
Afonso. 

(4)  Se  o  mulato  Afonso  Alvares,  autor  de  àwersos  Autos  sacros,  alguns  dos  qtiaes 
ainda  hoje  se  imprimem  e  representam,  foi  realmente  da  família  do  mesmo  Bispo, 
como  parece,  esse  seria  outro  jogral  popular,  de  fins  do  século  xv  ou  primeira 
metade  do  xvi,  dos  que  poderiam  ter  nacionalizado  romances  castelhano*.  O 
quarto  seria  o  seu  rival  encarniçado,  o  praguento  e  burlesco  Chiado,  autor  das  Par- 
voíces, das  Profecias  e  dos  Avisos  para  guardar,  se,  como  penso,  já  versificava  en- 
tre 1530  e  1540. 

(5)  Vid.  No.  67. 


262  CAROLINA   MICHAÈLIS  DE   VASC0NCELL0S 

que  não  é  sua  uma  glosa  castelhana  de  Dundartera,  impressa 
num  Pliego  Suelto  gótico,  juntamente  com  uma  Egloga  de  que 
é  autor,  mas  também  com  diversas  composições  alheias  (1). 
Agora  registarei  três  poesias  narrativas,  que  lhe  foram  atri- 
buídas, todas  do  mesmo  subjectivismo  dolorido  e  commoven- 
te  que  distingue  não  só  a  sua  prosa  mas  também  as  Bucólicas 
rimadas  e  as  trovas  juvenis,  palacianas  (2).  Só  uma  cinge-se 
ao  tipo  comum,  tendo  rima  contínua  (em-ar).  Eo  Romance  de 
Avalor,  designado  expressamente  pelo  próprio  autor  como 
Canta r-romance.  Intercalado  no  Livro  II  da  novela,  serve, 
com  a  misteriosa  vaguidão  e  profunda  tristeza  que  exhala, 
quasi  que  a  autenticar  não  essa  discutidíssima  continuação 
por  inteiro,  mas  pelo  menos  os  primeiros  capítulos,  impressos 
logo  na  impressão  de  Ferrara  (1554)  (3);  isto  é  na  edição  que 
até  hoje  passa  por  ser  a  primeira  (4). 

E'  costume  tratar  igualmente  de  romance  a  narrativa  em 
forma  de  monólogo  que  se  imprimiu  solta,  mas  talvez  cons- 
titua o  remate  da  Egloga  V. 

Ao  longo  de  uma  ribeira      que  vai  polo  pé  da  serra 

onde  me  a  mim  fez  guerra      muito  tempo  o  grande  Amor  (5). 

(i)  Em  testemunho  da  falta  de  critério  do  editor  da  folha  volante  e  dos  reim- 
pressores  modernos,  basta  dizer  que  tratam  de  romances  da  lavra  de  Bernardim 
Ribeiro  a  cantiga  Justa  fite  mi  perdiciôn  de  Jorge  Manrique,  e  a  paráfrase  de  Bos- 
can  (composta  de  cinco  décimas).  Menendez  y  Pelayo  cinge-se  á  opinião  errónea 
de  Garcia  Perez  (Catálogo  Razonado  p.  492);  este,  pela  sua  vez,  louvava-se  nos  edi- 
tores da  impressão  de  1852.  Repito  aqui,  que  Bernardim  Ribeiro  é  dos  poucos  Qui- 
nhentistas portugueses  que  nunca  se  serviram  de  idiomas  estrangeiros.  Nem  mes- 
mo emquanto  frequentava  a  corte.  Vid.  Canc.  Ger.  III  539-543  e  389-892.  A  T.  Bra- 
ga ainda  hoje  não  repugna  aceitar  como  obra  de  Bernardim  Ribeiro  a  glosa  cas- 
telhana de  Ok  Belerma. — Vid.  Bernardim  Ribeiro  e  o  Bucolismo,  p.  90. 

(2)  Nas  edições  antiga9  estão  a  renglones  seguidos  como  verdadeiros  roman- 
ces. A  distribuição  em  quadras  é  arbitrária. 

(3)  Os  Capítulos  I  a  XVII  (repartidos  a  princípio  em  apenas  doze  trechos).  O 
romance  faz  parte  do  Cap.  XI. 

(4)  No  Jahresbericht  IV  p.  213  expus  que  o  MS.  de  Madrid,  a  edição  de 
Ferrara  e  a  de  Colónia  dão  apenas,  em  doze  ramos,  o  equivalente  dos  dezasete 
primeiros  Capitulos  da  Segunda  Parte,  o  que  torna  provável  a  hipótese  de  o  res- 
to, publicado  pela  primeira  vez  em  Évora  (1557-8),  ser  continuação  postiça  de  al- 
gum anónimo,  bem  ou  inal-intencionado. 

(5)  Almeida-Garrett  incluiu-a  no  seu  Romanceiro  (Vol.  III  p.  155-182),  a  par 
das  outras  duas  de  que  me  ocupei. 


ROMANCES   VELHOS  2G3 


E  para  isso  é  razão  suficiente  a  construção  métrica,  pois  é  a 
dos  Arrenegos  e  géneros  semelhantes,  adoptada  por  diversos 
romancistas  do  reino  vizinho,  como  Garci-Sanchez  de  Ba- 
dajoz, e  seus  imitadores  portugueses.  Comquanto  esse  romance 
em  pareados  impares  —  (descordo,  se  nos  servirmos  de  um 
termo  da  poética  dos  trovadores  galego-portugueses) — surgis- 
se muito  tarde,  (na  edição  da  Menina  e  Moça  que,  em  1645  foi 
publicada  por  um  parente  do  poeta)  (1),  não  o  tenho  em  conta 
de  apócrifo,  porque  nao  conheço  entre  os  gongoristas  e  con- 
ceitistas  de  então  algum  que  fosse  capaz  de  se  cingir  ao  estilo 
tão  símplez  e  vago,  e  na  sua  vaguidão  tão  poético,  de  Ber- 
nardim Ribeiro  (2). 

A  terceira  poesia,  também  solilóquio  pensieroso,  é  aquele 
singular  e  afamado  cantar  á  maneira  de  solao  «que  era  o  que 
nas  cousas  tristes  se  acostumava  nestas  partes»  (3),  cantar 
tanto  do  gosto  dos  coevos  que  o  glosaram  e  citaram  a  miúdo 
(4).  A  ama  da  menina  Aonia  recita-o,  psalmodiando  ad  una 
você,  sem  instrumento,  como  era  e  é  costume  das  mulheres  do 
campo,  quando,  sentadas  ao  sol  diante  das  suas  casas,  folgam 
ou  se  ocupam  de  singelas  tarefas  femininas: 

Pensando  vos  estou,  filha,      vossa  mãe  me  está  lembrando. 
Enchem-seme  os  olhos  d'agua,      nela  vos  estou  lavando. 


(1)  Neto  de  um  primo-co-irmão  de  Bernardim. 

(2)  Os  erros  de  impressão  í-uo  numerosos,  mais  ainda  do  que  os  que  detur- 
pam as  tão  apreciadas  folhas  volantes. 

P.  S.  (1908)  Em  outro  lugar  responderei  ao  livro  recente  de  Delfim  Guimarães: 
Bernardim  Ribeiro:  O  Poeta  Crisfal  (Lisb.  1908).  No  Cap.  VIII  (A  parte  apócrifa 
da  mknina  e  moça)  o  autor  ocupa-se  do  Romance  de  Avalor.  No  Cap.  XIII.  (Um  ro- 
mance apócrifo),  do  descordo,  cuja  contextura  não  reconheceu. 

(3)  Parte  I.  Cap.  No  Capitulo  imediato  repete-se  o  vocábulo  solao.  Na  edi- 
ção de  1852  deram-lhe  o  título  de  Romance,  em  harmonia  com  o  procedimento 
de  Almeida-Garrett. 

(4)  Foi  glosado  p.  ex.  por  um  Anónimo  do  Cancioneiro  de  Luis  Frcnco  (com 
variantes).  Entre  as  citações,  unia  dai  principaes  encontra-se  na  Aulegrafia  f.  168. 
A  glosa,  muito  incorrecta  foi  impressa  por  T.  Braga  na  sua  Antologia  N."  142  e  no 
volume  Bernardim  Ribeiro  e  o  Bucolismo  (p.  188),  onde  a  atribue  ao  próprio  Ber- 
nardim. 

P.  S. — Atribuição,  que  é  Ião  pouco  justificada  como  a  novíssima  a  Camões, 
realizada  por  Delfim  Guimarães. 


264  CAROLINA  MICHAÈL1S  DE    VASCONCELLOS 

Nascestes,  filha,  entre  magoa!       Pêra  bem  inda  vos  peja, 
pois  em  vosso  nascimento      Fortuna  vos  houve  inveja. 

Esta  melancólica  composição,  com  insólita  abundância  de  ri- 
mas, não  teve  predecessores  nem  imitadores,  quanto  ao  es- 
quema métrico  (1).  Por  causa  d'este  isolamento,  a  critica  nâo 
chegou  a  definir  os  característicos  da  espécie  (2).  Começando 
com  um  octonário  branco,  continua  com  rimas  cruzadas  (2 
com  4;  3  com  5),  sempre  variadas,  de  modo  que  temos  uma 
sequência  de  quadras,  que  todavia  não  produzem  o  efeito  das 
coplas  populares,  por  não  o  serem  sintacticamente,  e  por  se- 
rem precedidas,  conforme  disse,  do  verso  solto  do  início.  A 
dissonância  que  de  ahi  resulta  é  augmentada  pela  particula- 
ridade de  cada  copla  ter,  além  da  consonância  usual  nos  ver- 
sos impares,  mais  outra  nos  pares,  com  correspondência  por 
tanto  na  quadra  antecedente  e  na  que  segue.  Eis  o  esquema: 

XABA  |  BCDC  |  DEFE  |  FGHG,  etC. 

Quanto  ao  romance  castelhano  de  D.  Bernaldino,  compos- 
to em  vida  do  poeta  (3): 

Ya  piensa  D.  Bernaldino      ir  su  amiga  visitar, 

não  é  impossível  que  ele  seja  obra  de  algum  Castelhano,  seu 
amigo  e  admirador,  mal  informado  sobre  a  sorte  do  pobre 
doido,  internado  no  Hospital  de  Todos-os  Santos,  ou  que  fan- 


(i)  Eu.  pelo  menos,  não  conheço  paralelo  algum.  Resta-me  todavia  averiguar, 
se  o  ha  nas  obras  de  Juan  de  Encina,  porque  este  começador  do  estilo  pastoril 
tentou  nos  seus  romances  muitas  innovações,  poucas  das  quaes  vingaram. 

(2)  Por  isso  mesmo  repugna-me  juntar  novas  tentativas  etimológicas  às  nu- 
merosas que  já  existem  Ainda  assim  direi  que  me  inclino  hoje  a  equiparar  solao  ao 
vocábulo  galego  solano  solana,  sinónimo  de  sofajlhàro  (e  como  este  derivado 
de  sol).  Se  ao  Norte  do  Minho  chamam  contos  de  solana  aos  que,  ao  Sul  do  mesmo 
rio,  são  contos  da  carochinha,  creio  será  porque  lá  não  narram  histórias  nem  can- 
tam romances  apenas  de  noite,  em  volla  do  lar,  mas  também  (e  de  preferência)  de 
dia,  ao  ar  livre,  em  sítios  onde  der  o  claro  sol,  amigo  dos  heroes.  A  locução  cantar 
de  solao,  empregada  por  Jorge  Ferreira  de  Vasconcellos,  com  relação  a  moços  de 
espora  que  autre  mó  de  cavalos  se  entretinham  cantando,  emquanto  os  amos  es- 
tavam no  terão  (Aulegrafia  f.  2.°),  mostra  que  em  sentido  lato  de  solao  significava 
ao  ar  livre. 

(3)  Foi  publicado  no  Cancionero  de  Romances  de  1550  (Duran  N.°  293). 


ROMANCES    VELHOS  266 


tasiassc  a  seu  respeito  com  licença  poética  (1).  A  influência 
que  a  musa  de  Bernardim  Ribeiro  exerceu  antes  de  1554  além 
das  fronteiras,  é  digna  de  atenção,  embora  até  hoje  seja  mal 
definida  (2). 

[§146]     Cristóvam  Falcão  (c.   1510  (?)-1553)  (3),  autor  da 
«muy  nomeada  e  agradável  Egioga  Crisfal:» 

Autre  Sintra  a  muy  prezada      e  serra  de  Ribatejo, 

preso  durante  mais  de  cinco  anos,  por  instigação  dos  paren- 
tes de  D.  Alaria  Brandão,  com  a  qual  catara  a  furto,  dedicou 
á  amada  a  Egioga  tão  cheia  de  traços  autobiográficos,  e  como 
prelúdio,  uma  Carta  sentida  de  tom  plangente  (4),  desespera- 
damente desconexa,  como  os  apaixonados  desabafos  de  Soror 
Mariana: 

Os  presos  contam  os  dias  mil  anos  por  cada  dia, 
mas  os  me. is,  sem  alegria,  como  os  contarei  e  i, 
verdadeiro  amor  meu      a  quem  por  meu  Deus  conheço? 

Essa  também  pode  em  rigor  figurar  no  Romanceiro  Português, 
porque  o  esquema  métrico  é  o  do  monólogo  Ao  longo  de  uma 
ribeira,  dos  Arrensgos  c  quantas  mais  composições,  quer  lí- 
ricas, quer  burlescas,  existem  em  pareaclos  discordantes. 

Pedindo  vénia  vou  intercalar  aqui  tanto  o  Romance  de 
Avalor  como  a  carta  de  Crisfal  (ambos  em  lição  crítica)  (5). 


(i)  Lembre-se  o  leitor  das  liberdades  típicas  que  Cervantes  tomou,  quando  no 
Persiles  novelava  a  respeito  de  Frei  Luis  de  Sousa,  assim  como  das  diversas  co- 
médias cujos  protagonistas  são  D.  João  Manuel  e  D.  João  de  Meneses. 

(2)  Falei  d'ela  no  Jarhesbericht  IV,  2  p.  215.  E  conto  ocupar-me  d'ela  de 
novo,  oportunamente.  Aqui  baste  nomear  Alonso  Nuuez  de  Reinoso,  Feliciano  de 
Silva,  Miguel  de  Carvajalcs,  Luis  Ilurtado  de  Toledo. 

(3)  Segundo  documentos  que  dizem  respeito  a  C.  Falcão,  as  Trovas  de  Crisfal 
não  podem  haver  precedido  as  Egloças  de  Bernardim  Ribeiro.  Conlinuo  todavia  a 
considerar  as  Trovas  superiores  cm  espontaneidade  e  ternura  encantadora  às 
Éclogas  de  Bernardim  Ribeiro.  Apenas  a  de  Jano  e  Franco  emparelha  com  elas, 
assim  como  a  prosa  da  Menina  e  Moça. 

(4)  Do  verso  31  podia-se  concluir  que  a  carta  fora  precedida  de  ontras. 

(5)  Sigo  a  lição,  até  hoje  nunca  reproduzida,  da  edição  de  Ferrara  (1554)  qUe 
me  permite  restaurar  passos  deturpados  nas  edições  portuguesas.  Regu  o  a  orto- 
grafia sem  a  modernizar.  Onde  emendo  palavras  que  me  parecem  erradas,  ponho 

18 


206  CAROLINA  MICHAÊLIS  DE    VA8C0NCELL08 

D'esfce  modo  o  leitor  terá  presentes,  como  ilustrações  típicas, 
os  quatro  exemplares  mais  perfeitos  do  romanceiro  palaciano 
de  Portugal  da  l.a  metade  do  século  xvi. 

I  Romance  de  Avalor. 

Mas  da  sua  ida  (isto  é:  da  partida  de  Arima,  anagrama  de  Maria)  e 
como  Avalor  também  após  elia  se  foi,  não  se  soube  então  inteiramente 
mais  que  per  um  cantar  romance  que  daquelle  tempo  ficou,  que  diz 
assim: 

Pola  ribeira  de  um  rio,      que  leva  as  aguas  ao  mar, 

vai  o  triste  de  Avalor.       Não  sabe  se  ha  de  tornar! 

As  aguas  levam  seu  bem!      ele...  leva  o  seu  pesar! 

Soo  vai  e  sem  companhia,      que  os  seus  fora  ele  deixar, 
5  que  quem  não  leva  descanso,      descansa  em  só  caminhar. 

D'escoutra  onde  ia  a  barca      se  ia  o  sol  abaixar: 

indo-se  abaixando  o  sol      escurecia-se  o  ar; 

tudo  se  fazia  triste      quanto  havia  de  ficar. 

Da  barca  levantam  remos      e  ao  som  do  remar 
10  começaram  os  remeiros      dos  bancos  este  cantar: 

« Que  frias  eram  as  aguas!      quem  as  haverá  de  passar? 

Dos  outros  bancos  respondem:       *Quem  as  haverá  de  passar 

senão  quem  a  vontade  pôs      onde  a  não  pôde  tirar?» 

Tra  la  barca  lhe  vão  olhos      quanto  o  dia  dá  lugar! 
15  Não  durou  muito,  que  o  bem      não  pode  muito  durar. 

Vendo  o  sol  posto,  contr'ele,       soltou  os  olhos  ao  chorar, 

soltou  rôdeas  ao  cavalo      d'  á  beira  do  rio  andar. 

A  noite  era  calada      pêra  mais  o  magoar, 

e  ao  compasso  dos  remos      era  o  seu  suspirar. 
20  Querer  contar  suas  magoas      seria  áreas  contar. 

Quanto  mais  se  ia  alongando,       se  ia  alargando  o  soar: 

dos  ouvidos  e  dos  olhos      a  tristeza  foi  igual. 

Assim  como  ia  o  cavalo      foi  pela  agua  dentro  entrar, 

e  dando  um  longo  suspiro      ouvia  longe  falar. 
25  t  Onde  magoas  levam  alma      vão  também  corpo  levar!* 

E  indo  assim,  por  acerto      foi  c'um  barco  n'agua  dar, 

que  estava  amarrado  á  terra      e  o  seu  dono  era  a  folgar. 

Saltou,  assim  como  ia,  dentro      e  foi  a  amarra  cortar. 

A  corrente  e  a  maré      acertarain-no  a  ajudar. 


os  colchetes  de  uso,  e  justifico  em  nota  o  meu  procedimento.  Adopto  a  disposi- 
ção épica  dos  versos. 

P.  S.  Na  sua  edição  das  Trovas  de   Crisfal  Delfim  Guimarães  já  introduziu  na 
Carta  as  rectificações,  por  mim  indicadas  no  Jahresbericht. 


ROMANCES    VELHOS  207 


30  Não  sabem  mais  que  foi  d'ele      nem  novas  se  podem  achar. 
Suspeitou  se  que  era  morto,      mas  não  6  pêra  afirmar, 
que  o  embarcou  Ventura      pêra  só  [n]isso  [o]  guardar! 

* 
Mais  são  as  magoas  d'amor      do  que  se  pôde  cuidar! 

Nas  Variantes  que  seguem  F  significa  Ferrara  (1554);  E  Évora  1557 
e  as  reimpressões  de  1852,  1886,  1907;  G  Gallardo,  Ensayo;  A  Almeida 
Garrett. — A  redacção  contida  no  Ensayo,  (IV  c.  90  N.°  3615)  é  reprodução 
de  um  manuscrito,  de  meados  do  século  xvi,  e  portanto  digna  de  aten- 
ção.—Segundo  o  seu  costume,  Almeida-Garrett  retocou  o  texto,  que  é  o 
da  edição  de  Évora. — 1  G  Pelas  ribeiras  d'um  rio.—  A  Pela  ribeira. — 
4  EG  E  soo  vai  sem  companhia.—  A  E  só  vai  s.  c.  -  leixar.— 5  EGA  ca.— 
6  E  donde.—  A  a  baixar.— 6  e  7  E  abaxar-abaxando.— 9  Eremo.  —  G  pêra 
averem  de  remar.— 10  F  començaram.  —E  do  barco.— A  da  barca.— 11  G 
geram. —12  EA  barcos. — 13  A  senão  quem  pôs  a  vontade.—  EA  donde.  — 
14  E  levam  olhos.—  G  ho  leuam  os  olhos.  -15  Na  edição  de  Ferrara  ha 
o  erro  duram.—  O  segundo  hemistlquio  falta  em  E.—G  diz:  soltou  os  olhos 
ao  chorar.  -A  não  teve  mais  que  pensar.-  17  E  da  beira.- G  deu  beira 
do  rio  andar  {erro  de  leitura  por  d' em  beira?).— A  abeira  do  rio  a  andar  — 
18  FG  E  a  noite.— 19  AF  que  ao  compasso.—  G  Do  compasso.  —FG  era  o  do 
seu  suspirar.— 21  G  Quanto  mais  ^e  alongava.  —A  Quanto  mais  ia  alon- 
gando.—22  EA  Dos  seus  ouvidos  aos  olhos.  —G  des  que  os  ouvidos  e  os 
olhos.— CG  a  tristeza  foi  igualar.  — 24  G  ouvira.— 25  A  levam  olhos.  — 26 
A  Mas  indo. — 58  G  salta.— 31  A  Suspeitaram  que  foi  morto. — 32  EG  que 
não  o  embarcou  ventura.— A  para  só  isso  aguardar.— E  mas  mais  são  as 
aguas  do  mar. — A  mas  mais  tão  as  magoas  do  mar.  —EA  do  que  se  podem 
curar. 

II  Carta  [de  Crísfal]  (1). 

Carta  do  mesmo  estando  preso  que  mandou  a  úa  senhora  com  que  era 
casado  a  furto  contra  voutade  de  seus  parentes  d'ela,  os  quacs  a  que- 
riam casar  com  outrem,  sobre  que  fez,  segundo  parece,  a  passada  Egloga. 


(i)  Ed.  Ferrara  f.  147  v.  A  Carta  é  ahi  precedida  da  Egloga.  Na  Taboada  do 
volume,  está  registada  a  Menina  e  Moça  de  Bernaldim  Ribeiro  e  alguns  Eglogas 
suas.  E  assi  algus  motes  e  cantigas  do  mesmo.  —  Depois,  de  f.  129  r  a  167  v  ,  vem 
o  seguinte: 

Húa  muy  nomeada  e  agradauel 

Egloga  chamada  crisfal  que  diz: 
Entt  e  Sintra  a  muy  prezada 

que  dizem  ser  de  Cristouam  fal- 

cam,  ho  que  parece  alludir  ho 

nome  da  mesma  Egloga. 


208  CAROLINA  MICHAÈLIS  DE   VA8C0NCELL0S 

Os  presos  contam  os  dias:      mil  anos  por  cada  dia; 

mas  os  meus,  sem  alegria,      como  os  contai ei  «-u, 

Aerdadeiro  amor  meu,      a  quem  por  meu  Deu[s]  conheço, 

pois  como  preso  padeço      (e  como  quern  vos  não  vê) 
5    mal  (cuja  dor  se  não  crê)      de  prisão  e  de  amêucia, 

e  sein  pecar,  penitencia      faço  de  trás  de  Úa  grade? 

Meus  olhos,  de  escuridade,      já  nilo  \6m;  ettão  mortais! 

E  pêra  que  era  ver  mais      des  que  vos  eles  lRo  viram? 

desque  de  vós  se  espeiiram?      Bem  se  enxerga  nos  danos 
10  que  estou  preso  ha  cinqu'  anos,      afora  os  que  hei  de  estar, 

passando  em  dessejar      o  tempo  que  vos  não  vejo. 

Vede  que  fé  de  dessejo      em  que  lugar  mVicompanha! 

Nunca  se  viu  fé  tamanha      nem  tam  mal  agradecida! 

Não  quis  Deus  que  a  minha  vida      fo^se  pêra  mais  que  isto, 
15  ainda  que  em  vos  ter  visto      não  naci  em  vão,  senhora; 

que  a  vida  é  úa  hora,      este  bem  será  etert  o, 

que,  quer  estee  no  inferno,      (iue)  quer  esíee  no  paraiso, 

nunca  me  verão  deviso      d'aqueste  tamanho  bem! 

E  não  vos  diga  ninguém       que  o  mal  que  me  tendes  feito 
20  me  faz  ter  outro  respeito,       inda  que  fora  rc/.ão; 

mas  não  quer  o  coração      pelo  muito  que  vos  quer; 

e  sempre  isto  ha  de  ser      enquanto  eu  vivo  for. 

Q  ,e  verdade  e  que  amor      pêra  se  não  ter  em  muito! 

e  quam  pouco  é  o  fruito       que  d'ele  tenho  tirado! 
25  Quem  lançasse  o  meu  cuidado      onde  o  não  visse  mais, 

pois  lembranças  tam  mortais       traz  á  minha  fantesia 

que  basta  ua,  de  um  dia,      pêra  me  os  meses  tirar! 

Nele  vos  vi  eu  chorar,       e  nele  chorei  também  — 

derradeiro  do  meu  bem      e  primeiro  de  meu  mal! 
30  Nada,  senhora,  me  vai;      não  sei  em  qu«  me  sostenho! 

Pois  que  vos  escrito  tenho,      porquê  não  vejo  reposta? 

Quem  vos  pÔ3  no  que  estais  posta?      Que  palavras  vos  disseram 

que  mais  que  a  rezão  poderam      que  já  outro  nós  posemos? 

Cuidai  quanto  nos  quisemos!      eiâo  vos  possa  mudar 
35  dizer  que  vos  podem  dar      outrem  que  tenha  mais  que  eu! 

Pode  ser;  não  [o]  nego  eu;      mas  bem  vo3  posso  afirmar 

que  não  podereis  achar      outrem  que  vos  tanto  queira. 

Olhai  que,  á  derradeira,       riqueza  não  tira  dor, 

pois  antre  ela  e  o  amor,      qual  é  mais  pêra  estimar 


Ilua  carta  do  dito:  lios  presos  co- 
tam os  dias       Mil  anos  por  cada  dia. 

E  outras  cousas  que  entre  lendo  se 
poderam  ver. 


fíOMANCES    VELHOS  269 


40  deve  ser  bem  de  julgar.       Mas,  comquanto  eu  isto  digo, 
mal  acabarei  comigo,       senhora,  que  possa  crer 
mudar-se  vosso  querer      por  nenhuns  outros  q íereres, 
esquecendo  os  prazeres       do  nosso  tempo  passado, 
que  me  faz  tão  esforçado       que  emquanto  (a  meu  cuidar) 

45  a  terra  me  não  gozar,       ninguém  gozará  de  vos 

senão  meu.»  cuidados  sós,       que  em  vossa  contemplação 
os  tempos  gastando  vão       como  se  fosseis  presente, 
com  ua  fe  tam  constante       como  no  tempo  milhor! 
Ese  isto  ante  vos  for       que  me  pus  a  escrever, 

50  querei,  senhora,  entender       que  tinha  que  dizer  mais; 
mas  lembraram-me  os  sinais       vossos  e  olhos  fermosos; 
e  os  meus,  de  saudosos,       lembrando-se  que  vos  viram, 
com  lagrimas  me  impediram       poder  pôr  mais  por  escrito. 
Baste  o  que  tenho  dito       pêra  haver  por  galardão 

55  três  regras  de  vossa  mão,       pêra  reponta  das  quais, 

senhora,  fi^ue  o  mais      que  aqui  escrever  devera 

se  o  escrever  pudera! 

Variantes:  (1)8  F  Deu  com  maiúscula;  completado  por  mim  para 
deus  é  a  lição  tio  texto  original.  -  Birckman,  que  extirpou  o  nome  de 
Deus  cm  cinco  passos  diversos  do  autor  (2),  imprimm:  a  quem  por  meu 
bem  conheço.  E  esta  emenda  foi  repetida  por  TE.  Os  reimpressores  an- 
tigos não  (j  miaram  porém.  A  d iz;  do  qi.e  outro  amor  mereço;  A-C  que 
outro  amor  merecia.—  í  UE  como  a.—  5  A  qual  cuja.—  A-C  qual  crua. — 
AC àe  pesar  ou  de  ausência.  — 0  pois  (em  todas  as  edições).—  !  BAC  já 
não  vem,  já  e.-tão  mortaes.—  8  ACTE  Mas.—  AC  para.  —  9  AC  que  de  vóa 
se  despediram.  -10  Coque.— 12  A  CT  que  só  o  desejo. — AC  neste  lugar 
acompanha. -13  AE  c  tam  mal  agrade,  ido. — 14  T  Não  quis  fortuna  que 
a  minha  vida.  —  AC  Não  quis  deus  que  minha  vida.— AC  para.  — 15  AC 
inda.— 16  BE  e  de  ua  hora.  -BTEeste  bem  sendo  terreno  (!)  17  BTEAC 
quer  este  em  mim  mesmo  (!)  BT  queque r  este  sem  juízo  (!)  ACE  quer  este 
fora  de  siso  (!)  IS  AC  diviso. — A  daquesse.— 21  A  polo.  —  li  quero.— 22 
ACluo.--  24  FD  c  pouco  bom  é  o  frui  to.— A  A-C  fruto.— 25  AE  que  lan- 
çasse.— A  donde  o  nosso  visso  mais.—  A'2C  donde  o  vo3so  visse  mais.— 26 
AC  pois  as  lembranças  moi  tae.s  me  fazem  tam  grande  mal.  De  2G'X  saltam 
portanto  a  20  b. — .9  T  de  meu  mal.  —  30  AC  nem.  —  30b  o  31"  esião  trans- 
postos em  AC.  -  31  A  veyo.  —CT  resposta.  -35  A  qu'eu.— 36  ACT  1'oder 


(í)  /'.  Ferrara  1554;  I>.  Birckman  1 559;  //.  António  Alvarez  1 6 1 9;  y/2,  id.  1639; 
C.  Costa  Carvalho  172;  P.  T.  Braga  1871;^.  Epiphanio  Diaz  r 873.— Omito  todas 
os  variantes  meramente  gráficas  (ou  linguisticas),  porque  não  tem  importância 
para  os  fins  d 'este  estudo.  Não  c  preciso  dizer  expressamente  quaes  lições  são 
meros  erros  de  imprensa. 

(2)     Cfr.  Jahrtsbericht^  IV  Tarte  II  p.  215;  e  Literaturblatt  1894,  p.  276. 


270  CAROLINA  MICHAÈLIS  DE    VASC0NCELL0S 

Bor  nao  nego  o.  -  37  AC  outro  que  tanto  vos  queira.— 39  AC  entr'ela. — 
40  AC  deve  se  bem  de  julgar.— A  mas  comquanto  isto  digo  A2C  mas  era- 
quanto  isto  Vos  digo.  — 41  A  que  posso  crer.— A^C  se  posso  crer.— 43  C  de 
nosso  tempo. — 44  .4.42(70  que  me  tem  esforçado  que  emquanto  eu  cuidar. 
48  ACI  melhor.  —  50  AC  querer.— 51  BE  finais.  —  .4Clembramme  os  si- 
naes— TIembra-me  os  sinaes.— 52  AC  que  os  viram —53  AC  impediam— 
pudera  mais  por  escrito.— 54  BF  pêra  a  veer.— 55  C  pela.  — 56  IiEdi ve- 
ra. —57  .áC  se  se. —2*7  poderá. 

Olhando  para  os  sentidíssimos  versos,  que  reconduzi  ao  seu 
teor  primitivo  (1),  o  leitor  talvez  aprove,  aplaudindo,  a  longa 
citação  que,  de  resto,  pôde  salvar,  saltando,  segundo  a  receita 
de  Camões. 

[147]  De  Gil  Vicente  (fal.  em  1539)  (2),  profundo  conhece- 
dor da  alma  nacional  e  das  suas  manifestações  populares,  mas 
também  das  literaturas  medievaes,  subsistem  uns  nove  textos 
narrativos,  quer  independentes, quer  intercalados  nos  seus.4tt- 
tos.  Já  citei  três:  o  de  D.  Duardos  e  Flérida;  a  paródia  Yo  me 
estaba  en  Coimbra;  e  o  romance  de  ocasião  que,  dedicado  ao 
nascimento  de  um  filho  de  D.  João  III,  principiaPor  Mayo  era, 
por  Mayo  (3).  Na  lista  que  segue,  registo-os  por  ordem  crono- 
lógica, e  indico  o  idioma  empregado.  Note-se  que  todos  os  da 
sua  lavra,  com  uma  excepção  (motivada)  tem  o  título  romance, 
como  o  têm  na  boca  d'ele  todos  os  alheios  e  velhos  que  cita. 

1)*     1518.— Vol.  I,  246.— Português,  em  -ia: 
Remando  vão  remadores      barco  de  grande  alegria. 

2)  1519.— Vol.  II,  416.— Castelhano,  em  -ia: 
Nifia  era  la  Ifanta,      Dona  Beatriz  se  decia 

3)  1521.—  Vol.  III,  348.— Português,  em  -ia: 
Pranto  fazem  em  Lisboa      dia  de  Santa  Luzia  (4). 

4)  1521.— Vol.  III,  355.— Português,  em  -ai: 
Dezanove  de  Dezembro,      perto  era  do  Natal  (5). 


^i)     Especialmente  io,  12,  17,  22,  33  do  Romance,  e  3-14-16-17  d&Carta  me- 
recem atençfto,  por  terem  variantes  de  peso. 

(2)  Quanto  á  data  do  nascimento,  hesita-se  ainda  entre  1475  e  '452- 

(3)  Dos  remedos  vicentinos  da  Bela  mal-tnaridada,  uns  são  quadras  (II  485); 
outro,  em  guineo,  é  cantiga  (II  333). 

(4)  A'  morte  dei  Rei  D.  Manuel. 

(5)  A'  aclamação  de  D.  João  III. 


ROMANCES   VELHOS  271 


5)*     1525.— Vol.  II,  249.— Castelhano,  em  -ia: 

En  el  mes  era  de  Abril,      de  Mayo  antes  uu  dia. 
6)     1526.— Vol.  III,  202.— Português,  era  -ada  (1): 

Yo  me  cátaba  en  Coinbra,      cidade  bem  assentada. 
7)*     1527.— Vol.  I,  333.— Castelhano,  em   ando: 

Vocês  daban  prisioneros,      luengo  tiompo  estdn  lloraudo  (2). 
8)*     1529.— Vol.  II,  478.— Castelhano,  em  -ado: 

Dios  dei  cielo,  rey  dei  mundo,      por  siempre  seas  loado  (3). 
9)     1533.— Vol.  II,  531.— Castelhano,  em  -ar: 

Por  Mayo  era,  por  Mayo,      ocho  dias  por  andar  (4). 

Como  se  vê,  apenas  quatro  vão  em  linguagem  nacional. 
Nenhum  vai  em  quadras.  Todos  tem  rima  contínua. — E  essas 
sào,  em  regra,  consonâncias  puras  e  perfeitas  (5). — Graves, 
sete  vezes;  agudas  só  em  dois  casos. 

[148]  Jorge  Ferreira  de  Vasconcellos  (f.  em  1563,  ou  pouco 
antes)  (6),  outro  bom  observador  e  pintor  de  costumes  na- 
cionaes,  veio  bastante  mais  tarde.  As  suas  principaes  criações 


(i)     Português,  apesar  do  primeiro  hemistíquio,  que  é  citação  castelhana. 

(2)  Cantarão  os  presos  o  romance  seguinte,  que  fez  o  mesmo  autor  ao  mesmo 
propósito. 

(3)  A  introdução  diz: 

Vos,  Sirenas,  que  cantareis 
por  memoria  y  enxalzamiento 
de  su  vida  y  nacimiento, 
este  romance  oireis. 

Ao  nascimento  de  uma  filhinha  de  D.  João  III. 

(4)  Já  expliquei,  por  que  motivo  Gil  Vicente  dea  o  nome  de  cantiça,  bailada 
a  vozes,  por  dois  coros  de  romeiros,  a  esta  composição  curiosíssima.  E  torno  a 
lembrar  que  foi  a  intercalação  de  um  refram  extenso  que  a  transformou  assim. 

(5)  Notei  apenas  três  desvios  ligeiríssimos:  em  N.°  2  Castilla  e  maravilla,  em 
7  Biscaia;  em  9  cittdad  e  natural. 

(6)  Ignora-se  por  ora  a  data  do  nascimento.  E  nem  se  sabe  ao  certo,  se  a  co- 
média Eufrosina,  sua  estreia,  é  anterior  aos  Vilhalpandos  e  Estrangeiros  de  Sá  de 
Miranda.  E  incerto  também,  se  o  autor  era  parente  da  Jorge  de  Vasco  Goncellos, 
cunhado  de  João  Rodriguez  de  Sá  e  Meneses,  que  figura  no  Cancioneiro  Geral, 
como  autor  de  rifões  insignificantes.  Sua  vida  como  a  sua  obra  precisa  ser  estu- 
dada, e  merece  sê-lo. 


272  CAROLINA  MICHAÈLIS  DE   VASCONCELLOS 


(duas  das  comédias,  c  um  livro  de  cavalarias),  sRo  todavia 
anteriores  a  1550.  —  Só  a  Aulegrafia  e  um  tratado,  perdi- 
do, sobre  a  educação  de  D.  Sebastião,  sito  posteriores. — Ser- 
viu de  moço  da  câmara  ao  Infante  D.  Duarte  (f  1540),  pas- 
sando em  seguida  ao  serviço  do  Príncipe  D.  João.  A  este 
dedicou  as  suas  obras,  menos  a  Eufrosina,  oferecendo-as,  de- 
pois da  sua  morte  prematura  (1553),  ao  filho  pós-thumo,  el  Rei 
D.  Sebastião.  Muito  embuido  em  literaturas  clássicas,  docu- 
mentava os  seus  conhecimentos  com  graça,  mas  com  demasia 
da  ostentação. Compensou  todavia  esta  pequena  balda  pela  sua 
fina  comprensâo  do  génio  e  do  idioma  pátrio,  tão  invejado  e  re- 
prendido,  e  pelo  entusiasmo  sincero  com  que  recolhia  elemen- 
tos tradicionaes,  e  enaltecia  trovas  c  músicas  portuguesas. 
Admirando  Gregos  e  Latinos,  que  cita  a  cada  passo,  imitando 
Terêncio,  sabendo  de  cór  Dante  e  Petrarca,  Garci-Sanchez  e 
Rodríguez  dei  Fadron,  Garcilaso  e  Boscan,  tinha  predilec- 
ção declarada  por  trovas  portuguesas,  sem  fezes  corno  as  de 
D.  João  de  Meneses  (1),  gostando  mais  porém  das  poesias 
saudosas  de  Bernardim  Ribeiro  e  do  estilo  sentencioso,  mui 
limado  e  novo,  de  Sá  de  Miranda. 

Quanto  a  romances  velhos,  tresladei  ditos  d'ele,  relativos  a 
Buen  Conde  Fernan  González,  Por  aquel  postigo  viejo,  Para 
que  paristes,  madre,  que  provam  o  enfado  e  a  ironia  com 
que,  âs  vezes,  olhava  para  taes  antigualhas,  ou  pelo  menos 
para  aqueles  que  os  glosavam,  caminhando  por  sendas  já 
muito  trilhadas  (2).  Mas  ainda  não  registei  outros  dizeres 
d'ele,  relativos  a  romances  em  geral,  importantes  porque  ne- 
les confirma  e  justifica  as  queixas  formuladas  em  1515  por 
Garcia  de  Resende.  Uma  vez  censura  os  conterrâneos  por 
nao  deixarem  escritura  das  suas   façanhas   (3).    Outra  vez 


(i)  Das  menos  perfeitas,  não  gostava  nada.  Quando  muito  concede-lhes  al- 
guma graça.  Em  geral,  benze-se  como  de  espirro  dos  antigos  trovistas  palacianos, 
que  trata  de  músicos  de  fantasia;  e  não  dá  uma  palha  por  um  Inferno  de  amor  ou 
Testamento. 

(2)  Glosas  eram  cansadas  coisas  para  o  gosto  fino  d'  esse  Jorge. 

(3)  No  engraçado  mas  complicado  Prólogo  da  Eufrosina  ha  diversas  alusões. 
Ora  afirma  que,  se  os  Portugueses  se  prezassem  de  sua  lingua  até  então  enconcha- 
da,  como  gostavam  das  armas,  deixariam   escrituras   de  mores  façanhas   que  os 


ROMANCES   VELHOS  273 


diz,  depois  de  haver  alegado  um  romance  de  assunto  bretó- 
nico  (1): 

neste  estilo  e  por  este  modo  usaram  os  passados  celebrar  sextt 

herói  i-os  fnvtOS,  porque  (i.  é  para  que")  a  gloriosa  memória  delias  assi 
viesse  a  nossos  tempos  e  se  conservasse,  o  que  também  em  Espanha  se 
usou  muy  to,  e  usar-se  agora  para  estimulo  de  imitação  não  fora  mao  (2). 

Se  ahi  parece  lamentar  a  falta  de  romances  épicos,  rela- 
tivos ao  ilustre  peito  lusitano,  ha  no  Intróito  da  Ulisipo, 
outro  passo  significativo  sobre  a  existência  de  trovas  de  mal- 
dizer, de  feitio  igual  ou  parecido  ao  dos  romances.  Para  ca- 
racterizar as  sátiras  dos  povos  clássicos,  emprega  a  fórmula 
segundo  cá  os  nossos  (respectivamente  os  vossosj  romances  e 
porquê?  (3). 

Pessoalmente,  não  soube  remediar  os  males  que  aponta. 
Verdade  é  que,  muito  bem  intencionado,  se  meteu  a  escrever 
romances.  Mas  a  sua  veia  não  era  popular.  A  maior  parte  dos 
que  compôs  não  trata  de  assuntos  pátrios.  Quasi  sempre  es- 
colheu assuntos  clássicos,  ainda  não  tratados  na  península  (4), 
antecipando-se  assim  a  Juan  de  la  Cueva  e  Laso  de  la  Vega. 
Uma  vez  tratou  compendiesamente  da  matière  de  Bretagne. 
Só  ha  duas  tentativas  d'ele  sobre  acontecimentos  nacionaes 
coevos.  Mas  essas  são,  em  vez  de  fanfarras  triunfantes,  tris- 
tes lamentações,  e  preságios  fúnebres,  relativos  á  morte  do 
seu  Príncipe,  luz  e  espelho  dos  Lusitanos  (5).  Todos  em  portu- 

Hebr  eos  de  incredu/idades,  os  Gi  egos  de  fabulas,  e  os  Latinos  de  deidades  (p.  1 1 .) 
Ora  pede  aplausos,  para  que  a  inveja  do  favor  que  lhe  dessem,  fosse  negaça  para 
outros  tentarem  cantar  vossos  heróicos  feytos  (p.  12). 

(1)  Sagramor,  Cap.  IH  p.  10. 

(2)  No  cap.  73  lô-se:  romances  eram.  os  cantos  que  então  mais  se  usavam.  Com 
relação,  fantasiada,  aos  tempos  post-arturianos  do  seu  heroe. 

(3)  É  no  Prologo  de  Mercúrio  á  Ulysipo  ou  Lisboa  (f.  2.0  da  ed.  de  1618)  que, 
falando  da  invenção  da  poesia,  que  de  louvores  de  Deus  degenerou  em  vitupério 
de  homens,  afirma  que  os  lavradores  de  Atheuas  iam  de  noite  á  cidade  e  em  canta- 
res, segundo  cá  es  vossos  rvmaiues  e  poi  quis,  publicava/n  o  dano  que  recebiam,  no- 
meando o  Autor. 

(4)  O  Juízo  de  Paris;  os  amores  de  Prvtesilao  e  Laodamia;  Sofonis/e;  Achiles 
e  7'o/ixena;  César  e  Pompco. 

(5)  O  Príncipe  D.  João  morreu  de  anemia,  na  idede  florescente  de  quinze 
anos  c  sete  meses,  após  14  meses  de  casado,  dezoito  dias  antes  do  nascimento  de 
seu  filho  D.  Sebastião.  O  triste  sucesso  provocou  demonstrações   ài   pesar,  não 


274  CAROLINA  UICHAÈLIS  DE    VASC0NCELL0S 

guês,  com  alguns  trechos  agradáveis,  mas  cm  regra  assaz  pe- 
destres, inferiores  em  fantasia  reconstructora  aos  paralelos 
castelhanos. 

Eis  a  lista  dos  romances  de  Jorge  Ferreira  de  Vasconce- 
llos.  Todos  fazem  parte  do  já  citado  livro  de  cavalarias  Sa- 
gramor  ou  Memorial  das  Proezas  da  Segunda  Tacola  Redonda. 

1)  Cap.  3. — Enumeração  de  heroes  bretónicos — Em-e*íe. 

Gram  Bretanha,  desleal      ao  melhor  rey  que  teveste. 

2)  Cap.  8. — Paris  e  Enone:  juizo  de  Paris. — Em-aua. 

Naquela  montanha  Ydea      que  Afrodisia  frequentava. 

3)*     Cap.  12. — Amores  de  Protesilao  e  Laodamia. — Em-m. 
Com  lagrimas  e  soluços      dos  braçoò  de  Laodomia. 

4)  Cap.  13. — Sofonisbe. — Em-ar. 

De  ti,  casto  Scipião,      Sofonisba  ouvi  queixar. 

5)  Cap.  33. — Achiles  e  Polixena. — Em-ava  (1). 

Diante  os  muros  de  Troya      muy  ufano  passeava. 

6)  Cap.  35. — Morte  de  Achiles. — Em-ado. 

No  templo  de  Apolo,  Achiles,      desprovido  namorado. 

7)  Cap.  45. — César  e  Pompeo,  em  -ia. 

De  Roma  sahe  Pompeo      e  toda  Roma  o  seguia. 

8)  Cap.  46. — Cantar  das  Fadas,  Cloto,  Láchesis  e  Atro- 
pos,  ao  rei  de  Portugal,  no  Torneio  de  Xabregas,  em  pareados 
dissonantes. 

Príncipes  e  emperadores      que  o  mundo  a  sabor  mandais 
e  tam  pouco  vos  lemb  'ais      da  rota  da  vida  eterna. 


inferiores  ás  que  em  1491  acompanharam  a  desastrosa  morte  do  Príncipe  D.  Al- 
fonso;  nem  ás  que  em  Castela  foram  suscitadas  pelo  falecimento  de  D.  João,  filho 
dos  Reis  Católicos  (1497).  Mas  em  lugar  de  Romances  e  Poemas  em  versos  de 
arfe  maior,  agora  predominavam  lamentações  eruditas,  em  estilo  italiano,  e  em 
latim.  —  A  lista  que  dei  no  meu  Sá  de  Miranda,  (p.  739)  não  é  completa.  Po 
dia  hoje  ampliá-la  bastante. 

(1)     Com  Vilancete  de  desfeyta  (ou  desvio) 


ROMANCES    VELHOS  275 


9)  47. — A'morte  do  Príncipe  e  nascimento  de  D.  Sebastião, 
em  -ado. 

Soberbo  está  Portugal      em  sua  gloria  enlevado  (1). 

Todos  com  consonâncias  perfeitas  e  rimas  contínuas,  menos 
o  No  8.  Na  reimpressão  moderna  estão  repartidos  em  quadras. 
Nunca  tive  o  gosto  de  ver  a  edição  príncipe. 

[149]  Quanto  a  Baltasar  Diaz,  nacionalizador,  por  vol- 
tas de  1537,  do  Marquês  de  Mantua,  da  Emperatriz  Porcina,  e 
do  Conde  Alarcos,  nada  posso  acrescentar  ao  que  ficou  exposto 
nos  parágrafos  59  e  81,  e  á  vaga  hipótese,  formulada  no  127°, 
de  que  o  cego  jogral  redigiria  outros  romances,  como  por  ven- 
tura o  da  Bela  Infanta,  citado  por  Jorge  Ferreira,  e  o  de  Sil- 
vana,  mencionado  no  século  xvn  por  D.  Francisco  Manuel 
de  Mello, 

•  [150]  A  existência  de  um  romance  vulgar,  relativo  a  uma 
coisa  acontecida  no  domínio  português  em  1522,  impõe-me  o 
dever  de  examinar,  se  ele  seria  escrito  logo  em  seguida.  O 
sucesso  é  o  terremoto  medonho  que  na  Ilha  de  S.  Miguel  des- 
truiu a  22  de  Outubro  a  mais  florescente  e  populosa  vila  do 
Archipélago  Açoriano.  O  romance  principia: 

Em  Vilafranca  do  Campo      que,  de  nobre,  precedia, 
na  Ilha  de  Sam  Miguôl,      a  quantas  vilas  havia., 

É  literário,  em  tora  joglaresco,  bastante  chão;  vivo  e  poé- 
tico, apenas,  na  descrição  dos  abalos.  Impresso  diversas  vezes, 
tem  duas  redacções:  uma  extensíssima  (2),  outra  abreviada, 
ou  antes  fragmentada  (3).  O  povo  não  conhece  nem  mes- 
mo essa. 


(i)  Os  dois  capítulos  finaes  tratam  do  Torneio  histórico,  celebrado  em  1552 
(a  25  de  Julho,  dia  de  Santiago;  segundo  outros,  a  5  de  Agosto)  no  arrabalde  de 
Xabregas,  em  honra  do  Príncipe  e  da  sua  noiva. —  Dirigidos  a  D.  Sebastião,  foram 
acrescentados  á  primeira  redacção  da  Novela,  depois  de  20  de  Janeiro  de  1554. 
T.  Braga  e  Leite  de  Vasconcellos  referem  erroneamente  o  primeiro  d 'estes 
romances  ao  Príncipe  D.  Afonso,  filho  de  D.  João  I. 

(2)  Proveniente  do  manuscrito  das  Saudades  da  Terra  (Livro  IV,  Cap.  25,  se- 
gundo Jorge  Cardoso),  a  redacção  completa  foi  publicada  no  Archivo  dos  Açores, 
toI.  I,  p.  352  (1879). 

(3)  O  autor  do  Agiológio  tresladou  no  Commentario  ao  dia  26  de  Maio.  (Vol.  III, 


270  CAROLINA  MICHAÈ~L18  DE   VASCONCELLOS 


A  meu  ver,  é  produção  tardia  de  um  Insulano,  bem  in- 
formado (1),  mas  que  nao  fora  testemunha  presencial:  o  Micha- 
elense  Padre  Gaspar  Fructuoso.  Na  única  obra  literária,  por  ele 
elaborada,  a  Historia  das  Ilhas,  a  que  deu  o  título  poético  de 
Saudades  da  Terra  (2),  com  >  admirador  e  imitador  de  Bernar- 
dim Ribeiro,  encontra-sc  esse  romance,  com  mais  algumas  ri- 
mas, que  8.1o  incontestavelmente  suas  (3). 

Dois  trechos  do  romance  merecem  ser  consignados  aqui, 
porque  ha  neles  reminiscências  que  ajudam  a  caracterizar  os 
processos  do  autor. 

Primeiro  contém  um  verso  que  destoa  agradavelmente  da 
secura  geral: 

Era  uma  quarta-feira      q  iarta-feira,  triste  dia, 
em  a  noite  mais  serena      que  o  ceo  fazer  podia. 

É  tirado  do  romance  de  D.  Duardos,  de  Gil  Vicente  (1525), 
popular  nos  Açores,  como  o  leitor  sabe  (4).  Outro  pormenor 


p.  415)  um  pedaço  do  tosco  romance  que  (Veste  triste  e  lastimoso  espectáculo  traz 
o  mesmo  Gaspar  Iructuosa  no  Livro  alienado. 

D'ahí  T.  Draga  o  passou,  não  á  1'loresta  de  vários  autores  determinados  de  ro- 
mances, como  devia,  nem  tão  pouco  ao  Romanceii  o  do  Archipélago  Açoriano,  mas 
antes  ao  Romanceiro  Geral  (entre  as  Lendas  Piedosas),  como  se  fosse  verdadeira- 
mente popular. — Vid.  p.  131  e  conf.  212.  -Na  nova  edição  da  Poesia  Popular 
Portugueza  (p.  378),  o  investigador  remate  os  leitores  ás  Dicadas  de  Barros 
(III-1-5). 

E  engano.  Creio  que  houve  confusão  entre  verbetes  relativos  a  Barros  c  á  ba- 
talha de  Salsete,  e  outro*,  relativos  a  Gaspar  Fructuoso. 

(1)  Houve,  e  talvez  haja  ainda,  nina  relação  coeva  em  prosa.  Vid.  Memorias 
Lit.  Vol.  V,  p.  349:  Destroiçam  que  foi  na  Ilha  de  Saiu -Miguel,  do  tremor  de  terra 
a  22  de  Outubro  de  ij22. 

(2)  Doutor  em  teologia  e  mestre  em  artes  pela  Universidade  de  Salamanca, 
nascido  no  próprio  ano  do  terremoto.  A  Historia  das  Ilhas  desde  o  descobrimento, 
meritória,  mas  confusa  quanto  á  coordenação  e  ao  estilo,  foi  redigida  em  1  591. 
Podia  comtudo  ser  que  os  versos  existissem  muito  antes.  —A  maior  parte  dos  dois 
tomos  de  que  consta— quasi  duas  mil  páginas  in-fólio  cada  um— está  inédita.  Ál- 
varo Rodríguez  de  Azevedo  publicou  apenas  as  partes  dedicadas  a  Porto-Santo, 
Madeira,  Desertas,  e  Selvagens  (Funchal,  1 873 "i. 

(3)  Entre  elas  ha  um  Soneto  a  Camões,  cujas  quartetas  são  razoáveis,  sendo 
extremamente  banaes  os  tercetos.— Vid.  T.  Braga,  Camões,  Época  e  Vida,  Porto  1907. 

(4)  A  essa  reminiscência  talvez  se  juntasse  outra:  do  romance  do  Príncipe  dom 
Afonso,  igualmente  popular  nos  Açores. 


ROMANCES    VELHOS  277 


lembra  o  Palmeirim  de  Inglaterra  de  Francisco  de  Moraes.  O 
gigante  Almourol,  em  Portugal  guardador  da  famosa  e  esqui- 
va princesa  Miraguarda,  é  transformado  nas  Ilhas  em  abala- 
dor  da  terra  (1).  Eis  os  versos  a  que  aludo,  suprimidos  no  Ro- 
manceiro de  T.  Braga  e  na  fonte  de  que  ele  se  serviu: 

que  de  ser  velho  cansado      ronca  quando  adormecia, 
inda  que  fosse  levante      nada  d'ele  se  sentia; 
não  corre  bafo  de  vento,      nem  folha  de  arvore  bulia; 
estrelado  estava  o  ceo,       nuven  não  o  escurecia. 
Ante  manha  duas  horas      (inda  não  amanhecia) 
começou  tremer  a  terra      (mais  que  outras  vezes  tremia.) 
e  a  dar  fortes  balanços,       parecendo  maresia. 
Não  treme  de  baixo  a  cima,      mas  para  os  lados  tremia. 
Nem  abre  boca  alguma      o  espirito  que  isto  fazia; 
sacudiu  somente  a  terra      dos  lados  em  quo  feria. 
Sacode  a  terra  dos  hombros      com  o  peso  que  sentia 
o  grão  gigante  Almourol      que  deitado  ali  jazia. 
Movem  se  todas  as  cousas      quando  seu  corpo  movia; 
eitrondos  que  a  terra  faz      roncos  são  do  que  dormia, 
que  de  ser  velho  cansado      ronca  quando  adormecia. 

* 

A  imitação,  a  ser  certa,  nos  levaria  ao  quinto  decónio  do  sé- 
culo, p^lo  menos.  Mas  ela  tíõ,a  ó  facto  provado.  Dize-se  tam- 
bém que  houve  lendas  locaes  de  Almourol,  anteriores  ao  livro 
de  cavalaria, 

[15 IJ  Paro  aqui,  sem  me  ocupar  da  infinidade  de  romances 
compostos  por  letrados  portugueses,  de  lõõO  em  diante.  Logo 
depois  de  a  grande  reforma  de  Sâ  de  Miranda  haver  vingado, 
poucos  escreveram  romances.  Muitos,  durante  e  após  o  contac- 
to imediato  com  o  gosto  castelhano,  no  tempo  da  união  (2). 

A  Floresta  de  variou  romances  de  autores  determinados  de 
T.  Braga  não  dâ  ideia  adequada  d'essa  tardia  abundância. 
Pelo  contrário,  ela  produz  a  impressão  de  pobreza  extrema; 
a  ponto  tal  que  o  desprevenido  deve  concluir  que  não  ha  em 


(i)  Não  verifiquei,  se  por  ventura  em  alguma  das  continuações  do  Palmeirin, 
o  Gigante  morre  e  é  sepultado  nas  Ilhas. 

(2)  Nesse  tempo  diversos  Romanccros  foram  impressos  em  Portugal:  1581  o 
Cancionero  de  Romances;  1595  o  Ramillete  de  Flores;  1595,  1603  c  1606  Zegris  e 
Abencerrages',  1605  e  161  5  o  Romancero  dei  Cid;  1610  e  16 16  o  Romanceio  Histó- 
rico de  Francisco  de  Segura.  Todos  na  capital. 


278  CAROLINA  MIOHAELIS  DE   VASCONCELLOS 

toda  a  literatura  portuguesa  romances  literários  bastantes  e 
bastante  bonitos  para  com  eles  se  encher  um  volume  mediano. 
Se  essa  única  colecção  existente,  consta  apenas  de  vinte-cin- 
co  exemplares,  entre  portugueses  e  castelhanos  (1),  e 
esses  vão  entremeados  de  vilancctes  e  cantigas,  que  pela  sua 
beleza  peregrina  põe  em  sombra  os  textos  narrativos,  a  ideia 
de  penúria  impõe-se  aos  olhos  mesmo  de  quem  não  reparar  no 
facto  de,  entre  os  impressos  como  romances,  andarem  Trovas 
estróíicas,  de  propósito  diluídas  em  textoj  contínuos,  como  as 
de  D.  Inês  e  a  lamentação  do  Príncipe  D.  Afonso  (2). 

Faço  votos  para  que  na  nova  edição  transformada  do  Ro- 
manceiro entrem  pelo  menos  todos  os  romances  de  arte,  por- 
tugueses, e  os  castelhanos  que  sao  obra  de  Portugueses,  ante- 
riores á  data  1550,  como  o  de  D.  Jofio  Manuel,  os  de  D.  João 
de  Meneses,  os  quatro  de  Gil  Vicente  que  foram  omitidos,  o 


(i)  Claro  está  que  nessa  conta  não  entram  os  dezoito  textos  (em  parte  anó- 
nimos), relativos  á  História  de  Portugal,  que  formam  a  Segunda  Parte  da  obra. 
Tirados  de  colecções  hespanholas,  são  evidentemente  de  autores  castelhanos,  me- 
nos uma,  de  que  tornarei  a  falar. 

(2)     Pelo  assunto  e  pelo  seu  estilo  singelo  a  composição  de  Álvaro  de  Brito: 

Morto  é  o  bem  de  Hespanha, 
nosso  Príncipe  Real, 
chora,  chora  Portugal! 
choremos  perda  tamanha! 

(Canc.  Ger.  I  221)  merece  a  distinção.  A  quadra  que  tresladei  é  todavia  mal  pa- 
rafraseada em  seguida,  em  cinco  voltas  líricas  (de  duas  quadras-redondilhas).  Na 
sua  Antologia,  T.  Braga  classificou  ainda  de  romance  outras  trovas  parecidas,  de 
1 449:  Á Morte  do  Infante  D.  Pedro  que  morreu  na  d1  Alfarrobeyra,  e  vão  em  nome 
do  Infante: 

Pola  morte  de  mym  soo 

e  d'alguns  vossos  parentes 

vósoutros  que  soes  presentes, 

todos  deveis  filhar  doo, 

(Canc.  Ger.  I  451),  de  Luis  de  Azevedo.  E  útil  conferi-las  com  diversos  monólogos 
de  mortos,  compostos  no  pais  vizinho  (p.  ex.  o  de  D.  Juan  Pimentel,  falecido  em 
1437  e  deplorado  por  Agraz).—  P.  S.  No  Vol.  III  do  Romanceiro  Geral  Portuguez, 
distribuído  ha  pouco,  mas  já  com  a  data  de  1909,  a  floresta  foi  um  pouco  modifica- 
da. Entre  os  acrescentos  ha  p.  ex.  os  romances  de  Gil  Vicente,  que  faltavam  na 
l.a  edição,  os  de  Falcão  de  Resende,  D.  Manuel  de  Portugal  e  Pedro  de  Andrade 
Caminha.  Mas  ainda  agora  sustento  o  que  digo  no  texto. 


ROMANCES   VELHOS  279 


de  Jorge  Ferreira  de  Vasconcellos  que  teve  a  mesma  sorte  (1), 
o  de  Gaspar  Fructuoso,  o  sacro  de  D.  Joana  da  Gama,  de  que 
nao  falei  (2).  Dos  posteriores,  tudo  quanto  temos  em  lingua- 
gem. Dos  em  castelhano,  pelo  menos  uma  selecção  do  melhor. 
Aos  romances  jogralescos  de  António  López  de  Trancoso, 
Diego  Garcia  de  Bragança,  Gabriel  de  Saraiva,  impressos  no 
país  vizinho  em  folhas  volantes  góticas,  e  em  parte  acolhidos 
nos  Romanceros ,  juntaria  eu  os  espécimes  contidos  nas  Obras 
de  Jorge  de  Montemor  (3),  de  Gregório  Silvestre,  Pedro  de 
Andrade  Caminha  (4),  Falcão  de  Resende  (5),  Frei  António  de 
Portalegre  (6),  D.  Manuel  de  Portugal  (7),  Francisco  Ro- 
dríguez  Lobo  (8),  Miguel  Leitão  de  Andrade  (9),  Jorge  Furta- 


(i)     São  os  que  nas  listas  supra  vão  marcados  de  asterisco  (i,  5,  7,  8  de  Gil 
Vicente;  3  de  J.  F.  de  Vasconcellos). 

(2)  Onde  acharei  sofrimento  pêra  vida  tam  penada,  impresso  em    1555  nos 
Ditos  da  Freira. 

(3)  P.  ex.  o  romance  da  Mofina: 

Citando  yo  triste  naci       luego  nací  desdichado, 

pertecente  ao  Livro  V  da  Diana,  e  tantas  vezes  reimpresso. 

(4)  Nas  Poesias  Inéditas  ha  um  romance  português  que  diz: 

Desque  me  parti  de  ver-vos       tenho  quanto  mal  mereço 

(No  323). 

(5)  Conf.  §  128  e  Garcia  Pérez,  Catálogo,  p.  160. 

(6)  Ha  alguns  romances  sacros  no  seu  livro  da  Meditação  (1547). 

(7)  Vid.  Obras  1605,  f.  220V. 

(8)  Além  dos  cinco  romances  em  português  que  andam  nas  Obras  de  Lobo 
ha  mais  quatro  inéditos  no  Cancioneiro  de  Fernández  Thoina?. 

F.  31.  Atrevido  pensamento,  não  me  ponhais  em  perigo 

F.  37v.  De  cima  d'este  penedo,  aonde  combatendo  as  ondas. 

F.  48.  Tesouro  por  mãos  de  amor  achado  nas  de  ventura. 

F.  60.  Ferindo  o  sol  sobre  as  ondas  que  umas  co'  outras  combatem. 
Os  castelhanos  são  muitíssimos:  56  só  a  respeito  da  jfornada  de  Felipe  III  a 
Portugal  (1609),  e  além  d'isso  dois  Livros  inteiros,  um  com  30,  outro  com  26  nú- 
meros. Um  horror! 

(9)  E  possível  que  seja  autor  (e  compositor?)  do  Romance  de  Alcaccr-Quebir 

Postos  estão  frente  a  frente  os  dois  valerosos  campos. 

Castelhano  no  Diálogo  VII  da  Miscellànea,  figura  aportuguesado  nas  Rimas  de 
Estêvam  Rodríguez  de  Castro  (ed.  1792).  -  Leitão  de  Andrade  afirma  que  o  canta- 


280  CAROLINA  MICHAÉLIS  DE    VA8C0NCELL08 


do  (1),  Vasco  Mousinho  de  Quevedo,  D.  Francisco  de  Portu- 
gal, D.  Francisco  Manuel  de  Mello,  Miguel  da  Silveira,  Antó- 
nio Serrão  de  Castro,  António  Lópoz  da  Veiga,  António  Al- 
varez Soarez,  Simão  Garcia  de  Brito,  Faria  e  Sousa,  António 
Barbosa  Bacelar,  Fernão  Correia  de  Lacerda,  Jerónimo  Ba- 
hia, Guerreiro,  Valladare»,  Gamboa,  D.  Violante  do  Ceo,  Je- 
rónimo Peixoto,  Quintana  de  Vasconcellos,  Francia  da  Cos- 
ta (2),  etc,  ctc.  Depois,  alguns  solaos  e  algumas  xácaras  divi- 
didas cm  quadras,  dos  poetas  românticos  do  século  xix,  assim 
como,  de  íins  do  t-éculo  e  princípios  d'este,  algumas  amostras 
de  mortos  como  Júlio  Dinis  e  António  Nobre,  e  outras  de  vi- 
vos como  Afonso  Lopez  Vieira,  Brandão,  Ribeiro  de  Carvalho, 
Silva  Gaio,  Correia  d'01iveira,  e  o  própio  Teófilo  Braga. 

Bem  sei  que  à  quantidade  não  corresponderia  a  qualidade 
e  que  essas  obras  de  arte,  mais  ou  menos  perfeita,  não  al- 
terariam a  impressão  produzida,  de  dependência  de  Caste- 
la. Nem  as  ideias  evocadas  pelos  romances  velhos,  acerca 
das  feições  imitativas  e  tendências  sentimentaes  do  génio 
português,  e  sobre  a  evolução  da  poesia  portuguesa  cm  geral. 
Os  romances  seiscentistas  (em  regra  em  castelhano),  que  são 
os  que  mais  avultam,  são  arrebicados,  secantes  de  metáforas 
e  conceitos,  porque  foram  escritos  com  a  pena  d'asa  da  gon- 
górica  Fénix  Renascida,  para  me  servir  de  expressões  carac- 
terísticas de  Almeida-Garrett.  Os  do  tempo  do  Romantismo 
são  tétricos  e  empolados,  ou  extremamente  insulsos!  Entre  os 
dos  nacionalistas  de  mil  e  quinhentos  e  do  Renascimento  mo- 


ram depois  da  infeliz  batalha, por  uma  toada  tristíssima  e  sentida  e  que  muito»  o 
glosaram  de  muitas  maneiras  (p.  151.)  Mas  nada  diz  quanto  ao  autor  da  letra  e  da 
música.  —  Ao  cabo  de  cada  copla  repete-se  o  estribilho:  el  lusitano . 

(1)  No  Cnncioneiro  Geral,  publicado  como  continuação  ao  de  Garcia  de  Re- 
sende, pelo  benemérito  e  erudito  Eborense  A.  F.  Earata  (mas,  que,  além  de  poesias 
em  estilo  peninsular,  contém  muitas  no  gosto  clássico,  compostas  em  1576,  1598, 
1606)  ha  um  Romance  lírico  d'csse  autor,  pouco  conhecido: 

No  hajais,  fiensamiento  mio,        el  vuelo  tan  levantado. 

(2)  Quem  quiser  completar  a  lista  dos  antigos  romancistas,  recorra  ao  Catá- 
l»ço  de  Garcia  1'érez. 


ROMANCES    VELHOS  281 


derno,  os  melhores,  que  se  aproximam  dos  tradicionaes,  quan- 
to ao  espírito  e  ao  estilo,  são  suavemente  poéticos  (1). 

Verdadeiramente  épico,  talvez  não  haja  nenhum. 

Em  todo  o  caso  figura-se-me  útil  que  também  esses  docu- 
mentos se  tornem  accessíveis  e  sejam  examinados,  antes  que 
Menéndez  y  Pidal  lavre  sentença  final  no  processo  instaura- 
do, para  o  qual  elaborei  esse  longuíssimo  estudo. 

[§  152]     Ponho  ponto  final  nas  Notas  Complementares  com 
algumas  observações  sobre  trovas  de  escárnio  e  maldizer. 

Do  Prólogo  da  Aulegrafia,  citado  ha  pouco,  vê-se  o  que,  de 
resto,  já  sabíamos:  que  a  veia  cómico-satírica  dos  Portugueses 
que  tao  abundantemente  ss  revelara  na  época  dos  Trovado- 
res, e  tantos  pleitos  de  folgar  promovera  entre  os  rimadores 
palacianos  de  1449  a  1516,  continuava  a  expandir-se  no  rei- 
nado de  D.  João  III  em  versos  de  escárnio  e  de  maldizer.  Cha- 
mando-os  trovas  ou  romances,  Jorge  Ferreira  suscita  a  con- 
jectura que  taes  composições  em  estilo  popular  seriam  vasa- 
das,  pelo  menos  algumas  vezes,  em  rimas  contínuas.  Não  me  é 
dado,  porém,  apontar  exemplos.  As  amostras,  relativamente 
numerosas,  do  reinado  de  D.  Sebastião,  do  de  D.  Henrique  e 
do  tempo  dos  Governadores,  que  conheço  em  parte,  constam 
todas  de  quadras  soltas  ou  séries  de  quadras  (2).  Nasreferên- 


(i)     A  influência  benéfica  da  Musa  de  Bernardim  Ribeiro  actuou  em  muitos. 
(2)     Uns,  em  forma  de  Epitáfio,  motejam  do  Bispo  Afonso  Mexia  do  modo  se- 
guinte: 

Um  prelado  aqui  se  esconde 

que  começou  em  Tomar. 

Veio  a  ter  tanto  que  dar 

que  o  fizeram  Bispo-Conde. 


Um  bispo  que  nS,o  é  santo, 
Mexias  que  nito  c  Cristo, 
nâo  tenho  por  grande  espanto 
fazer  obras  de  Antecristo. 

Outros  censuram  D.  Sebastião  e  seus  Conselheiros 

Um  rei    em  experiência, 
sem  alma  um  cardeal, 

10 


282  CAROLINA  M1CHAÊLIS  DE  VASC0NCELL08 

cias  que  colhi  nas  Décadas  de  Barros  e  Couto,  nas  Lendas  de 
Gaspar  Corrêa,  na  História  de  Castanheda,  a  respeito  de  com- 
posições, em  que  os  expatriados,  praguejadores  dos  Capitães, 
Governadores  e  Vicereis,  (ou  cm  que  os  gentios  enalteceram 
feitos  gloriosos,  tanto  próprios  como  de  Portugueses),  sempre 
se  trata  de  Trovas,  Porquês,  Cantigas  (1). 

Eis  alguns  exemplos.  Em  1509  Afonso  de  Alburquerque 
manda  sondar  a  barra  de  Goa,  afim  de  ver  que  espécie  de  nãos 
poderiam  entrar  nela.  E  sondada  a  barra,  não  se  fez  mais 
nada;  do  que  os  que  estavam  em  Cananor  com  o  visorey,  zom- 
baram muito.  E  fizeram  sobr'isso  trovas  porque  haviam  por  im- 
possível tomar-se  Goa,  por  camanha  cousa  era,  e  quão  podero- 
sa de  gente  (2). 

O  vicerei  Jorge  Cabral  era  tão  bom  e  tão  íntegro  que  nun- 
ca se  lhe  achou  que  tachar,  de  modo  que,  lançando-se  umas 


dois  irmãos  sem  consciência 
acabarão  Portugal. 

* 

Sebastião  e  Martinho, 
Henrique  e  Luis, 
olhai  por  onde  is, 
que  levais  mau  caminho! 

Ou:  também  -.Martinho  e  Martinho  (i.  é  D.  Martinho  Pereira,  Martim  Gonçalvez  de 
Camará,  Luis  Gonçalvez  da  Camará).  Diversos  acham-se  no  Cancioneiro  Geral  àe 
Barata  (Évora  1902.)  A  Sátira  de  Soropita  sobre  a  perda  da  independência  é  imita- 
ção das  Coplas  de  Mingo  Revulgo. 

(1)  Cantiga  ora  no  sentido  lírico,  ora  como  equivalente  de  quadra,  no  sentido 
de  bitafe.  -  Claro  está,  porém,  que  os  Indiáticos  levavam  como  recordação  da  pá- 
tria e  da  infância  não  só  romances  narrativos,  mas  também  cantares  velhos.  Eis 
um  exemplo.  Antes  da  peleja  naval,  em  que  foi  desbaratado  e  mortalmente  feri- 
do D.  Paulo  da  Gama  (1 533  em  Malaca),  ele  começou  a  cantar  assim  em  som  baixo 
aquela  Cantiga  velha  que  diz: 

Olival!  olival  verdet 
azeitona  preta, 
quem  te  colhesse! 

por  ver,  se  algum  dos  seus  lhe  dizia  que  não  era  siso  esperar  os  inimigos,  e  que  se 
recolhessem.  Couto,  Década  IV,  Livro  8,  Cap.  9  (Vo).  II  p.  278). 

(2)  Castanheda,  Livro  2,  Cap.  122. 


ROMANCES   VELHOS  283 


trovas  em  Goa  em  que  praguejavam  de  todos  os  oflciaes,  nele 
não  se  fala  nem  tocaram,  sendo  os  Governadores  da  índia  os 
primeiros  a  que  os  homens  não  perdoam  cousa  alguma,  notando- 
Ihes  ainda  cousas  que  nunca  fizeram  (1549)  (1). 

No  tempo  de  D.  Afonso  de  Noronha,  este  recebeu  ordem 
de  desapossar  um  seu  amigo  da  Capitania  de  Diu.  Nem  ele, 
nem  fidalgo  algum  se  quis,  porém,  incumbir  do  escabroso  ne- 
gócio. Só  D.  Jorge  de  Meneses  Baroche  o  aceitou,  o  que  lhe 
todos  estranharam...  que  aquilo  era  mais  profissão  de  um  ba- 
charel que  de  hum  fidalgo  tão  honrado;  e  sobre  isso  lhe  fizeram 
muitas  trovas  (1550)  (2). 

A  batalha  de  Pungor,  de  que  Paulo  de  Gama  saiu  vencido 
e  ferido  mortalmente  (1533),  foi  tao  famosa,  e  assim  está  hoje, 
pelo  grande  dano  que  nela  receberam,  tão  fresca  na  memória 
dos  Malayos,  que  se  tem  em  cantigas  que  eles  muitas  vezes  can- 
tam com  grandes  sentimentos  (3). 

Quanto  â  visita  do  Sultão  Badur  ao  Governador  Nuno  da 
Cunha,  Couto  diz  que  a  gente  de  Diu  a  canta  em  suas  can- 
tigas, porque  todo  esse  sucesso  puseram  em  verso  e  o  cantam  o 
dia  de  hoje,  por  todo  o  reino  de  Çambaya  (1531)  (4). 

De  António  Galvão  consta  que  para  os  seus  feitos  bemfa- 
zejos  ficarem  entre  eles  em  perpétua  lembrança,  os  Ternates 
faziam  cantares  em  seu  louvor,  que  ao  seu  modo  são  as  Crón- 
nicas  per  que  se  sabem  nos  tempos  vindouros  o  que  fizeram  os 
seus  passados  e  quem  foram  (5). 

O  Capitão  de  Ormuz  Diogo  de  Melo,  que  prendera  sem  jus- 


(i)     Década  VI,  Livro  9,  Cap.  2  (p.  237). 

(2)  Década  VI.  Livro  10,  Cap.  15  (p.  502). 

(3)  Década  IV,  Livro  8,  Cap.  1 !  (p.  281); 

Capitão  Dom  Paulo 
baparam  (de)  Pungor 
anga  dia  malu 
sita  pa  tau  dor. 

Versos  de  endecha. 

(4)  Década  IV,  Livro  I,  Cap.  9  (p.  98.)  Em  outro  lugar  ha  referencias  a  cho- 
carreiros  de  Ucnomotapa. 

(5)  Década  IV,  Livro  9,  Cap.  22  (p.  597). 


CAROLINA  MICHAÈLIS  DE   VASCONCELLOS 


to  motivo  o  Raix-Xarafo,  tratava-o  tão  asperamente  que  deu 
matéria  para  era  uns  Porquês+quc  alguns  praguentos  fizeram 
na  índia,  dizer: 

1'orque  Diogo  de  Melo: 

«Xarafo,  dá-nie  uinheiro?» 

Porque  ele  diz:  <vê-lo,  vê-lo! 

não  sejas  meu  carniceiro!»  (1527)  (1). 

Os  soldados  de  Francisco  Barreto,  tomando  a  mal  que  ti- 
vesse feito  as  pazes  com  os  de  Goa,  começaram  a  soltar-se  em 
palavras  contra  ele  e  a  cantarem-lhe  de  noite  cantigas  sujas  e 
deshonestas  (1558)  (2). 

Nem  uma  só  vez  se  fala  de  romances. 
[153]  Para  integração  do  processo  faltam  dois  capítulos 
igualmente  importantes,  de  que  seguramente  se  encarregarão 
os  esposos  Menendez  Pidal:  um  relativo  aos  assuntos  e  ás  for- 
mas dos  romances  tradicionaes,  em  confronto  com  os  textos 
castelhanos;  outro,  também  comparativo,  sobre  a  música, 
tanto  dos  populares  de  hoje  como  dos  artísticos  da  corte  dos 
Reis  Católicos,  e  sucessores.  O  primeiro,  em  que  aqui  só  pude 
tocar  ocasionalmente,  já  foi  traçado,  com  os  materiaes  de  Al- 
meida-Garrett  e  T.  Braga,  pelo  autor  da  Antologia.  Terá,  po- 
rém de  ser  ampliado  com  todos  os  preciosos  subsídios  recolhi- 
dos pelos  continuadores,  conforme  deixei  exposto  na  Introdu- 
ção. O  segundo,  para  o  qual  sou  incompetente,  podendo  dar 
apenas,  na  Parte  que  se  segue,  um  feixe  de  notas  literárias, 
terá  valia  superior,  se  D.  Ramon  e  D.  Maria  puderem  reali- 
zar o  plano  que  têm  de  fixarem  por  meio  do  gramofone,  as 
melodias  mais  características. 


(i)     Castanheda,  Livro  VII,  Cap.  4. 
(2)     Década  VII,  Livro  V,  Cap.  7. 


KOMANCES   VELHOS 


IX  Recapitulaçâo  e  Conclusões. 

[§  154]  De  cerca  de  cincoenta  autores  portugueses,  tirei 
uns  duzentos  passos  documentaes,  relativos  a  mais  de  oitenta 
romances  que,  com  poucas  excepções,  subsistem  em  colecções 
antigas,  hespanholas  (1). 

Como  previamente  anunciei,  a  maior  parte  d'esses  passos 
documentaes,  contém  citações,  em  geral  textuaes,  comquanto 
deturpadas  muito  a  miude.  Comtudo  ha  também  traduções, 
quer  de  versos  largos,  quer  de  hemistíquios,  ou  de  metade 
d'eles.  Outros  compõe-se  de  refundiçòes  ou  acomodações  de 
textos  antigos  a  factos  mais  modernas;  de  contrafaçoes  ao  di- 
vino; de  remedo3  burlescamente  disparatados;  de  paráfrases 
expressivas,  ora  de  romances  inteiros,  ora  de  breves  trechos 
de  romances.  Também  tive  de  falar  de  algumas  criações  novas 
de  Portugueses.  Tudo  isso,  parte  na  linguagem  dos  vizinhos, 
parte  na  materna.  Diversas  vezes  me  referi  a  meras  alusões 
ao  género  em  geral,  ou  a  determinadas  espécies,  assim  como 
a  opiniões  de  poetas  de  cá  sobre  a  popularidade  e  o  valor  de 
romances  velhos,  romances  trovados,  glosas  de  romances  (2). 


(i)     Nos  índices  I  e  II  é  fácil  verificar  os  dados  estatísticos. 

(2)  De  caso  pensado  omiti  meras  referencias  a  figuras  típicas  peninsulares,  ou 
da  mitologia  clássica,  relê  \  ando  apenas  de  longe  em  longe  alguma,  de  interesse 
particular.  Não  lhes  dediquei  um  capítulo  especial,  por  não  se  haver  certeza,  nem 
mesmo  probabilidade  de  que  em  cada  menção  do  Cid,  Lain  Calvo,  Ximena,  Velli- 
do  Dolfos,  Infantes  de  Lara,  Roldão,  Reinaldos,  Oliveiros,  o  Marquês  de  Mantua, 
o  Conde  Partinuplôs,  Tristão  e  Iseu,  Ilero  e  Leandro,  Dido  e  Eneas,  Orfeo  e 
Eurídice  etc,  se  visassem  romances,  e  não  crónicas,  novelas,  comédias,  poemas, 
poemetos,  traduções  de  Ovídio. 

Igualmente  omiti  motivos  soltos  e  frases-feitas  que  são  reminiscências  de  ro- 
mances: nomes  de  protagonistas  novelescos  (Gerineldos,  Conde-Claros);  epítetos 
honoríficos  (b/ten  caballero  honrado);  trechos  descritivos  de  tempo  ou  lugar,  que 
Bervem  de  introdução  pitoresca  (meia-noite  era  em  pino — clara  noite  de  luar) 
bordões  de  transição  (ellos  en  aquesto  estando;  bien  oistfis  lo  que  dicia);  fórmulas 
impressivas  (si  me  quieres  por  mujer,  si  me  quieres  por  amiga;  ir  me  quieto  a  tornar 
moro);  sentenças  moraes  vulgares  (não  morreu  de  tabat  dilho,  nem  morreu  pelas 
tabernas,  nem  pelas  tablasjogar.Ta.es  dizeres,  repetidos  em  variadíssimos  roman- 
ces tradicionaes,  deverão  ocupar  os  que  editarem  os  definitivos  Romanceiros  Po- 
pulares. 


280  CAROLINA   MICHAÊLIS  DE   VASC0NCELL08 

Os  textos  a  que  as  citações  pertencem,  ou  a  que  glosas, 
trovas,  contafacções  e  críticas  se  referem,  já  então  passa 
vam  por  velhos.  E  embora  esse  qualificativo  fosse  talvez  dis- 
tribuído com  demasiada  prodigalidade,  como  aconteceu  ao 
diante,  ó  certo  que  na  maioria  dos  casos  me  foi  dado  remeter 
o  leitor  â  Primavera  y  Flor  de  Romances  de  F.  Wolf,  isto  é  á 
Coleccion  de  los  mas  viejos  y  mas  populares  romances  castella- 
nos,  ou  aos  preciosos  Suplementos  com  que  essa  bela  e  cri- 
teriosa colecção  foi  modernamente  alargada  na  Antologia  de 
Menéndez  y  Pelayo  e  nos  estudos  de  Menéndez  Pidal  e  sua 
esposa  (1). 

Quanto  á  índole,  muitos  são  realmente  primitivos  (2),  e  tra- 
dicionaes.  Outros  são  jcgralescos;  outros,  artísticos  antigos. 
Considero  vulgares  só  alguns  casos  excepcionaes  como  o  ro- 
mance perdido  dos  Xaboneros  (3),  as  Maldições  de  Salaya,  os 
Arrenegos  de  Gregório  Affonso. 

Quanto  aos  assuntos,  poucos  são  nacional-históricos  e  mou- 
riscos.— Os  que  predominam  são  os  carolíngios,  cavalheires- 
cos, novelescos  e  épico-líricos.  D'essas  quatro  categorias,  bas- 
tantes, verdadeiramente  velhos,  e  alguns  jogralescos,  perdu- 
ram na  tradição  oral  das  regiões  portuguesas  (4).  Dos  de  his- 
tória peninsular,  apenas  o  tripartido  de  Ruy  Cid,  o  dei  Rei 
D.  Rodrigo,  e  um  de  Bernardo  dei  Cárpio  (na  forma  vaga  do 
Conde  Preso).  Tendo  pouca  difusão,  estão  deformados  pela  in- 
trodução de  elementos  estranhos,  novelescos  e  líricos.  Dos  ca- 
rolíngios sobrevivem  os  do  Passo  de  Roncesvales,  Valdevinos,  o 


(1)  Cincoenta  e  tantas  vezes  remeti  o  leitor  á  Primavera  de  Wolf,  e  vinte  e 
cinco  vezes  à  nova  edição  de  Pelayo.  Nos  restantes  casos,  como  nos  relativos  á 
Zaide  e  o  Forçado  de  Dragut,  os  romances  tardios  de  que  se  trata,  entraram  na 
grande  colecção  de  Duran. 

(2)  Entre  os  Quinze  romances  selectos,  publicados  ha  pouco  por  Delbosc,  em 
edição  monumental,  ha  diversos  dos  que  registei,  como  a  Bela  ma!  maridada; 
Tiempo  es  el  caballero;  Por  el  mes  era  de  May  o',  fonte/rida,'  RA  padre  era  de  Ronda . 

(3)  No  A  B  C  de  disparates  do  Cancionero  d'Herberay  (Gallardo,  Ensayo  I 
451)  eita-se  um  cantar  dos  Xaboneros  de  Sevilla,  entoado  por  Torre  (c.  562).  É 
tudo  quanto  sei. 

(4)  Em  geral,  os  mesmos  subsistem  também  no  norte  e  nord-oeste  do  reino 
vizinho.  E  foram  citados  a  miude  na  literatura  castelhana,  (em  Ensaladillas,  In- 
fiernos  de  amor,  Jueços  de  Naipes,  e  posteriormente  em  Comedias  e  A  ove/as). 


ROMANCES    VELHOS 


Conde-Claros,  Gaiferos.  Dos  cavalheirescos,  o  de  D.  Duardos 
e  Flérida.  Dos  novelescos  de  tema  internacional,  os  do  Conde 
Alarcos,  da  Infantinha,  de  Silvana,  e  da  Donzela- Varão.  Dos 
líricos,  o  do  Prisioneiro,  o  da  Rola- Viuva,  e  o  do  Mal  de  amo- 
res, resto  talvez  da  Bela  mal-maridada. 

[§  155]  O  aproveitamento  de  composições  inteiras  (para 
glosas  e  trovas,  ou  como  entremos  musical)  é  raro.  Somente 
o  velha  romance  lírico  de  Tiempo-bueno  foi  glosado  muita  vez, 
do  princípio  ao  fim  (1).  Durandarte,  Gaiferos,  Guay  Valência 
foram  abreviados,  conforme  era  uso  dos  glosadores  e  canto- 
res. Mesmo  onde  o  romance  seria  na  realidade  cantado  inte- 
gralmente ao  baile  (quer  no  palco,  quor  em  actos  e  scenas  da 
vida  popular)  o  poeta,  ou  o  referente,  assentava  apenas  o 
octonário  inicial  (2),  na  certeza  que  os  executantes  e  os  leito- 
res saberiam  de  cór  o  texto,  ou  teriam  facilmente  ensejo  de 
se  inteirar  d'ele — particularidade  que  atesta  a  repercussão  in- 
tensa dos  respectivos  romances.  Nas  glosas  e  nas  trovas  cen- 
tónicas  é  em  regra  um  verso  largo  de  cada  vez,  que  remata 
as  décimas,  ou  estâncias  parecidas. 

[§  156]  O  maior  número  dos  meus  passos  documentaes  en- 
contra-se  nas  obras  de  autores  quinhentistas,  notáveis  pelo 
seu  amor  pátrio,  seu  profundo  conhecimento  da  alma  nacio- 
nal, e  vivo  interesse  por  materiaes  folklóricos  em  geral  (su- 
perstições, costumes,  anexins,  provérbios,  melodias  e  letras 
populares).  Gil  Vicente,  Jorge  Ferreira  de  Vasconcellos,  Luis 
de  Camões  ocupam  os  lugares  primaciaes.  Tanto  as  citações 
como  as  intercalações  de  romances  cantados  se  dâo  sobretudo 
no  teatro  do  Plauto  português  e  seus  discípulos;  nas  comédias 
Eufrosina,  Ulysipo,  e  Aulegrafia;  no  Filodemo,  Rei-Seleuco  e 
nos  Anfitriões;  mas  também  em  trovas  de  ocasião,  e  em  Car- 
tas familiares  do  Príncipe  dos  Poetas  portugueses  (3).  isto  é: 


(i)  Pelas  chacotas  de  Jorge  Ferreira  de  Vasconcellos  sobre  a  moda  de  escre- 
ver glosas,  que  segundo  ele,  já  por  1540  se  havia  tornado  enfadonha  (tão  seguida 
fora  antes  d'e?se  prazo),  suponho  que  muitas  se  perderiam. 

(2)  Guay  Valência,  em  boca  do  alfaiate  judeu,  no  Auto  da  Lusitânia  de  Gil 
Vicente,  aparta-se  da  regra. 

(3)  As  pequenas  ocorrências  anecdóticas  da  vida  histórica  que  citei,  conside- 
-roas  como  pertencendo  aos  géneros  familiares. 


280  CAROLINA  MICHAÈLIS  DE   VASC0NCELL08 

em  géneros  que  espelham  a  realidade,  ora  na  prosa  de  todos 
os  dias,  ora  em  versos  de  medida-velha.  Em  obras  de  arte 
austera,  de  estilo  ítalo-clásico,  procuraríamos  de  balde  versos 
alheios  de  carácter  popular  (1).  Neles  ocorrem  apenas  raros 
versos  alados,  em  latim  (de  Horácio,  Ovídio,  Vergílio),  ita- 
lianos (Dante,  Petrarca,  Bembo),  hespanhoes  (Garcilaso,  Bos- 
can)  ou  no  idioma  nacional  (Camões)  (2). 

Quasi  sempre  é  o  hemistíquio  primeiro,  pelo  qual  o  roman- 
ce é  recordado.  Menos  vezes  se  empregam  versos  do  meio  ou 
do  fim.  Nestes  casos  são  em  regra  ditados  sentenciosos,  com 
feitio  de  provérbios,  ou  vocativos  e  imperativos  (resp.  optati- 
vos) em  alocuções  vivazes.  De  vez  em  quando  a  citação  é  in- 
terrompida a  meio  (3),  conforme  mostrei  com  relação  a  Olhos 
que  vos  viram  ir 

E  as  pessoas,  de  cuja  boca  vemos  sair  fragmentos  de  ro- 
mances? É  digno  de  nota  que  a  gente-povo,  a  burguesia,  e  a 
nobreza  parecem  haver  tido  gosto  igualmente  vivo  pelo  géne- 
ro épico-lírico.  Na  galeria  que  constituí,  ha  palacianos  e  vi- 
lões; fidalgos  e  escudeiros;  estudantes  da  Universidade,  al- 
faiates judeus,  moços  de  servir,  amas  de  criar,  capitães  e  sol- 
dados tanto  da  Africa  como  da  índia.  Todos  conheciam  e  em- 
pregavam romances:  Nas  ruas  da  capital  e  de  Coimbra,  nas 
cidades  menores  e  vilas,  onde  a  corte  residia  temporaria- 
mente, nas  aldeias  e  serras.  Em  representações  scénicas  dos 
serões  do  paço;  longe  da  pátria,  na  viagem  ao  reino  vizinho, 
na  travessia  á  Africa,  nos  adustos  campos  mauritanos;  no 
meio  do  oceano,  nas  fortalezas  do  Oriente — em  toda  a  parte 
os  Portugueses  entoavam  romances,  ora  como  desabafo  sen- 
timental, ora  como  mero  divertimento  (afim  de  nâo  adorme- 
cerem no  quarto  da  modorra);  ás  vezes  com  tenção  satírica; 
outras  vezes  para  levantar  o  espírito  guerreiro  dos  comba- 
tentes. E  tão  inveterado  era  o  costume  que  não  ha  diferença 
entre  o  primeiro  acto  das  conquistas  orientaes,  gloriosamente 
fechado   por   D.   João  de  Castro,  e  os  subsequentes,  em  que 


(i)     Claro  que  ha  algumas  excepções  (p.  ex.  em  Barahona  de  Soto). 

!  2)     Hendecassllabos,  já  se  vô. 

(3)     Com  provérbios,  é  vulgar  proceder-se  do  mesmo  modo. 


ROMANCES   VELHOS  289 


filhos  e  netos  se  esforçavam,  em  balde,  de  sustar  a  decadência 
das  virtudes  antigas. 

Liguei  particularíssimo  interesse  a  D.  João  de  Meneses  por 
ser  representante  de  Portugal,  o  Velho;  isto  é:d'aqueles  nobres 
da  Escola  dos  Infantes  (1),  cuja  actividade  militar,  começada 
decénios  antes  do  descobrimento  do  caminho  marítimo  para  a 
índia,  se  desenvolveu  exclusivamente  na  Africa  (2),  em  gue- 
rras fronteiriças,  e  cuja  actividade  literária  despontou  no  rei- 
nado de  D.  Afonso  V.  A  alcunha  de  Africano,  dada  tanto  ao 
rei  como  ao  Capitão,  quadraria  a  todos  os  corifeus  d'aquele 
tempo,  e  parece  que,  de  facto,  foi  dado  a  mais  de  um  (3). 

[§  157]  Alguns  leitores  estarão  dispostos  a  abater  da  minha 
lista  diversas  citações,  ou  a  diminuir  o  seu  valor  documental, 
persuadidos  de  que  as  pessoas  que  d'elas  se  serviram,  conhe- 
ciam exclusivamente  as  próprias  locuções  rítmicas  qua  em- 
pregavam, já  então  estereotipadas,  sem  terem  ideia  da  sua 
proveniência,  e  sem  saberem  realmente  de  cór  os  romances 
de  que  fazem  parte.  A  objecção  pôde  ser  verdadeira.  Pelo 
menos,  com  relação  a  gente  illetrada.  Mas  longe  de  invalidar 
a  tese  da  popularidade  dos  textos  respectivos,  realça-a  ainda. 
Quantas  vezes  havia  de  ser  cantado  p.  ex.  o  romance  do  Cid 
Por  aquel  postigo  viejo,  antes  que  escudeiros  e  vilões  aplicas- 
sem mecanicamente  a  qualificação  de  viejo  e  a  oração  relativa 


(i)     D.  Enrique,  o  Navegador,  faleceu  em  1460. 

(2)  E  na  passageira  guerra  de  sucessão  em  Castela. 

(3)  Ainda  assim,  T.  Braga  parece-me  ir  longe  demais,  afirmando,  num  passo  do 
seu  Bernardim  Ribeiro  e  o  Bucolismo  (1897),  que  Africano  designava  genericamen- 
te no  século  xv  o  cavaleiro  militante  em  Africa,  talqual  no  século  xix  Brasileiro 
designava  o  burguês  que  fizera  fortuna  no  Brasil. 

No  Africano  das  Eglogas  de  Bernardim  Ribeiro,  ele  quer  reconhecer  certo  Diogo 
de  Melo  e  Silva  (de  nenhuma  fama  militar),  somente  porque  ha  d'ele  umas  Trovas 
que  escreveu  vindo  de  Azamor  e  encontrando  a  sua  dama  casada  (Canc.  Ger.  III 
308),  trovas  ás  quaes  pertence,  e  das  quaes  saiu  o  Mote: 

Casada  sem  piedade, 
vosso  amor  me  ha  de  matar. 

Ele  foi  utilizado  por  Cristóvam  Falcão  numas  Volta9  que  andam  confundidas  coni 
as  da  Bela  mal  maridada,  e  que  assim  mesmo  tornam  a  aparecer  na  obra  de  Ca- 
mões (nos  Amphitriões). 


290  CAROLINA  MICHAÊLIS  DE    VASCONCELLOS 


que  nunca  fuera  cerrado,  a  qualquer  janelinha  ou  portinha,  de 
que  tinham  de  falar!  Muitas  fórmulas  foram  tão  repetidas  que 
positivamente  alcançaram  valor  de  proverbiaes:  os  preságios 
do  rei  Rodrigo;  as  Maldições  de  Salaia;  exclamações  como 
Guay  Valência!  Helo,  helo por  do  viene!  Afuera,  afuera  Rodri- 
go! Vuelta,  vuelta,  los  Franceses!  A  las  armas,  Moriscote!  ex- 
pressões como  Suspirastes,  Valdovinos;  Vamonos  dijo  mi  tio; 
Ya  cabalga  Calainos;  Apesar  dei  rey  de  Francia.  E' mesmo  pos- 
sível que  algumas  preexistissem  em  forma  de  provérbio,  como 
Mensageiro  es,  amigo;  Rey  que  não  faze  justiça  (1);  Mais  vale 
morrer  com  honra;  Erros  por  amores  (2);  Antes  envidia  que 
mancilla;  Olhos  que  vos  viram  ir  (3).  Mas  sempre  que  trajem  á 
castelhana,  ou  tenham  a  medida  dos  versos  de  romance,  acho 
lícito  perfilhá-los  entre  as  citações. 

Com  respeito  a  alguns  modos  de  dizer,  vagos  e  pouco  ca- 
racterísticos, mas  aplicados  muito  a  oiiude  como  longas  tie- 
rras  van  morar— los  brazos  traigo  cansados — bravo  va  por  la 
batalla,  pode  ser  que  não  provenham  precisamente  dos  textos 
que  apontei.  O  mesmo  vale  de  indicações  de  localidades,  co- 
mo pola  veiga  de  Granada — pelos  campos  do  Mondego.  Que  os 
abatam  á  vontade  das  minhas  listas.  O  que  resta  de  vestígios 
inconfundíveis  autentica  suficientemente  a  tese  da  familiari- 
dade secular  de  Portugal  com  o  Romanceiro  hispânico. 

Claro  está  que,  pelo  outro  lado,  não  imagino  haver  coli- 
gido tudo  quanto  subsiste  (4).  Claro  também,  que  mesmo  a 
totalidade  das  citações  existentes,  se  a  conhecêssemos,  não 
representaria,  nem  de  longe,  a  totalidade  dos  romances  real- 
mente conhecidos  em  Portugal,  o  (5)  Velho. 


(1)  Na  Demanda  do  Graal  encontrei  ha  pouco:  Rei  que  mente  nom  deve  trazer 
coroa  (Cap.  119);  diluído  em  Mas  ningun  rey  que  dize  mentira  no  deve  sei  rey  ni 
devia  traer  corona  na  versão  castelhana  (cap.  98). 

(2)  Tirso  de  Molina  empregou  o  ditado  dos  Erros  na  Comedia  famosa  Como 
han  de  ser  los  amigos  (Nueva  Biblioteca  de  Autores  Espanoles,  Vol.  8,  p.  26)  e  o 
da polvareda  e  de  D.  Beltrane,  na  Fingida  Arcádia  (ib.  p.  453). 

(3)  Mais  abaixo  adito  mais  uma  nota  importante  ás  que  já  reuni. 

(4)  Deixei  com  certeza  bastante  que  respigar,  especialmente  em  obras,  em 
parte  inéditas,  relativas  ao  Ultramar,  em  tratados  sacros,  e  em  Autos  raros,  que 
não  pude  compulsar  (de  Fernão  Mendes,  Francisco  Vaz,  Afonso  Alvarez  e  outros). 

(5)  Mesmo  em  Quinhentistas  notáveis  passei  por  alto  algumas  coisas  que  me 


ROMANCES  VELHOS  291 


[§  I58]  Digo:  familiaridade  secular.  Mais  exacto  seria  di- 
zer: além  de  tetra-secular.  Importa  ver  mais  de  perto,  de 
quando  ela  data.  Dos  autores  que  tive  de  citar,  uns  doze  flo- 
resceram no  último  quartel  do  século  XV.  O  maior  número, 
no  imediato.  Diversos,  nos  primeiros  decénios  do  XVII.  Os 
limites  do  tempo,  de  que  tratei,  sao  1483  e  1663.  Escolhi  a  data 
1483,  que  naturalmente  nao  é  efectiva,  por  ser  o  ano  em  que 
foram  compostas,  segundo  entendo,  as  mais  antigas  poesias, 
contendo  citações  que  sei  datar:  as  trovas  de  Nuno  Pereira  e 
Jorge  da  Silveira,  instauradores  do  Processo  do  Cuidar  e  do 
Suspirar,  relativas  á  Bela  mal  maridada  (1).  O  ano  1663  é  o 
da  morte  d'  aquela  Soror  Micaela,  de  sangue  real,  que  expi- 
rando citou,  segundo  pia  lenda  conventual,  uma  transposição 
ao  divino  do  romance  de  Gaiferos.  Conta  redonda,  melhor 
será  pormos  como  data  inicial  1450  e  como  terminal  1640. 

Os  romancistas  que  nomeei,  pertencem  portanto  a  três 
períodos  diversos  da  literatura  pátria:  o  medieval,  classifica- 
do em  regra  de  hespanhol;  o  ítalo-clássico,  áureo,  ou  do  Re- 
nascimento; e  o  do  Barock-Styl  dos  Conceitistas,  Gongoristas 
e  Académicos,  ou  seja  da  união  filipina  (2). 

Ao  medieval  pertencem  os  seguintes  moradores  da  corte, 
que  biografei  no3  parágrafos  132-144,  e  cujas  obras  princi- 
paes  andam  no  Cancioneiro  Geral: 

1).  João  Manuel  (t  1499)  §  130-132. 

D.  João  de  Meneses  (f  1514)  §  131  e  132. 

Nuno  Pereira  (fl.  1483)  §  133. 


pareciam  supérfluas.  P.  ex.  uma  Glosa  em  que  Diogo  Bernardez  parafraseou  vó  ro- 
mance artístico 

Sangrientns  las  hebras  d' oro       se  sale  de  la  ia ta  lia 

la  hermosa  Bradamante,        aunt/ue  herida,  ven°ada .  ) 

(Rimas  Varias,  p.  202). 

(i)  Repito  que  o  processo  é  de  1483.  Nesse  ano  D.  Leonor  já  era  casada.  Em 
1482  Nuno  Pereira  dirigira  a  Anrique  d'Almeida  uns  versos,  de  que  tratarei  mais 
abaixo. 

(2)  Em  geral  é  costume  considerar  este  como  segunda  metade  ou  desfecho  do 
4ureo.  Mas  aqui  convém  separá-los. 


202  CAROLINA  MICHAÊLI8  DE    VA8C0NCELL0S 

Jorge  da  Silveira  (fl.  1483)  §  134. 

Duarte  de  Brito  (fl.  1490)  §  186. 

João  da  Silveira  (fl.  1494)  §  136. 

D.  João  de  Sousa  (fl.  1494)  §  138. 

Ruy  de  Sousa  (f  1498)  §  138. 

Pedro  Homem  (fl.  1490)  §  139. 

Fernão  da  Silveira  (f  1489)  §  140. 

D.  Pedro  de  Almeida  (c.  1500)  §  141. 
D.  João  Rodríguez  de  Sa  e  Meneses  (n.  1464)  §  142. 

Todos  eles  são  fidalgos  de  clara  estirpe;  na  sua  posição  em- 
baixadores, camareiro3-móres,  estribeiros-mórcs,  guarda- 
móres;  em  geral  de  notável  cultura  literária.  Apenas  Gregó- 
rio Afonso  (§  144),  criado  do  Bispo  de  Évora  D.  Afonso  de 
Portugal  (1),  era  de  baixa  esfera. 

Transitam  para  o  período  seguinte  como  innovadores, 
além,  do  prócere  que  citei  em  último  lugar,  a  quem  Febo  deu 
linguagem  vergiliana,  o  benemérito  coleccionador  do  Cancio- 
neiro (§  143);  o  fundador  do  teatro  nacional  (§  147),  e  os  seus 
numerosos  discípulos:  Jorge  Pinto,  Henrique  López,  Jerónimo 
Ribeiro,  António  Ribeiro,  (o  Chiado)  (2),  António  Prestes,  Gil 
Vicente  d' Almeida,  assim  como  os  anónimos  autores  cómicos 
do  Auto  de  D.  Guiomar  de  Porto;  Auto  do  Juizo;  Auto  do  Du- 
que de  Florença. 

Coevos  d'eles  são  (além  de  Sá  de  Miranda),  os  dois  prera- 
faelitas  Bernardim  Ribeiro  e  Cristóvam  Falcão  (§  147  e  148) 
(3).  Com  suas  primícias  entraram  no  Cancioneiro  (4),  e  pouco 


(i)  Esse  magnate  figura  nos  Embrechados  do  Conde  de  Sabugosa  (1908),  num 
belo  estudo  sobre  a  Sempre-Noiva. 

(2)  Já  deixei  dito  que  nas  suas  obras  miúdas  se  manifesta  imitador  ou  conti- 
nuador de  Gregório  Alfonso. 

(3)  Agora  (junho  de  1908)  promete-se  para  Outubro  um  volume,  em  que  o  jo- 
vem escritor  Delfim  de  Brito  Guimarães  pretende  provar  que  Cristóvam  Falcão 
nio  foi  poeta  e  que  as  Trovas  de  Oisfal  e  a  Carta  do  mesmo,  com  todas  as  poe- 
sias menores  que  lhe  tem  sido  atribuídas,  são  de  Bernardim  Ribeiro.  Por  ora 
não-convertida,  continuarei  a  diferençá-los. 

■P.  S. — Em  diversos  acrescentos  já  disse  que  a  obra  apareceu  em  Dezembro  e 
que  d'ela  me  ocuparia  alhures. 

^4)     Canc.  Ger.  III  389  e  539-544.  O  nome  Cristóvam  Falcão  não   ocorre  na 


ROMANCES   VELHOS  293 


depois  (entre  1520  e  1530)  creio  que  o  mais  velho  iniciou 
o  bucolismo  português  com  as  suas  Eglogas,  tao  ingenuamente 
belas.  Com  a  novela  meio-pastoril,  meio-cavalheiresca  da  Me- 
nina e  Moça,  o  mesmo  abriu  senda  nova  também  aos  cultores 
da  prosa  artística. 

D'eles  se  distancia  pelas  suas  aptidões  jogralescas,  seme- 
lhantes ás  de  Gregório  Afonso,  Baltasar  Biaz,  quasi  o  único 
sucessor  português,  nominalmente  conhecido,  d'aqueles  cegos 
jograes  que  cantam  velhas  façanhas  (1).  Agora  que  devo  apon- 
tar mais  uma  vez  a  sua  glosa  do  Conde  Alarcos,  as  suas  na- 
cionalizações do  Marquês  de  Mántua,  da  Emperatriz  Porcina, 
e  quem  sabe  se  de  mais  alguns  contos  de  assunto  internacio- 
nal, do  fundo  mistcioso  da  poesia  popular,  que  abreviados 
perduram  na  tradição  de  hoje  (2),  acrescentarei  a  circuns- 
tância que  exactamente  na  Ilha  da  Madeira,  pátria  de  Balta- 
sar, subsistem  muitos  contos,  casos,  e  histórias  infantis  era 
verso  de  romance  (3). 

Ao  seu  lado  poderemos  colocar  António  Lopez,  de  Tranco- 
so, glosador  de  En  el  mes  era  de  Abril,  e  Diogo  Garcia,  de  Bra- 
gança, ao  qual  num  Pliego  Suelto  se  atribuem  as  Maldições  de 
Salaia  (4). 

Comquanto  também  se  estreasse  nos  serões  manuelinos,  e 
continuasse  a  favorecer  o  metro  antigo,  o  douto  filósofo  Sá  de 


obra.  Supus  comtudo  que  entre  os  versos  de  Ribeiro  e  os  de  Sá  de  Miranda 
(II  316-325)  andassem  alguns.  Autorizava  a  hipótese  o  facto  que  na  edição  de  Fe- 
rrara (1554)  e  na  de  Colónia  (1 559)  surgem  entre  as  poesias  que  se  seguem  á 
Caria  diversas  trovas  que  no  Cancioneiro  sao  atribuídas  a  Ribeiro  e  a  Mi- 
randa. 

(1)  No  reino  vizinho  houve  bastantes;  aliás  de  pouca  nota.  Lembro-me  de: 
Alonso  Bezerro,  privado  dei  sentido  visivo,  vezino  de  la  villa  de  Aguilar  {Pliego 
suelto  de  1 594^;  Cristobal  Bravo,  ciego  de  la  vista  corporal,  natural  de  la  ciudad 
de  Córdova  (PI.  S.  de  1572);  Francisco  Godoy  id.,  natural  de  la  villa  de  Motril  y 
residente  en  Sevilla  (1594);  Gaspar  de  la  Cintera,  id.,  vecino  ora  de  Granada,  mas 
natural  de  Ubeda  (1566,  1572,  1582);  Gines  de  Sandoval  id.,  de  Múrcia  (1588). 

(2)  Já  sabem  que  penso  na  Bela  Infanta  e  na  Silvaninha. 

(3)  Vid.  Álvaro  Rodrigues  de  Azevedo,  Romanceiro  do  Archipelago  da  Ma- 
deira (18). 

(4)  Vid.  Duran,  Catalogo  No  61  e  126;  Gallardo,  Ensayo  III  2292.  A  bem  di- 
zer, nenhuma  das  composições  atribuídas  ao  liragantino,  é  romance. 


294  CAROLINA  MICHAÈLIS  DE   VASCONCELLOS 


Miranda,  embora,  mais  \  elho  do  que  03  dois  poetas bucol i cos (1), 
partence  virtualmente  á  era  do  Renascimento,  náo  só  como 
reformador  da  arte  lírica,  mas  também  como  introdutor  da 
comédia  togata  em  prosa  (2).  Se  no  campo  dramático  foi  se- 
cundado apenas  por  Jorge  Ferreira  de  Vasconcellos,  e  indi- 
rectamente por  António  Ferreira,  numerosos  adeptos  agrupa- 
ram-se  em  volta  do  renovador  do  estilo  lírico,  seguindo,  feliz- 
mente, o  seu  exemplo  também  no  judicioso  processo  de  nao 
abandonar  por  completo  as  antigas  medidas  peninsulares  da 
Escola  Velha. 

Entre  os  Mirandistas  tive  de  nomear  como  conhecedores 
de  romances  (fora  o  tantas  vezes  citado  Ferreira  de  Vascon- 
cellos) a  Jorge  de  Montemor,  Gregório  Silvestre,  Pedro  de  An- 
drade Caminha,  Diogo  Bernardez,  Frei  Agostinho  da  Cruz. 

Sobranceiro  a  todos  se  ergue  o  maior  vulto  da  literatura 
portuguesa:  Luis  de  Camões,  que  na  sua  admirável  memória 
levava  para  a  Africa,  a  índia,  a  China,  um  manancial  caudo- 
loso  de  reminiscências  poéticas,  tanto  cultas,  como  populares, 
hauridas  umas  em  livros  e  manuscritos,  outras  colhidas  nos 
campos  do  Mondego  e  nas  várzeas  do  Ribatejo,  no  convívio 
com  os  músicos  de  Câmara  da  corte  e  com  os  estudantes  da 
Universidade.  Reminiscências,  de  que  se  servia  oportunamen- 
te, como  já  expliquei  num  parágrafo  anterior:  das  cultas,  em 
obras  de  arte  nobremente  áulicas;  das  populares,  apenas  em 
obras  de  pouca  gravidade:  Cartas  em  prosa  e  verso;  Sátiras, 
como  os  Disparates  na  índia;  e  Comédias. 

Perto  d'ele,  estendendo  a  mão  aos  Seiscentistas,  vimos 
André  Falcão  de  Resende  que  celebrou  o  vate  vivo  em  terce- 
tos; Fernão  Rodriguez  Soropita,  primeiro  editor  das  Rimas  de 
Camões;  Miguel  Leitão  de  Andrade,  que  honrou  a  sua  sepultu- 
ra e  meteu  diversos  Sonetos  d'ele  na  sua  Miscelânea;  Francis- 


(1)  Segundo  documentos,  publicados  por  Sousa  Viterbo  nos  seus  Estudos 
sobre  Sá  de  Miranda  (Goimbra  1859),  ele  nasceu  antes  de  1490,  talvez  já 
em  1485. 

(2)  De  um  caderno  manuscrito  com  poesias  de  Sá  de  Miranda,  recentemente 
descoberto  em  Lisboa  por  Delfim  de  Brito  Guimarães,  consta  que  o  autor  escre- 
veu (ou  começou?)  uma  tragédia  sobre  o  assunto  clássico  de  Cleópatra. 


ROMANCES   VELHOS  295 


co  Rodriguez  Lobo,   um   dos  seus  melhores  imitadores,  pelo 
menos  no  género  bucólico. 

Os  que  vieram  depois,  muito  mais  hespanholizados,  estáo 
sob  a  influência  do  Barock-Styl.  Simão  Machado,  Serrão  de 
Castro,  D.  Francisco  Manuel  de  Melo,  D.  Francisco  de  Portu- 
gal, ora  imitam,  em  trovas  ao  modo  peninsular,  o  estilo  ho- 
raciano  de  Sá  de  Miranda;  ora  se  cingem  aos  trovadores 
mais  singelos  da  Escola  Velha,  como  o  conde  do  Vimioso, 
Gregório  Alonso,  o  Anónimo  dos  Porquês  de  Setúbal,  doeu-1- 
mentando  de  longe  em  longe  a  sua  familiaridade  com  roman- 
ces velhos,  embora  dessem  a  preferência  ás  raouriscadas  do 
seú  tempo. 

Os  casos  acontecidos  na  vida  real,  em  que  notas  român- 
ticas entraram  como  elemento  decorativo  de  façanhas  milita^- 
res,  e  foram  registados  pelos  historiadores  (João  de  Barros, 
Gaspar  Corrêa,  Diogo  do  Couto,  Castanheda,  Frei  Bernardo  da 
Cruz,  e  o  desconhecido  coleccionador  das  Memórias  e  Anec- 
dotas)  (1),  ocorreram  parte  na  Africa  (em  Arzila,  Azamor, 
Alcáccr-Quebirj,  parte  na  Ásia  (em  Goa,  Salsete,  Surrate, 
Barcelor);  mas  também  na  Europa  (depois  da  acção  de 
Toro.) 

Só  de  relance  mencionei  o  Cavaleiro  de  Oliveira,  ultrapas- 
sando os  limites  acima  estabelecidos.  A  parte  que  este  exce1- 
lente  observador  da  alma  portuguesa  teve  porventura  na  co- 
leccionaçao  (antecipada)  de  romances  populares,  ainda  está 
insuficientemente  definida  (2).  Adverti  que  a  crítica  estran- 
geira talvez  se  engane  ao  considerar  como  mera  fábula,  in- 
ventada por  Almeida-Garett,  a  sua  qualidade  de  assentador 
de  alguns  romances.  Mas  para  os  problemas  que  nos  ocupam, 
o  caso  tem  pouco  peso. 

[§  159]  Neste  esboço  cronológico  está  o  principal  elemento 
novo  da  minha  demonstração.  Acerca  da  voga  que  o  Roman- 
ceiro peninsular  teve  em  Portugal  na  época  de  Miranda  e  Ca- 


(i)  Nas  Crónicas  dos  reis  (de  Fernão  Lopez,  Zurara,  Pina,  Góes,  Osório,  An- 
drade, etc)  não  dei  com  citação  alguma. 

(2)  Nilo  reli  ultimamente  as  suas  Cartas  e  Memórias,  com  a  mira  em  vestígios 
de  romances  portugueses. 


290  CAROLINA  MICHAELIS  DE    VASCONCELLOS 

raões,  e  na  imediata,  nunca  lavraram  dúvidas,  apesar  de  nin- 
gem  se  haver  ocupado  d'ela  com  interesse  particular.  Nem 
tão  pouco  com  respeito  á  colaboração,  pouco  brilhante  embo- 
ra, dos  Portugueses  nas  espécies  artísticas  e  eruditas,  ou  se- 
mi-artísticas  e  semi-eruditas,  de  1550  em  diante.' 

Quanto  ao  heróico  período  medieval  e  ás  varonis  e  singe- 
las produções  épicas  e  épico-líricas,  tratadas  de  velhas  no  rei- 
nado dos  Reis  Católicos,  ninguém,  pelo  contrário,  reconhecera 
até  agora  os  seus  apagados  vestígios  na  literatura  nacional. 
Tão  ocultas  e  pouco  numerosas  são  as  alusões,  no  Cancioneiro 
Geral  (1),  quasi  único  monumento  poético  que  d'ele  subsiste. 
Tão  pouco  dão  na  vista  as  isoladas  contribuições  de  Portugal 
á  literatura  dos  Pliegos  Sueltos  (2)  e  aos  Cancioneros  e  Roman- 
ceros  escritos  de  1500  a  1550,  mas  impressos  só  de  1550  em 
diante,  ou  tirados  á  luz  apenas  no  nosso  tempo,  de  manuscri- 
tos e  edições  raríssimas  (3).  Tão  vagarosamente  chegamos  so- 
bretudo a  encarar  com  alguma  lucidez  os  problemas  suscita- 
dos pelas  diversas  nacionalidades  e  línguas  da  península,  e  a 
sua  mútua  acção. 

O  cabeça  do  moderno  movimento  literário  em  Portugal 
afirmou  sempre  que  na  compilação  de  Resende,  não  havia 
vestígio  sequer  de  romance  algum,  nem  tão  pouco  dos  gracio- 
sos cantares  de  amigo,  cantos  de  romaria  e  serranilhas  da  pri- 
meira época  lírica  (4);  nem  mesmo  vestígio  da  forma  e  do  es- 


(i)  Como  as  citações  não  fossem  realçadas  tipograficamente  na  edição  de 
1516  —  (na  reimpressão  de  Kaussler  elas  destacam-se  apenas  nas  glosas,  clara- 
mente designadas  como  taes  nas  respectivas  epigrafes) — só  as  pôde  descobrir 
quem  tem  a  abnegação  de  ler  e  reler  esses  poemas  didácticos,  essas  trovas,  ás 
vezes  tão  enssosas,  essas  burlas  ás  vezes  tão  grosseiras  do  florilégio  de  Resen- 
de, tendo  bem  fixado  na  memória  o  estilo  e  os  assuntos  dos  cantares  épico- 
líricos. 

(2)  Aos  poucos  que  mencionei,  já  posso  juntar  actualmente  mais  um  exemplo. 
Numa  folha  volante,  conservada  na  Biblioteca  de  Praga  (No  LXI)  ha  uma  Canción 
de  un  çalan  português.  -  F.  Wolf  afirma  (p.  13c  1 26)  ser  obra  portuguesa  de  Lope 
Ortiz  de  Zúfriga.  Não  verifiquei  a  asserção  que,  pelo  nome  tão  castelhano,  parece 
inexacta. 

(3)  Em  quasi  todos  os  Cancioneros  castelhanos  ha  contribuições  de  Portu- 
gueses. 

(4)  Na  Floresta  (p.  XI),  T.  Braga  dizia  (em  1867)  que  poeta  algum  da  corte  de 


DOMANCES   VELHOS  267 


pírito  ingenuamente  popular  de  ambos.  D'essas  afirmações, 
não-contestadas,  Menéndez  y  Pelayo  inferiu  logicamente,  a 
absoluta  nulidade  da  colaboração  dos  Portugueses  antigos  nos 
cantares  de  gesta  e  nos  romances  velhos,  e  a  completa  ausên- 
cia de  talento  e  sentimento  épico  e  histórico  d'  esta  nação, 
vindicando  toda  a  gloriosa  actividade  para  Castela. 

Assim  o  registei  na  Introdução.  Em  seguida  fui  desentra- 
nhando no  meu  estudo,  alusões  a  cinco  ou  seis  romances  vel- 
hos (1)  de  nove  ou  dez  trovas  diversas  do  Cancioneiro  (2), 
compostas  por  sete  moradores  da  corte.  Apontei  uma  refe- 
rência a  romances  indeterminados,  cantados  na  corte  de  D. 
João  II  por  mancebos  namorados.  Chamei  a  atenção  para  um 
romance  composto  por  D.  João  Manuel  antes  de  1499  (3),  e 
para  outro  de  D.  João  de  Meneses,  anterior  a  1514  (4).  Falei 
da  glosa  de  Durandarte,  do  mesmo.  E  só  negativamente,  da 
de  Belerma  (1536),  erroneamente  atribuída  a  Bernardim  Ri- 


D.  João  II  e  D.  Manuel  (exceptuando  o  colector  do  Cancioneiro)  nem  sequer  so- 
nhava com  a  existência  de  romances.  E  desde  então  repetiu  mais  de  uma  vez  a 
mesma  afirmação. 

(i)  Vejam  os  Números  2,  4,  25,  67,  71  96,  e  os  respectivos  Suplementos.  No 
Índice  procurem  os  nomes-próprios.  Para  comodidade  do  leitor  torno  todavia  a 
lembrar  lhe  que  se  trata  dos  seguintes  versos: 

Mensajeio  eres  amigo,  do  romance  Buen  Conde  Fernan  González,  citado  por 
João  Rodríguez  de  Sá  e  Meneses  (C.  G.  III  302.) 

.SY  el  caballo  bien  corria,  la  yegua  tnejor  volaba,  do  romance;  Ilelo,  helo  por  do 
viene,  parodiado  por  Pedro  d' Almeida  (C.  G.  II  428.) 

O/os  que  nos  vieran  ir,  do  romance  Oh  Belerma,  aproveitado  por  Duarte  de 
Brito  (C.  G.  I  366),  Pedro  Homem  (I  469),  Garcia  de  Resende  (III  634)  e  mais 
tarde  por  Cristóvam  Falcão  e  Ferreira  de  Vasconcellos. 

Qus  los  yerros  por  amores  dignos  son  de  perdonare,  do  romance  do  Conde 
Claros,  citado  por  João  Rodríguez  de  Sá  e  Meneses  (C.  G.  II  423.)  e  D.  João  de 
Meneses  (I  156). 

La  bella  mal  maridada,  citada  por  Nuno  Pereira  (I  250),  Jorge  da  Silveira 
(I  255),  Garcia  de  Resande  (III  570)  e  posteriormente  por  Gil  Vicente  e  muitos 
outros. 

(2)  Dez,  se  quiserem  aceitar  como  prova  documental  a  cantiga  em  que 
D.  João  de  Meneses  se  refere  vagamente  aos  erros  por  amores  {Cancioneiro 
Ger.  I  126). 

(3)  Gritando  va  el  caballero. 

(4)  Venid,  venid,  amadores. 

20 


298  CAROLINA  MICHAPlIS  DE    VASCONCELLOS 


beiro.  Aludi  aos  rimances  de  casos  acontecidos,  familiares  a 
João  de  Barros  (antes  de  1539),  e  á  importância  d'esse  vocá- 
bulo popular,  não  desdenhado  de  resto  (como  esqueci  de  re- 
lembrar) pelo  sábio  introdutor  do  gosto  clássico  (1).  De  passa- 
gem tratei  dos1  géneros  vulgares  em  versos  pareados  (consoan- 
tes ou  dissoantes),ou  em  quadras  antigas  [xamã) y que  é  costume 
incluir  nos  Romanceiros  e  que,  de  facto,  irmanam  com  os 
verdadeiros  romances  (2).  Dei  amostras  de  romances  épico- 
líricos,  vasado3  nas  mesmas  formas,  os  quaes  atribui  a  Ber- 
nardim Ribeiro,  e  que  provém  seguramente,  quando  nao  d'ele 
próprio,  pelo  menos  de  imitadores  coevos  (3). 

Com  esses  testemunhos  da  existência  de  uma  arte  popular, 
intermédia  entre  a  francamente  lírica  e  a  narrativa,  dei  for- 
ça maior  aos  três  indícios  de  romances  portugueses,  anterior- 
mente conhecidos,  mercê  de  Garcia  de  Resende:  o  Rimance  e 
a  Glosa  de  Tiempo  bueno;  as  Trovas  de  D.  Inês,  os  rimances  de 
emper adores,  reis  e  pessoas  de  memória,  a  que  o  colecciona- 
dor aludira. 

[§  160]  Tudo  isso  é  pouquíssimo.  Quasi  nada,  comparado 
com  a  riqueza  espantosa  de  exemplos  e  de  informações  que  a 
literatura  castelhana  possue  em  Cancioneros,  Eomanceros, 
Pliegos  Sueltos,  e  de  reflexos  contidos  em  comédias  e  novelas 
do  século  xvn  (4).  Todavia  nâo  devemos  ser  injustos.  Para 
explicar  a  desproporção,  digam-me,  se  ela  não  se  dá  em  quasi 


(i)  Na  Fábula  de  Mondego,  escrita  provavelmente  depois  de  Gil  Vicente  ha- 
ver em  1527,  fantasiado  sobre  a  Devisa  da  Cidade  de  Coimbra,  Sá  de  Miranda 
serviu-se  do  vocábulo  rimance  (na  ortografia,  a  seu  ver  etimológica,  rhitmance), 
mas  em  sentido  lato.  Vid.  Poesias,  N.°  n  i,  verso  429.  No  Ms.  P  temos  rimances 
divinos  (sacros);  na  ed.  A  rhitmãnces;  na  ed.  B  romances. 

(2)  Cortei  o  capítulo  relativo  aos  Nuncas,  Porquês,  Arrenegos,  Avisos  e  ás  Mal- 
dições, Regras,  Sentenças,  por  ter  saido  extenso  demais.  Talvez  o  publique  na  Re- 
vista Lusitana  ou  na  Revue  Hispanique. 

(3)  O  cantar-romance,  á  maneira  de  Solao:  Pensando-vos  estou,  filha,  interca- 
lado no  Cap.  21  da  Parte  I,  é  seguramente  do  poeta.  —  O  romance  de  Avalor  mal 
poderá  ser  abjudicado  ao  poeta  da  Menina  e  Moça.  O  romance  Ao  longo  de  uma 
ribeira,  impresso  en  1 645,  nem  por  isso  pôde  ser  obra  tão  tardia.  Os  pareados  dis- 
sonantes, hoje  desconhecidos  aos  literatos  de  cá,  a  ponto  tal  que  os  imprimem  em 
quadras,  eram  igualmente  estranhos  aos  autores  do  século  XVII. 

(4)  Quem  não  conhecer  suficientemente  e   sas  Fontes,  recorra  á  Antologia  de 


ROMANCES   VELHOS  2QQ 


todos  os  ramos  da  literatura,  com  excepção  do  lírico  e  da  his- 
toriografia, em  que  Portugal  sempre  sobresaiu?  Digam,  se  ela 
náo  é  consequência  fatal  da  pequenece  do  país,  e  do  número 
restrito  dos  seus  habitantes?  e  se,  apesar  d'isso,  alguém  se 
lembrou  de  amesquinhar  ou  negar  por  completo  as  importan- 
tes contribuições  de  Portugal  a  todos  os  ramos  da  literatura 
peninsular?  Digam,  se  é  de  estranhar  que  numa  miseelánea, 
essencialmente  palaciana,  compilada  e  dada  a  imprimir  por 
um  cortesão  português,  no  princípio  do  Renascimento,  faltem 
cantares  jogralescos  e  populares?  Digam,  se  quanto  ao  lirismo 
a  efectiva  penúria  de  elementos  populares  nesse  Cancioneiro 
Geral  (1)  que  é  «nobreza  e  galantaria  do  bom  Portugal,  o  vel- 
ho» (2),  nao  é  desmentida  e  compensada  amplamente  pelas 
perfumadas  flores  agrestes,  com  que  a  musa  portuguesíssiraa 
de  Gil  Vicente  soube  engalanar  os  seus  Autos,  de  1502  a  1536, 
quer  alheias,  quer  propiamente  d'ele?  e  também  pela  multi 
d  ao  de  let  rilhas  velhas,  cantares  de  moças  (em  dísticos,  tila- 
das, quadras)  entoadas  nas  ruas  em  coro,  ao  som  do  rústico 
pandeiro — antigualhas  que  se  conservaram  }or  haverem  ser- 
vido de  Motes  e  de  centões  aos  poetas  dos  séculos  xvi  e  xvn,  e 
vivem  (em  parte  muito  reduzida)  na  tradição  (3). 

Digam,  S3  tenho  razão  em  considerar  os  poucos  versos  tra- 
dicionaes  de  romances,  infiltrados  em  composições  palacia- 
nas, como  eco  tenuíssimo  de  vozes  incomparavelmente  mais 
fortes, outr'ora?  tâo  fortes  que,  sem  interrupção  de  continuida- 
de perduram  em  todas  as  províncias  do  reino,  nas  1  lhas  oceâ- 
nicas, e  no  Brasil. 

Pela  minha  parte,  ligo  importância  ao  pouco  que  revelei, 


Menendez  y  Pelayo  (Vol.  IX);  ao  Catálogo  (incompleto)  de  Duran,  e  á  Sammlung 
de  F.  Wolf. 

(i)  Ainda  assim,  a  penúria  não  é  absoluta.  Além  das  diversas  trovas  em  pa- 
reados,  ha  no  Cancioneiro  um  canto  de  romaria,  dirigido  a  Santiago,  e  que  fazia 
parte  de  um  Momo  ou  Entremh  (Vol.  III  395).  Obra  de  um  palaciano,  pertence 
pela  forma  (tríadas  com  refram)  ao  período  arcaico  da  literatura,  do  qual  ha 
outros  restos  importantes  no  Cancioneiro  Musical. 

(2)  A  menção  honrosa  é  de  André  Falcão  de  Resende.  Vid.  Poesias  p.  470 
Ao  Marquez  de  Villa-Real,  mandando-lhe  o  Cancioneiro  Portuguez. 

(3)  Trabalho  de  ha  muito  na  reconstituição  d'  esse  Cancioneiro. 


àOÓ  ÚAROLINA  MlCHAhlS  DE   VASCONCELLÒB 

e  espero  que  o  leitor  esteja  de  acordo  comigo.  Julgo-o  sufi- 
ciente para  abalar  a  tese  principal  do  T.  Braga  e  para  modi- 
ficar as  ilações  de  Menéndez  Pelayo.  E  opino  que,  mesmo  se 
a  afirmação  do  catedrático  português  fosse  verídica,  o  que 
nâo  é,  devíamos  restringir  a  conclusão  do  madrileno. 

[§  168]  Do  talento  épico  da  nação  dos  Lusíadas  logo  direi 
duas  palavras,  e  também  da  sua  eventual  colaboração  nos 
Romanceiros.  Praticamente  demonstrei  a  sua  familiaridade  na 
idade-média  com  romances  velhos.  Teoricamente,  ela  é  pro- 
vável, por  três  motivos:  1.°)  O  segundo  período  da  poesia  por- 
tuguesa é  exactamente  o  da  maior  eflorescência  do  género. 
2.°)  Este  período  é  essencialmente  hespanhol.  3.°)  Nele  come- 
çou ou  avultou  na  Corte,  o  emprego  promíscuo  das  duas  lín- 
guas, com  enorme  prestígio  da  castelhana,  mesmo  no  campo 
lírico — emprego  que  até  então  fora  usual  apenas  emHespanha, 
além  das  fronteiras,  no  campo  lírico,  segundo  a  opinião  ge- 
ral, e  minha  própria  (1). 

As  relações  políticas  e  pessoaes  de  Portugal  e  Hespanha, 
íntimas  no  período  galego-português,  comquanto  de  modo  al- 
gum sempre  pacíficas,  haviam  continuado  assim,  no  último 
quartel  do  século  xive  no  xv.Em  artes  e  letras, não  havia  fron- 
teiras entre  os  dois  reinos.  Na  política  sonhava-se,  desde  a 
união  de  Castela  e  Aragão,  numa  monarquia  universal,  basea- 
da na  união  ibérica,  sob  o  sceptro  de  um  príncipe  nascido  das 
duas  dinastias,  com  a  capital  na  bacia  do  Tejo,  mas  como  idio- 
ma castelhano  como  língua  oficial.  Casamentos  entre  asfamílias 
reinantes  tendiam  a  esse  fim.  Alianças  entre  nobres  de  cá  e  de 
lá  apertavam  cada  vez  mais  os  laços  já  existentes.  As  guerras 
de  sucessão,  a  que  finalmente  conduziu  a  tendência  unitária, 
redundaram  em  expatriações,  repatriações,  embaixadas,  via- 
gens e  nas  terçarias.  Depois  veio  o  desterro  dos  parentes  e 
partidários  dos  Duques  de  Viseu  e  de  Bragança  (1483-95);  as 
festas  de  Évora  pelo  casamento  do  Príncipe  D.  Afonso  com  a 
filha  dos  Reis  Católicos  (1490);  a  sua  morte  prematura  (1491); 
a  ida  de  D.  Manuel  a  Çaragoça  (1497),  afim  de  fazer  procla- 
mar sucessor  o  primogénito  da  mesma  princesa,  com  a  qual 


(i)     Vid.  Cancioneiro  da  Ajuda,  vol.  II,  p.  25,  614,  685,  689,  734,  755. 


ROMANCES   VELHOS  301 


casara.  Todos  esses,  e  muitos  outros  acontecimentos  notórios 
tiveram  repercussão  nas  duas  literaturas  (1).  Em  geral,  o  eco 
é  simpático,  o  que  nao  inhibe  que  Portugueses  e  Castelhanos 
se  crivassem  ocasionalmente  de  frechas  satíricas,  quer  rindo, 
quer  a  sério. 

O  emprego  frequente  do  idioma  castelhano  em  Portugal 
(vid.  §  173),  em  todos  os  géneros,  explica-se  todavia,  mais  do 
que  pelos  planos  de  união  e  recíprocos  interesses,  pelos  pro- 
gressos notáveis  que  no  centro  e  nas  regiões  orientaes,  em 
contacto  directo  com  a  Itália  e  os  seus  grandes  poetas  e  hu- 
manistas, as  letras  e  as  artes  haviam  feito  em  Hespanha,  de 
1385  em  diante,  emquanto  Portugal,  depois  do  longo  esforço 
galego-português,  se  recolhia,  preparando-se  para  as  conquis- 
tas africanas,  iniciadas  em  1415,  e  para  as  empresas  oceâ- 
nicas. 

A  parte  que  os  Portugueses  tomaram,  nos  decénios  de  tran- 
sição, em  que  a  lírica  se  transformou  em  galego-castelhana(2), 
foi  diminuta;  quasi  de  mudez.  Só  de  1430  em  diante,  as  re- 
lações literárias  começam  a  ser  notórias.  Os  reinantes  de  cá 
e  os  vultos  principaes  do  Parnaso  castelhano  deram  o  exem- 
plo. D.  Duarte  encomendava  traduções  de  textos  latinos  a 
Afonso  de  Cartagena.  Mossên  Diego  de  Valera  dedicava  obras 
a  Alfonso  V.  O  Regente  trocava  versos  com  Juan  de  Mena  (3), 
e  correspondia-se  com  o  Marquês  de  Santilhana,  a  favor  de 
seu  filho,  o  Condestável,  o  do  Proétnio,  No  desterro,  em  1449, 
este  começou  a  ensaiar-se  no  idioma  estrangeiro  (4),  era- 


(O  No  texto  me  referi  a  diversas  composições,  relativas  á  estada  do  Duque 
D.  Diogo  e  a  embaixadas.  Aqui  chamo  a  atenção  para  uns  versos  de  Gomez  Man- 
rique,  alusivos  aos  Duques  portugueses,  em  especial  ao  de  Viseu.  Vid.  Cancionero 
de  Gomez  Manriqiie,  vol.  I,  683. 

(2)  Vid.  Henry  R.  Lang,  Cancioneiro  Gallego-Castelhano  (New- York,  1902),  e  o 
compte-rendu  que  dediquei  á  obra  em  Zeitschrift,  XXVIII,  p.  200  a  230. 

(3)  Canc.  der.,  II,  70.  O  Regente  escrevia  portuguôs.  A  Resposta  de  Joain  de 
Mena  é  castelhana.  A  Réplica  do  Regente,  portuguesa. 

(4)  Tratei  do  assunto  na  minha  impressão  da  Tragedia  (em  Homenaje  a  Me- 
nendez  y  1'elayo,  I,  637-732)  e  mais  extensamente  no  Jahresbericht,  I,  p.  582-597. 
Mais  abaixo  emitirei  todavia  a  opinião  nova  que  o  Condestável  talvez  fosse  prece- 
dido um  século  pelo  autor  desconhecido  do  Poema  de  Alfonso  XI. 


302  CAROLINA  MICHAtLIS  DE    VASCONCELLOS 


quanto  outros  se  esforçavam  por  nacionalizar  as  obrai  Me  San- 
tilhana,  e  o  Libro  de  Buen  Amor  do  Arcipreste  de  Fita    I   . 

Com  o  Poema  do  Menosprezo  do  Mundo  (2),  o  Condestável  é 
(depois  do  Infante,  do  seu  correspondente,  e  de  Álvaro  Barrei 
o  autor  mais  velho  que  figura  no  Cancioneiro  Geral,  seguido 
de  perto  de  Álvaro  de  Brito,  que  trocava  versos  com  Gomez 
Manrique  (3). 

Pois  bem,  a  esses  eruditos  precursores  do  Renascimento 
desagradavam  naturalmente  as  singelas  cantigas  e  as  ingé- 
nuas composições  narrativas  (histórias  e  contos  metrificados) 
qje  o  vulgo  amava.  Creio  comtudo  que  não  as  desconheciam, 
comquanto  só  possa  demonstrar  que  o  Regente  fala  na  Vir- 
tuosa  Bemfeitoria  (inédita)  dajograes  na  praça  e  que  el  Rei 
D.  Duarte,  falecido  em  1438,  se  refere  no  seu  A  B  C da  Leal- 
dade a  Cantos  segraes  do  povo  (4).  Ambos  com  desprezo  igual 
àquele  com  que  o  Marquês  menciona  os  cantares-romances. 
Quanto  ao  Condestável,  partidário  convicto  das  ideias  do  mes- 
mo prócere,  e  do  seu  entusiasmo  pelo  grande  aparato  de  eru- 
dição clássica,  ha,  nos  Comentários  em  prosa  dos  seus  três 
poemas  filosóficos,  alusões  a  casos  históricos  do  seu  tempo, 
cantados  em  romances  (como,  p,  ex.,  a  tragédia  de  Álvaro  de 
Lima),  mas  também  a  figuras  vetustas  do  épos  nacional  como 
o  Cid,  el  rei  D.  Sancho,  o  traidor  Vellido  Dolfos.  É  porém 
mais  provável  que  ele  se  inspirasse,  quanto  a  coevos,  nos 
próprios  sucessos,  e  quanto  a  personagens  antigos,  nas  prosifi- 


( i )     Vid.  T.  Braga,  Questões,  p.  1 28  e  1 39. 

(2)  E  sabido  que  anteriormente  fora  impresso  em  edição  avulsa,  dedicada  ao 
Arcebispo  de  Çaragoça,  filho  dei  Rei  D.  Fernando.  Notei  com  satisfação  que  Ja- 
mes Fizmaurice  Kelly  faz  justiça  ao  Condestável,  e  que  o  seu  tradutor  castelhano 
confessa  que  na  literatura  medieval  de  Hespanha  ha  poucos  documentos  tão  no- 
bres, eloquentes  e  comovedores  como  a  Tragedia  (Bonilla,  p.  149). 

(3)  Gomez  Manrique  respondeu  em  português  á  pregunta  do  seu  correspon- 
dente. Vid.  Canc,  II,  90-93. 

(4)  Leal  Conselheiro,  cap.  70.  Dos  pecados  da  boca.  Na  edição  de  1843  lê-se 
sagraes;  mas  pelo  texto  conhece-se  que  se  trata  de  cantos  profanos,  considerados 
deshonestos  nos  ofícios  divinos.  Segral,  de  seglar,  seculare,  de  seculum,  na  acepção 
de  mundo.  Mundanal  portanto.  No  cap.  71  el  rei  considera  pecaminoso  entre  mui- 
tas outras  cousas  scuitar  o  mal  e  dar  aos  jograts. 


ROMANCES   VELHOS  303 


cações  da  Crónica  General  (1),  e  não  nos  romances  tradicio- 
nacs  da  gente  de  baixa  e  servil  condição. 

[169]  O  Cancioneiro  Cerai,  que  abrange  a  colheita  (2)  dos 
reinados  de  D.  Afonso  V  (incluindo  a  regência  de  D.  Pedro 
de  1438  a  49),  D.  João  II  (1477-1495)  e  D.  Manuel  (até 
1516)  (3),  é  a  tal  ponto  hespanhol  que  passa  por  ser  mero  su- 
plemento, ou  seja  Segunda  Parte  do  General,  publicado  qua- 
tro anos  antes,  por  Fernando  dei  Castillo  (4).  Igual  exterior- 
mente, no  formato  e  no  tipo,  irmana  com  ele  quanto  ao 
conteúdo.  Todo  ele  consta  de  paralelos  dos  géneros  então  cul- 
tivados em  Castela.  Cá  como  lá  temos  poemetos  com  reminis- 
cências dantescas:  Visões,  Sonhos,  Infernos  de  amor,  Sepulcros, 
Testamentos  em  que  falam  os  mortos.  Cá  como  lá  ha  pleitos 
burlescos,  libelos  difamatórios,  preguntas  e  respostas  enigmá- 
ticas, á  laia  das  que  haviam  estado  em  moda  no  tempo  de 
Enrique  IV  e  D.  Juan  II  (5).  Cá  como  lá  se  encontram  poemas 
filosóficos  e  históricos,  em  oitavas  de  arte  maior  (6).  Compo- 
sições alegórico-amatórias  em  coplas  de  pé  quebrado,  como 
as  de  Jorge  Manrique  (7).  Também  nos  versos  em  estilo  popu- 
lar ha  correspondência,  com  a  diferença  que  em  Castela  esses 
se  divulgavam  em  regra  em  Pliegos  Sueltos,  de  cuja  existência 


(i)  Relembro  que  a  compilação  da  Crónica  General,  que  se  conserva  em  Paris 
(No  4),  foi  propriedade  do  Condestável. 

(2)  De  vulto  entre  os  textos  que  ficaram  de  fora,  são  apenas  a  Sátira  e  a  7'ra- 
gi-dia  do  Condestável,  ambas  de  letra  castelhana,  mas  de  espírito,  portuguesas. 

(3)  É  costume  circumscrever  o  período  com  as  datas  1449  e  1516  (ano  da  pu- 
blicação do  Cancioneiro),  ou  1521  (ano  do  falecimento  de  D.  Manuel).  Também 
assim  fiz.  Os  versos  trocados  entre  o  Regente  e  D.  João  de  Mena,  e  os  de  Álvaro 
Barreto,  são,  porém,  anteriores  á  batalha  de  Alfarrobeira,  em  que  D.  Pedro  su- 
cumbiu. A  ela  se  refere  todavia  o  mais  antigo  poema  histórico  da  colecção. 

(4)  Vid.  Garcia  Pérez,  Catálogo,  p.  93;  C.  M.  de  Vasconcellos,  Jahresbericht,  I, 
583-97;  Menéndez  y  Pelayo,  Antologia,  VII,  p.  CL  a  CLXIII. 

(5)  Vid.  Cancionero  de  Baena. 

(6)  Apenas  os  Sonetos  do  Marquês  de  Santilhana  (que,  de  resto,  não  entraram 
nos  Cancioneiros  Geraes)  não  vingaram,  por  serem  prematuros,  antes  da  aceita- 
ção do  hendecassílabo. 

(7)  A  obra-prima  da  poesia  castelhana  d'aquele  tempo,  Recuerde,  el  alma  dor- 
mida! foi  muito  admirada  e  imitada,  mas  nunca  igualada  em  Portugal.  Vid.  Revue 
Ihspanique  (vol.  VI)  e  T.  Braga,  Camões,  Época,  Vida  e  Obra  (1905),  p.  551. 


304  CAROLINA  UlCHAtLIS  DE    VASOONCELLOS 


indubitável,  nâo  temos  em  Portugal  senão  provas  tardias  e 
muitos  raras  (1). 

Quanto  a  romances,  ao  único,  artístico,  qu«-  no  Geral  sur- 
ge  com  sua  glosa,  respondem  no  General  três  a  quatro  dú- 
zias (2),  e  mais,  se  metermos  em  contribuição  os  outros  Can 
cioneiros  que  o  completam  (3).  Ainda  assim,  mal  se  pode  ima- 
ginar que  exactamente  o  género  mais  popular  e  nacional,  <■ 
mais  profundamente  arraigado  no  solo  hespanhol,  deixasse  de 
se  expandir  e  de  fructiflcar  em  Portugal. 

Como  aqui  exagerassem  muita  vez,  por  razões  óbvias,  as 
qualidades  características  do  génio  peninsular  (4),  é  possível 
que  Garcia  de  Resende,  mais  absolutista  do  que  Fernando  de 
Castillo,  os  excluísse  propositadamente  do  seu  florilégio  pala- 
ciano (5).  A  prova  de  que  ele  e  os  coevos  os  conheceram  está 
dada.  Note-se  ainda  que  entre  os  corifeos  mais  citados  e  imi- 
tados no  Cancioneiro,  e  posteriormente,  por  todos  os  represen- 


(i)  Dos  primeiros  três  decénios  do  século  xvi  não  subsiste  nenhuma,  a  não  se 
aceitarem  como  taes  os  Repertórios  e  as  Cartinhas .  Nem  sei,  qual  fosse  o  impressor 
que  as  podesse  ter  lançado  com  os  materiaes  tipográficos  que  possuía.  A  mais  an- 
tiga, com  a  Egloça  Silvestre  e  Amador  de  Bernardim  Ribeiro,  tem  na  gravura  a  data 
1536.  Ainda  não  apurei,  se  saiu  das  oficinas  de  German  Galharde  ou  das  de  Luis 
Rodríguez,  ou  se  veio  de  Hespanha,  onde  imprimiram  o  Romance  de  D.  Duardos, 
Autos  de  Gil  Vicente,  etc.  O  a  mesma  gravura  com  a  mesma  data  ver-se  numa 
tragedia  de  Eneas  y  Dido  (castelhana)  fala  a  favor  da  segunda  hipótese. 

(2)  Vid.  N.os  433-480.  Além  d'isso  ha  numerosas  alusões  no  yuego  trobado  de 
Pinar  (N.°  875),  e  no  Inferno  de  Garci-Sanchez  (N.°274). 

(3)  No  Cancionero  Musical  ha  38;  no  de  Encina,  muitos;  no  de  Rennert  entre 
outros  os  três  atribuídos  a  Padron;  no  de  Estu&iga,  dois  artísticos,  de  Carvajales, 
relativos  á  corte  de  Afonso  V  de  Aragão  (1448). 

(4)  Entre  os  estrangeiros  que  conhecem  bem  a  península  inteira  e  abrangem 
de  longe  o  quadro  geral  da  sua  cultura,  uns  afirmam  que  Portugal  possue  as  qua- 
lidades e  os  defeitos  da  alma  hespanhola  em  ponto  subido.  Achando  superior  o 
orgulho  nobiliárquico  dos  Portugueses  e  maior  a  sua  macropia,  atribuem-lhes  as 
mais  exageradas  hespanholadas.  Dizem  que  a  inquisição,  a  censura,  o  jesuitismo, 
o  fanatismo,  o  beaterio,  o  gongorismo,  e  a  maledicência  tomaram  aqui  proporções 
desmedidas.  Outros  acham,  pelo  contrário,  que  na  fisionomia  nacional  as  linhas  ca- 
racterísticas estão  apagadas.  Talvez  porque  os  primeiros  tenham  em  mente  Portu- 
gal o  Velho,  e  os  últimos  pensem  no  de  hoje? 

(5)  Custa  todavia  a  crer  que  o  compilador  descartasse  os  romances  dos  dois 
amigos.  Talvez  os  conhecesse  e  requisitasse  sem  os  obter,  o  que  lhe  aconteceu  em 
muitos  casos  (Vid.  Vol.  III,  632). 


ROMANCES    VELHOS  305 


tantes  da  medida-velha  (Mena,  Santilhana,  Estuiiiga,  Gueva- 
ra,  Macias,  Rodríguez  dei  Padron,  Garci-Sanchcz),  pelo  mo- 
nos  os  últimos  dois  são  autores  de  romances,  ou  passam  por 
sê-lo. 

Entre  estes  dois  e  Carvajales  de  um  lado,  isto  é  entre  os 
primeiros  Castelhanos  e  Aragoneses  conhecidos,  a  que  se  atri- 
buem romances  (artísticos,  mas  em  estilo  popular),  e  pelo 
outro  lado  a  falange  já  numerosa  dos  romancistas  da  corte 
dos  Reis  Católicos,  que  figuram  no  Cancionero  de  1511  com 
glosas,  continuações  e  contrafeições  de  romances  velhos,  e  no 
Cancionero  Musical  com  melodias  e  letras  novas  sobre  actua- 
lidades históricas  (1),  é  que  eu  colocaria  a  D.  João  Manuel* 
D.  João  de  Meneses,  Garcia  de  Resende,  e  Bernardim  Ribeiro. 

[§  170]  Dito  isto,  estamos  habilitados  a  fixar  conjectural- 
mente  a  data  em  que  começaria  a  familiaridade  dosPortugue- 
ses  com  os  romances.  Se  palacianos  que  haviam  sido  com- 
panheiros de  D.  Afonso  V  na  batalha  de  Toro,  cantavam  ro- 
mances e  os  citavam  na  corte  do  sucessor,  como  coisa  corren- 
te, esses  já  deviam  haver  circulado  durante  algum  tempo.  O 
termo  inicial  1483  não  pode  ser  verdadeiro,  torno  a  repeti-lo. 
Passariam  a  fronteira  pouco  depois  de  desabrochados  no  cen- 
tro. Em  todo  o  caso,  antes  de  haverem  atingido  o  seu  apogeo 
no  reinado  dos  Reis  Católicos.  A  mais  tardar,  no  tempo  de 
Enrique  IV  (1454-74),  esposo  da  Beltraneja;  talvez  já  no  de 
D.  Juan  II  (1406-54).  Isto  é:  na  silenciosa  comquanto  fecunda 
época  dos  filhos  de  D.  João  I,  em  que  o  espírito  nacional  fo- 
mentava as  empresas  aventureiras  que  constituem  a  missão 
histórica  de  Portugal,  e  são  assunto  da  sua  epopeia  privativa. 

[§  171]  E  as  vias  de  transmissão?  Não  é  apenas  quanto  á 
cronologia,  mas  também  quanto  ao  processo  de  importação 
que  teremos  de  abandonar  as  teses  de  T.  Braga.  É  impossível 
que  os  Cancioneros  de  Romances  fossem  os  verdadeiros  propa- 
gadores do  género,  visto  que  não  os  houve  senão  de  1550  em 


(i)  De  1430  em  diante:  Albuquerque,  N.°  321;  i484,Setenil,  N.°332;  14X5, Ron- 
da, 331;  1486,  Granada,  327;  1489,  Baza,  331;  1492,  Granada,  315;  1504,1).  Isabel, 
317.— Cfr.,  p.  11,  Lealtad,  lealtad,  1466,  e  o  N1,**  69,  83,  95,  318,  322  a  335,  339, 
343»  344- 


300  CAROLINA  MICHAÉLIS  DE    VASCONCELLOS 

diante  (1).  Nem  mesmo  ao  Cancionero  General  de  1511,  com 
as  suas  amostras  parcas,  indirectas  e  retocadas,  se  pode  atri- 
buir essa  função.  As  primeiras  fontes  impressas,  que  propaga- 
ram em  Portugal  romances  velhos,  foram  Pliegos  Sueltos  gó- 
ticos, numeros8Ísimos  (como  se  vê  pelos  restos  que  perduram), 
e  de  fácil  divulgação,  embora  de  pouca  dura  (2).  O  leitor 
atento  notou,  sem  dúvida,  quantas  vezes  as  lições,  citadas  em 
Portugal,  se  aproximara  das  que  constara  em  folhas  volantes 
sem  data  nem  lugar  (3). 

Além  d'eles,  creio  que  cadernos  manuscritos  cursariam  an- 
tes e  depois  da  invenção  de  Guttenberg,  especialmente  onde 
se  cultivava  a  música.  A  comunicação  principal,  mais  viva  e 
eficaz  e  ainda  hoje  constantemente  renovada,  deve  todavia 
ter  sido  oral,  porque  o  vulgo,  ao  qual  se  dirigiam  os  roman- 
ces, não  sabe  lêr,  e  porque  essa  abrangia  e  abrange  a  letra  e 
o  som.  Sem  a  importante  parte  musical,  dificilmente  tantos 
romances  se  teriam  perpetuado  durante  séculos.  Para  os 
que  nos  ocupam,  devemos  distinguir  nessa  comunicação  de 
boca  em  boca,  duas  correntes:  a  palaciana  e  a  popular. 
Da  popular,  que  continua,  de  expansão  vagarosa  mas  segura, 
logo  falarei  nos  parágrafos  sobre  o  problema  linguístico  (4). 
A  palaciana,  de  corte  a  corte,  teve  por  veículo  mais  impor- 
tante, além  dos  viajantes  nobres,  músicos  profissionaes,  vin- 
dos de  Castela  a  Portugal  e  viceversa. 

[§  172]     Intercalo  aqui  as  notas  soltas  prometidas,  relati- 


(i)  São  as  edições  de  Martim  Núcio  de  Anvers  (a  2.a,  de  1550,  a  i.a,  sem  data, 
mas  pouco  anterior)  que  T.  Braga  costuma  alegar,  com  a  posterior  de  1583. 

(2)  Dos  séculos  xvii  e  xvm  ha  muitos,  portugueses,  de  1550  a  1600  poucos; 
anteriores  a  1550,  são  preciosidades  raras.  Os  tardios  são  todavia,  em  grande 
parte,  reproduções  textuaes  do&  velhos,  gastos  por  completo. 

(3)  Vejam  os  N.os  6,  8,  9,  14,  15,  21,  26,  27,  37,  45,  57,  59,  63,  etc. 

(4)  T.  Braga  separa,  com  rigor  que  11  e  parece  inútil,  romances  impressos  e  ro 
mances  oraes.  Por  terem  sido  impressos  de  1550  em  diante  em  Cancioneros  de  Ro- 
mances, ou  anteriormente  em  Cancioneros  e  Pliegos  Sueltos,  não  deixaram  de  co- 
rrer de  boca  em  boca.  Verdade  é  que  ás  vezes  ha  nos  tradicionaes  mais  vigor  poé- 
tico do  que  nos  impressos.  Mas  em  geral,  eles  são  deteriorados.  Onde  ha  tradicio- 
naes que  emparelhem,  p.  ex.  com  os  XV  publicados  por  Foulché-Delbosc?  Demos 
graças  a  aquelles  que  em  Castela  se  lembraram  de  os  imprimir.  E  lamentemos  que 
em  Portugal  ninguém  procedesse  assim! 


ROMANCES   VELHOS 


vas  á  íntima  comunhão  o  quasi  unidade  que  noa  séculos  xv 
c  xvi  houve  nos  dois  reinos  também  quanto  ás  manifestações 
musicaes  da  alma  peninsular  (1). 

O  gosto  do  povo  português  de  1500  pela  música  e  pela  dan- 
ça é  tão  abundantemente  atestado  por  Gil  Vicente  (2)  que  não 
carecemos  de  outros  testemunhos  (3).  A  troca  constante  de 
compositores  e  executantes  entre  as  duas  cortes,  é  facto 
igualmente  conhecido  (4).  Ha  todavia  materiaes  râo  apro- 
veitados. 

Dos  princípios  da  época  é,  p.  ex.,  uma  carta  portuguesa  so- 
bre assuntos  da  capela  régia,  de  que  possuo  treslado  (5).  Di 
rigida  em  1434  pelo  rei  D.  Duarte  a  D.  Juan  II  de  Castela  (6), 
contém  queixas  amargas  do  monarca  português  por  seu  pri- 
mo, irmão  e  amigo,  reter  na  sua  corte  um  seu  cantor  e  orga- 


(i)  Quanto  á  música  dos  romances  velhos,  não  ha  nada  feito.  Quanto  á  história 
da  música  em  geral,  vid.  Joaquim  de  Vasconcellos,  Os  Músicos  Portugueses  (Por- 
to 1870);  Ensaio  sobre  o  Catálogo  de  D.  João  IV  (ib.  1872);  Catálogo  de  D,  João  IV 
(1905);  Sousa  Viterbo,  Artes  e  Artistas  em  Portugal,  1892  (cap.  IX),  e  diversos 
artigos  soltos  do  mesmo  em  Revistas  como  Arte  Musical,  e  Amphion.  Na  Organo- 
grama Musical  Antiga  Espanola,  de  Felipe  Pedrell,  não  ha  senão  raríssimas  refe- 
rências (Barcelona,  190)  a  Portugal,  infelizmente. 

(2)  Entre  dúzias  de  passagens  relativas  a  cantigas  e  danças  populares  de  en- 
tão, a  mais  afamada  é  o  Intróito  do  Triumpho  do  Inverno  (II,  447): 

Em  Portugal  vi  eu  já 
em  cada  casa  pandeiro 
e  gaita  em  cada  palheiro... 
a  cada  porta  um  terreiro, 
cada  aldeã  dez  folias, 
cada  casa  atabaqueiro... 
tambor  em  cada  moinho. 

(3)  Nas  Crónicas  ha  muitas  indicações  de  valor. 

(4)  Basta  lembrar,  como  exemplos  dos  que  de  Portugal  foram  ao  reino  vizi- 
nho, a  Jorge  de  Montemor  e  Gregório  Silvestre. 

(5)  Conto  puLlicá-la  qualquer  dia.  O  diccionarista  Moraes  conheceu-a,  confor- 
me se  vê  s.  v.  engalhar  e  engalhamento,  vocábulos  que  traduz  imperfeitamente  com 
enganar,  seduzir. 

(6)  Escrita  por  Vicente  Domingues,  mas  feita  pelo  próprio  rei,  se  interpreto  bem 
a  fórmula  per  sy  do  sobrescrito:  Carta  que  fez  El  Key  Nosso  Senhor  per  sy  pêra  El 
Rey  de  Castella. 


308  CAROLINA  MICHAÈLIS  UE    VASCONCELLOS 


nista,  Álvaro  Fcrnandez  de  nome  (1),  adestrado  cá  e  de  tal 
mestre  (2),  e  também  porque  além  d'isso  ia  angariando  a  furto 
outros  capelães  régios,  desorganizando-lhe  assim  a  sua  bem 
montada  capela. 

De  D.  Manuel,  D.  João  III  e  os  Infantes  seus  irmãos,  in- 
culpados não  sem  motivo  de  um  estrangeirismo  ou  antes  cas- 
telhanismo  exagerado,  sabe-se  até  que  ponto  favoreciam,  jun- 
tamente com  a  língua,  a  música  castelhana  (3).  Entre  os 
mestres  de  capela,  músicos  de  câmara,  organistas,  tangedo- 
res,  cantores  e  chocarreiros  que  floresceram  na  corte,  em 
parte  vindos  na  comitiva  das  filhas  e  netas  do3  Reis  Católi- 
cos (4),  em  parte  chamados  directamente,  ha  entre  outros  um 


(i)  Este  Álvaro  talvez  seja  de  importância  capital.  Barbieri  fala  de  um  distinto 
músico  d 'esse  nome  (hespanhol,  segundo  ele),  criado  de  D.  Juan  II,  e  logo  orga- 
nista da  Real  Capela,  por  alvará  da  Rainha  Católica  de  8  de  Julho  de  1480.  Outros 
citam  um  compositor  Álvaro,  que  em  1472  dedicou  a  D.  Afonso  V  de  Portugal  um 
Oficio  com  a  solfa  de  Cantochão,  em  acção  de  graças  pela  conquista  de  Arzila. 
Oficio  cujo  autógrafo  se  conservava  em  1759  (depois  do  terremoto)  na  Biblioteca 
do  Infante  D.  Pedro,  como  o  curioso  poderá  verificar  em  Barbosa  Machado 
(IV,  10).  A  não  haver  valor  especial  no  organista  de  D.  Duarte,  não  havia  motivo 
para  escrever  a  respeito  d'ele  uma  Carta,  guardada  entre  as  suas  obras. 

Na  sua  Ilistoire  de  la  Musique  A.  Soubies  comete  o   singular  anacronismo  de 
confundir  o  filho  de  D.  João  V  com  o  vencido  de  Alfarrobeira. 

(2)  Quem  seria?  O  próprio  monarca?  Não  é  provável. 

(3)  Além  de  letras  portuguesas,  castelhanas  e  latinas,  cantavam  na  corte  com- 
posições italianas  e  francesas,  em  geral  muito  deturpadas  nas  impressões  de  Autos 
e  Cancioneiros.  Uma  francesa  que  subsiste  nas  Trovas  centónicas  de  D.  João 
Manuel  {Canc.  Ger.,  II,  410),  talvez  a  ouvissem  pela  primeira  vez  de  René  de  Cha- 
teaubriand,  barão  de  Loigny,  ou  a  alguém  da  sua  enorme  comitiva.  Este  Monsenhor 
viera  em  1493  á  corte,  oferecer  a  D.  João  II  seu  braço  ás  armas  feito  para  as  gue- 
rras africanas,  com  o  intuito  de  ahi  conquistar  para  si  um  reino.  Mas  afinal  levou 
de  cá  um  mero  título  in  partibus  infidelium:  o  de  Conde  de  Guazava,  ou  cousa 
que  o  valha.  Digo  isto  porque  os  Cronistas  registaram  que  trazia  muito  boa  capela 
de  muitos  e  bons  cantores,  dos  quaes  diversos  ficaram  em  Portugal.  Vid.  Resende, 
cap.  169;  Braamcamp,  Brasões  de  Cintra,  II,  411;  Conde  de  Sabugosa,  Embrecha- 
dos  (1908),  p.  1 17. 

(4)  Claro  está  que,  se  as  Rainhas  de  Portugal,  vindas  de  Hespanha,  traziam 
de  lá  os  seus  músicos,  as  que  de  cá  se  iam  não  deixavam  de  levar  cantores  seus. 
Exemplo:  a  princesa  D.  Maria,  em  cuja  companhia  foi  Jorge  de  Montemor  (1543). 
Nas  Provas  ilustrativas  da  Historia  Genealógica  da  Casa  Real,  pôde  o  curioso 
respigar  muita  nota  solta  a  respeito  de  músicos  da  capela  e  da  câmara  dos  reinan- 


ROMANCES  VELHOS  30Q 


Badajoz  (l),um  Sedano  (2), diversos  Baenas  (3),  um  Salcedo  (4), 
um  Escobar  (5),  enaltecidos  nos  Autos  de  Gil  Vicente  e  louva- 
dos alhures: 

Musica  vimos  chegar 
a  mais  alta  perfeição, 
Sanedo,  Fontes,  cantar, 
I rancisquilho  assi  juntar 
tanger,  cantar,  sem  (?)  razão. 
Arriaga,  que  tanger! 
o  Cego!,  que  gram  saber 
nos  órgãos!  e  o  Vaena! 
Badajoz!  outros  que  a  pena 
deixa  agora  d 'escrever. 

Assim  declamava  (na  sua  Miscelânea,  Estr.  179),  Garcia  de 
Resende,  nada  hóspede  no  assunto. 

Provas  de  maior  peso  sao  as  cantigas  conservadas   no 


tes.  O  tema  dá  margem  a  muitas  investigações.  Castelhanos,  com  os  mesmos  no- 
mes de  poetas  e  músicos  da  nação  vezinha,  surgem  cá  entre  os  músicos  de  câmara, 
moços  da  câmara  que  aprendiam  a  cantar  e  a  tanger  (II,  792),  moços  músicos  (II, 
618),  moços  de  capela  (II,  374),  etc. 

Chamo  a  atenção  para  Lucas  Fernandez,  Castelhano;  Pêro  Bayahona,  Miguel 
de  Sarzedo,  que  em  1 5 1 7  figuram  entre  os  Moradores  da  Rainha  D.  Maria,  e  com  ela 
tinham  vindo  de  Castela  em  1499  (II,  374).  António  e  Alfonso  de  Baena  eram  ser- 
vidores do  Infante  D.  Duarte  (II,  615).  Entre  os  músicos  da  câmara  de  D.  João  III 
figuram:  João  de  Badajoz,  Gonzalo  de  Baena,  António  de  Madrid,  Nicolás  de  Es- 
covar (VI,  622);  entre  os  cantores  André  de  Torres,  Francisco  de  Madrid,  Nico/ás 
de  Valdevieso  e  Sedano.  E  muitos  d 'esses  nomes  figuram  igualmente  no  Cancionero 
Musicai:  em  parte  como  de  autores  de  sons;  em  parte  como  de  autores  de  letras. 

(1)  Vid.  Sousa  Viterbo,  p.  194;  Resende,  na  estrofe  citada  no  texto;  Gil  Vi- 
cente (II,  137),  que  o  menciona  como  tangedor  de  viola  e  músico  discreto.  Frey 
António  de  Portalegre  escreveu  um  romance  espiritual  (em  pareados  dissonantes): 
O  ciudad  de  mi  deseo,  7 ter  ra  que  tienes  mi  gloria,  do  qual  diz  fora  «apontado  sin- 
gularmente por  Badajoz,  músico  da  câmara  dei  Rey  Nosso  Senhor».  Cotarelo, 
nos  seus  notáveis  Estúdios  de  Historia  Literária,  p.  45-47,  não  acredita  na  iden- 
tidade do  músico  de  câmara  de  D.  João  III  e  do  poeta  do  Cancionero  Musical  e 
Cancionero  General. 

(2)  Vid.  Sousa  Viterbo,  p.  194. 

(3)  Vid.  Provas;  Miscelânea',  Sousa  Viterbo,  1.  C.j  e  Canc.  Mus.,  p.  24  (Lope  de 
Baena.) 

(4)  Vid.  Provas',  Miscelânea;  e  Canc.  Mus,,  N.°  92  e  p.  44  (Salcedo). 

(5)  Vid.  Provas  e  Canc.  Mus.,  p.  32.  Com  respeito  a  Lucas  Fernandez  e  Ma- 
drid, vid.  Canc.  Mus.,  p.  34  e  37. 


8'0  CAROLINA  MlCHAtLIS  DE    VASCONCLLLOS 


Cancioneiro  Musical  (1).  Numerosíssimas  cTessas  obras  eram 
familiares  aos  cortesãos  portugueses.  Ha  dúzias  de  cantigas, 
canciones,  chançonetas,  mas  sobretudo  de  cantares  velhos  <■ 
vilancetes  (preciosos  documentos  por  constitui rem  o  nexo  com 
o  primeiro  período  lírico,  galego-português)  que  foram  cita- 
dos, cantarolados,  glosados  c  imitados  pelos  versificadores  da 
corte,  por  Gil  Vicente,  Bernardim  Ribeiro,  Sá  de  Miranda  e 
posteriormente  por  todos  os  Quinhentistas  e  Seiscentistas  que 
para  o  bel-canto  preferiam  a  medida-velha  (2). 

Quanto  a  músicas  de  romances,  elas  são  naturalmente  me- 
nos frequentes,  porque  em  virtude  da  igualdade  formal  de  to- 
dos, e  da  igualdade  espiritual  de  muitos,  um  mesmo  som  po- 
dia servir  para  grande  número  de  textos  (3),  o  que  também 
acontece  com  as  quadras  soltas  do  fado.  Ainda  assim,  entre 
os  trinta  e  oito  espécimes,  conservados  no  Cancioneiro  Musi- 
cal, descobri  bastantes  dos  que  figuram  neste  Ensaio  (4).  E 


(i)  Já  disse  que  algumas  tem  letra  portuguesa  (Vid.  N.°  50,  437,  458),  e  que 
pelo  menos  uma,  castelhana,  é  obra  de  D.  João  de  Meneses. 

(2)  Como  amostras  sirvam  as  seguintes:  Quien  pone  su  aficion  [Canc.  Mus., 
No  167;  Gil  Vicente,  I,  224);  Nina  erguedme  los  ojos  (C.  M.,  59  e  60,  G.  V.,  II,  401 ), 
Norabuena  quedes,  Menga  (C.  M.,  369  e  370;  G.  V.,  I,  18);  Nunca  fuè pena  tnayot 
(C.  M.,  1;  G.  V.,  I,  284;  II,  329  e  410);  Tristeza  quien  a  mi  vos  deo  (C.  M.,  12,  G.  V. 
II,  329.);  Que  harè yo  sin  ventura  (C.  M.,  p.  53;  Canc.  Ger.,  III,  598).J0  Mote  da 
cantiga  Como  dormirão  meus  olhos,  que  forma  as  estrofes  63-66  das  Trovas  de 
Crisfal,  é  tradução  do  que  diz  Como  dofmiran  mis  ojos  pues  vela  mi  corazon  (C.  M., 
253).  Acrescentarei,  por  ser  novidade,  que  Frey  António  de  Portalegre  é  autor 
de  um  Vilancete  sacro: 

Una  donzella  divina 
su  mismo  padre  pario 
y  cria  quien  la  crio. 

que  se  havia  de  cantar  por  o  duo  que  compôs  Torres  da  letra!  Inimiga  le  soy  ma- 
dre (C.  M.,  4  e  5). 

(3)  Os  romances  que  se  dizem  trovados,  mudados,  trocados,  contra/eitos  por 
outros,  cingiam-se  ao  tono  dos  modelos  (a  parte  do  tenor).  Dos  originaes  literá- 
rios, muitos  nunca  foram  cantados,  com  certeza  (p.  ex.,  de  Gil  Vicente,  III,  202, 

348,  355)- 

(4)  N.°    69.       Por  May  o  era  por  Mayo. 

97.  Fonte  frida. 

1 58.  La  bella  mal  maridada. 

315.  Qu'es  de  ti  desconsolado. 

318.  Caballeros  de  Alcalá. 


ROMANCES    VELHOS  311 


esses  mesmos  tornam  a  aparecer,  harmonizados  de  outro 
modo,  no  Libro  de  Música  de  Víhuela  de  Milan  (153G),  dedica- 
do a  D.  João  III  (1),  e  por  igual  em  tratados  publicados  pos- 
teriormente, como  os  de  Valderrabano  (1547),  Pisador  (1552), 
Salinas  (1577). 

Milan  escreveu,  entre  outras,  músicas  para  os  romances 
de  Durandarte,  Valdevinos,  Mis  arreos.  Valderrabano  e  Sa- 
linas para  o  de  Don  Beltran;  Pisador  e  Salinas  para  os  de- 
cantadíssimos  textos  do  Conde  Claros;  Valderrabano  para  o 
de  Calainos  o  de  Arábia,  Salinas  sobre  o  Conde  Alar  cos  (Re- 
traída está  la  Infanta). 

A'  procura  de  compositores  portugueses  que  por  ventura 
concorressem  também  neste  campo  com  os  Castelhanos  re- 
conheci que  carecemos  de  informações  sobre  os  géneros,  cul- 
tivados por  músicos  ex-oficio  como  Fonte  e  Vilhacastim  (2),  e 
pelos  nobres  amadores  da  corte.  Apenas  sabemos  quaes  os  ins- 
trumentos em  que  se  distinguiam  (3)  alguns  como  D.  João  de 
Meneses  (órgão),  Garcia  de  Resende  (rabil),  Sá  de  Miranda, 
André  de  Resende,  Damião  de  Góes,  Pedro  de  Andrade  Ca- 
minha, Jorge  de  Montemor,  Gregório  Silvestre. 

Mesmo  a  respeito  de  Gil  Vicente,  as  indicações,  contidas 
nas  suas  Obras,  sao  insuficientes.  De  uma  única  cantiga  lá  se 
diz  expressamente  que  fôr a  feita  e  enssoada  pelo  autor  (4).   É 


N.°  323.  Caballero,  si  á  Francia  is. 
329.  Pésanie  de  vos,  el  conde. 
333.       Tiempo  es,  el  caballero. 

343.  Durandarte. 

344.  Los  brazos  traigo  cansados. 

(1)  O  tratado  de  Milan  não  é  o  único  dedicado  a  D.  João  III,  ou  seus  ir- 
mãos, yuan  Bermudo  oferecera  um  ao  rei  em  1549;  e  Mateo  de  Aranda  já  havia 
dirigido  outro  ao  Infante-Cardeal  D.  Alfonso  em  1533.  Cfr.  Sousa  Viterbo,   178  ss. 

(2)  Sousa  Viterbo  notou  que  Fonte,  louvado  por  Garcia  de  Resende,  como 
músico,  também  fora  trovador  {Canc.  Cer.,  II,  270).  —  Ignoramos,  se  D.  João  de 
Meneses,  autor  de  Nunca  cerraran  mis  ojos,  escreveu  também  o  som. 

(3)  De  D.  João  Rodríguez  de  Sá  e  Meneses  sei  apenas  que  estudava  solfa 
com  seu  tio  D.  João  de  Meneses  (Canc.  Ger.,  II,  356). 

(4)  Obras,  I,  61.  Trata-se  da  linda  cantiga  Muy  graciosa  es  la  doncella,  Fm 
todo  caso,  nenhuma  composição  musical  de  Gil  Vicente  é  hoje  conhecida.  No  Ca- 
talogo da  Livraria  de  Musica  de  D.  João  IV,  nem  memo  o  nome  do  fundador  do 
teatro  nacional  ocorre. 


312  CAROLINA  MlCHAÈLIS  DE    VASCONCELLOS 

quási  certo  todavia  que,  como  Juan  dei  Encina,  ele  compunha 
música  para  todas  as  suas  criações  originaes,  líricas  e  épico- 
líricas,  cantadas  nos  seus  Autos  (1).  Nesse  caso,  a  música  do 
romance  de  D.  Duardos  se  propagaria  naturalmente  junto 
com  a  letra  (2). 

Para  composições  alheias  de  arte,  o  fundador  do  teatro 
talvez  se  servisse  da  livraria  de  música  dos  reinantes,  exac- 
tamente como  para  a  enscenação  ele  recorreria  ao  pessoal  é 
á  guarda-roupa  e  repostaria  do  paço,  luxuosíssima  nos  dias  de 
D.  Manuel  (3). 

Quanto  a  romances  velhos,  de  letra  tradicional,  cantaro- 
lados por  tipos  cómicos  como  o  escudeiro  namorado,  a  ama  de 
Rubena,  o  alfaiate  judeu  e  seu  filho,  ou  por  pastores  da  serra, 
é  de  supor  que  Gil  Vicente  e  os  sucessores  se  serviam  de  me- 
lodias antigas,  também  tradicionaes. 

Do  mesmo  modo,  com  relação  aos  demais  autores  consul- 
tados, é  preciso  distinguirmos  entre  romances  de  arte,  entoa- 
dos por  profissionaes  aulicos,  a  três  e  quatro  vozes,  com 
acompanhamento  de  instrumentos  de  câmara,  como  harpa, 
laude,  doçaina,  viola  d'arco,  orgâo,  e  os  cantados  e  bailados 


(i)  Onde  se  diz  feita  pelo  autor  ao  propósito  (tomo  II,  339,  I,  333),  deveremos 
portanto  entendei  feita  e  enssoada. 

(2)  Já  dei,  no  §§  154,  a  lista  dos  romances  de  Gil  Vicente,  indicando  em 
geral,  quaes  as  figuras  que  tinham  de  cantá-los  no  palco,  aparentemente  sem 
acompanhamento  de  instrumentos. 

Na  Baica  do  Purgatório  três  anjos  cantam  ao  som  e  compasso  dos  remos  o 
romance  sacro  Remando  vão  remadores  (I,  246). 

Os  Planetas  Júpiter,  Vénus,  Mars,  e  os  signos  Câncer,  Leo,  Capricórnio  cantam 
a  quatro  vozes  o  romance:  Nina  era  la  Infanta  (II,  416). 

As  Sereias  entoam  os  louvores  de  Portugal:  Dios  dei  cielo,  Rey  dei  Mundo 
(II,  478). 

Os  Presos  do  Limbo  cantam  Vocês  daban  prisioneros  (I,  333). 

As  damas  de  Flérida,  e  em  seguida  o  patrão  da  barca  com  seus  remadores, 
cantam:  En  el  mes  era  de  Maio  (II,  249). 

For  Maio  era,  era  por  Maio  é  cantado  e  bailado  por  todas  as  figuras  da  satírica 
Romagem  de  Agravados  (II,  531). 

(3)  No  Inventário  da  Guarda-roupa  de  D.  Manuel  somente  os  objectos  per- 
tencentes ao  baile  de  mourisca  ocupam  cinco  paginas  da  reimpressão  de  A.  Braam- 
camp Freire  (Anhivo  Histórico,  II,  393). 


ROMANCES  VELHOS  313 


ao  ar  livre  (de  solaot)  por  gente-povo,  quer  á  guitarra  e  ao 
som  do  pandeiro,  quer  sem  instrumento  algum. 

A'  pregunta,  se  as  melodias  ou  melopeas  das  letras  tra- 
dionaes  seriam  de  facto  música  popular  (idêntica  em  Castela 
e  Portugal),  ou  composições  artísticas,  adaptadas  ao  gosto 
dos  leigos,  por  meio  de  algumas  simplificações;  e  pelo  outro 
lado,  se  as  composições  de  autores  afamados  do  Cancionero 
Musical  e  dos  Llbros  de  Música  seriam  verdadeiramente  ori- 
ginaes,  ou  apenas  cantos  populares,  artisticamente  harmoni- 
zados (1),  nao  poderá  ser  dado  resposta  senão  depois  de  os 
esposos  Pidal  haverem  realizado  o  seu  plano.  Nao  por  mim, 
que  não  sou  competente. 

[§  173]  Agora  o  problema  linguístico.  Parece-me  útil  prin- 
cipiar com  três  advertências:  !.*)  A  semelhança  entre  caste- 
lhano e  português  (em  tempos  antigos  muito  maior  do  que 
hoje,  quanto  á  pronúncia  e  ao  vocabulário)  inhibe-nos  algu- 
mas vezes  de  deslindar,  a  qual  das  duas  línguas  um  curto  tre- 
cho de  apenas  oito  sílabas  pertence,  ou  pertencia,  na  opinião 
de  quem  o  empregava.  2.a)  Um  só  verso  em  português,  da  ca- 
tegoria dos  alados,  não  pôde  constituir  prova  segura  de  o  ro- 
mance inteiro,  de  onde  provém,  existir  realmente  em  redaçâo 
portuguesa.  3.°)  A  grande  liberdade  com  que  os  letrados  al- 
teraram textos  de  romances,  nas  citações,  prova  bem  que  p 
género  era  considerado  popular  tradicional,  obra  comum  da 
nação  inteira  (2). 

A  pesar  d'essas  dificuldades,  estou  ceita  que  o  leitor  esta- 
rá de  acordo  comigo  no  seguinte: 

A  maioria  dos  trechos  de  romance,  repetidos  por  literatos 
de  cá,  no  período  de  que  trato,  trajam  d  castelhana,  correc- 
tamente. 

Muito  a  miude  a  letra  é  híbrida:  .castelhano,  eivado  do 
lusismos. 


(1)  É  sabido  que  a  Igreja  divinizou  na  idade-uiédia  muitos  vilhancicos  pas- 
toris e  outros  cânticos  profanos. 

(2)  Citações,  provenientes  de  composições  de  arte  de  autores  conhecidos,  síl<> 
em  regra  tratados  com  mais  respeito;  isto  é:  são  transmitidos  na  redacção  origi- 
nal, inalterados. 

•21 


314  CAROLINA  MICHAÈHS  DE   VASCONCELLOS 


Só  excepcionalmente,  talvez  na  quarta-parte  dos  casos,  te- 
mos português  castiço:  redacções  literalmente  iguaes  ou  muito 
semelhantes  dos  romances  velhos  do  país  vezinho:  traduç&efl 
ou  nacionalizações  mais  ou  menos  livres,  conforme  resulta  do 
confronto.  De  ambas  as  formas  ha  exemplos  relativamente 
temporaos.  Entre  as  citações,  contidas  no  Cancioneiro  Geral, 
ha  diversas  que  trajam  á  portuguesa  (1). 

Quando  e  por  que  razão  se  empregava  ora  ura  processo, 
ora  outro? 

No  emprego  a  sério  de  trechos  puramente  castelhanos  dis- 
tingo dois  grupos.  O  primeiro  consta  de  romances  cantados, 
podendo-se  supor  que  a  preferência  se  daria  porque  letra  c 
som  tinham  vindo  juntos  de  Castela,  como  um  todo  indissolú- 
vel; ou  então  que  a  língua  castelhana  com  a  sua  vocalização 
sonora  e  ossatura  consonántica  mais  vigorosa,  passava  por 
mais  cantábile  (2).  O  segundo  grupo  é  constituído  por  trovas 
centónicas.  Os  autores  queriam  que  os  fragmentos,  por  eles 
escolhidos  e  parafraseados  (nas  Cartas  de  Africa,  nas  Cartas 
de  Caminha,  e  nas  glosas  de  Durandarte  e  Gaiferos),  se  dis- 
tinguissem, e  fossem  reconhecidos  como  de  proveniência 
alheia  (3). 

A  tradução  fazia-se  quando  o  autor  ligava  importância 
superior  ao  pensamento,  de  sabor  proverbial.  Olhos  que  o 
[respectivamente:  os>  a,  as\viram  ir — Mensageiro  sois,  amigo — 
Eitos  [de  amores]  que  sam  pêra  perdoar — A's  pancadas,  mou- 
riscote — Mais  vale  morrer  com  honra  que  deshonrado  viver — 


(i)  No  índice,  as  citações  portuguesas  (assim  como  as  traduções  a  que  me 
refiro)  vão  em  normando  para  darem  na  vista. 

(2)  Parece  que  com  relação  ao  canto  de  arte  o  idioma  nacional  começou  a  ser 
considerado  desastroso,  por  causa  das  nasaes,  por  ocasião  da  reforma  de  Sá  de 
Miranda,  preconceito  que  se  prolongou  até  aos  nossos  dias,  mas  que  naturalmente 
não  extirpou  o  costume  antigo.  Já  contei  em  outros  escritos  meus  que  no  D.  Qui- 
xote (II,  c.  58)  uma  Egloga  do  excelentíssimo  Camões  é  cantada  en  su  mis/na  len- 
çua  portuguesa. 

(3)  Com  troços  líricos  procedia-se  do  mesmo  modo.  Motes  alheios,  quer  nacio- 
nacs,  quer  castelhanos,  eram  assinalados  como  taes.  Em  trovas  centónicas — com 
citações  em  ambas  as  línguas  no  fim  de  cada  estrofe, —  a  sua  existência  costuma  ser 
anunciada  na  epígrafe.  Veja-se,  p.  ex.,  Canc.  Ce?:,  I,  109,  230,  400,  501;  II,  31,  193. 


ROMANCES   VELHOS  3/5 


Rey  que  não  faze  justiça  sâo  boas  ilustrações  d'essa  maneira. 
Modificando  instintivamente  a  linguagem,  o  tradutor  ora  subs- 
tituía apenas  os  vocábulos  estrangeiros  pelas  formas  corres- 
pondentes da  materna,  ora  alterava  a  sintaxe  e  a  rima,  se- 
gundo as  exigências  do  texto  português.  E  ás  vezes  deixava 
subsistir  termos  e  locuções  castelhanas,  quando  a  nacionali- 
zação era  difícil,  ou  exigia  mudança  de  maior,  escorregan- 
do assim  para  o  bilinguismo. 

O  terceiro  fenómeno,  isto  é  o  emprego  simultâneo  ou  pro- 
míscuo dos  dois  idiomas,  é  involuntário  (em  regra),  ou  propo- 
sitado (por  excepção). 

Involuntário  quer  dizer:  causado  por  ignorância,  desleixo 
ou  precipitação  (1).  Em  quasi  todos  os  textos  castelhanos, 
compostos  ou  citados  por  Portugueses,  ha  erros:  inadvertên- 
cias ora  de  autores  que,  pretendendo  expressar-se  em  idioma 
estrangeiro,  sem  querer  entremeiam  o  discurso  de  formas  da 
lingua  materna  (2);  ora  de  copistas  e  impressores  que  em  innú- 
meros  casos  deturparam  textos  originariamente  correctos  (3). 


(i)  Os  mesmos  versos,  citados  em  ocasiões  diversas  pelo  mesmo  autor,  apre- 
sentam-se  por  isso  com  aspectos  diversos.  No  Templo  d\lpolo,  um  vilão  de  Gil 
Vicente  canta: 

Rogaré  á  Dios  dei  ceio 
que  era  padre  de  mesura 
que  ou  me  case  ou  me  mate, 
ou  me  tire  de  tristura! 
Amor,  no  puedo  dormir  (II,  jSy), 

o  que  é  castelhano,  se  emendarmos  a  conjunção  disjuntiva  (e  lermos  cielo).  No 
Auto  da  Lesta  (p.  i  I  2)  temos  mais  alguns  remendos  portugueses:  Rogarey  a  deos 
e  Amor  não  posso  dormir. 

(2)  Lapsus  calam/,  correspondentes  aos  lapsus  lin^uae  que  na  conversa  esca- 
pam necessariamente  ao  Português  que  só  de  vez  em  quando  tem  de  lalar  cas- 
telhano. 

(3)  Muita  vez  seriam,  pelo  contrário,  os  correctores  das  imprensas  os  enca- 
rregados de  rectificarem  erros  gráficos,  iónicos  ou  mórficos.  No  Cancioneiro  de  15 16 
ha  muita  trova  castelhana,  cheia  de  grafias  e  fonações  aportuguesadas  nuns  exem- 
plares, mas  que  aparecem  emendados  em  outros.  Confira  quem  puder,  p.  ex  ,  a  fo- 
lha XII  na  edição  fac  similada  de  Iluntington  com  as  páginas  88-92  do  vol.  I  da 
edição  de  Stutgart  e  com  os  três  exemplares  da  Biblioteca  Nacional  de  Lisboa. 
Cfr.  Zeitschrijt,  V,  80. 


àjè  CAROLINA  MICHAÈLIS  DE   VASCONCELLOS ,    .     ..  . 

Apurar  culpas  de  uns  e  outros  é  comtudo  impossível  (1). 
Creio  que  na  maioria  dos  casos  deveremos  considerar  como 
meros  lapsos  accidentaes — sobretudo  nos  géneros  elevados  em 
estilo  toscano  ou  em  redondilhas  de  espírito  horaciano,  de 
artistas  escrupulosos — defeitos  gráficos,  como  m  final  em  lu- 
gar de  n  (em  com  som  sam  tam  liam);  simples  erros  de  fonação 
como  n  por  n  Canos  danos  enganos  enganar  enganador),  ou  vi- 
ceversa  nh  por  n  (caminhoj  (2);  e  por  ie  (terra  vento  sempre  gre- 
go pensamento  ceio);  o  por  ue  (morte  forte);  ou  por  o  (na  con- 
junção disjuntiva,  e  nos  pretéritos  da  l.a  conj.  3  s.);  pr  cr  fi- 
em vez  de  pi  cl  fl  (prazer  praya  prumage  decrina  frecha).  O 
mesmo  talvez  valha  da  troca  isolada  de  formas  como  he  por  es; 
se  por  si;  mim  assim  por  mi  assi;  meus  teus  por  mis  tus;  deos 
por  dios  (?). 

Outros  lusismos  mais  incisivos  ha,  que  comquanto  incons- 
cientes, são  evidentemente  da  alçada  dos  autores:  erros  voca- 
bulares, mórficos,  gramaticaes,  mas  também  fonéticos,  que  sao 
fruto  de  reflexão,  e  muita  vez  não  podem  ser  emendados  sem 
se  tocar  no  metro  e  na  rima  (4).  Aplicando  mal  a  lei  da  diton- 
gaçilo,  os  Portugueses  escrevem  ás  vezes  nuerte  impuerta  nue- 


(i)  Nem  ha,  nesse  ponto,  diferenças  notáveis  entre  os  textos  de  autores  da 
Escola  velha,  e  os  clássicos  dos  autores  cultos  do  Renascimento.  Todos  pecam, 
com  raras  excepções;  todos,  menos  os  que  viviam  em  Hespanha  (como  Montemor 
e  Silvestre).  Em  peculiar  tenho  em  mente  os  hendecassílabos  de  Sá  de  Miranda, 
de  modo  algum  isentos  de  lusismos  (em  parte  graves),  conforme  mostrei  no  Glos- 
sario  da  minha  edição  e  na  respectiva  Introdução  (p.  cxxx). 

(2)  A  grafia  Ih  por  //  Caauelha,  elhos,  etc),  comquanto  não  possa  induzir  em 
erro  (ao  contrário  de  //,  que  em  castelhano  significa  uma  coisa  e  outra  em  portu- 
guês (p.  ex.  em  bellaj,  exige  modernização  em  reimpressões  cuidadas. 

(3)  Sou  de  opinião  que  em  futuras  edições  críticas  devíamos  endireitar  todos 
esses  descarrilamentos. 

(4^  Englobando  os  lusismos  naõ  só  dos  versejadores  do  Cancioneiro  e  de  Gil 
Vicente  e  seus  imitadores,  mas  também  dos  poetas  da  idade  áurea,  podia-se  es- 
crever um  estudo  útil  e  interessante.  Por  ora  ha  apenas  um  opúsculo  digno  de 
nota.  O  de  Gonçalvez  Viana,  sobre  Lusismos  no  castelhano  de  Gil  Vice  ite,  publica- 
do na  Revista  do  Conservatório  Real  de  Lisboa,  por  ocasião  do  4.0  Centenário  Vi- 
centino (N.°  2,  Junho  de  1902).  Sem  ser  completo,  é  excelente.  Leite  de  Vascon- 
cellos,  no  seu  Gil  Vicente  e  a  linguagem  popular  (1902)  em  Revista  Lusitana,  II, 
não  se  refere  senão  de  passagem  aos  defeitos  pequenos  do  castelhano  corrente,  e 
muita  vez  primoroso,  do  admirável  dramaturgo.  Além  dos  dois  ensaios,  e  das  ob- 
servações no  meu  Sá  de  Miranda,  ha  apenas  notas  soltas  no  Ensayo  de  Gallardo. 


ROMANCES    VELHOS 


ble  tuerno  suelo  (=  só),  por  analogia  com  muerte  puerta  muo- 
ble  cuerno  duelo;  priesto  (p^r  analogia  com  tiesto);  c  também 
piado  em  vez  de  prado  (por  analogia  com  prata  =  plata)  (1). 
Põe  livraria  altanaria  (em  lugar  de  libreria  altaneria);  empre- 
gam tdrmos  comuns  a  ambas  as  línguas  em  acepção  exclusiva- 
mente portuguesa,  p.  ax.,prieto  no  sentido  de  negro;  ou  em  for- 
ma nacional  (esmola  cisne  f rol  natureza  seara  ter  vir)  (2);  hispa- 
nizam  levemente  palavras  e  locuções  privativamente  portu- 
guesas (condon  (3).  penera,juera,  atijo);  introduzem  ligações  e 
assimilações  inexactas  como  todalas,  veloemos,  pluraes  como 
leis  reis  bueis  (monossilábicos),  infinitivos  em  er,  de  verbos  que 
em  castelhano  pertencem  á  3.a  conjugação  (morrer  sofrer  vi- 
vsr  dizer),  assim  como  os  expressivos  infinitivos  pessoaes  (4). 
Nem  são  coisas  raras  consonâncias  que,  inexactas  em  caste- 
lhano, sairiam  perfeitas,  transpostas  em  português  como  ins- 
tintivamente foram  pensadas  (v.  gr.  fruto  mucho;  muerta 
importa;  atiço  servido).  Licenças  poéticas  que  sobretudo  a 
musa  pouco  severa  dos  poetas  da  escola  velha  não  se  pejava 
de  adoptar,  por  bem  da  sua  comodidade. 

Intencionalmente,  nenhum  artista  tomava,  a  meu  ver,  li- 
berdades d'esse  género,  a  não  ser  para  produzir  efeitos  có- 
micos. Isto  é  em  trovas  de  folgar,  sátiras,  gracejos,  prosas 
familiares  em  que  se  retratam  pessoas  e  costumes  (5).  O  verda- 
deiro terreno  para  tão  burlescos  contrastes  linguísticos  era  to- 


(i)  Não  é  de  admirar,  mas  merece  reparo  que  esses  fenómenos  sejam  tam- 
bém traços  distintivos  dos  dialectos  occidentaes  de  Hespanha,  sobretudo  do  leo- 
nês. Vacilando  entre  bueno  t/enes  á  castelhana,  e  bono  tenes,  eles  chegavam  a  di- 
zer  fuella  (era  lugar  de  folha)  e  nueite  (em  lugar  de  noite). 

(2)  Fuele  por  fuelle  (pg.  fole);  acifia  e  aiíia  em  lugar  de  nina,  sob  influência 
de  aginha  são  outros  exemplos. 

(3)  Vid.  C.  M.  de  Vasconcellos,  Contribuições  para  o  futnro  Diccionario  Etimo- 
lógico das  Línguas  Hispânicas  (I,isb.  1908,  extr.  da  Revista  Lusitanal  XI),  p.    1-9. 

(4)  Entre  os  exemplos  que  conheço  ha  um  salieres  de  Gil  Vicente  (II,  76)  pre- 
cioso porque  mostra  que  para  o  Plauto  português  o  conj.  fut.  e  o  infinitivo  pessoal 
eram  formalmente  idênticos. 

(5)  Numa  contenda  entre  Castelhanos  e  Portugueses  (Canc.  der.,  II,  29),  re- 
lativa aos  diversos  nomes  dos  pulmões,  ha  lusismos  acidentaes  e  intencionaes. 
Acidentaes  como  prazerá.  Intencionaes  como  o  verso: 

Onde  meus  e  teus  avoos, 
em  rima  com  dios  vós  nós. 


318  CAROLINA  MICHAÈLIS  DC    VASCONCELLOS 

davía  o  teatro.  Gil  Vicente— a  cujo  génio  inventivo  devemos 
autos  compostos  em  castelhano,  autos  escritos  em  portugu 
pecas  nas  duas  línguas,  e  outras  poliglotas  em  que, além  (Telas, 
surgem  juristas,  clérigos,  físicos,  religiosos  que  se  BCrvem  do 
latim  (em  traje  mais  ou  menos  macárronico),  ciganos,  mouros, 
negros  da  Guiné,  um  Francês  e  um  Italiano,  todos  eles  magis- 
tralmente caracterizados  (1) — Gil  Vicente  baralha  muita  voz, 
de  caso  pensado,  o  português  com  o  castelhano.  E  os  poetas 
cómicos  da  sua  escola  seguiram-lhe  o  exemplo  (2). 

Digno  de  nota  é  que  com  esses  processos  eles  definem  ape- 
nas figuras  bnixas,  o,u]o  português  também  está  cheio  de  par- 
ticularidades: arcaísmos  e  idiotismos  provincianos  (3).  Nunca, 
personagens  de  alta  categoria.  Esses  expressam-se  sempre 
em  português  culto  ou  em  castelhano  culto,  embora  com  os 
defeitos  inconscientes  a  que  aludi.  Os  característicos  dos  tex- 
tos bilingues  sâo  os  já  indicados,  mas  em  acumulação.  E  isso 
tanto  em  ditos  da  sua  própria  lavra  como  em  textos  alheios. 
Da  boca  de  vilões,  pastores  da  serra,  ratinhos  da  Beira,  trans- 
formados em  escudeiros  de  pouca  monta,  saem  cantares  ve- 
lhos, com  um  pé  á  castelhana,  outro  á  portuguesa  (4),  de  tal 
modo  promíscuos  que  a  nacionalidade  fica  ás  vezes  incerta  (5). 
Eis  algunos  exemplos: 


(i)  A  fala  de  taes  personagens  de  comedia  merece  o  nome  de  Kauderwelsch 
Ibaragouin).  Tratar  porém  depreciativamente  a  linguagem  toda  de  Gil  Vicente  de 
geringonça  (jers>a  inixta  de  castellano)  como  fizeram  Fitzmaurice-Kelly  e  seu  tra- 
dutor, é  injustiça  flagrante. 

(2)  Nos  artigos  já  citados  de  Gonçálvez  Viana  e  Leite  de  Vasconcellos  ha  por- 
menores a  este  respeito. 

(3)  Ha  quem  julgue  convencional  esse  português  rústico  de  pastores  da  Se- 
rra da  Estrela,  da  Serra  de  Sintra,  e  dos  arredores  de  Coimbra;  imitação  do  estilo 
pastoril  (sayagitês  e  salmanquino)  de  Juan  dei  Encina  e  Lucas  Fernández. 

As  semelhanças  entre  os  dialectos  pastoris  de  Leão  e  Estremadura  e  os  da  Beira 
portuguesa  são  comtudo  positivas.  Em  ambos  ha  traços  que  parecem  castelhanis- 
mos,  e  traços  que  parecem  portuguesismos.  Cfr.  Lecte  de  Vasconcellos,  Esquisse 
d' une  Dialectoloçie  Porttigaise,%  14. 

(4)  Apesar  de  as  vogaes  átonas  do  português  antigo  não  terem  sido  tão  sur- 
das como  hoje,  e  de  as  consoantes  y  x  eh  z  ç  haverem  ido  valor  igual  em  ambas 
as  línguas,  o  contraste  lá  estava. 

(5)  Mas  também  cantam  em  castelhano  correcto,  em  português  correcto,  ou  em 
linguagem  pastoril. 


ROMANCES    VELHOS 


Estes  meus  cabelloa ,  madre, 
dos  cá  dos  me  los  lleva  el  aire.  (II,  110.) 

■■•■■ 

Por  una  vecina  mala 
meu  amor  tolheu-me  a  fala.  (III,  77.) 
* 

Volaba  la  pega  y  vai-se! 
quem  me  la  tomasse!  (II,  423.) 
* 

A  mi  seguem  dous  açores! 
hum  d'eles  morírá  damores!  (II,  425.) 
* 

Á  serra  es  alta, 
o  amor  he  grande, 
se  nos  ouviráne?  (II  427)  (1). 
* 
Não  me  vos  querem  dare: 
ir-me-hei  a  tierras  agenas 
a  chorar  meu  pesare.  (II,  20.) 
* 
Terra  querida  deismelo,  (?) 
no  me  negueis  mi  consuelo!  (II,  448.) 
* 
Nina,  erguedme  los  ojos 
que  a  mi  namorado  m'hao.  (II,  401)  (2). 

A  meu  ver,  esse  hibridismo  das  composições  líricas  can- 
tadas é  o  reflexo  fiel  da  linguagem  comum  da  realidade — con- 
sequência fatal  do  enorme  prestígio  que  o  idioma  do  centro 
gozou  de  1450  a  1640,  pelas  causas  exaradas  no  §  160,  refor- 
çadas ainda  pela  tendência  geral  do  Renascimento,  de  lixar 
em  cada  país  um  centro  de  unidade  linguística,  em  oposição 
á  romântica  variedade  de  idiomas  literários  que  reinara  na 
idade-média. 

Falar  correntemente  a  lingua  da  corte,  versejar  nela  com 
primor,  longe  de  ser  crime  de  leso-patriotismo,  era  meritório 
ou   mesmo   um  dever  cívico,  emquanto  durava  o  sonho  da 


(i)  Com  o  e  paragógico  de  ouviráne  dure  pesare  e  bonamore  (II,  31),  em  can- 
tares velhos,  compare-se  o  dos  trechos  de  romances  que  citei  (perguntade  eenare 
llevare  56,  perdone  l\,peleare  88,  sane  xabone  100). 

(2)     Uma  das  citações  que  nos  ocuparam,  emparelha  com  esses  exemplos: 
S'o  barrete  bem  volava 
la  hegoa  mijor  corria. 


320  CAROLINA   MICHAÊLIS  DE   VASCONCELLOS 

união  (1).  Figura-se-me  típico  o  conselho  Ante  mordey  caste- 
lhano que  falardes  português,  dado  por  ura  Mentor  perspicaz 
a  ura  dos  mancebos  que  acompanhavam  em  1483  o  Duque 
D.  Diogo  á  corte  dos  Reis  Católicos  (2).  Mesmo  os  popul;i: 
que  afluíam  á  capital,  Beirões  era  grande  parte  Çó),  levavam 
seguramente  no  regresso  um  pecúlio  mais  ou  menos  vasto  de 
vocábulos  e  frases  e  de  cantigas,  trovas  e  romances.  Um 
lado  bueno  por  aqui/  pronunciado  com  a  devida  arrogância, 
dava-lhes  ares  de  cortesãos. 

Quanto  aos  literatos,  todos  os  bons  engenhos  escreviam 
ora  em  português,  ora  em  castelhano,  e  moviam-se  á  vontade 
em  ambos.  Pela  reforma  de  Sá  de  Miranda  a  praxe  avigorara 
ainda,  porque,  na  aprendizagem  do  metro  toscano,  muito  mais 
escabrosa  cá,  por  causa  da  excessiva  vocalização  dos  vocá- 
bulos, o  mestre  se  adestrou  primeiro  em  castelhano;  e  os  adep- 
tos fizeram  o  mesmo.  Os  poucos  que  nào  se  deixaram  arrastar 
(Bernardim  Ribeiro  instintivamente;  António  Ferreira  de  caso 
pensado)  só  confirmam  a  regra.  Outros  que,  pela  sua  pos;ção, 
não  se  lhe  podiam  subtrair,  lamentavam  pelo  menos  o  fatal 
estrangeirismo  da  nação— fatal  porque,  se  documenta  a  vitali- 
dade e  agilidade  do  génio  português,  importa  ainda  assim  num 
desperdício  de  forças  para  a  literatura  nacional — e  condena- 
vam incondicionalmente  a  antiestética  promiscuidade  das 
duas  línguas  em  trovas  de  carácter  popular  (4). 


(i)  O  sonho  repetia-se  sempre  de  novo,  mesmo  depois  que  dos  aconteci- 
mentos históricos,  ocorridos  de  1477  a  1553,  se  deduzira  o  adágio  político:  Caste- 
lhanos, Portugueses,  Não  os  quer  Deus  juntos  ver  (Afisc.  Estr.  35).  Sempre  o  vi  cita- 
do nessa  forma.  Na  edição  de  1798,  de  que  me  sirvo,  lê-se  todavia:  já  os  que  Deus 
juntos  ver,  o  que  está  em  contradição  flagrante  com  o  resto  da  estrofe. 

(2)  Canc.  Ger.,  II,  459.  De  Gil  de  Crasto  a  Anrique  d' Almeida  hindo  para 
Castela.  Será  bom  conferir  os  versos,  já  alegados,  em  que  Nuno  Pereira  motejou  do 
mesmo  Anrique  d'Almeida  quando  veio  de  Castela  com  o  Duque  (I,  265);  assim 
como  a  contenda  em  que  tomou  parte  (II,  29). 

(3)  Dos  Ratinhos  da  Beira,  que  afluíam  a  corte  é  que  Gil  Vicente  aprendeu 
por  ventura  a  linguagem  dos  serranos,  e  parte  das  cantigas  e  serranilhas  á  moda 
galego-portuguesacom  que  enfeitou  os  seus  Autos  (1, 161,  183;  11,443,  4815111,214.) 

(4)  Na  literatura  castelhana  ha  textos  bilingues  que  parecem  paródia  dos  de 
cá.  Citei,  p.  ex.,  o  romance  Afora  afora  Rodrigo,  cantado  na  quixotesca  Mancha 
por  um  namorado  lencciro  português  (Duran,  N,°  1772).  Como  todavia  os   versos 


ROMANCES  VELHOS  321 


De  Jorge  Ferreira  de  Vasconcellos,  o  qual  vimos  louvar 
cantigas  portuguesas  sem  fezes  como  as  do  Africano,  é  a 
sentença  seguinte:  Não  ha  entre  nós  quem  perdoe  a  uma  trova 
portuguesa,  que  muitas  vezes  é  de  vantagem  das  castelhanas 
que  se  tem  aforado  comnosco  e  tem  tomado  posse  dos  nossos 
ouvidos  (1). 

De  Luis  de  Camões  é  uma  engraçada  alusão  aos  textos  re- 
mendados. A  trova  verdadeiramente  boa,  fina  e  saborosa,  a 
trova  trigo-tremês, 

ha  de  ser  toda  de  um  pano, 
que  parece  muito  inglês 
num  pelote  português 
todo  um  quarto  castelhano!  (2) 

[§  174]  O  predomínio  do  idioma  castelhano  nos  romances, 
é  todavia  outra  coisa  do  que  um  dos  aspectos  do  prestígio  ge- 
ral, por  ele  exercido.  Além  da  influência  literária,  e  superior  a 
ela,  ha  neste  ramo  a  influência  popular,  directa  e  constante, 
da  tradição.  Para  o  reconhecer  basta  pormos  em  foco  a  persis- 
tência do  fenómeno.  De  1640  para  cá  o  prestígio  do  centro  foi 
se  perdendo;  os  sessenta  anos  de  união  produziram  mesmo 
certo  apartamento  político  e  social,  que  se  reflectiu  nas  rela- 
ções literárias  e  artísticas.  Os  romances  tradicionaes  todavia 
continuam  a  conter  resaibos  castelhanos,  especialmente  em 
Tras-os-Montes,  e  na  Beira-Baixa.  Isto  é  na  raia  hespanhola, 
onde  o  contacto  entre  os  dois  povos  é  constante. 

O  que  ahi  se  passa  no  dia  de  hoje,  como  continuação  do 
de  hontem  e  de  ha  quatro  séculos,  foi  tâo  bem  exposto  por 
Leite  de  Vasconcellos,  que  conhece  as  províncias  de  visu,  que 
basta  tresladar  os  seus  dizere,  anotando-os,  onde  fôr  preciso. 


de  arte  de  poetas  portugueses,  reproduzidos  no  reino  vizinho  como  preito  de  ho- 
menagem sincera,  estejam  igualmente  deturpados,  a  minha  interpretação  nâo  é 
segura. 

(i)  Note-se  bem:  dos  ouvidos. — Parte  do  prestígio  vinha  da  sonoridade  da  vo- 
calização, e  das  composições  musicaes. 

(2)  Amphitriôes,  I,  6.  — Na  mesma  comédia  ha  alusões  picantes  ao  costume 
dos  poetas  de  se  servirem  do  alheio.  Citar  muito  era  considerado  como  prova  de 
bom  saber.  Exactamente  como  hoje. 


322  CAROLINA  MICHAÊLIS  DE   VASCONCELLOS 

«Os  povos  da  fronteira  transmontana  (1)  falam  corrente- 
mente o  castelhano,  do  mesmo  modo  que  os  de  lá  lalam  o  por- 
tuguês (2).  O  mesmo  sei  que  se  dá  no  Alcmtejo.  No  Alto. 
Minho,  na  raia  da  (íalliza,  os  Portugueses  sabem  também  o  ga- 
llego  (3).  Na  fronteira  as  moedas  portuguesas  e  hespanholas 
circulam  indiferentemente  lá  e  cá. 

Ha  festas  em  Portugal  aonde  vem  os  Hespanhoes  e  festas 
em  Hespanha  aonde  vâo  os  Portuguezes,  como  eu  tenho  ob- 
servado frequentes  vezes.  Quem  viaja  pela  nossa  fronteira,  a 
cada  passo  encontra  Hespanhoes  que  andam  commerciando. 
Os  trabalhos  agrícolas  chaman  também  indivíduos  promis- 
cuamente  das  duas  nações. 

Em  Traz-os-Montes  os  romances  populares  gozam  de 
grande  vitalidade,  principalmente  no  districto  de  Bragança, 
porque  os  cantam  de  contínuo  nas  segadas  de  centeio,  pro- 
ducto  este  cuja  cultura  tem  allí  (como  se  sabe)  muito  desen- 
volvimento. Para  estes  trabalhos  vem  com  frequência  Hes- 
panhoes que  então  trazem  do  seu  país  muitos  romances  que 
depois  cá  ficam  (4).  Isto  é  um  facto  de  observação  e  portanto 
positivo.  Mas  ainda  que  isto  se  nâo  soubesse,  a  origem  im- 
mediatamente  hespanhola  de  grande  parte  dos  nossos  roman- 
ces provava-se. 

Io)     Porque  ha  cá  muitos  em  castelhano;  assim  os  tenho 
recolhido  em  Traz-os-Montes  e  amigos  meus  no  Alemteio; 


(i)  Faltam  referências  á  Beira-Baixa,  porque  o  benemérito  investigador  fre- 
quentou pouco  aquelas  regiões.  Na  Revista  Lusitana  publicaram -se  recente- 
mente alguns  textos.  Vid.  vol.  XI:  Tradições  populares  e  linguagem  de  Atalaia,  de 
Carlos  A.  Monteiro  do  Amaral.  Nos  romances  ha  alguns  poucos  castelhanismos: 
quitar,  chicas ,  la  nina. 

(2)  Posto  que  o  dom  das  linguas  seja  qualidade  essencialmente  portuguesa, 
menos  frequente  em  Hespanha,  a  influência  foi  e  é  forçosamente  mútua.  E  os 
portuguesismos  que  por  ventura  haja  na  língua  e  no  Cancioneiro  popular  de  Leão 
e  da  Estremadura,  etalvez  também  no  Romanceiro, devem  ser  examinados.  Parece- 
me  que  Cáceres,  Ciudad-Rodrigo,  serão  bom  terreno  para  investigações. 

(3)  Em  Miranda  do  Douro,  as  pessoas  de  certa  cultura  intelectual,  falam  por- 
tuguês, castelhano  e  mirandês,  com  o  sotaque  particular  de  cada  um. 

(4)  Os  romances  vulgares  que  existem  unicamente  no  distrito  de  Bragança, 
passariam  a  fronteira  recentemente. 


HOMANCES    VELHOS  323 


2°)  Porque  se  dizem  entre  nós  romances  metade  em  portu- 
guês, metade  em  castelhano,  como  eu  possuo  alguns; 

3o)  Porque  nos  romances  em  português  apparece  muitas 
vezes  aqui  e  além  perdida  uma  palavra  em  castelhano. 

Esta  importação  dá-se  actualmente;  mas  devia  dar-se 
também  noutros  tempos.  De  facto,  os  romances  em  que  ha 
já  poucos  termos  castelhanos,  mostram  que  elles  foram  tra- 
duzidos; e  a  traducçâo  fez-se  muito  lentamente.  Quando  eu 
fui  a  Tras-os-Montes,  as  pessoas  que  me  dictavam  romances 
em  castelhano-português  empregavam  memo  ás  vezes  indife- 
rentemente uma  forma  de  lá  ou  uma  forma  de  cá;  compre- 
hende-se,  pois,  que  com  o  tempo  e  com  as  pessoas,  os  roman- 
ces hespanhoes  se  tornem  inteiramente  portuguezes»  (1). 

[§  175]  Os  romances  castelhanos,  colhidos  nos  nossos  dias 
no  território  português,  por  ora  nâo  foram  publicados,  infe- 
lizmente. Nem  tâo  pouco  exemplos  dos  meio-castelhanos,  a 
nâo  ser  o  do  Cativo  que  T.  Braga  diz  ter  tirado  de  um  manus- 
crito portuense,  ao  qual  talvez  atribua  nímia  idade  (2).  Dos 
textos  que  aqui  e  além  trazem  palavras  perdidas  em  caste- 
lhano, ha,  pelo  contrário,  bastantes  nos  diversos  roman- 
ceiros; mesmo  no  de  Almeida-Garrett,  apesar  dos  retoques 
C3in  que  o  grande  poeta  aperfeiçoou  os  cantares  tradicionaes. 
De  cada  vez,  os  castelhanismos  sâo  poucos.  Dois  ou  três  nos 
romances  transmontanos  e  beirões,  porque  nas  outras  provín- 
cias muitos  estão  sem  nenhum.  Para  chegar  a  resultados  se- 
guros seria  preciso  examinar,  se  os  castelhanismos  são  priva- 
tivos dos  romances,  ou  usados  também  no  Cancioneiro  popu- 
lar, nos  contos  e  na  prosa  usual,  das  regiões  raianas  (3),  fa- 
zendo parte  das  línguas  fronteiriças.  Nâo  creio  todavia  que 
chegaríamos  a  resultados  diferentes.  Baste  dizer  que  os  mais 
frequentes  sâo:  el  lo  la  los  las  como  artigos,  mi  mia  tu.  Subs- 


(i)  Romanceiro  Portuguez,  p.  4-5.  Nos  parágrafos  que  precedem  o  trecho  co- 
piado ou  se  lhe  seguem,  o  autor  trata  das  origens  dos  romances. 

(2)  Século  xvil. 

(3)  Vocábulos  como  quedar  oliva  relumbrar,  empeçar,  aquesta,  que  se  repetem 
em  romances  de  Tras-os-Montes  e  da  Beira,  são  usuaes  nessas  províncias  e  ocor- 
rem em  bons  autores  portugueses,  antigos.  De  padre  madre  na  acepção  de  pae 
mãe,  nem  vale  a  pena  falar. 


324  CAROLINA  MICHAÈLIS  DE  VASC0NCELL08 

tantivos  e  verbos  surgem  sobretudo  na  rima.  Se,  por  exemplo, 
num  romance  castelhano  em  -í-o  ocorre  castillo,  testigo,  quis», 
chiquito ,  ou  Castilla,  la  nina,  ch/quita,  num  em  -í-a,  alguns 
recitadores  conservam-n'os  taes-quaes  nas  suas  traduções , 
comodamente  (porque  castelo,  testemunha,  quis,  pequeno;  Cas- 
tela pequena  não  servem)  emquanto  outros  interrompem  sem 
ceremónia  a  assonância  contínua  (1). 

Num  parêntese  chamarei  a  atenção  para  um  grupo  impor- 
tante de  termos  que  ocorrem  no  meio  dos  versos,  porque  para 
os  filólogos  têm  interesse  particular,  é  talvez  possam  servir  de 
indícios  de  como  cantares-velhos  e  romances-velhos  pertencem 
á  fase  arcaica  da  lingua  e  da  literatura. 

Registando  os  vocábulos  manhana,  manhanita  (2),  magana, 
ventana,  irmana,  irmano,  cristana,  cristano  (respectivamente 
Cristiano)  (3),  grana,  granado,  vénia,  tenia,  poner,  tener,  tiene, 
venir,  venido,  color,  mala,  relinchar  (4),  solia,  volaba,  paten- 
teio que  se  trata  de  formas  provenientes  de  outras  latinas 
com  -n-  intervocálico — ou  (menos  vezes)  com  -l — formas  que 
em  português  moderno  perderam  uma  sílaba,  pela  queda  do 
-l-,  ou  do  n  (depois  de  transformado  em  resonância  nasal, 
aderente  á  primeira  vogal)  e  contração  das  vogaes  em  uma  só 
(manhã,  maçã,  venta,  irmã,  irmão,  cristã,  cristão,  gran 
grado  vinha,  tinha,  pôr,  ter,  vir;  cor,  má,  rinchar)  (5). 

Essas  mesmas  palavras  e  outras  de  formação  igual,  prin- 
cipalmente as  que  acabam  em  -ão  (de  -anu)  ou  em  -ães,  -ões 
(-anes,  -ones),  antigamente  com  valor  de  duas  sílabas,  mas 
nesse  estado  pouco  cantáveis,  já  haviam  causado  embaraços 
aos  trovadores  galego-portugueses.  Por  isso  muitos  servi- 
ram-se,  na  letra  cantada  e  bailada  de  cantos  de  romaria  e 


(i)  Verdade  é  que  nino  podia  muito  bem  ser  substituído  por  menino,  e  la  nina, 
por  menina. 

(2)  Num  dos  arcaicos  cantares  líricos  de  Rebordainhos,  cuja  descoberta  se 
deve  a  Leite  de  Vasconcellos,  temos:  pela  mankaninha  manhã. 

(3)  O  alfaiate  judeu  do  Auto  da  Lusitânia  canta  cristianos.  Também  diz  en  la 
mano  una  azagaia  porque  cristãos  e  na  mão  ua  azagaia  não  preenchia  a  medida. 
Cristane  na  lição  algarvia  do  romance  dei  Cid  parece  erro  por  cristano. 

(4)  Vid.  Zeitschrift,  XVI. 

(5)  Soia,  voava    não  sofreram  redução. 


HOMANCES   VELHOS  325 


serrauilhas,  das  formas  sano,  louçano,  irmana,  dizendo  tam- 
bém pino,  penado,  avelanedo  em  lugar  de  são,  loução,  irmã, 
pio,  peado,  avelãedo. 

E  costume  tratar  essa3  formas  de  castelhanismos.  Nâo  de- 
vemos esquecer  todavia  que  o  português  de  então,  culto  e 
popular,  possuía  -ano,  -ana  (v.  g.,  na  forma  familiar  mana, 
mano,  serrano,  castelhano,  etc),  e  que  os  reformadores  e  poe- 
tas clássicos  do  século  xvi,  beneméritos  da  lingua  nacional, 
resuscitaram  o  -n  perdido  em  muitos  termos  simples  (1) 
(v.  g  ,  feno,  pena,  menos),  e  em  innúmeros  derivados.  Reco- 
rrendo aos  étimos  latinos  aproximaram  estas  formas  das  co- 
rrespondentes castelhanas,  quando  nâo  resultava  identidade 
(gráfica)  absoluta.  A  gente-povo  da  fronteira,  quando  em 
romances  que  aportuguesava,  tinha  a  pronunciar,  cantando 
ou  recitando,  correspondentes  de  tener,  venir,  poner,  mano, 
bueno,  vencia  a  dificuldade  com  o  fácil  expediente  de  os 
deixar  estar  taes-quaes.  Para  eles  a  influência  castelhana 
é  a  única  admissível.  Se  portanto  menos,  pena,  na  boca  de 
poetas  cultos,  são  latinismos,  vénia,  tenta,  sâo  castelhanismos 
na  boca  do  vulgo. 

Da  obra  de  Gil  Vicente  extraio  alguns  cantares  de  gente 
da  serra: 

Vento  bueno  nos  ha  de  levar! 
garrido  é  o  vendaval  (II,  306  e  494). 

Vós  me  veniredes  a  la  mano, 
a  la  mano  me  veniredes! 
e  vos  veredes 
peixes  nas  redes  (I,  21tf)  (2). 

E  se  j)07ierei  la  mano  em  vós, 
garrido  amor?  (II,  443). 

Hum  amigo  que  eu  havia 
mançanas  d'ouro  m'envia  (II,  441). 

A  serra  é  alta,  fria,  nevosa, 
vi  venir  serrana,  gentil,  graciosa  (III,  2-14). 


(i)  Na  boca  do  povo  lo  passara  a  inho,  tia  a  uma,'  e  ão-ãa-õe-ãe  tornaram-se 
monossilábicos. 

(í)  Em  outros  escritos  encontrei  uma  variante  do  refram:  yá  vós  jazedes,  Pei- 
xinhos, nas  redes. 


326  CAROLINA  MIÒHAÈLIS  DÊ   VASCONCELLÔS 

[§  176]  Fechado  o  parêntese  com  que  terminei  a  discussão 
mal  esboçada  do  problema  linguístico,  torno  ás  teses  de  T. 
Braga  e  Menéndez  y  Pelayo  (§  166-168),  que  combato.  Do 
castelhanismo  da  maior  parte  dos  romances  velhos  nâo  lia 
que  duvidar.  Castelhanos  na  redação  original,  eram  cantados 
e  citados  em  castelhano  na  corte  portuguesa  e  entre  os  es- 
tudantes da  Universidade.  Fizeram-se,  porém,  portugueses, 
traduzidos  pouco  a  pouco  e  adaptados  ao  gosto  nacional  na 
boca  do  vulgo,  quer  descessem  do  paço  ás  ruas  da  capital, 
quer  entrasse m  directamente  pela  fronteira.  A  dição  a  prin- 
cípio puramente  castelhana,  transformou-se  em  castelhano 
eivado  de  lusismos,  em  português  com  raros  resaibos  caste- 
lhanos, e  finalmente,  nas  províncias  mais  afastadas,  em  por- 
tuguês castiço. 

Ainda  assim,  não  subscrevo  em  globo  as  conclusões  dos 
dois,  conforme  já  assentei  na  Introdução,  acentuando-o  depois 
sucessivamente.  Das  premissas  estatuídas  pelo  historiador 
madrileno,  e  anteriormente,  com  menos  precisão,  pelos  pró- 
prios Portugueses  (1),  tiro  consequências  diversas, por  encarar 
á  luz  diversa  o  problema  das  linguas,  das  nacionalidades  e 
das  literaturas  peninsulares. 

Dos  vestígios  que  revelei,  resulta  que  de  1450  a  1640  os 
Portugueses  citavam  e  cantavam  romances  em  castelhano. 
Os  que  hoje  o  vulgo  canta  em  português  no  continente,  nas 
ilhas  oceânicas,  no  Brasil,  com  palavras  perdidas  em  caste- 
lhano, sobretudo  nas  províncias  raianas  de  Tras-os-Moutes  e 
Beira,  são  os  mesmos  do  século  xvi.  Os  mesmos  que  então 
existiam  e  ainda  existem  no  reino  vizinho,  nâo  só  nas  regiões 
que  entestam  com  Pjrtugal,  mas  também  nas  mais  afasta- 
das (2),  e  fora  da  Península,  na  América  do  Sul,  em  Marrocos 
e  entre  os  Judeus  do  Levante  (3).  Iguaes  no  metro  e  na  rima, 
os  romances  tradicionaes  de  Portugal,  comquanto  deteriora 
dos  a  miude,  sâo  muita  vez  decalcos  completos  dos  que  em 


(i)     Garrett  e  T.  Braga.  Sobretudo  Almeida. 

(2)  Sem  excepção  do  centro,  como  até  ha  pouco,  se  julgava. 

(3)  Está  por  examinar,  se  na  lingua  e  no  material  folklórico  d'esses  Judeus  não 
ficaram  vestígios  da  sua  passagem  por  Portugal  (como  creio). 


ROMANCES   VELHOS  327 


Castela  se  imprimiram  no  século  xvi,  e  lâ  também  eram  ci- 
tados, glosados,  parodiados,  igual  predomínio  dos  romances 
em  castelhano  nota-se  na  Galiza  e  nas  Astúrias,  isto  é  em 
províncias  cujo  povo  fala  dialectos  bem  distanciados  da  co- 
mum língua  literária.  Na  própria  Catalunha,  os  romances  são 
arraiados  nâo  só  de  vocábulos  isolados,  como  em  Portugal, 
mas  também  de  fragmentos  inteiros  em  castelhano  (1)  A 
abundante  colheita,  coordenada  por  Milá  y  Fontanals,  origi- 
nalíssima na  forma,  no  espírito  e  nos  assuntos,  nem  a  das 
Astúrias,  nem  a  de  Portugal  é  genericamente  indígena  e  pri- 
vativa de  cada  região.  O  romance  nasceu  em  Castela,  dos 
cantares  de  gesta  democratizados  por  jograes;  lá  teve  o  seu 
mais  alto  grau  de  vitalidade,  irradiando  para  todos  os  lados. 
Mais  uma  vez:  de  tudo  isso  nâo  ha  que  duvidar  (2). 

Concordo  também  com  o  dictame  finamente  pensado  e  re- 
digido, que  «comunicando-lhe  a  sua  poesia  narrativa,  é  que 
Castela  pagou  á  Galiza  e  a  Portugal  a  dívida  que  contraíra 
ao  receber  d'eles,  nos  alvores  da  literatura,  as  formações  lí- 
ricas». 

Mas  nem  por  isso  eu  diria  que  «tudo  quanto  ha  em  roman- 
ces velhos  é  resto  de  uma  poesia  inteira  e  exclusivamente  do 
centro  castelhano,  na  qual  o  Norte,  o  Nordoeste,  o  Oeste  e 
Levante  nâo  teve  parte  alguma»  (3).  Antes  diria:  que  o  cas- 
telhano é  a  lingua  em  que  os  romances  foram  escritos — por 
gente  de  todas  as  regiões  da  península — porque  o  castelhano 
fora  nos  séculos  xn  e  xm  a  lingua  épica  de  Hespanha,  e  con- 


(i)  A  diferença  explica-se.  Os  romances,  com  menos  elementos  originaes,  são 
mais  perfeitamente  nacionalizados  em  Portugal  do  que  na  Catalunha,  porque  o 
eclipse  da  lingua  catalan  (na  literatura)  durou  três  séculos 

(2)  Os  exemplos  de  nacionalização  progressiva  são  tantos  que  é  justo  consi- 
derar como  importados  mesmo  aqueles,  de  que  não  subsistem  paralelos  caste- 
lhanos, sempre  que  não  haja  motivos  e  indícios  óbvios  do  contrário. 

(3)  Apontando  a  regra,  abstraída  de  exemplos  de  peso,  Menéndez  y  Pelayo 
esquece  as  excepções,  como  G.  Baist  as  esqueceu,  ao  vindicar  para  Castela  todas 
as  prosas  novelescas  do  tempo  arcaico.  Textos  tornados  accessíveis  nestes  últimos 
tempos,  como  o  Vespasiano  (Destruição  de  Jerusalém),  o  Merlim,  e  o  Graal,  não 
conlirmam  de  modo  algum  a  regra.  O  confronto  com  os  textos  portugueses  (impres- 
sos e  manuscritos)  mostra  que  foram  traduzidos  do  português.  Innúmeros  erros 
nasceram  da  má  comprensão  d'esta  lingua.  Prová-lo-hci  em  outra  parte. 


32â  ÒAROLINA  MICHAÈLIS  DE  VASÔONCÉLLÒS 

tinuava  a  sê-lo  nos  séculos  imediatos,  exactamente  como  o  . 
lego-português  fora  de  1200  a  1350  a  língua  lírica  comum  1 1)  e 
continuou  a  ser  empregada  por  alguns  Castelhanos  até  L450. 
Escrito  em  castelhano  não  equivale  a  obra  de  um  Castelha- 
no, como  escrito  em  galego- português  não  equivale  a  obra  de 
um  Galego  ou  de  um  Português.  Escassez  de  talento  épico, 
sentimento  histórico,  e  génio  inventivo  não  significa  abso- 
luta falta  (2).  A  existência  de  romances  de  arte,  escritos  em 
castelhano  por  autores  portugueses,  é  um  facto.  Mesmo  que  o 
de  D.  Duardos  e  Flérida  fosse  o  único,  cuja  exportação  e 
popularização  estivesse  provada,  teríamos  o  direito  de  supór- 
que  entre  os  anónimos,  alguns  tenham  origem  portuguesa  (3) 
(e  outros  sejam  obra  de  Galegos,  Asturianos,  Aragoneses,  Ca- 
talães, Leoneses,  Estremenhos)  (4).  Se  o  achado  de  três  ro- 


(i)  Com  exclusão  da  Catalunha,  cujos  trovadores  eram  irmãos-gênieos  dos  da 
Provença. 

(2)  Verdade  é  que  os  romancistas  portugueses  de  1500  e  1600  não  dis- 
punham de  grande  originalidade.  Um  dos  melhores  dirigiu  aos  colegas  a  sátira  se- 
guinte: 

Mis  senores  romancistas, 
poetas  de  Lusitânia 
que  hurtastes  las  invenciones 
a  la  lengua  castellana.... 
no  veis  que  estan  ya  sin  hojas 
los  laureies  de  Castalia? 
que  dan  á  cada  espaiiol 
romancista  una  grinalda? 

Mas  parte  da  sátira  atinge  também  os  epígonos  castelhanos. 

(3)  Seduzias  de  Portugueses  conhecidos  contribuíram  para  a  literatura  castelhana 
com  novelas  pastoris,  livros  de  cavalaria,  versos  sacros  e  profanos,  autos  e  comé- 
dias, tratados  históricos,  etc,  etc,  e  com  romances  artísticos,  não  é  de  crer  que 
entre  os  anónimos  autores  de  romances  velhos  eles  faltem  por  completo.  Se  pos- 
suíssemos lições  primordiaes  de  romances,  talvez  lá  encontrássemos  lusismos.  En- 
tre as  que  foram  impressas  no  século  XVI,  será  difícil  descobrir  alguns.  Comtudo, 
não  dou  o  ponto  por  debatido.  No  estudo  especial  de  cada  um  dos  romances  típi- 
cos haverá  ensejo  para  a  análise  comparada,  dos  textos  castelhanos  e  portugueses. 

(4)  Não  é  de  crer  que  a  Galiza,  Leão  e  Astúrias  fossem  estranhos  á  elabora- 
ção do  Romanceiro.  Se  a  porção  relativamente  pequena  de  romances  colhidos  na 
Andaluzia  corresponde  á  sua  tardia  reconquista,  a  abundância  e  boa  conservação 
dos  de  Astúrias  deve  significar,  pelo  menos,  que  lá  arraigaram  fundo  e  se  desen- 
volveram com  viço. 


ROMANCES    VELHOS  326 


mances  entre  as  poesias  de  Juan  Rodríguez  de  la  Câmara 
sobresaltou  os  críticos  modernos,  demos  também  o  valor  de- 
vido aos  romances  (posteriores,  bem  o  sei)  de  Gil  Vicente,  cujo 
génio  inventivo  e  cuja  maestria  em  composições  castelhanas 
quasi  ninguém  impugna.  Nem  esqueçamos  que  o  próprio  Juan 
Rodríguez,  celebrado  como  primeiro  autor  conhecido  de  ro- 
mances, era  do  Padron  de  Santiago,  conterrâneo  e  amigo  de 
Macias,  e  que  Carvajales,  o  segundo,  pertencente  á  corte 
neapolitaua  de  Alfonso  V,  era  Aragonês. 

Falando  de  romances  castelhanos,  tomemos  portanto  o 
qualificativo  no  sentido  lato  e  derivado  de  hespanhol  ou  his- 
pano, que  foi  adquirindo  nos  tempos  de  Carlos  V,  e  nao  no 
primitivo  de  oriundo  e  privativo  do  centro  peninsular. 

[§  177]  Conheço  as  objecções  que  se  podiam  levantar  mes- 
mo contra  a  colaboração  excepcional  de  Portugueses  no  Ro- 
manceiro  mediévico  que  advogo,  a  suposta  imperícia  do  povo 
no  idioma  cortesão,  e  a  falta  de  talento  épico.  Com  relação 
ao  primeiro  óbice,  recordo  o  que  se  disse  das  províncias  raia- 
nas, da  facilidade  com  que  o  Português  aprende  línguas  es- 
trangeiras, e  também  da  semslhança  entre  os  dois  idiomas 
no  século  xv  (1).  No  tempo  da  maior  e florescência  do  género, 
populares  de  espírito  superiormente  dotado  bem  poderiam  ter 
composto  romances  em  castelhano.  Em  segundo  lugar  lembro 
que  já  nao  se  considera  a  poesia  popular  como  misteriosa 
criação  genérica,  de  proletcs  incultos,  mas  antes  como  obra 
da  inspiração  pessoal  de  personagens  pertencentes  a  todas 
as  classes  sociaes,  com  ingénio  poético  e  que  consubstancia- 
vam em  si  a  alma  nacional,  mas  obra  que  depois,  na  sua  pas- 
sagem pela  boca  de  muitos,  era  retocada  a  miude:  ora  aper- 
feiçoada por  condensação,  ora  deteriorada  por  falta  de  me- 
mória e  por  confusão  com  outros  textos. 

Com  respeito  ao  talento  épico  de  Portugal  e  sua  colabora- 
ção eventual  na  poesia  heróica,  é  facto  que  não  ha  cantares 
de  gesta  originaes  (2),  nem  mesmo  imitações  ou  traduções.  A 


(i)     A  migração  de  contos  e  de  cantos  líricos  é  prova  da  inanidade  da  objecção. 

(2)      Certas  canções  históricas,  de  tipo   diverso    do    comum    dos    romances,    as 

quaes  tem  sido  apresentadas  na  Galiza  e  em  Portugal  como  de  origem  remotíssi- 

m 


830  CAROLINA  MlCHAtLIS  DE   VASCONCELLOS 


paródia  de  uma  sccna  da  Chanson  de  Roland,  algumas  poe- 
sias narrativas  que  se  aproximam  do  género  dos  romances  (1), 
eis  tudo  o  que  ficou  de  épico  do  primeiro  período  da  literatura 
nacional.  Somente  o  reino  leonês  (segundo  as  aparências,  uma 
parte  que  em  tempos  de  Alfonso  Henriquez  fora  portuguesa), 
contribuiu  com  o  Poema  de  Alexandre,  provavelmente  na 
pessoa  de  Lourenço  de  Astorga  (2).  Na  época  de  transição, 
que  das  gestas  conduz  aos  romances,  é  que  Portugal  par' 
haver  criado  o  mais  antigo  poema  épico  de  estilo  popular,  em 
quadras  de  versos  octonários,  chamados  no  futuro  redondilhas. 
Exemplo  talvez  do  que  seriam  formalmente  os  cantares  jugla- 
rescos  que  Menéndez  Pidal  e  Menéndez  y  Pelayo  definiram  e 
avaliaram  tão  magistralmente  (3). 

Investigadores  conscienciosos  como  Cornu  e  Baist  tem  o 
chamado  Poema  de  Alfonso  XI  em  conta  de  tradução  de  uni 
original  português  (perdido  e  ignorado).  Menéndez  y  Pelayo, 
Menéndez  Pidal,  Beer,  Becker,  Fitzmaurice-Kelly,  Bonilla, 
adoptaram  este  parecer.  Eu,  pretendendo  conciliar  com  o  cas- 
tclhanismo  do  texto  os  frequentes  e  evidentes  lusismos  na  rima , 
inclino-me  a  crer  que  não  houve  tal,  e  que  o  Poema  foi  escri- 
to por  um  Português  desnaturado,  súbdito  do  buen  rey  de  Cas- 
tiella  e  Leon,  que  aceitando  o  castelhano  como  idioma  épico, 
se  antecipava  um  século  ao  Condestável  e  aos  romancistas. 
Entre  as  diversas  explicações  que  ideei  (4),  nenhuma  satis- 


ma — a  do  Monte  Medúlio  lá,  e  cá  a  dos  Figueiredos  e  o  Poema  da  Cava  — seio  falsi- 
ficações, mais  ou  menos  habilmente  feitas. 

(i)  Vid.  C.  M.  de  Vasconcellos,  Die  Romanze  von  Don  Fernando  CRandglosse, 
XII  em  Zeitschrift  XXVI). 

(2)  Vid.  a  Ed.  de  Morel-Fatio  (Dresden,  1906);  e  R.  Menéndez  Pidal,  El  dia- 
lecto leonês  (Madrid,  1906). 

(3)  O  Poema  tem  numerosas  alusões  a  costumes  populares,  pontos  de  con- 
tacto tanto  com  as  novelas  do  ciclo  bretónico  como  com  as  cantigas  de  amor  e  de 
amigo  dos  trovadores  galego-portugueses,  e  talvez  com  outros  cantares  de  gesta 
democratizados,  de  que  irradiaram  romances.  A  este  respeito  aditarei  uma  nota 
curiosa.  Além  do  ditado,  relativo  ao  mensagero,  que  extratei  mais  acima,  encontrei 
110  Poema,  com  viva  satisfação,  o  dos  Olhos  que  vos  vira/ti  ir.  Na  estrofe  24 11  é 
que  se  16  Ojos  que  vos  vieren  ir  nunca  se  (?  vos)  verán  tornar.  Estou  a  ver  que  o 
original  ainda  se  descubrirá  em  qualquer  Cantar  de  gesta. 

(4)  No  (rrundriss,  Ilb,  284-5,  eu  procurava  no   autor  um  Leonês,  acostumado 


ROMANCES   VELHOS  331 


faz,  em  todos  os  sentidos,  mais  e  melhor  do  que  esta,,  que 
oportunamente  tentarei  demonstrar  (1). 

A  prova  de  que  perto  de  1340  o  staiu-quo  das  línguas  pe- 
ninsulares começava  a  alterar-se,  temo'-la  no  cantai-  de  amor 
único  em  castelhano  (se  abstrairmos  de  uma  tentativa  frag- 
mentária de  Alfonso  X),  com  que  o  próprio  Alfonso  XI,  o  ma/j 
castelhano,  contribuiu  ao  Cancioneiro  galego-português  (2), 
nao  sem  entremear  a  fala  materna  com  diversos  lusismos.  E 
temo'-la  em  outro  poema  épico,  também  em  quadras,  e  sobre  o 
mesmo  assunto — a  Batalha  doSalado— em  que  rivalizando  com 
o  Luso-castelhano  e  não  dando  fé  á  maior  epicidade  da  lin- 
gua  do  centro,  o  Português  Afonso  Giráldez  se  serviu  do  idio- 
ma lírico.  Poucos  versos  subsistem,  mas  esses  são  autenti- 
cados por  claras  referências  numa  Carta  do  Regente  (3). 

Quanto  ao  cantar  do  Abade  D.  João  de  Montemor  e  o  de 
Bistoris  grani  sabedor,  ambos  completamente  perdidos,  acho 
a  menção  de  Afonso  Giráldez  positiva  demais  para  negarmos 
a  sua  vericidade  (4). 


a  falar  o  seu  dialecto  e  a  poetar  em  galego-português;  e  inda  hoje  acho  que  ha  par- 
ticularidades linguísticas  a  favor  d'essa  conjectura. 

(i)  Ao  lado  de  rimas  imperfeitas  ou  nulas  no  texto  castelhano,  que  em  portu- 
guês resultam  perfeitas  (e  portanto  seriam  pensadas  em  português)  ha  outras 
(mais  de  um  cento)  que,  estando  bem  na  redacção  que  possuímos,  saem  imperfei- 
tas ou  nulas,  transpostas  em  português.  E  isso  em  partes  que  não  são  interpola- 
ções, como  por  ventura  as  Profecias.  Como  lusismos  considero  ainda:  o  em  rima 
com  ne  (osso  morto  fora  Marrocos  nozes  cordo  aposta  volta  bõaj;  e  final,  depois  de 
d  (bondade  lide  salude,  e  os  imperativos  em  ade  ede  ide);  o  plural  monossilábico 
reis;  melo  com  valor  de  uma  só  silaba  (como  o  português  arcaico  mho  mi -o);  verbos 
que  em  português  pertencem  á  2.a  e  em  castelhano  á  3.11  conjugação;  distinção 
entre  a  3  s.  perf.  da  i.il,  2.u  e  3.11  conjugação.  Em  parte  eles  concordam  com  os 
lusismos  que  sinalizei  no  Cancioneiro  Geral  e  nos  Autos  de  Gil  Vicente. 

(2)  Canc.  Vat.,  N.°  209:  El  rey  dom  Affonso  de  Castela  e  de  Leon  que  venceu 
el  rey  de  Belamarim  com  o  poder  d'alem  mar  a  par  de  Tarifa:  Em  huum  tiempo  coa- 
dores.— Não  me  refiro  a  lusismos  gráficos  e  fónicos,  que  podem  ser  obra  de  copis- 
tas, mas  apenas  aos  mórficos,  autenticados  pela  rima  (sofrir  vivir  defalir  decir 
pidii  morire  e  apar  d'eles  avkr  fazer  DIZER  morrkr). 

(3)  Vid.  Grundriçs,  II1',  p.  205. 

(4)  Neste  ponto  afasto-me  portanto  do  parecer,  enunciado  por  Menéndez  Pi- 
dal  na  sua  excelente  edição  da  Leyenda  dei  Aba  d  Pou  Juan  de  Montemayor  (Dres- 
den,  1908).  Cfr.  Iíaist,  em  l.iteraturblatt,  1905,  p.  1466. 


332  CAROLINA  MICHAÈLIS  DE    VASCONCELLOS 

E  a  falta  estranhável  de  romances  sobre  feitos  históricos 
de  Portugal?  A  tomada  de  Ceuta,  Tânger,  Arzila,  Azamor 
batalhas  de  Aljubarrota  e  de  Toro,  íi  tragédia  do  Regente;  o 
martírio  do  Infante  Santo;  a  actividade  do  Navegador;  os 
feitos  de  Alfonso,  o  Africano,  e  seus  capitães;  as  navegações 
oceânicas;  as  conquistas  orientaes;  e  tantos  e  tantos  c;i 
poéticos  da  história  nacional,  não  despertarin  a  musa  épica 
popular.  Nem  mesmo  da  prosa  infantil  das  Crónicas  do  Con- 
destâvel,  do  Infante  Santo,  e  de  D.  João  I,  ou  da  História  Trá- 
gico-Marítima  se  desprenderam  romances.  Talvez  porque  as 
Crónicas  e  Histórias,  pela  sua  vez,  nao  saíram  de  cantares  de 
gesta  preexistentes?  Ou  porque  a  conquista  de  terrenos  extra- 
curopeios  não  inspirou  no  povo  os  mesmos  sentimentos  pro- 
duetivos  que  a  reconquista  do  solo  pátrio?  e  essa  já  estava 
personificada  no  Cid  Campeador?  heroe  nacional  com  uni, 
comquanto  do  Occidente  pisara  apenas  a  região  conimbri- 
cense? 

A  evolução  histórica  quis  que  só  tarde,  na  era  do  Renas- 
cimento, e  na  parte  culta  da  nação,  acordasse  a  nobre  ambi- 
ção de  no  seu  seio  se  gerar,  não  um  jogral  romancista  que  na 
praça  guitarreasse  versos  populares,  mas  um  Vergílio  ou  Ho- 
mero que  em  metro  condigno  cantasse,  classicamente,  o  peito 
lusitano.  A'  vista  dos  Lusíadas  é  impossível  negar  o  talento 
épico  da  nação.  Mesmo  entre  os  imitadores  de  Luis  de  Camões, 
que  depois  de  1572  criaram  poemas  históricos  como  o  Naufrá- 
gio de  Sepúlveda,  A  tomada  de  Diu,  Malaca  conquistada,  alguns 
hombreiam  com  Ercilla  e  sua  Araucana.  Injusto  é  também 
negar  o  estro  heróico  de  Gil  Vicente,  em  cuja  Exhortação  da 
guerra  refulge  um  patriotismo  comovido  (1). 

[§  178]  Se  finalmente  me  preguntarem,  quaes  são  os  ro- 
mances velhos  e  tradicionaes  que  me  parecem  ser  obra  de 
anónimos  portugueses,  do  período  medieval,  ou  pelo  menos  an- 
teriores a  1550,  respondo  que  é  cedo  demais  para  formular- 
mos propostas.  Só  quando  possuirmos  o  Romanceiro  Hispânico 
comparado,  de  Menéndez  Pidal,  com  os  Inéditos  de  Leite  de 


(i)     Gonçalves  Viana  pensa  como  cu,  conforme  vi,  com  prazer,  no  seu  estudo 
sobre  os  lusisnios  do  grande  Português. 


ROMANCES   VELHOS  333 


Vasconcellos,  é  que  será  pos3Ível  proceder  ao  exame  detido 
de  cada  um  dos  que  aparentam  origem  portuguesa,  quer  pelo 
assunto,  quer  pela  sua  difusão  exclusiva  ou  superior  no  occi- 
dente  e  províncias  raianas  de  Ilespanha,  quer  pela  absoluta 
falta  de  pr lavras  perdidas  castelhanas,  quer  por  certos  ca- 
racterísticos formaes  (consonância  perfeita,  em  lugar  de  as- 
sonância;  divisão  em  quadras;  versos  de  seis  sílabas). 

Por  ora  apenas  se  podem  aventar  hipóteses. 

Como  entre  os  romances  familiares  a  Portugal  o  Velho,  os 
romanticamente  novelescos  predominam  sobre  os  inspirados 
pela  musa  histórica  de  Castela,  conforme  mostrei,  calculo  que 
a  colaboração  também  se  moveria  nesse  campo,  mais  conge~ 
nial  ao  espírito  lírico  da  nação.  E  suponho  que  exactamente 
alguns  dos  mais  citados,  glosados,  parodiados  e  de  maior  ex- 
pansão ainda  agora,  sejam  obra  portuguesa. 

Dos  heróicos,  histórico-nacionaes,  derivados  dos  cantares 
de  gesta,  provavelmente  nenhum.  A  não  ser  aquele  tripar- 
tido de  Mio  Cid  que  principia  Helo  helo  por  do  viene;  o  de  Jão 
Lourenço,  conhecido  por  ora  apenas  numa  lição  dos  Judeus  de 
Levante;  e  a  Lamentação  sobre  a  morte  do  Príncipe  Dom 
Afonso  (1). 

Dos  novelescos  do  ciclo  bretónico  e  carolíngio  alguns  de 
Trintão,  Gerineldos,  o  Conde  Claros,  Conde  Nilo.  Dos  contos 
sobre  temas  universaes,  a  redacção  da  Bela  Infanta,  a  de  Sil- 
vaninha,  Bernal-Francês,  Donzela- Varão. 

Dos    sacros,  o  de  £anta  Iria   (2),   de  assunto  local  íSanl 
tarem). 


(i)  É  este  que  eu  tencionava  historiar  como  amostra,  tornando  provável  que 
a  lição,  conservada  no  Cancionero  francês,  fosse  levada  d'aqui  em  1493,  ou  pouco 
depois,  por  aquele  Monsenhor  de  Loigny,  a  cuja  capela  me  referi  no  parágrafo  so- 
bre a  música  dos  romances.  O  ensaio  ia-se-me  tornando  todavia  tão  extenso  que 
o  pus  de  parte. 

(2)  Já  ficou  dito  que  o  romance  de  Santa  Iria  (Ereia,  de  Erena,  Irtne;  e  por 
confusão  ElenaJ,  em  versos  de  seis  sílabas,  passou  sempre  por  exclusivamente 
português.  Vid.  Leite  de  Vasconcellos,  Romanceiro,  p.  3-4.  E  também,  que  graças 
a  pesquisas  novas  se  encontrou  ha  pouco  em  Cáceres,  em  Leão  e  na  Galiza  'de 
onde  passaria  para  o  Uruguay,  com  os  emigrantes  que  continuamente  embarcam 
em  Vigo  e  na  Corunha)  — achado  feliz,  que,  a  meu  ver,  confirma  e  não  invalida 
a  ideia  da  origem  portuguesa  e  exportação  pela  fronteira. 


334  CAROLINA  MICHAELIS  DE    VASCONCELLOS 

O  marítimo  da  Nau  Caterineta,  de  difusão  tamanha  e  ta- 
unidade  nas  lições,  isentas  de  castelhanismos  que,  embora  o 
carácter  internacional  de  alguns,  ou  mesmo  de  todos  os  ele- 
mentos que  o  constituem,  seja  certo  (1),  o  conjunto  poderá 
passar  por  português  (2")  com  o  mesmo  direito  com  que  passam 
por  castelhanos  textos  como  o  da  Infantina. 

Dos  líricos,  o  da  Bela  mal  maridada;  Mal  de  amores;  Tiem- 
po  bueno; Eola-viuva;  Prisioneiro; Fonte  /'rida/  (3),  todos  eles  de 
afectividade  intensa,  mas  meiga  e  doce,  quasi  feminina. 

[§  179]  Concluo.  Numa  nesga  da  península,  aberta,  do 
lado  do  mar,  a  todas  as  influências  estrangeiras,  e  do  lado 
cia  terra  em  contacto  constante  com  reinos  maiores  (hoje  uni- 
ficados), dos  quaes  se  desagregou  no  século  xn,  quando  o 
heroe  nacional  já  existia,  Portugal  não  tem  originalidade, 
nem  génio  criador,  diverso  do  que  se  desenvolveu  nc  magní- 
fico isolamento  do  centro  castelhano.  Colaborou  todavia  em 
todos  os  ramos,  populares  e  artísticos,  esplendidamente  em 
alguns,  tomando  a  dianteira  nas  manifestações  sentimentaes. 
As  duas  (ou  três)  literaturas  completam-se  mutuamente,  e  em 
rigor  formam  uma  só.  As  poesias  de  Alfonso  X  e  as  de  D.  Denis 
de  Portugal,  o  Amadis,  o  Palmeirim,  a  Diana  falam  claro.  J\o 
pórtico  de  entrada,  que  da  idade-média  conduz  aos  tempos 
modernos,  estão  três  vultos,  igualmente  ilustres:  um  de  Tole- 
do, outro  de  Barcelona,  o  terceiro  de  Coimbra.  Tal  qual  o 
Cancioneiro  popular,  o  Romanceiro  é  um  producto  da  penín- 
sula inteira.  As  raizes,  os  cantares  de  gesta,  e  o  tronco  estão 
no  solo  de  Castela.  Em  Portugal  ha  apenas  ramificações  (al- 
guns dos  reflexos,  democratizados  por  jograes).  Como  flor 
e  fruto,  romances  novelescos  e  líricos.  Mas  como  mais  alta 
personificação  do  génio  épico  e  lírico  da  Hispânia,  temos  Luis 
de  Camões.  Disse. 


(i)     Vid.  T.  A.  Coelho,  em  Revista  Lusitana,  I,  325. 

(2)  Isto  é:  emquanto  não  se  encontrarem  em  Hespanha  textos  paralelos  que 
evidenceiem  a  existência  de  um  protótipo  castelhano. 

(3)  No  vol  XIII  da  Antologia,  dedicado  a  Boscan,  o  autor  expõe  com  admirá- 
vel clareza  que  o  benemérito  reformador  da  poética  castelhana  não  perdeu  o  cul- 
to da  pátria,  ao  prescindir  da  língua  materna.  E  de  passagem  estabelece  com  re- 
aç&o  ás  obras  castelhanas  de  Portugueses  que,  se  a  letra  é  estrangeira,  o  espírito 
é  nacional  -veredictum  que  registo,  aplaudindo. 


índice  dos  versos  de  romances 


N."  PW 


1  Ayer  fuiste  rey  de  Espana,     hoy  no  tienes  un  castillo  27 

2  Mensajero  eres  amigo,     no  mereces  culpa,  no  32 

3  Sobre  el  partir  de  las  tierras  35 

4  Buen  Conde  Fernan  Gonzalez  36 

5  Villas  y  castillos  tengo,     todos  á  mi  mandar  sone  37 
<1  Mal  me  quieren  en  Castilla    los  que  me  habian  de  guardare  40 

7  Los  hijo3  de  doiia  Sancha  41 

8  Rey  que  nom  guarda  justiça    non  habia  de  reinar  42 

9  Que  a  pesar  do!  Rey  de  Francia    los  puertos  de  Aspa  pasó  45 

10  Com  a  candeia  na  mão    [la  candeia  en  la  mano]  47 

11  De  nua  parte  a  cerca  o  Douro,     da  outra  penha-talhada  48 

12  Todos  dicen  amen  amen    sino  don  Sancho  que  calla  49 

13  Afuera,  afuera  Rodrigo  50 

14  Rey  don  Sancho,  rey  don  Sancho,     no  digas  que  no  te  lo  digo  53 

15  Riberas  de  Duero  arriba    cavalgaron  zamoranos  53 

16  Que  se  mataran  con  três    y  lo  mismo  haran  con  cuatro  54 

17  Por  aquel  (el  otro)  que  se  le  iba    las  barbas  se  está  mesando  55 

18  Hincado  está  de  rodillas    con  un  crucifixo  hablando  56 

19  Por  aquel  postigo  viejo    que  nunca  fuera  cerrado  57 

20  Vi  venir  pendon  bermejo    con  trescientos  de  caballo  58 

21  Mucho  me  plaze,  el  buen  rey,     de  cumplir  vuestro  mandado  59 

22  Helo  helo  por  do  viene    el  moro  por  la  calzada  60 

23  Una  adarga  ante  los  pechos    y  en  la  mano  una  azagaya  C>1 

24  Ai  Iguai]  Valença,  guai  Valença,     de  fogo  sejas  queimada          61  212 

25  S'o  barrete  bem  volava    la  hegoa  mljor  corria                             64  213 

26  Amphitrion  esforzado    bravo  va  por  la  batalla  64 

27  Ricas  aljubas  vestidas    y  encima  sus  albornoces  <i5 

28  Yo  me  estaba  em  Coimbra,    cidade  bem  assentada  66 

29  Poios  (pelos)  campos  de  Mondego    cavaleiros  vi  'ssomar  72 

30  Mirando  la  mar  d' Espana    como  menguaba  y  crecia  74 

31  La  flor  de  la  Berbéria  75 

32  Caballeros  de  Alcalá  (Moclin),     no  os  alabareis  d'aquesta  76 

23 


338  ÍNDICE 

N." 

38    Moro  alcayde,  moro  aleayde,    el  de  la  barba  vellida  77 

34  Passeavasc  el  rey  moro  79 

35  Pola  ve[i]ga  de  Granada    [por  la  rega  do  Granada]  Hl 

36  Y  el  maestre  la  conoce    y  abaxara  la  cabeza  81 

37  A  las  armas,  Moriscote    si  [e]n  ellas  quereis  entrar 

38  Mis  arreos  son  las  armas,     mi  descauso  el  pelear  85 

39  Mi  cama  las  duras  penas,     mi  dormir  siemprc  [es]  velar  86 

40  Muliana,  Muhana  91 

41  Mira,  Zaida,  que  te  aviso,    quem  te  avisa,  bem  te  quer  92    214 

42  Que  su  padre  era  de  Ronda    y  su  madre  de  Antequera  !>2 

43  Amarrado qual  forçado  de  Dragut  93 

41  Vuelta,  vuelta  los  franceses  94 

45  Mais  vale  morrer  com  honra    que  demonrado  bivir  96    214 

46  Las  vozes  que  iva  dando    ai  cielo  quieren  subir  96 

47  Arrenego  de  ti,  MaFoma    e  de  quantos  crêem  em  ti  97 

48  Mal  ovistes  [mala  la  vistes],  los  franceses,     la  caza  de  Ron- 

[cesvalles      97 

49  No  siendo  infante  Guarinos     peligrastes  en  la  mar  98 

50  En  polvaredas  de  ausência    perdido  por  Don  Beltran  99 

51  Os  braços  trago  cansados    [los  bra     ,  lleva  cansados]  101 

52  Em  Paris  estava  DonAlda  102 
58  Vamonos,  dixo  mi  tio,  a  Paris  essa  ciudad  103 
51  No  en  trajes  de  romero    porque  no  os  conozca  Galvan  101 

55  Su  comer  las  carnes  crudas,    su  beber  la  viva  sangre  105 

56  Caballeros,  si  a  Francia  ides,     por  Gaiferos  preguntad  106 

57  Dizei-lhe  que  já  è  tempo    de  me  venir  a  sacar  108 

58  Sospirastes,  Valdovinos,     amigo  que  yo  mas  queria  111 

59  Veinte  y  dos  heridas  tengo    que  cada  una  es  mortal  113 

60  Donde  estás  que  no  te  veo    que  no  te  duele  mi  mal  11 1 

61  Ya  cabalga  Calainos    a  la  sombra  de  una  oliva  115 

62  Calainos  soy,  seãora,     Calainos  el  de  Arábia  115 

63  Por  el  tu  amor,  senora,  passe  yo  la  mar  salada  116 
61  Cata  Francia,  Montesinos,  cata  Paris  la  ciudad  117 
65  Los  ojos  puestos  nel  cielo  juramento  iba  echando  118 
<',<;  Durandarte,  Durandarte,  [Don  Duarte,  Don  Duarte]  119  124 
07  Ojos  que  las  vieron  ir  120  214 
'18  .Salte  presto  de  la  cama  que  parezco  un  gavilan  127 
69  Conde  Claros  con  amores  128 
7<»  Mas  euvidia  he  de  vos,  Conde,     que  mancilla  ni  pesar  128    216 

71  Que  los  yerros  por  amores     dignos  son  de  perdonar  129    217 

72  Nunca  fuera  caballero  de  damas  tan  bien  servido  133 
7:5  En  el  mes  era  de  abril  de  maio  antes  da  festa  136 
71  < .Miando  la  hermosa  infanta  Florida  ya  se  partia  136 
75  Voyme  á  las  tierras  estranas    adó  ventura  me  guia  137 


ÍNDICE  339 
N.»                                                                                                                                                    PAgs. 

76  Que  contra  la  muerte  y  amor    nadie  no  tiene  valia  137 

77  Camino  dei  Elesponto     camina  el  triste  Leandro  1  ~>  t 

78  Entran  los  Griegos  en  Trova    três  a  três  y  quatro  a  quatro      156 

79  Mira  Nero  de  Tarpeya    a  Roma  como  se  ardia  lf><; 
■SO  (i  ritos  dan  nifios  y  viejos     y  el  de  nada  se  dolia  156 

Quando  Roma  conquistava  15'.) 

80>>  Oh  fili  mihi  flli  mihi  160 

80°  Qu'es  de  la  tu  hermosura  160 

81  Retraída  está  la  Infanta  163 

82  Passeava-se  Silvana    por  um  corredor  um  dia  163 

83  A  cazar  va  el  caballero,     á  cazar  como  solia  165 

84  Pregonadas  son  las  guerras    de  Francia  contra  Aragone  167 

85  Tiempo  es,  el  caballero,    tiempo  es  de  andar  de  aqui  169 

86  Pêra  que  pariste,  madre,     un  hijo  tan  desdichado  170 

87  Pariome  mi  madre    una  noche  escura  172 

jue  ni  poso  en  ramo  verde    ni  en  prado  que  tenga  ílor  174 

88b  Que  si  ell  agua  hallo  clara    turbia  la  bebia  yo  171 

89  Vete  de  ahi,  enemigo,    maio,  falso  enganador  174 

90  Por  Mayo  era,  por  Mayo  177    218 

91  Maldita  seas,  ventura    que  assí  me  hazes  andar  182    218 

92  Plazer  no  sabe  de  mi,    cuidado  no  me  fallesce  183 

93  Quando  más  pienso  alegrarme    mayor  pesar  me  recresce  183 
91  El  dia  que  ha  de  ser  triste    para  mi  solo  amanece  183 

95  Tiempo  bueno,  tiempo  bueno     quien  te  me  llevó  de  mi?    184    218 

96  La  bella  mal  maridada    de  las  más  lindas  que  vi  L88 

97  Maldições  de  Salaya  199 

98  Mi  compadre  Gomez  Árias  201 

99  Nunca  viera  xaboneros  202 

100  A  ellos,  compadre,  a  ellos  202 

101  A  menudo  sospirando,  hablando  de  tarde  en  tarde  208 
1C2  Los  bordones  que  ellos  llevan,  lanças  vos  parecerane  204 
103  Y  que  nuevas  me  traedes  de  mi  amor  que  allá  era  204 
101  A  que  muerte  condenado  puedo  ser  que  grave  fuese  204 
105  Si  no  muere  este  desejo  moriré  yo  deseando  205 
li  >6  Que  ya  no  es  en  mi  mano    el  querer  no  ser  querido  205 

107  Naves  de  la  tierra  mia,     venid  ora  y  llevadme  205 

108  Pues  que  sufrir  y  callar    cohviene  a  mi  pensamiento  205 

109  Por  los  canos  de  Carmona  206 

110  Saliendo  de  una  monlana  206 

111  Triste,  sola,  emparedada  206 

112  Al  tiempo  que  el  sol  salia  206 
11.'.  Media-noche  con  lunar  206 
1 1  1  Las  noches  siempre  acordadas  206 
115  Yo  le  daria,  bel  conde,    quanto  darsele  podia  206 


340  ÍNDICE 

N."  PágS. 

116  Olá  olá!  que  tocan  ai  arma,  Juana  207 

117  El  aspid  anda  en  las  Hores  208 

118  Sobre  mi  vi  guerra  armar  2»  >8 

119  Eu  me  sam  Dona  Giralda  200 

120  Os  que  me  soem  guardare    [Los  que  me  habiau  de  guardar]         209 

121  Pelos  campos  de  Salsete-  210 


<&>- 


índice  alfabético  dos  romances  citados 


13 


24 


43 


N.»  P6ga. 

A  Calatrava  la  Vieja     Vid.  Los  hijos— Mal  me  quiereu  39 

83    A  cazar  va  el  caballero,    à  cazar  como  solia  165 

100  A  ellos,  compadre,  à  ellos,     que  ellos  xaboneros  sou  Vid.  Mi 

[compadre—  Nunca  viera    i02 

j  A  las  armas,  el  buen  Conde  83 

37     ',  A  las  armas,  Moriscote  81     314 

( A  las  armas,  rey  dei  cielo  83 

101  A  menudo  suspirando,     hablando  de  tarde  en  tarde  203 
104    A  que  muerte  condenado    pu[e]do  ser  que  grave  fuese  204 

A  Roma  como  se  ardia     Vid.  Mira  Nero  de  Tarpeya  156 

i  Afuera,  af uera,  pensamientos  mios  50 

]  Afuera,  afuera,  Rodrigo,     el  soberbio  castellano  51 

j  Afora,  Afora  Rodrigo,    o  soberbo  castelhano  52    320 

(Afuera,  consejos  vanos  51 

Aguardando  estaba  Hero     el  amante  que  solia  155 

\  Ai  Alfama,  minh'Alfama     que  mestavas  mal  guardada  62      79 

(Ai  Valença,  guai  Valença,    de  fogo  sejas  queimada  61 

Al  amor  y  á  la  fortuna    no  hay  defension  ninguna  184     14'J 

Al  pie  de  una  verde  haya    estaba  el  moro  Galvan  91 

Al  pie  dei  mar  d'Elesponto    estaba  el  fuerte  Leandro  154 

112    Al  tiempo  que  el  boi  salia  206 

Albuquerque,  Albuquerque,     merecias  ser  honrado  75 

\  Alfaleme  en  la  cabessa  61      7(i 

|  Alhaleme  en  su  cabeza  70 

(Amarrado  ai  duro  banco    de  una  galera  turca  9 '• 

(Amarrado  ...    qual  forçado  de  Dragut  93 

26    Amphitrion  esforçado     bravo  va  por  la  batalla  li | 

Angeles,  si  ai  cielo  ides  Vid.  Caballero  10',) 
Ao  longo  de  uma  ribeira                                                     123,  262    29S 

Apesar  de  los  franceses    dentro  eu  la  Francia  entro  44 

Apesar  dei  rey  de  Francia    los  puertos  de  Aspa  pasó  1 1 

47    Arrenego  de  ti,  Mafoma    e  de  quantos  crêem  em  ti  97 

Arriba,  canes,  arriba,     que  rabia  mala  os  mate  88 

As  filhas  de  Dom  Beltrane  l<  >  1 


32 


64 


342  ÍNDICE 

N.»  !':■:'  . 

97    As  maldições  de  Salaya  2<>o 
A's  pancadas,  mo[u]riscote 

Asentado  está  Gaiferos     en  el  palácio  real  101 

Atan  alta  va  Ia  luna    como  el  sol  á  médio  dia  1 10 

Atrás,  atrás,  los  franceses  !H 

Ay  de  mi  Alfama  73 

Ayer  era  rey  de  Espana,     hoy  no  lo  soy  de  una  villa  27 

Ayer  fuiste  rey  de  Espana,    Vid.  Las  huestes  de  don  Rodrigo  27 

Bem  se  passeia  Moirito    de  calçada  em  calçada  212 

Bravo  vapor  la  batalla     Vid.  Amphitrion — Ese  buen  Cid  64 

4    Buen  Conde  Fernan  Gonzalez                                                   36  37 

56    Caballero,  si  á  Francia  ides    por  Gaiferos  preguntad        IQ6  -"II 

Caballeros  de  Alcalá,     no  os  alabareis  de  aquesta         76,77  310 

Caballeros  de  Moclin  76 

Cada  dia  que  amanece    veo  quien  mato  à  mi  padre  42 

62    Calainos  soy,  senora,     Calainos  el  de  Arábia  115 

77    Camino  dei  Elesponto    camina  el  triste  Leandro  1  f>  l 

Castellanos  y  leoneses    tienen  grandes  devisiones  35 

Cata  Francia,  Montesinos,     cata  Paris  la  ciudad  11.7 

Cata  Francia,  pensamiento.  1 17 

Cativaron  a  Guarinos,    almirante  de  las  mares  93 

Com  lágrimas  e  soluços  271 

Comiendo  la  carne  crua,     bebiendo  la  roja  sangre               89  105 

Con  cartas  y  mensajeros     Vid.  Mensajero  32 

Con  el  rostro  entristecido    y  el  semblante  demudado  55 

ICon  la  grande  polvareda    perderan  á  don  Beltran  100 

jCon  la  mucha  polvareda    perdimos  á  don  Beltrane  99 

Con  pavor  recordo  el  moro     Vid.  Mis  arreos  son  las  armas  90 

80b  Con  rabia  está  el  rey  David    rasgando  su  corazon  160 

69    Conde  Claros  con  amores    no  podia  reposar                         126  128 

Guando  yo  naci     Vid.  Parióme  mi  madre  172 

De  Antequera  sale  el  moro     Vid.  La  flor  de  la  Berbéria  76 

De  Francia  salió  la  nina,     de  Francia  la  bien  guarnida  166 

De  la  luna  tengo  quexa     Vid.  Maldita  seas,  ventura  181 

96b  De  las  mas  lindas  que  vi     Vid.  La  bella  mal-maridada  188 

De  los  osos  seas  comido    como  Favila  el  nombrado  198 

De  Mantua  salio  el  Marquês     Vid.  Donde  estás— Veintey  dos  113 

De  ti,  casto  Scipião  274 

De  Roma  sahe  Pompeo  274 

De  uma  (nua)  parte  a  cerca  o  Douro,     da  outra  penha-talhada  19 

/  De  una  parte  la  cerca  el  Duero,     de  otra  pena  tajada  49 

Déjame,  triste  enemigo,     maio,  falso,  mal-traidor  174 

Descubrase  el  pensamiento     Vid.  Pára  que  pariste,  madre  171 

Despues  que  el  rey  don  Rodrigo     á  Espana  perdido  habia  26 


11 


66 


ÍNDICE  343 
tf.*                                                                                                                                                  Paus. 

Dezanove  de  Dezembro    perto  era  do  Natal  270 

Dezidle  que  ya  es  tiempo    de  me  venir  á  sacar                   100  1 07 

Dia  era  de  los  reyes     Vid.  Rey  que  non  face  justicia  42 

Diante  os  muros  de  Troya  271 

Dios  dei  cielo,  Rey  dei  Mundo                                                 271  312 

57    Dizei-lhe  que  já  é  tempo     Vid.  Dezidle  108 

Do  la  yegua  pone  el  pie    Babieca  pone  la  pata  64 

Doliente  estaba,  doliente     Vid.  La  candeia  en  la  mano  15 

Dom  Rodrigo,  dom  Rodrigo    rei  sem  alma  e  sem  palavra  26 
Domingo  era  de  ramos     Vid.  Las  vozes— Mas  vale— Renie- 

[go— Vuelta  !)  I 

Dona  Isabel  se  pasea     en  su  palácio  real  73 

60    Donde  estás  que   no  te  veo     Vid.  De  Mantua  salió  el  mar- 

[quês         83  111 

\  Don  Duarte,  don  Duarte,    mal  caballero  probado  1 1!» 

<  Durandarte,  Durandarte,     buen  caballero  probado    119,121  8U 

El  afio  de  cuatrocisntos     Vid.  Ayer— Que  ayer                     28  76 

117    El  aspid  anda  en  las  flores    alerta,  alerta,  zagales  208 

El  cielo  estaba  nublado,    la  luna  su  luz  perdia  155 

94    El  dia  que  ha  de  ser  triste    para  ml  solo  amanece  183 

52    Em  Paris  estava  don' Alda  1<»2 

Em  Vilafranca  do  Campo    que  de  nobre  procedia  275 

En  Burgos  está  el  buen  Rey     Vid.  Rey  que  non  face  justicia  12 

En  Ceuta  está  Don  Rodrigo,     en  Ceuta  la  bien  nombrada  27 

73    En  el  mes  era  de  abril,    de  maio  antes  da  festa         1  !•',,  1 13  ss.  312 

En  el  mes  era  de  abril,    de  maio  antes  un  dia                21,  136  271 

En  figura  de  romeios    no  nos  conozca  Galvan  103 

En  las  salas  de  Paris     Vid.  Los  ojos  puestos  nel  cielo  116 

En  los  campos  de  Al  ventosa    mataron  á  don  Beltran  100 

En  Paris  está  dona  Alda  102 

50     En  polvaredas  de  ausência    perdido  por  don  Beltran  99 
En  Saucta  Gadea  de  Burgos     Vid.  Mucho  me  plaze,  el  buen 

[rey  59 

J8     En  Trova  entran  los  Griegos,     três  á  três,  y  quatro  á  quatro  156 

Encontrado  se  ha  el  buen  Cid     Vid-  Bravo  va  por  la  batalla  64 

Enfermo  el  rei  de  Castela    em  cama  de  prata  estava  48 

78     Entran  los  Griegos  en  Troya     Vid.  En  Troya  15(5 

Era  uma  quarta-feira    quarta- feira,  triste  dia  152 

Erros  [por  amores]    que  sam  pêra  perdoar  314 

Use  buen  Cid  Campeador     bravo  va  por  la  batalla  64 
Esperan/.a  me  despido     Vid,  El  dia— Plazei  —  Quando  mas 

Estava  a  bela  Infanta    no  seu  jardim  assentada  227 

Eu  me  era  moça  menina    por  nome  dona  Inês                       70,  209  298 

119    Eu  me  sam  Dona  Giralda                                                       71.  K»2  209 


344  ÍNDICE 

N.°  PàgM, 

Falso,  maio,  enganador     Vid.  Ladrão-  Maio  173 

Fili  rni  Jesu,  Jesu     O  mi  Jesu  fili  mi  160 
Fontefrida,  fontefrida     Vid.  Deja-me— Maio- Que  ni  poso— 

[Que  ell  agua  173  810 

Gram-Bretanha  desleal  271 

Gritando  va  el  caballero,     publicando  su  gran  mal  21,  220,  230  297 

80    Gritos  dan  niiios  y  viejos     Vid.  Mira  Nero                            156  158 

Guarte.  guarte,  rey  don  Sancho  52 

24    Guay  Valência,  guay  Valência,     de  mal  fuego  seas  quema- 

[da  61  287 

Hablando  estaba  la  reiua    en  cosas  bien  de  notar  47 
22    Helo  helo  por  do  viene     Vid.  Guay— Si  el  caballo— Una  adar- 

[ga  13,  15,  60,  75  333 

18     Hincado  está  de  rodillas    con  un  crucifixo  hablando  56 

Hontem  eu  tinha  coroa,     e  hoje  não  tenho  nem  meia  98 

Hora  es,  el  caballero,     hora  es  de  andar  de  aqui  170 

96a  La  bella  mal-maridada    de  las  mas  lindas  que  vi   1?8,  297,  310  333 

La  cosa  que  mas  queria     Vid.  Sospirastes  111 

31     La  flor  de  la  Berbéria     Vid,  De  Antequera  75 

Ladrão,  perro,  enganador     Vid.  Fontefrida  174 

Las  armas  son  mis  arreos     Vid.  Mis  arreos 

Las  huestes  de  don  Rodrigo    desmayaban  y  huian  27 

114    Las  noches  siempre  acordadas  206 

46    Las  vozes  que  iba  dando     ai  cielo  quieren  subir  96 

102    Los  bordones  que  ellos  llevan    lanças  vos  pareceran          103  204 

51     Los  brazos  lleva  (trago- traigo)  cansados     Vid.  En  los  cam- 

[pos— Por  la  matanza  100,  101  311 

7    Los  hijos  de  dona  Sancha     Vid.  A  Calatrava  41 

G5    Los  ojos  puestos  nel  cielo    juramento  iba  echando  118 

Los  pies  tiene  cara  oriente    y  la  candeia  en  la  mano  46 

120    Los  que  me  habian  de  guardar     Vid.  Mal  me  quieren—  Yo 

[me  estaba  en  Barbadillo  40  209 

45    Mais  vale  morrer  com  honra    que  deshonrado  vivir                    95  314 

Majadero  sois,  amigo     Vid.  Mensajero  32 

6    Mal  me  quieren  en  Castilla     Vid.  A  Calatrava  40 

IMal  ovistes,  los  franceses,     la  caza  de  Rcncesvalles  98 
Mala  la  hubistes     Vid.  Mala  la  vistes 

Mala  la  vistes,  franceses,    la  caza  de  Roncesvalles  97 

97    Maldiciones  de  Salaya                                                      200,  286  293 

91     Maldita  seas,  ventura    que  asi  me  haces  andar                   181  182 
IMalo,  falso,  enganador     Vid.  Fontefrida 
ÍMalo,  falso,  mal-traidor     Vid.  Fontefrida 

Mandadero  sois,  amigo     Vid.  Mensajero  34 

Manhanas  de  S.  João    pelas  manhans  do  alvor  218 


ÍNDICE 


70 

113 
2e4 


79 

11 

80 
B8 


33 
21 
40 


Más  envidia  he  de  vos,  Conde,     que  mancilla  ni  pesar  126,  128 
IMás  vale  raorir  con  honra    que  no  vivir  deshonrado 
JMás  vale  morir  por  buenos     que  deshonrados  vivir 
Medianoehe  con  lunar 

los  gallos  querian  cantar 

no  mereceis  culpa,  no  32,  36 

no  mereceis  culpa,  no 

no  teneis  que  me  culpar 


Medianoehe  era  por  filo 

IMensajero  eres,  amigo, 
Mensajera  sois,  amiga, 
Meusajero  soy,  seuora, 


39    Mi  cama  las  (sou)  duras  penas,     mi  dormir  siempre  (es)  ve- 

[lar  85 
98    Mi  compadre  Gomez  Árias    que  mal-consejo  me  dió 
42    Mi  padre  era  de  Ronda    y  mi  madre  de  Antequera 
Mi  regoeijo  es  llorar 
Minha  Alfama     Vid.  Ai  Alfama 

Minhas  galas  são  as  arm.is    meu  descanso  pelejar  Vid.  Mis  arreos 
Mira,  Juana,  que  te  digo    que  no  baxes  á  la  calle 
1  Mira  Nero  de  Tarpeya     a  Roma  como  se  ardia         156,159 
i  Mira  Nero  da  janela    la  nave  como  se  hazia 
\  Mira,  Zaida,  que  te  aviso;    quem  te  avisa,  bem  te  quer 
I  .Mira,  Zaida,  que  te  digo 

Miraba  de  Campoviejo     el  rey  de  Aragon  un  dia 
iMiraba  la  mar  de  Espana,     como  menguava  y  crescia 
)  Mirando  la  mar  de  Espana    como  menguava  y  crescia 
Mirando  va  el  crucifixo    y  d'esta  manera  hablando 
I  Mis  arreos  son  las  armas,     mi  descanso  el  pelear  81 

iMis  arreos  sou  muchos  cuentos,     mi  descanso  es  el  burlar 
Mis  letras  son  estalagens    y  pulgas  mi  estudiar 
Mis  vestidos  son  pesares 
Montesinos,  Montesinos,    mal  me  aqueja  esta  lanzada 
Moriana  en  un  castillo    juega  con  el  moro  Galvan 
Moriana,  Moriana,     principio  y  fin  de  mi  mal 
Morir  vos  queredes,  padre     Vid.  De  una  parte— Todos  dicen 
Moro  alcaide,  moro  alcaide,     el  de  la  barba  vellida 
Mucho  me  place  el  buen  rey     de  cumplir  vuestro  mandado 


Muliana,  Muliana 

Naquela  montanha  Idea 
107     Naves  de  la  tierra  mia,     venid  ora  y  llevadme 

Nina  era  la  Infanta 
54    No  en  trajos  de  romero     porque  no  os  conozea  Galvan 

No  murio  por  las  tabernas 
49     No  siendo  Infante  Guariuos     r  eligrastes  en  la  rnar 

No  templo  de  Apolo,  Achlles 

Nuestro  comer  es  morir 
72    Nunca  fuera  caballero     de  damas  tan  bien  servido 


91 


270 


297 

202 

93 

87 

79 

86 

214 

221 

157 

92 

92 

74 

75 

75 

55 

86 

S8 

86 

90 

120 

88 

91 

48 

77 

59 

102 

274 

205 

312 

104 

59 

98 

274 

87 

133 


346  ÍNDICE 

N."  PAgw. 

99     Nunca  viera  .vaboneros     tan  bien  vender  su  xabou 

0  caçador  foi  á  caça,    á  caça  como  soia  227 

Oh  Bel  erma,  oh  Belerma     Vid.  Ojos  —  Olhos  120 

80*>  Oh  fili  niihi,  iili  inihi     oh  fili  mihi  Absalon  160 

Oh  Valença,  oh  Valença    de  fogo  sejas  queimada  212 

67     j  Ojos  que  nos  (la  los)   vieron  ir,     nunca  nos  veran  en  Fran- 

[cia  120,  122,  215  2!>7 

|Ojos  que  vos  vieren  ir     nunca  vos  veran  tornar  330 

116    \0lha[i]  que  a  vedes  ir,    não-na  vereis  cá  voltar  122 

Olhos  que  a  viram  ir    não-na  viram  cá  voltar  215 

Olhos  que  me  viram  ir     nunca  me  verào  tornar                 122,  314  330 

Olhos  que  vos  virom  (viram)  ir    nunca  me  verào  tornar  122,  31 1  330 

( >lá  olá,  que  tocan  ai  arma,  Juana  207 

51    Os  braços  trago  cansados     Vid.  En  los  campos  de  Alventosa  101 

Os  presos  contam  os  dias,     mil  anos  por  cada  dia                     265  268 

120  Os  que  me  soem  guardare     Vid.  Los  que  209 

86  Para  que  pariste,  madre,     uu  hijo  tan  desdichado  170 
Para  que  venistes,  hijo,    á  madre  tan  desdichada  172 

87  Pariome  mi  madie    una  noche  escura                                   172  173 
Paseaba-se  el  rey  moro     por  la  ciudad  de  Granada              78  80 

34  Passeava-se  el  rei  mouro  79 
82  Passeava-se  Silvana  por  um  corredor  um  dia  163  164 
29    Pelos  campos  de  Mondego    cavaleiros  vi  [ajssomar               66,  72  73 

121  Pelos  campos  de  Salsete  mouros  mal-feridos  vão  210  228 
Pensando-vos  estou,  filha,  vossa  mãe  me  está  lembrando  123,  263  298 
Pêra  que  Vid.  Para  que  171 
Perguntad  allá  en  la  corte,  por  la  virtud  y  os  diran  109 
Pesa-me  de  vos,  el  Conde,    porque  asi  os  quieren  matar    129  311 

21     Pláceme,  dijo  el  buen  Cid    pláceme,  dijo,  de  grado  59 

Pláceme,  dijo,  senor,    ciímplase  vuestro  mandado  59 

Pláceme,  di jo,  senor,     por  cumplir  vuestro  mandado            59  146 

92    Plazer  no  sabe  de  mi,     cuidado  no  me  fallece  183 

Pola  ribeira  de  um  rio    que  leva  as  aguas  ao  mar              123,  262  266 

35  Pola  veiga  de  Granada    el  rei  mouro  passeava  80 
Poios  campos  de  Mondego  Vid.  Pelos.                                          72  78 

(i  1    Por  amor  de  vós,  senora,     pasé  yo  la  mar  salada  116 

19  Por  aquel  postigo  viejo  que  nunca  fuera  cerrado  37,  57  289 
17    Por  aquel  que  se  les  iba    las  barbas  se  está  mesando  Vid.  Ri- 

[beras  54 

Por  el  brazo  d'Elesponto    Leandro  va  navegando  151 

Por  el  mes  era  de  mayo     Vid.  Por  mayo  era  178 

Por  el  otro  que  se  le  iva     Vid.  Por  aquel  55 

Por  el  tu  amor     Vid.  Por  amor  de  vós  116 

Por  Guadalquebir  arriba    cabalgan  caminadores                05  75 


ÍN0ICE  347 

N.«  Páps. 


Por  la  matanza  va  el  viejo  100 
35     Por   la  vega  de  Granada     un  caballero   pasea  Vid.   Y  el 

[maestre  80 

Por  los  campos  de  Mondego     Vid.  Pelos—  Poios  73 

Por  los  campos  de  Monvela  73 

109     Por  los  canos  de  Carmona    por  do  va  el  agua  a  Sevilla  200 

Por  Mayo  era  por  Mayo,    ocho  dias  por  andar             180,  271  312 

!»  )     Pot  Mayo  era  por  Mayo,     quando  los  grandes  calores  178, 170  310 

Por  tus  amores,  senora,     vine  de  allende  la  mar  117 
Por  uno  que  se  le  iba     Vid.  Por  aquel 

Por  un  valle  de  tristura,     de  placer  muy  alejado  59 

Pranto  fazem  em  Lisboa  270 

Postos  estão  frente  a  frente  27!) 

84     Pregonadas  son  las  guerras    de  Francia  contra  Aragon     167  16H 

Preguntando  está  Florida     Vid.  Mi  padre  93 

Príncipes  e  emperadores  274 

Pues  que  a  Portugal  partis,     pensamiento,  preguntad  109 

108     Pues  que  sufrir  y  callar    conviene  á  mi  pensamiento  205 

Quando  de  Francia  partimos    hecimos  pleito-homenaje  99 

7 1     Quando  la  hermosa  infanta    Flerida  ya  se  partia  136 

93    Quando  más  pienso  alegrarme,     mayor  pesar  me  recresce  183 

86a  Quando  Roma  conquistava  159 

Quando  yo  naci     Vid.  Cuando— Pariome  172 

9    Que  apesar  dei  rey  de  Francia    los  puertos  de  Aspa  pasó  45 

Que  ayer  era  rey  famoso    y  hoy  no  tengo  cosa  mia  28 

Que  contra  fortuna  e  amor    não  ha  torça  nem  poder  137 

76    Que  contra  la  muerte  y  amor    nadie  no  tiene  valia            L84  137 

Qu'e8  de  ti  desconsolado     Vid.  Reniega  ya  de  Mahotna  .".1 1 

71     Que  los  yerros  por  amoreB    dignos  son  de  perdonar    129,  297  311 

88    Que  ni  poso  en  ramo  verde    ni  en  prado  que  tenga  flor  171 

Que  nunca  vi  xaboneros     Vid.  Nunca 

\  Que  os  erros  por  amores    são  dignos  de  perdoar  129 

'  Que  os  erros  por  amores    erros  são  de  perdoar  217 

„       \Qu'é  de  minha  formosura  160 

(  Qu'es  de  la  tu  hermosura?    tu  estremada  perfecion  160 

Que  por  veros,  mi  senora,     pase  yo  la  mar  salada  117 
16    Que  se  mataran  con  três    y  lo  mismo  haran  con  quatro  Vid. 

[Riberas  55 

88b  Que  si  ell  agua  hallo  clara     turbia  la  bebia  yo  174 

42    Que  su  padre  era  de  Ronda     Vid.  Mi  padre  93 

100     Que  ya  no  es  BB  mi  mano     el  querer  no  ser  querido  205 

Quietos,  quietos,  cavaleiros     que  el  rei  vos  manda  contar  L00 

Recordado  habia  el  conde  90 

Remando  vão  remadores                                                        27<»  812 


3*8  ÍNDICE 

N.° 


Páer*. 


47 


81 


14 


15 


68 


í  Reniega  ya  de  Mahoma  ;x; 

1  Reniego  de  ti,  amor,     y  de  quanto  te  servi  % 

jReniego  de  ti,  Mahoma,    y  de  quanto  hice  en  ti  96 

[Reniego  de  ti,  Mahoma,     y  de  tu  secta  malvada  96 

í  Retraída  está  la  infanta    bien  asi  como  solía             161,162  168 

(Retraida  está  la  infanta    que  no  está  como  solla  161 

Rey  don  Sancho,  r.  d.  s.,  cuando  en  Castilla  reiuó              48  1 1 

l  Rey  don  Sancho,  rey  don  Sancho,     no  digas  que  no  te  aviso  52 

I  Rey  don  Sancho,  rey  don  Sancho,    no  digas  que  no  te  lo  digo  52 

iRey  que  non  face  justicia    non  debia  de  reinar                 42  815 

/Rey  que  nom  guarda  justiça    nom  había  de  reinar  42 

vRiberas  de  Duero  arriba    cabálgan  dos  zamoranos  53 

|  Riberas  de  Duero  arriba    cabalgaron  zamoranos  58 

27    Ricas  aljubas  vestidas,    encima  sus  albornozes  65 

Saio,  se  a  aljabebes  ides,     por  dineros  perguntad  107 

110    Saliendo  de  una  montaria  206 

Salir  quiere  el  mes  de  marzo  136 

l Salte  presto  de  la  cama    que  parezco  un  gavilan  126 

(Salto  diera  de  la  cama    que  parece  un  gavilan  126 

ISe  a  Babeca  corre  muito,    o  meu  cavalo  voava  213 

SI  e  1  o  barrete  bem  voiava,     la  hegoa  mijor  corria                     61  319 

Se  o  cavalo  b<  m  corria,    a  egoa  melhor  voava  63 

Sentado  estava  Galfeiro    em  taboleiro  real  104 

Ser  des  mesageyro,  amigo,    que  nom  tendes  culpa,  nom  32 

Si  d'amor  pena  sentis  106 

25     Si  el  caballo  bien  corria    la  yegua  mejor  volaba           64,213  297 

Si  hábeis  (has)  de  tomar  amores  188 

Si  is  a  Francia,  el  cavallero,     por  Gaiferos  perguntad  109 

105    Si  no  muere  este  desejo  (sic)    moriré  yo  deseando  205 

Soberbo  está  Portugal  275 

3    Sobre  el  partir  de  las  tierras     Vid.  Castellanos  y  Leoneses  35 

118    Sobre  mi  vi  guerra  armar  208 

Sospiraudo  a  menudo     Vid.  Amenudo  203 

58    Sospirastes,  Valdovinos     Vid.  Tan  claro  111 

Sospiros,  que  ai  cielo  ides     Vid.  Caballero  108 

55    Su  comer  las  carnes  crudas,     su  beber  la  viva  sangue  105 

42    Su  padre  era  de  Ronda     Vid.  Mi  padre  -Que  su  padre  93 
Sus  adargas  ante  los  pechos     Vid.  Una  adarga 

Sus  arreos     Vid.  Mis  arreos  86 

Tan  claro  hacia  la  luna    como  el  sol  a  medio-dia  Vid.  110 

Tanta  Zaida  y  Adalifa    tanta  Draguta  y  Daraja  36 

ITiempo  bueno,  tiempo  bueno,     quieu  se  te  llevó  de  mi?  129 

T219,  228,  298,  311  334 

Tiempo  bueno,  tiempo  bueno,     mal  me  aproveché  de  ti  184  186 


ÍNDICE  349 
N."                                                                                                                                             Paga. 

95    Tiempo  de  plazer  cumplido,     quien  te  me  ipartó  de  mi  187 

85    Tiempo  es,  el  caballero,    tiempo  es  de  andar  de  aqui         169  311 

12    Todos  dicen  ainen,  amen    sino  don  Sancho  que  calla  49 

111     Triste,  sola,  emparedada  206 

23    Una  adarga  ante  los  pechos  y  en  la  (sa)  mano  una  azagaya  61 
Un  gallardo  paladin    aunqnc  invencible  vencido  Vid.   En 

[polvaredas  99 
53    Vamonos,  dixo  mi  tio,     a  Paris  esa  ciudad  Vid.  No  nos— En 

[figura    102  103 

59    Veinte  y  dos  heridas  tengo    que  cada  una  es  mortal  113 
Venid,  venid,  amadores,    quantos  en  el  mundo  son  2z9,  281, 

217  297 

89    Vete  de  ahi,  enemigo    maio,  falso,  enganador  174 

20    Vi  venir  pendon  vermejo    con  trecientos  de  caballo  58 

iVillas  y  castillos  tengo,     todos  á  mi  mandar  sone  37 

_     jVillas  y  castillos,  Cide,     me  han  dicho  que  hábeis  ganado  37 

iVillas  y  cibdades  tengo    y  freires  á  mi  mandado  37 

Vi  nas  y  castillos,  Cide,     me  han  dicho]que  hábeis  ganado  37 

Vocês  daban  prisioneros                                                           271  312 

75    Voyme  a  (las)  tierras  estranas    adó  ventura  me  guia  137 

44    Vuelta,  vuelta,  los  franceses!  94 

Y  asi  con  la  polvareda    perdimos  á  don  Beltrane  99 

36    Y  el  maestre  la  conoce    y  abaxava  la  cabeça  81 

10    Y  la  candeia  en  la  mano     Vid.  Doliente— Los  pies  46 

103    Y  que  nuevas  me  traedes    dei  mi  amor  que  allá  era             76  204 

Ya  cabalga  Calainos    á  la  sombra  de  una  oliva  Vid  Calainos  115 

Ya  piensa  Don  Bernaldino  264 

Yerros  por  amores     Vid.  Que  los  yerros— Y  los  yerros 

Yerros  son  solo  en  amores    indignos  de  perdonar  129 

Yo  estando  en  Guadelupe,     en  silla  de  oro  sentado  69 

115    Yo  le  daria,  bel  conde,    quanto  darsele  podia  906 

28    Yo  me  estaba  em  Coimbra,    cidade  bem  assentada                    67  271 

Yo  me  estaba  en  Barbadillo    en  esa  mi  heredad                   39  68 

Yo  me  estaba  en  Tordesillas  68 

Yo  me  estando  en  Giromena                                                      68  72 


INDIGE  DE  NOMES  E  DE  COISAS 


Afonso  (Gregório),  97,  260,  292, 

295. 
Africano   (o   Grande),    124,  229, 

232,  247,  248,  289.  Vid.  Mene- 
ses (D.  João). 
Agraz,  278. 

Ali  Pelayo!  que  desmayo,  107. 
Alá  tens  meu  coração,  207. 
Al  buen   c aliar   llaman   sancho 

(Sancho),  49. 
Albuquerque  (Afonso  de),  282. 

(Garcia  de),   254, 
282. 
Alcacer-Quebir,  27,  279. 
Aloalá  Ben-Zaide,  78. 
Alfama,  Alhama,  02,  77,  78,  214. 
Alfonso  V  de  Aragão  e  Nápoles, 

74. 
Alfonso  XI  de  Castilla,  331. 
Almeida  (Anrique  de),  251,   291, 

320. 
Almeida  (Gil   Vicente    de),    125, 

137,  292. 
Almeida  (D.  Pedro  de),  G4,  257. 
Almeida-Garrett,  6,  7,  9,  11,  104, 

135,  141,  162,  164,  166,  262. 
Almela  (Rodríguez  de),  29. 
Almourol,  277. 
Alora  la  bien  cercada,  49. 
Alvares  (Afonso),  261. 
Álvaro  (músico),  308. 
Alvito  (Barão  de),  253. 


Amaral  (Carlos  A.  Monteiro  do), 

322. 
Andrada  (Miguel  Leitão  de),  56, 

279,  294. 
Andrade  (Vid.  Andrada). 
Antologia  de  Menéndez  y  Pelayo, 

286. 
Antre  Sintra  a  muy  prezada,  265. 
Apialid,  261. 

Arbolancbe  (Jerónimo  de),    195. 
Arrenego»,  97,  261,  263,  286. 
Ataíde  (D.  Luis),  156. 
Aulegrapliia,  53,  84,  86,  94,   95 

112,  125,  167,204,  272,  281. 
auto  da  Ave  Maria,  77,  119,  206. 
da  Barca  da  Gloria,  41,  95, 

97. 
da  Barca  do  Inferno,  202. 
da  Cena  policiana,  í)7. 
da  Ciosa,  tiO. 
da   Fragoa  do   Amor,  191, 

25 1 . 
da  Lusitânia,  48,  61,   192, 

287,  324. 
da  Romagem  dos  Agrava- 
dos, 180,  206. 
das  Regateiras,  193. 
de  D.  André,  125,  137. 
de  D.   Duardos,  138,  137, 

204, 
de  Filodem»,  20,  30,  38,  85, 
246. 


352 


ÍNDICE 


Auto  de  Guiomar  do  Porto, 

138,  292. 
de  Inês  Pereira,  40. 
de   Quem  tem  fardos,  47, 

180. 
de  Rodrigo  e  Mendo,  53,  60, 

130,  133,  136, 192,  206. 
<\e  Kubena,dl,  97,  1U2,  164, 

169,  192. 
de  Valdevinos,  111. 
dei  Rei  Seleuco,  86,127, 130. 
dei    Triumpho   dei   Sacra- 
mento, 185. 
do  Desembargador ,  63,  84, 

128,137,  158,  171. 
do  Duque  de  Florença,  79, 

292. 
do  Fidalgo- Aprendiz,  164. 
do  Físico,  208. 
do  Juizo  final,  160,  292. 
do  Marquês  de  Mántua,  112. 
do  Procurador,  103, 119, 130. 

158,  171. 
do  Purgatório,  48,  312. 
do  Templo  d' Apolo,  32,  315. 
do   Triumpho  do  Inverno, 

307. 
do  Triumpho  do  Verão,  191. 
do  Velho  da  Horta,  241. 
dos  Almocreves,  68. 
dos  Amphitriões,  64,    116, 

137,  174,  321. 
dos  Cantarinhos,  60,  63,  78, 

107,  119,  137,  200. 
dos   Dois  Irmaòs,  86,  119, 

172. 


Auto  dos  Físicos,  180,  206. 
Autos  de  Afonso  Alvarez,  290. 
Fernão  Mendez,  29o. 
Francisco  Vaz,  290. 
Avisos  para  guardar,  97,   199, 

261,  298. 
Ayala  (Bernardino  de),  197. 
Azamor,  242. 
Azevedo  (Luis  de),  278.    • 
—       (Rodríguez),  213. 
Bahieca,  211. 
Baist  (G.),  327,  330,  331. 
Badajoz  (Garci  Sánchez  de),  229, 

231,  248,  263,  293,  304. 
Badajoz  (João  de),  músico,  309. 
Baena  (Alfonso  de),  músico,  309. 

—  (António  de),  músico,  309. 

—  (Gonzalo  de),  músico,  309. 
Barão  (O),  253. 

Vid.  Alvito  e  Silveira. 
Barata  (A.  F.),  280,  282. 
Barcelor,  156. 

Baroche.  Vid.  Meneses,  283. 
Barreiros  (Gaspar),  29,  236. 
Barreto  (Álvaro),  302,  303. 

—  (Francisco),  284. 
Barros  (João  de),  140,  209,  223, 

241,  246,  282,  295,  298. 
Bayahona  (Pêro),  músico,  309. 
Bela  infanta,  207,  227,  275,  293. 
Bela  mal  maridada.  Vid.  Bella. 
Belerma,  119,  297. 
Bella  infanta,  227,  275. 
Bella  mal-maridada,   14,    188ss, 

250,  252,  260,  270,  286,  289, 

291. 


O  texto,  publicado  por  Delbosc,  tem  o  teor  seguinte: 

La  bella  mal  maridada     de  las  mas  lindas  que  yo  vi, 
veote  trist'  enojada,     la  verdad  dímela  tu  a  mi. 
Si  has  de  tomar  amores,     vida  non  dexes  a  mi. 


Bollermann  (Ch.  Fr.),  152,  153. 

BeUrane  (Beltrão),  99,  101,  113. 

Berra urio  (Juan),  311. 

Bernardez  (Diogo),  100,  172,  291, 
294. 

Bilinguismo  dos  Judeus  peninsu- 
lares, 62,  95. 

Bilinguismo  dos  Portugueses  (de 
1450  a  1640),  256,  320. 

Bonilla  (y  San  Martin),  110,  133, 
302,  318,  330. 

Bom  Conde.  Vid.  González  (Fer- 
não). 

Boscan,  185,  262,  334. 

Braamcamp-Freire  (Anselmo), 
236,  237,  241,  251,  312. 

Braga  (Teófilo),  5,  6,  7,  9,  11,  19, 
41,  69,  70,  77,  90,  104,  105, 
107,  112,  129,  138,  162,  166, 
172,  188,  202,  222,  234,  249, 
277,  289,  296,  300. 

Bragança  (Constantino  de),  156. 

Brandão  (António  Pereira),  120. 

Brito  (Álvaro  de),  240r  278,  302. 
—  (Duarte  de),  121,  246,  252. 
292,  297. 

Brito  Rebello  (J.  I.;,  236,  239. 

Brito-Aranha  (Pedro  W.  de),  139. 

Burgos  (Diego  de),  20. 

Burguillos,  185,  195. 

Cabral  (Jorge),  282. 

Calainos    Copla*  de),  115,  199. 

Câmara.  Vid.  Padion. 

Caminha  (A.  Lourenço),  69,  176. 
—  (Pedro  de  Andrade),  45, 
50,  51,  59,  98,  154,  172,  186, 
279,  294,  311. 

Camões  (Luis  de),  30,  37,  38,  47, 
50,  51,  53,  54,  74,  85,  105,  115, 
127,  130,  137,  172,  174,  246, 
287,  294,  321,  332,  384. 

Çamora.  Vid.  Zamora. 


ÍNDICE  353 

Campo  (Florian  do),  17. 

Cananor,  282. 

Câncer  y  Velasco,  51,   122,  129, 

L56. 
Cancioneiro  da  Ajuda,  16,  216, 

300. 
Cancionero  de  Encina,  304. 
Cancionero  de  Estuniga,  304. 
Cancioneiro  de  Évora,  <>,  51. 
Cancioneiro  de  Luis  Franco,  2»i3. 
Cancioneiro  de  Modcna,  lfj. 
Cancioneiro  de  Paris,  185,  186, 

197. 
Cancioneiro   de   romances,   135, 

137,   155,  166,  170,  171,   173, 

178,  180,  190,  305,  306. 
Cancionero  de    Valdivielso,  136. 
Cancionero    General,    173,    178, 

181,   194,  230,  248,  303,  305, 

306. 
Cancioneiro  Geral,  publ.  por  A. 

T.  Barata,  280,  282. 
Cancioneiro  Geral,  28,  30,  48,  97, 

121,   131,   134,    184,    18(í,  217, 

248,  299,  303. 
Cancionero    Gallego-Castelhano , 

301 . 
Cancionero  Musical,  28,  75,  77, 

125,  169,  174,  188,   194,   226, 

239,   244,   304,   305,  309,  310, 

313,  315. 
Cancionero  Rennert,  16,  51,  124, 

173,  174,   181,   182,  231,  232, 

304. 
Cancioneiros  (em  geral),  296. 
Candeia   (Candeia)  na  mão  dos 

moribundos,  46  e  345. 

Cfr.   Gil  Vicente  III,  288. 
Cantar  guayado,  40,  62. 
Cantares  paralelístiscos,  208. 
Cantares  velhos,  324. 
Canto»  de  romaria,  296,  299,  326. 

24 


354 


ÍNDICE 


(■anos  (de   Carmona),   110,  205. 

—  (de  Sevilha),  110,206. 
Capelas  imperfeitas  da  Batalha, 

239. 

Carasa,  174. 

Cardona  (Alonso  de),  180,  229. 

Cardoso  (Jorge),  275. 

Carlos  Magno,  SI . 

Carmona.  Vid.  Canos. 

Carpio  (Bernardo  dei),  81,  100, 
112. 

Carta  I  da  Africa  (em  trovas), 
57,  74,  95,  128,  182, 
183,  18G,  203,  245. 

—  11  da  Africa  (em  trovas), 

57,  58,  61,  65,  74,  75, 
76,  83,  96,  116,  203, 
245. 

—  1  da  índia  (em  prosa),  83, 

105,  130. 

—  II  da  índia  (ou  de  Ceuta), 

51. 

—  III  (em  prosa),  85. 
Carta  de  Crisfal,  267. 

Carta- Proémio    do   Marques    de 

Santilhana,  30. 
Cartas   de  Egas   Moniz  (apócri- 
fas), 47. 
Cartagena  (D.  Alfonso),  301. 

—  (Pedro  de),  238. 

Carvajal  (Diego  dei,  197. 
Carvajales  (Miguel  de),   20,  265, 

304,  305,  329. 
Casada  sem  piedade,  vosso  amor 

me  ha  de  matar,  239. 
Castanheda,  282,  295. 
Castélhanismos  emromances  tra- 

dicionaes    de  Portugal,  153, 

323  ss. 
Castelhano,  linguagem  épica  da 

península,    11,  20,  21,  311  ss. 
Castellvl  (Coinmnlador),  221». 


Castillejo,  41,170,  185,  1 «.)(,. 
Castillo  (Hernan  dej,  303,  304. 
Castro  (António    Serrfio    dej,  92, 
122,  159. 

—  (Inêa  de),  66,  68,  114,132, 

176,  209,  240,  259,  298. 
Cataldo  Sículo,  238,  257. 
Captivo  são  de  captiva,  246. 
Cava,  29 

Vid.  Poema  da  Cava. 
Cavalo  que  fala,  100. 

Ila  outro  exemplo  no  Cancio- 
neiro transmontano,  N.°  47. 
Cego  (0),  musico,  309. 
Cegos  (jograes),  293. 
Cepeda    ^Joaquin    Homero   de), 

186. 
Cervantes,  20,  51,  88,   114,   117, 

125,  132,  199,265. 
C     ..ia  (Grutierre  dej,  245. 
Chamisso  (Adalbert  von),  173. 
Chiado  Vid.  Ribeiro  (António). 
Cid,  13,  18,  19,47,286. 
Clemencín,.  10. 
Coelho  (F.  A.),  6,  7. 
Coitadinho  de  quem  morre,  205, 

220. 
Coloma,  196. 
Comedias: 

Vid.  Aulegrafia,  287. 
Estrangeiros,  193. 
Eufrosina,  287. 
Clysipo,  287. 
Vilhalpandos,   65,   201, 
202. 
Como  dormirão  meus  olhos,  310. 
Conde  Claros,  125,  132,  287,  333. 

—  Dar  os,  167. 

—  Nilo  (Ninho),  139,  333. 
Condestável  (D.  Pe^ro  de  Portu- 
gal), 249,  301,  302,  30:;. 

Contos  populares,  164. 


ÍNDICE 


355 


Coplas  de  Calainos,  199. 
Coplas  de  Jorge  Manrique,  239. 
Coração  de  carne  crua,  116. 
Cornu  (Jules\  330. 
Corral  (Pedro  de),  20. 
Corrêa  (Gaspar),  30,  282,  295. 

—     (Gonzalo),  129. 
Cortesano.  Vid.  Milán. 
Costa  e  Silva,  168. 
Cotarelo,  309. 
Couto  (Diogo  do),  43,  103,  120, 

155,  157,  210,  282,  283,  295. 
Crasto.  Vid.  Castro. 
Crisfal.  Vid.  Falcão  (Cristóvam). 
Crónica  de  D.  Fernando  IV,  46. 
de  D.  Francesillo,  41, 

170,  197,309. 
do  Mouro  Rasis,  29. 
General,  17,  18,  29,  303. 
Rimada,  18,  33. 
Sarracena,  26,  27,  29. 
Cruz  (Frei  Agostinho  da),  294. 
—    (Frei    Bernardo   da),    27, 

295. 
Cueva  (Juan  de  la),  273. 
Cultura  Espanola,  6,  117. 
Cunha  (Nuno  da),  283. 
Danaso  (Cantor)  (?),  40. 
Delbosc   (R.    Foulché    Delbosc), 

286,  306. 
Deça  (Duarte),  12. 
Descordo,  263. 
Desfeita,  226,  227,  271. 
Deshecha,  226,  227,  274. 
Décadas  da  Ásia.  Vid.  Barres, 

Couto. 
Deslandes,  117. 
Diablo  Cojuelo,  101. 
Diaz  (Baltasar),   110,    112,    161, 

162,  227,  228,  275,  293. 
J)ido  (Carta  a  Eneas),  258. 
Disparates,  261. 


Disparates  da  índia,  37,  54,  86, 

92. 
Donzela-varão  (romance  da),  166, 

287.  . 
Duardos  e  Florida,   107,   133ss, 

228,  270,  276,  287,  328. 
Duarte  (Rei  D.),  302,  307. 
Durandarte,  118,  217,  297. 
Eparagógico,  89,  209,  319. 
Egloga  de  Silvestre  e  Amador, 

123,  304. 
Eglogas,  293. 

En  toda  la  trasmontana,  247. 
Encina  (Juan  dei),  125,  229,  230, 

264. 
Encyclopedia  Republicana,  7. 
Enriquez  (Fadrique),  195. 
Ensaladilla    (publicada    por    F. 
Wolf),  36,  39,   42,  53,  ".0,  78, 
83,98,  104,  118,  119,  128,155, 
162,  166,  173,  178,  184,  230. 
Entra  mayo  y  sale  abril,  136. 
Epitáfios  satíricos,  84,  281. 
Escobar   (Nicolás    de),    músico, 

309. 
Eatuniga,  304,  305. 
Estana  (Bartolomé  Villalba  y), 

45. 
Eufrosina,   36,  57,  81,  116,  120, 

125,  171,202,273. 
Falcão  (Cristóvam),  120, 193,  268, 

265,  289,  292,  310. 
Farsa  Vid.  Auto. 
Fernández  (Álvaro),  músico,  308. 
—         (Jorge),    Vid.   Frade 
da  Bainha. 
Fernández  (Lucas),  809. 
Fernández-Thomas  (Pedro),  7. 
Ferreira  (Dr.  António),  291,  820. 
Filodemo  Vid.  Auto. 
Fita  (Arcipreste  de\  225,  302. 
Flerida.  Vid.  D.  Duardos. 


N»ICt 


Floreêta  de  vários  romances,  277. 

Valhas  volantes,   111,    162,    261, 
262,279,  298,304. 

Vid.  Pliegos  sueltos. 

Folheto  de  Ambas  Lisboas,    138. 

Fonte  (Fontes),  cantor,  309,  31  1. 

Frade  da  Rainha,  24G. 

Francês  (versos  era  fr.  no  Canc. 
Ger.),  239,  308,  333. 

Francisquilho    (truão    de    Car- 
los V),  309. 

Frutuoso  (P.  Gaspar),  276. 

Fuonllana,  82. 

Fuensalida  (Conde  de),  243,  248. 

Fuentes  (Alonso  de),  226. 

—  (Diego  de),  197. 
Furtado  (Jorge),  279. 

—  (Margarida),  252. 
Gabelo  (Cavalo),  213. 
Gabriel,  o  músico,  194,  195. 
Gaiferos,    11,  48,   96,   102,    122, 

287. 
Galan  (Un),  231. 
Galvão  (António),  283. 
Gama  (D.  Joana  da),  279. 

—     (Paulo  da),  282,  283. 
Games,  196. 
Garcia  t^Diego  G.  de  Bragança), 

200,  279,  293. 
Garcilaso  (de  la  Ves;a),  123. 
Garci-sanchez  Vid.  Badajoz. 
Gato  (Juan  Alvarez),  20,  248. 
Gavião,  126. 

fiasco  (António  Coolho),  47. 
Genetes,  78. 
Giraldez  (Afonso),  331. 
Glosas  de  romances  abreviados, 

106,  155,  287. 
Goa,  282,  283. 
G-odoy  (Francisco),  100. 
Góes  (Damião  rio),  243,  311. 
Gomes  (Alexandre;  Flaviense,  32. 


Gonzàlez    Pernán),  el  Buen  < 

de,  19,  33,  :;i. 
Góngora,  170. 
Goyri  (D.  Maria).  Vid.  Menéndez 

Pidal. 
Graal   ( I Tema „da    dõ)t  290,   B27. 
Grão  Capitão     Gonzalo  IVinán- 

dez),  38. 
Grimm  (Jakob),  175. 
Grosar  romances,  67. 
Guevara  (Luis  Velez  de),  73,  I7<i, 

305. 
Guinéo (linguagem  depretoj,  191, 

270. 
Guimarries(Delfim), 263,  266,292, 

294. 
Ilagadesle,  hagadesle  monumen- 
to de  amores,  ;he!,  231. 
H   rdung  (Victor),  6. 

Vid.  Cancioneiro  de  Évora. 
Haiiaiias  }7  la  Rua,  245. 
Hero  e  Leandro,  154. 
Historia  de  Vespasiano,  33. 
Homem  (Pedro),  255,  292. 
Hurtado   de  Mendoza    (Diego), 

196. 

—  de  Toledo  (Luis),  75,  155, 

265. 
lllustraçào  Trasmontana,  novís- 
sima revista  portuguesa  (Por- 
to, 1908),  em  que  apareceram  al- 
guns romances  tntdicionaes. 
índices  Expurgatorios,  139,  140. 
Infanta,  Infantina ,  Inft i  n tinli a , 
227,  228,  287. 

—  de  França,  169,  227. 

—  enfeitiçada,  165,  227. 

—  que    finge    de    malata , 

165  s.,  227. 
Infantes  de  Lara,  17,  19,  35,  3!). 
Jdvosjazed.es,  peixes  nas  redes, 
202,  325. 


ÍNDICE 

JHo  Lourenço,  el  de  los  Criemos 

de  oro,  72,  333. 
Jeanroy  (Alfred),  5,  16. 
Joilo  Vid.  Jao;  Manuel;  Meneses. 
João  (Rei  D.  João  II.),  250. 
Judeus,  7,  40,  62,  95. 
Justa  fuê  mi perdición,  123,  237, 

262. 
Justa  Rodríguez,   235,  237,  238. 
Kelly  (James  Fitzmaurice),  302, 

318,  330. 
Koehler  (Reinhold),  175. 
Lacerda  Mexia  de),  73. 
La  [/'irra  toma  receio,  24(i,  252. 
Lambra  (D.),  39. 
Lang  (H.  R.).   Vid.    Cancionero 

Gallego-Castellano ,  301. 
Leite  de  Vasconcellos  (Dr.  José), 

7,  9,  29,   175,  211,  316,  318, 

321,324. 
Lendas  da  índia,  30. 
Libro  de  música  de  vihuela.  Vid. 

Milán. 
Livraria  do  Povo,  35. 
Livro  de  linhagens ,  29,  34,  39. 
Livros    de    Cordel.    Vid.    tolhas 

Volantes. 
Lobo  (D.   Diogo,  Barfto  de  Alvi- 
to), 253. 

—  (Fernão  Rodríguez  Lobo). 

Vid.  Soropita. 

—  Alvito,  254. 

—  (Francisco  Rodríguez),  16, 

49,  91,  188,  279,  295. 
Loigny  (Monsenhor  de),  308,  333. 
Lopo  de  Vega,  10U,  176,  186,  247. 
López  (Afonso),  140. 

—  (Anrique),  97. 

—  (António  de  Trancoso),  16, 

135,  279,  29: i. 
Lura  (Francisco  de),  14,  170. 
Lucanor  (Conde),  230,  234. 


Lucena  (João  Rodríguez  de\  258. 

Lusíadas  (Os),  332. 

Lusismos  em  textos  castelhanos 
de  autores  portugueses,  29, 
152,  229,  245,  316,  328,  331. 

Machado  (Simão),  187. 

Macias,  249,  250,  256,  305. 

Madeira  (Domingos),  músico,  27. 

Madrid  (António  de),  309. 
—       (Francisco  de),  309. 

Mal  de  amores,  14,  197,  218,  287. 

Maldições,  97,  199,  200,  261,  298. 
O  título  de  Maldiciones,  é  dado 
em  algumas  Folhas  volantes  ao 
Claro-escuro  de  (larcisanchez 
(El  dia  infeliz  noturnó). 

Maldições  de  Salaya,  199,  200, 
286,"  293. 

Maldizer  (Trovas  de  escarnho  e), 
281. 

Manrique  (Gómez),  159,  240,  301, 
302. 

Manrique  (Jorge),  237. 

Manuel  (D.  João),  16,  230,  231, 
233,  246,  248,  265,  291,  297, 
305. 

Manuel  (D.  Juan),  230,  234. 

Margarida  de  Sant'  Ana.  Vid. 
Micaela. 

Mariana  (Soror),  a  Religiosa  por- 
tuguesa, 266. 

Marín  (Francisco  Rodríguez), 
102,  175,  188. 

Marquei  de  Máutua,  110,  112,161. 

Marquina  (Francisco),  171,  185. 

Mascarenhas  (D.  Leonor),  252. 

Matantes,  84,  86,  168. 

Melo  (D.  Diogo),  28:;. 

Mello  (1).  Francisco  Manuel  de), 
49,  53,  91,  93,  108,  121,  158, 
162,  164,  191,  208,  217,  212, 
275,  283,  295. 


ÍNDICE 


Mena  (Juan  de),  20,  49,  239,  249, 

251,  252,  301,  302,  303,  305. 
Mendes  dos  Remédios  (Dr.),  105, 

219. 
Menéndezy  Pelayo(  Marcelino),  5, 

6,  10,  17,  42,43,  112,  164,228, 

238,  241,   244,  250,  286,  297, 

300,  330. 
Menéndez  Pidal  (Juàn),  5,  8,  13, 

17,  22,  25. 
Mméndez  PHal  (Raraón),  5,  7,  8, 

16,  22,  41,  106,  108,  121,  281, 

284,330,  331. 
Menéndez   (D.   Maria   O-oyri),  8, 

22,  26,  135,  178,  284. 
Meneses  (D.  João  de),  Cantanhe- 
de,   124,   201,   229,   232,    239, 

240ss,  252,  265,  272,  289,  291. 
Meneses  (D.  João  de),  Conde  de 

Tarouca,   234,   240,   241,    292, 

305,  311. 
Meneses  (D.  João  Rodríguez  de 

SáeMj,  32,  64,  131,258,292, 

311. 
Meneses  (D.  Jorge  de),  Baroche, 

283. 
Menina  e  moça,  293. 
Merlim  (Livro  de),  327. 
Mi  tormento  desigual,  245. 
Micaela    (Sor  Micaela  Margarida 

de  Sant'  Ana),  108,  291. 
Miehaélis  (Carolina).    Vid.  Vas- 

concellos. 
Milá  y  Fontanals,  6,  7,  10,  11, 

14,  15,  17,  20,  188,  327. 
Milan  (Luis),  83,  84,  90,  103,  109, 

111,   117,   119,   128,  133,  173, 

197,227,  311. 
Minha  alma,  lembrai- vos   d' ela, 

177. 
Miranda  (Dr.  Francisco  de  Sá  de 

M.),  65,  101,  193,  194,  201,  202, 


234,  244,   247,  25!»,   272,    294, 
298,  311. 

Mirandistas,  294. 

Misanco,  Misancho,  Misauco,  199. 

Kiscellánea  e  variedade  de  his- 
torias, 38,  260,  309. 

Vid.  Resende  (Clareia  de). 

Miscellánea  ou  Selada,  56,  81. 
Vid.  Andrada. 

Moliana,  91. 

Molina  (Tirso  de),  225,  290. 

Momos,  255,  299. 

Mondragón  (Cristóbal   Velázqaoz 
de),  185,  195. 

Moniz  (Pêro),  254. 

Montemayor  {Leyenda  dei   Ahad 
Don  Juan  de),  331. 

Montemor    (Jorge    de),    16,    131, 

173,  196,  245,  279,  294,  307, 
308,311. 

Montesino  (Fr.  Ambrósio  de),  46 
Montesinos,  117. 
Moraes  (Francisco  de),  277. 
Morrer  de  amores.    Vid.  Mal  de 

amores. 
Munthe,  13,  168. 
Música  de  romances,   10,  78,  82, 

89,  90,  125,  142,  157,  162,  169, 

174,  179,  180,  188.  Vid.  Enci- 
na,  Gabriel,  Fuenllana,  Millanj 
Narvaez,  Ocaiia,  Pisador,  Sali- 
nas, Valderrábano,  Vázijuez, 
Vicente  e  Canciouero  Musical, 
306,  307. 

Muy  graciosa  es  la  doncella,  311. 
Não  morreu  de  tabardilho ,  285. 
Nem  morreu  de  garrotilho,  218. 
Nem  morreu  pelas  tabernas,  286. 
Niaa,  erguedme  los  ojos,  310. 
No  hallo  á  mis  males  cul pa,  233, 

239,  245,  248. 
No  murio  por  las  tabernas,   59. 


Norabuena  quedas,  Menga,  310. 

Noronha  (D.  Alfonso  de),  283. 
—       (D.  António  de),  103. 

Nunca  cerraran  los  ojos,  245,  311. 

Nunca  fue  pena  mayor,  310. 

Nuncas,  79,  199,  201,298. 

O  teneis  miedo  á  los  mo  vos,  ó  en 
Francia  teneis  amiga,  111. 

Ocaiia,  197. 

Oliveira  (Athaide  de),  7,  27. 

(Cavaleiro  de),  135,  153, 

295. 
(Fernão  de),  140. 

Olvide  y  aborreci,  248. 

Ormuz,  283. 

Os  />resos  contam  os  dias,  265. 

OvHio  (IleróYdas,  trad.  em  por- 
tuguês), 258. 

Padilla  (Pedro  de),  196. 

Padron  (Juan  Rodriguez  dei  Pa- 
dron),  20,  231,  249,  250,  304, 
305,  329. 

Palavras  moraes,  261. 

Palmeirim  de  Inglaterra,  277. 

Pareados  dissonantes  (ou  discor- 
dantes) 97,  261,  263,  265,  274, 
298. 

Pares  (Doze p.  de  França) ,  81 ,  94. 

Paris  (G-aston),  5,  11. 

Passando  el  mar  Leandro  el  ani- 
moso, 123. 

Pedro  (Infante  D.),  Regente  de 
Portugal,    278.    301,302,308. 

Pedro  (Infante  D.),  filho  de  D. 
João  V, 308. 

Pensando  vos  estou,  filha,  263, 
298. 

Peralta  (Luis),  90. 

Pereira  (A.  Gomez),  220. 

Pereira  (Francisco  López),  28. 

Pereira  (Manuel  P.),  d'Os??eiii  ou 
de  Santarém,  57,  71. 


ÍNDICE  359 

Pereira  (Nuno),  190,  249,  291 . 

Perez  (Alonso),  196. 

Pina  (Ruy  de),  48. 

Pinar,  181,   182,   230,  231,   232, 

304. 
Pinto  (Jorge),  53,  60. 
Pires  (Tomas),  7. 
Pisador,  78,  82,  311. 
Pliegos   sueltos,    123,    262,    296, 

298,  303,  306.  Vid.  Folhas  Vo- 
lantes. 
Poema  (apócrifo)  da   Cava,   26, 

330. 
Poema  de  Alexandre,  330. 

de  Alfonso  XI,  33,35,301, 

331. 
de  Bistoris,  gram   sabe- 
dor, 331. 
do    Abade   D.    João   de 
Montemor,  331. 
Poesia  épica  dos  Peninsulares, 

329  ss. 
Polo  (Gaspar  Gil),  196; 
Polvareda,  polvaria,  polvorinho, 

100. 
Porebowicz  (Eduardo),  28. 
Porquês,  97,  199,  261,  284,  298. 
Porquês  de  Setúbal,  250,  254,  255, 

257,  295. 
Portalegre  (Frei  António  de),  160, 

279,  309,  310. 
Portos  de  Aspa,  43,  82. 
Portugal  (D.  Francisco  de),  91, 

98,  109.  118,  114,  117,119,  127, 

129,  137,  295. 
Portugal   (D.    Manuel   de),    278, 

279. 
Portugália,  7. 

Postos  estão  frente  a  frente,  27!>. 
í'ranfo  d,:  Maria  Parda,  16,  101. 
Prestes  (António),  35,  60,  63,  77, 

78,  85,  103,  107,  119,  121,  130, 


360  ÍNDICE 

L36,  158,  16»,  172, 173, 198, 200, 

206,  245. 
Priebsch    Br.  Joseph),  172. 
./'/•/  maleon ,  134. 
Primavera  y  flor  de  romances, 

28G. 
Príncipe   D.   Afonso  (filho  de  D. 
João  II),  46, 226,  231,  235,  239, 
241,    242,243,   251,  252,  260, 
274,  276,  278. 
Príncipe  D.  João  (II),  233,  250, 

251. 
Príncipe  D.  João  (III),  243. 
Príncipe  I).  João  (alho  de  D.  João 

III),  55,  272,  273,  274,  275. 
Príncipe  D.  Juan  (filho  dos  Reis 
Católicos),  45,  48,  272,  273,  274, 
275. 
Prisioneiros  românticos,  178,  287. 
Processo  do  Cuidar  contra  o  Sus- 
pirar, 190,  244,  249,  252,  291. 
Provérbios,  35,  42,  95,  129,  137, 
214,  215,  216a.,  261,  290,  314. 
Pungor,  283. 

Quando  Roma  conquistava,  159. 
Foi  imitado  por  Gil  Vicen- 
te na   Exhortação   da 
Guerra. 
Que  es  de  ti,  desconsolado,  310. 
Que  haré  yo  sin  ventura,  310. 
Que  no  vivo  porque  vivo,  246. 
Quem  tem  alma  não  tem  vida, 

246. 
Quem   tem   farelos,    180.   Vid. 

Auto... 
Quesada,  190,  195. 
Quevedo,  34,  114,  116,  173. 
Quini  pone  su  afleion,  310. 
Quixote  (D.)  26,  33,  88,  119,  157, 

199,  314.   Vid.  Cervantes. 
Uapaz    do    Conde    Dar  os    (O), 
167. 


Ratinhos  (da  Beira),  67,  125,818, 

320. 

Veja-sc  Revista   Lnsi 
ta  na.  XI,  p.  27. 
Recuerde,  el  alma  dormida,  '■'>!, 

303. 
Regente  (O.),  Vid.  D.  Pedro  In- 
fante. 

Regras  de  bem  viver,  261,  298. 
Rei  D.  Rodrigo,  25,  287. 
Reinalte,  Reinaldos,  99. 
Reinosa  (Rodrigo  de),  170. 
Reinoso  (Alonso  Núnez  dei,    131, 

166,  265  (Vid.  Erratas). 
Reis  Dâmaso,  297. 
Resende  (André  Falcão  de),   207, 
218,  279,  294,  299. 

—       (Garcia  de),    38,  46,    71, 
177,   190,  215,   229,  248,  251, 
252,  259,  298,  305,  309,  311. 
Revista  de  Guimarães,  7. 
Revista  do  Minho,  7. 
Revista  Lusitana,  7. 
Revue  Hispanique,  7. 
Riaiio  (Pedro  de),  161, 
Ribera  (Juan  de),  188.  ¥ 

Ribeirinha   (Maria   Paes   Ribei- 
ra), 87. 
Ribeiro  (António   R.,  o  Chiado), 
125,  193,  261. 
—       {Bernardim),    16,    122, 
123,  131,  261,  272,  281,  289, 
292,  297,  298,  305,  320. 
Rimance,  71,  221,  222,  223,  228, 

296,  298. 
Rocinante,  Rocynam,  29. 
Rodrigo  (D.),  Vid.  Rei. 
Rodríguez  (Daniel),  9. 
Rodríguez   (D.   João   R.   de  Sá   e 
Meneses),  A7id.  Meneses. 

—  (José  Maria,  -jr>;». 

—  (Lucas),  56,  203. 


ÍNDICE 

Rodríguez  de  la  Câmara,  Vid.  Pa- 
drón). 

Roland   (Chanson   de),    19,  94, 

101. 
Roldão,  94,  116,  118. 
Romance,    como    designação   de 
cantaras  narrativos,  222,  223. 
Romances  apócrifos,  22. 

asturianos,  328. 

artísticos,  304. 

carolíngios,  19,  94. 

históricos,  6G,  14.,  305. 

Romance  da   Bella  mal-marida- 

da,  188,287,297,310, 

da  Donzela-varão,  1G7, 

1*58,287,333. 
da  lnfanti  nha,  227,287. 
d&  Nau  Cateri  neta,  207, 

334. 
da  Rola  viuva,  73,  287, 

334 
das  Senhas  do  marido, 

106,  108,  207,  227. 
de  Avalor,2(\2,2i .5,298. 
de  Bernal-  Francas,  333. 
de  Búrnardo  dei  Car 

pio,  31  a  34,  286. 
de  1).  Duardos  e  Fle- 

fida,  24,  107,   133hs, 

228,   270,   276,    287, 

328. 
de  Floresvento,  7. 
de    Fonte  -  frida,    173, 

174,  334. 
de  Gai feros,  11,48,96, 

102sa,  122,  204,  287. 
de  Oerinetdos,  838. 
de   h.   Tnêt  de  (lastro, 

204, 209. 
de  1).   Isabel  de  Liar, 

204,  209. 


861 

Romance  de  Jão-  Lourenço,  72, 
333. 

de  Hero  e Leandro,  164. 

de  Roncesvales,  11,  94, 
98,  28(3. 

de  Santa  Iria,  22,  333. 

de  Silvaninha  (ou  Sil- 
varia), 12(>,  161,  163, 
275,  287,  293. 

de  Tiempo-bueno,  129, 
184,  186,  219,  228, 
287,  298,  311,  334. 

de  Valdevinos,  109,2*6. 

dei  Cid,  41  a  65,  211, 
286,  333. 

do  Cativo,  323. 

do  Conde  Alarcos,  161, 
285,  287. 

do  Conde  Claros,  126, 
128,  204,  207,  287, 
333. 

do  Conde  Nilo,  132,  333. 

do  Duque  de  Alba,  9. 

do  Mal  de  amores,  14, 
218,  287,  334. 

do  Monte  Medulio  (apó- 
crifo), 330. 

do  Penitente  (Rei  D. 
Rodrigo),  20,  286. 

do  Príncipe  D.  Alfonso, 
22,  239,  242,  243,  251 , 
252,  260,  278,  883.  * 

do  Príncipe  I).  João, 
21á,  275. 

do  Príncipe  D.  Juan, 
15,  -18,  272,  273,275. 

do  Priiioneiro, 218,  2K7, 
834. 

dos    Figueiredos,    330. 


*    A  análise  do  romance  popular, 
prometida  a  p.  2i'ó  lieou  de  referva. 


362  INDH 

Romances  doa    Xaboncrub,   2o2, 
286. 

—  contrafeitos,  219,  810. 

—  trovados,  58,  1G5,  310. 
Romero  (Silvio),  (5. 

Rouanet  (Leo),  51,  59,  185,  197. 
Sá  e  Meneses    Vid.  Meneses. 
Sá  de  Miranda  Vid.  Miranda. 
Sabugosa  (Conde  de),  292,  308. 
Sagramor,  55,  138. 

Vid.  Segunda  Tavola  Re- 
donda. 
Said-Armesto  (Victor),  7. 
Salaya  (Alonsode),  200. 

Vid.  Maldições. 
Salcedo  (músico),  309. 
Salinas,  125,  162,  311. 
Salsete,  210,  228. 
Sande  (Ruy  de),  233,  237,  260. 
Santa  Teresa  de  Jesus.  246. 
Santillana  (Marquês  de),   20,  30, 

231,  247,  301,302,  303. 
Sarzedo    (Miguel    de)    músicc, 

309. 
Saravia  (Gabriel  de),  16. 
Saudades  da  Terra,  275. 
Saudade  minha,  73. 
Sebastião  (Rei  D.),  26,  273,  275. 
Sedano  (músico),  309. 
Segral,  302. 
Segunda    Tavola   Redonda,  55, 

133,  273,  274. 
Sentenças,  298. 
Serrana  de  la  Vera,  7. 
Serranilhas,  247,  296,  320,  325. 
Serrano  y  Sanz,  56. 
Sibila,   Sebila,  Sybilla,   Sevilla, 

110,  115. 
Silva  (Feliciano  de),  265. 

—    (D.   Leonor    da),    190,   249 
251,  252,260,  291. 
Silva  (A.  Rebollo  da),  87. 


Silveira  (Fernão  da),  o   de  Toro, 

225,  250,  25» i,  257,  259. 
Silveira   (Fernflo  da),  o  Coudel- 

mor,  252,  256,  257,  259,  292. 
Silveira  (Francisco  dai,  250,  261 , 

252,  257. 
Silveira  (João  da),  223,  225,  253, 

292. 
Silveira  (Dr.  João  Fernández  da) 

225,  253 . 
Silveira  (Jorge  da),  190,  249,250, 

251,  252,  291,  292. 
Silvestre   (Gregório),    176,   192, 

196,  197,  279,  294,  307,  311. 
Soares  (Jerónimo  Ribeiro),    129, 

208. 
Solao  70,   263,  264,  298,312. 
Soropita  (Fernão  Rodríguez  Lobo), 

39,  50,  282,  294. 
Soto   (Barahona   de),    131,  174, 

196,  288. 
Sou3a  (D.  João  de),  223,  254  s. 

—  (Frei  Luis  de  Sousa),  265. 

—  (Ruy  de),  224,  254  s. 
Storck  (Wilhelm),  16,  30,  37,  38, 

83,  128,  136,  152. 

Surrate,  103. 

Tavares  (Abade  José  Augusto), 
7,  104,  211. 

Tavoada  do  Cancioneiro,  254. 

Teixeira  (Tavares),  211. 

Terremoto  dos  Açores,  275. 

Torneio  de  Euxobregas  (Xabre- 
gas), 55,  274,275. 

Toro  (Batalha  de),  225,  226,  305. 

Torres   (André  de),  músico,  309, 
310. 

Tradição  (A),  7. 

Tr agendo  los  pies  descalzos,  las 
unas  corriendo  sangre,  105. 

Tremiiio  (Jerónimo  T.,  de  Gaiata 
yud),  113. 


ÍNDICE 

Triste  dei,  triste,  que  muere,  si  ai 

paraíso  no  va,  205. 
Tristeza,    quien   d  mi   vos   dio, 

310. 
Trovas,  70,  71. 
Trovas  de  D.  Inês,  259,  278,  289. 

Vid.  Castro;  Resende. 
IVovas  de  escárnio  e  maldizer, 

273,  281. 
Uhland  (Ludwig),  173. 
Ulysipo,   64,  111,  115,  120,  130, 

159,  163,   167,    170,    186,   205, 

206,  273. 
Una  donzella  divina,  310. 
Valderrábano,  115,  311. 
Valdevieso  (Nicolás  de),  309. 
Valdevinos,    Valdovinos,  94,  99, 

109,  115. 
Valdivielso  (Josef  de),    108,  136. 
Valera  (Mossen  Diego  de),  301. 
Vasco  Goncellos  (Jorge  de),  271. 
Vasconcellos  (Jorge  Ferreira  de), 

16,  36,  47,   52,  53,  55,   85,   98, 

112,  125,  130,  133,  138,  140, 
.    163, 167,  170,  193,  227,244,  264, 

271,   275,   281,   287,   294,  321, 

333. 
Vasconcellos  (Dr.  José  Leite  de). 

Vid.  Leite. 
Vasconcellos  (D.  Carolina  Michaè- 

lisde),   5,  7,13,  16,  21,27,29, 

45,69,75,78,  8(5,94,   101,114, 


363 

123,   124,   172,  184,  188,   197, 
199,229,  234,  239,  330. 

Vega  (Gabriel  Laso  do  la),  70, 
273. 

Lope.  Vid.  Lope. 

Veiga,  Tangedor  de  harpa,  156. 
—  (Estacio  da)  6,  9,  26,  27, 
45,  48. 

Vespasiano  (Lioro  de),  327. 

Viana  (A.  R.  Gonzálvez),  316, 
318,  332. 

Vicente  (Gil),  16,  32,  40,  41,  46, 
47,48,  61,  91,  95,  97,101,  102, 
164,  169,  180,  191,  192,  194, 
202,  206,  207.  244,  254,  270, 
287,  292,  299,  307,  311,  312, 
315,325. 
Vicente  de  Almeida  (^Gil)  Vid. 
Almeida. 

—  (Luis),  139. 

—  (Paula),  139. 

Vilancete,    Villancico  por  deshe- 

cha,  226. 
Vilhacastim,  311. 
Villalobos  (Dr.),  185. 
Viterbo  (Dr.  Sousa), 294, 309,  311. 
WolF  (Ferdinand),  6,  11,  36,  72, 

88,  91,286,  296. 
Xahoneros  Vid.  Romance. 
Ximenez  (Licenciado),  196. 
Zamora,  48,  53,  225. 

—      (Juan  de),  190;  195. 


Erratas  essenciaes, 

Correcções  e  Adições. 


Pagina. 

Linha. 

12 

Onde  se  lé: 

Leia-se: 

12 

d'quell'  outro 

d'aquel'outro 

13 

7 

una 

uma 

16 

21 

en 

em 

16 

34 

de  Ajuda 

da  Ajuda 

17 

12 

d'ora  a  vante 

d'ora  avante 

23 

13 

donosso 

do  nosso 

3G 

23 

1 567 

i  >><;:; 

40 

34 

o  Apêndice  N°  12 

P  .  209 

41 

18 

E 

É 

41 

26 

un 

um 

41 

34 

En 

Em 

42 

2 

queias 

queixas 

48 

15 

III  217  e  249 

III  217  e  I  249 

49 

22 

Sancho 

sancho 

51 

7 

agra  dou 

agradou 

53 

22 

o  piniáo 

opinião 

54 

23 

Pr.  4)  (3) 

Pr.  43  (3) 

55 

13 

mantedor 

mantenedor 

55 

28 

so 

SÓ 

57 

27 

XVIII 

XVII 

61 

2 

[y  en  su  mano  una  aza- 

çaya] 

y  en  su  mano  una  azagaya 

62 

34 

m'stavas 

m'estavas  ' 

66 

1 

cabezas 

caberás 

70 

33 

a  cora  e fio 

ao  coraçno 

73 

4 

pertencem  em 

pertencem  a 

73 

5 

acolhidos  a 

acolhidos  em 

73 

IH 

mudada 

mudado 

74 

86 

Eu  me  era 

Eu  me  sam 

80 

16 

á  quelle 

àquele 

80 

32 

Granada  (gic 

Acrescente  se:   A    formula 
ocorre    nas    Trovas    de 

Nuno  Pereira  a  Anrique 
de  Almeida,  na  sua-vin- 
da  de  Castela,  com  o  Du- 
que. 


366 

ERRATAS 

Pagina. 

L  Inha. 

13 

Onde  ■ 

/ niu-se: 

Kl 

o  caberá 

a  cabeça 

82 

21 

romance  original 

romanoe 

81) 

21 

flor 

dor 

90 

11 

con 

i  o  m 

93 

4 

sangro 

Híingue 

98 

29 

peado- 

peado- 

103 

20 

Surate 

Surrate 

105 

38 

acguns 

alguns 

107 

25 

aljabebes 

[a]  aljabebes 

109 

22 

vagativus) 

vagativus, 

110 

6 

oje 

hoje 

110 

12 

ó 

0 

110 

26 

propiedade 

propriedade 

110 

33 

Depois  de:  Anules  p, 

31 

devia,  entrar  o  verso:  Tan 
claro 

113 

19 

Baldovinos 

Valdovinos 

125 

4 

Portugal, 

Portugal  (1) 

125 

6 

apaixonados»  (1), 

apaixonados, 

127 

32 

galaeo 

galeão 

137 

18 

de 

do 

139 

6 

compilação     . 

compilação 

141 

36 

siguintes 

seguintes 

152 

33 

romance 

romance  em 

155 

13 

Conto 

Couto 

158 

11 

(não  do  fero — d'Achi 

0 

(nâo  do  fero) — d' Acha 

1G5 

28 

caza 

oazar 

106 

2 

Rodrigo  de  Reinosa 

Alonso  Nunez  de  Reinoso 

166 

27 

Louise  Labé,  a  donzela  de 

Louise  Labé;  a  donzela  de 

Lutzelburg   ou    a 

Monja 

Lutzelburg;  a  Monja -Al- 

Alferez; Catalina 

Erau- 

ferez  Catalina  Erauso; 

so,  Antónia  Rodri 

guez 

Antónia  Rodríguez 

172 

8 

[97] 

[87] 

173 

11 

geralmete 

geralmente 

174 

25 

pajarijas 

pajarillas 

182 

8 

Carta 

Carta  II 

184 

4 

e 

é 

190 

23 

de  Silveira 

da  Silveira 

201 

5 

passo 

posso 

203 

12 

A  menudo 

[101]  A  menudo 

206 

11 

(III  233) 

(III  323) 

208 

28 

orno 

como 

211 

19 

respeitivo 

respectivo 

217 

20 

de  Marquís 

do  Marquês 

219 

1 

êsceveu-a 

escreveu-a 

221 

14 

a  existência 

a  nTío  existência 

221 

25 

Belema 

Belerma 

222 

1 

de  Castela 

de  Castela 

222 

11 

de  justiça 

de  justiça 

ERRATAS 

367 

Hayina. 

L  inha. 

3 

Onde  se  lê: 

Lei  ase: 

223 

1636 

1540 

230 

33 

da  teatro 

do  teatro 

231 

24 

Depois  de  endechera  acres- 

Encina  tornou  a  empregá- 

cente-se: 

la  na  Egloga  de  Plácida 
y  Victoriano  (p.  262  das 
Obras) 

233 

1 

versos  (1) 

versos 

233 

2 

viviam 

viviam  (1) 

236 

26 

Acrescente-se: 

A  sentença  contra  ele  foi 
impressa  no  Archivo His- 
tórico II  71 .  Ahi  tem 
sempre  o  distintivo  0 
Moço. 

240 

21 

Brasas 

Brasões 

241 

25 

Feyos 

Feytos 

245 

9 

pasafraseada 

parafraseada 

250 

35 

259 

219 

250 

35 

de  Silveira 

da  Silveira 

251 

7 

do  cuidar 

do  Cuidar 

252 

3 

persiguia 

perseguia 

253 

21 

Bocaccio 

Boccaccio 

259 

17 

[145] 

[148] 

264 

24 

de  Encina 

dei  Encina 

265 

26 

Jarhesbericht 

Jahresbericht 

270 

13 

em  1539 

em  fins  de  1539  ou  princí- 
pios de  1 544 ) 

272 

28 

1515 

1516 

275 

29 

a  25  de  Julho,  dia  de  San- 

a  15  de  Agosto,  e  na  o  a  25 

tiago;   segundo  outros  a 

de  Julho,  dia  de  Santia 

5  de  Agosto. 

go,  nem  a  5  de  Agosto, 
como  outros  afirmam. 

278 

4 

exemplares 

exemplos 

280 

13 

pró  pio 

próprio 

283 

12 

de  Gama 

da  Gama 

285 

1 

IX 

IV 

288 

4 

Neles 

Nelas 

294 

14 

Bernardez,  Frei  Agostinho 

Bernardez,    e    podia    ter 

da  Cruz 

acrescentado  Frei  Agos- 
tinho da  Cruz 

295 

9 

Alonso 

Afonso 

297 

32 

Resande 

Resende 

298 

39 

e  sas 

essas 

800 

25 

como 

com  o 

301 

22 

Afonso 

Alfonso 

301 

23 

Alfonso 

Afonso 

308 

21 

as  suas  obras 

as  obras  do  monarca 

310 

8 

Canciones 

Canciones 

310 

22 

deo 

dio 

Pagina.      Linha. 


ERRA  TAS 
Onde  se  lê: 


Lei  ase: 


310      40     Qu' es  de  ti  desconsolado 


Nesie  romance  ha  o  \  ■ 

Reniego  y<i  de  Mahoma 

y  tle.  su  safa  malvada 


312 

34 

Maio 

Abril 

313 

4 

dionaes 

dicionaés 

316 

38 

Stutgart 

Stuttgart 

318 

34 

Lecte 

Leite 

318 

37 

ido 

tido 

321 

19 

foi- 

foi 

321 

29 

dizere 

dizeres 

324 

10 

é 

e 

32() 

84 

Garrett  e  T. 

Braga.  Sobre- 

Sobretudo  Almeida- Garrett 

tudo  Almeida. 

e  T.  Braga 

331 

33 

Cog. 

Cogi 

331 

36 

morire 

morir  e 

331 

37 

GrundricH 

Grundriss 

333 

20 

Sanl 

San- 

334 

1 

ta- 

tal 

334 

8 

frida?  (3) 

frida? 

334 

24 

Barcelona 

Barcelona  (3) 

334 

32 

T.  A.  Coelho 

P.  A.  Coelho 

A'  discrição  dos  leitores  deixo  a  emenda  de  outros  erros  de 
fácil  correcção,  tanto  na  pontuação,  nos  acentos  (incluindo  hí- 
fen, til  e  traços  de  suspensão)  como  no  emprego  de  maiúscu- 
las e  tipo  cursivo,  e  na  numeração  de  páginas  e  parágrafos. 
0  bilinguismo  necessário  do  meu  estudo,  e  os  sistemas  opostos 
de  ortografar,  empregados  em  Portugal  e  Hespanha,  fizeram 
incorrer  os  tipógrafos  e  revisores  em  esses  e  outros  defeitos, 
apesar  do  escrúpulo  inteligentíssimo  com  que  me  auxiliou  na 
revisão  das  provas  meu  bom  amigo,  o  Excmo.  Senhor  Dr.  J. 
Leite  de  Vasconcellos. 

C.  M.  de  V. 


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